segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

As Bodas de Porcelana de Berlim

Semana de 09 a 15 de novembro de 2009


Esta semana se iniciou com as comemorações do aniversário de 20 anos da queda do muro que separava Berlim em duas cidades diferentes. Têm-se este fato como o marco do fim da Guerra Fria e o símbolo da “união entre os povos”. Autoridades de todo o mundo estiveram presentes em frente ao Portão de Brandemburgo para a festa de comemoração. Segundo Ângela Merkel, chanceler da Alemanha, aquele foi o dia da “vitória da liberdade” e marcou “o início de uma era de unidade”. Apesar de sua ausência, o presidente dos EUA, Barack Obama, enviou Hillary Clinton, sua secretária de defesa, como representante. Além desta, estiveram presentes o presidente francês, Nicolas Sarkozy, o presidente russo, Dimitri Medvedev, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown.
Esta celebração, de fato, enaltece um marco histórico para a humanidade. Porém, a seguinte questão salta aos olhos: por que a necessidade de exaltar tanto a derrota de um “sistema autoritário e, por si só, falido”?
No nosso “libertado” mundo ocidental, o ciclo econômico, que não afetava o “fracassado” bloco socialista, está a dar sinais de mudança de fase. Economias de todo o mundo mostram que a produção industrial vem se recuperando da pior crise que já afetou estas economias desde a Grande Depressão. Na Alemanha, a produção, em setembro, aumentou 2,7%, quando comparada a agosto. Na mesma comparação, a produção da indústria de transformação do país cresceu 3,2%, puxada pela indústria de bens de capital (5,9%) e de bens de consumo (2,3%), enquanto que as exportações cresceram 3,8%. Na França e na Rússia, por sua vez, o crescimento no terceiro trimestre foi de 0,3% e 13,9%, em relação ao segundo trimestre, respectivamente. Na zona do Euro e na União Européia, o crescimento de 0,3% e 0,2%, respectivamente, mostra que a produção industrial, mês a mês, se reanima.
No Brasil, a indústria paulista apresentou, em outubro, um saldo de 9.000 novos trabalhadores, elevando assim a taxa de emprego em 0,41%. No setor de veículos, os estoques baixos das montadoras ameaçam as férias coletivas de fim de ano. Na indústria de máquinas agrícolas, a produção, em outubro, teve alta de 15,1%, quando comparada com setembro. Enquanto isso, indústrias de base do setor sucroalcooleiro estão exportando usinas prontas para países da África e da América Latina. Os analistas já reformularam suas previsões de crescimento do PIB brasileiro, em 2009, de 0,18% para 0,20%.
Já a produtividade da indústria se elevou em 5%, do segundo para o terceiro trimestre deste ano.
Outros dados positivos podem ser vistos nas publicações dos balanços das empresas de capital aberto. A Vale embarcou 36% a mais de minério, no terceiro trimestre, em relação ao segundo. Sua receita líquida subiu 23,4% (para R$ 13,2 bilhões) e seu lucro líquido dobrou (R$ 3 bilhões). A Gerdau produziu 30% mais aço bruto, tendo sua receita líquida crescido para R$ 6,8 bilhões, um aumento de 6,3%.
Mas, em períodos que sucedem crises agudas, é necessária a comparação de dados com o ano anterior para avaliar com mais rigor o nível real em que se encontra a economia.
A produção industrial e as exportações alemãs de setembro foram 12,9% e 18,8% menor do que no mesmo mês de 2008. A previsão é que, no ano, o PIB do país decresça em torno de 5%. Na Rússia, o PIB do terceiro trimestre de 2009 foi 8,9% menor do que no mesmo período de 2008. Na União Européia, 12,1%, e na região do Euro, 12,9%. Nesta região, as atividades nas fábricas caíram, em setembro, quando comparado ao mesmo mês de 2008. A demanda mundial de máquinas da indústria da construção pesada teve uma queda de 60% nos EUA e Europa, enquanto que, no Brasil, este setor recuou 20%.
E tudo isto apesar da intervenção dos Estados na economia, que provocou um endividamento crescente. Na UE, por exemplo, existe o temor de que a dívida pública chegue a 100% do PIB até 2014. A Comissão Européia prevê um aumento para 84% da relação Dívida - PIB já em 2010 (em 2007 representava 60%). Michael Heise, principal responsável pelo relatório apresentado pela Comissão, afirmou ainda que “os pacotes de incentivos estabelecidos para o próximo ano são necessários e também apropriados”. Mas chegou a hora de começarmos a ficar atentos de novo. Ainda segundo a Comissão, “um derretimento financeiro e uma perda generalizada de confiança foram evitados. Mas o nível de incerteza permanece elevado e ainda há riscos de ocorrerem diferenças nas reações negativas entre o setor financeiro e a economia real”. O mesmo pensamento tem Medvedev, que considera o controle de cerca de 40% da economia nas mãos do Estado russo inviável no longo prazo. Para ele, a Rússia deveria se “livrar da dependência humilhante de matérias primas e dar mais atenção a setores como reatores nuclear e tecnologia espacial”.
Voltando ao Brasil, o nível de emprego, em outubro de 2009, caiu 7,61%, em relação ao mesmo mês de 2008. A produção do setor de máquinas agrícolas teve uma queda de 20,3% na mesma comparação, enquanto que as exportações se reduziram em 50,7%.
Na Vale, a queda na receita e no lucro líquido, no terceiro trimestre, em relação a 2008, foi de 36,2% e 60%, respectivamente. Na Gerdau, a receita líquida caiu quase à metade (de R$ 12,4 bilhões para R$ 6,8 bilhões). De uma forma geral, as empresas que apresentaram os balanços do 3º trimestre de 2009 possuíam uma receita líquida 15% menor e um lucro líquido 37,4% abaixo do verificado no terceiro trimestre de 2008 (isto significa um retrocesso para os níveis de 2006).
A busca de crédito por parte dos consumidores caiu 3,3% no acumulado do ano até outubro, comparado com mesmo período de 2008, o que sinaliza um esgotamento da antecipação do consumo, além de ser um reflexo da retirada dos estímulos do governo.
Diante do exposto, vemos que a defesa da estrutura econômica não é um privilégio dos Estados socialista. Como já referimos em analises passadas, a retomada atual está se baseando em intervenções dos estados capitalistas através de políticas anticíclicas. Isso já está causando debates entre os policy-makers do mundo todo. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial (Bird), afirma que a recuperação não será uniforme em todo o mundo e que os governos devem manter os incentivos atuais. Ângela Merkel, primeira ministra da Alemanha, pretende cortar impostos e estender o programa de emprego temporário, mesmo com a possibilidade de o déficit fiscal atingir US$ 135 bilhões.
A economia chinesa, vista como carro de resgate da economia mundial, é quem dá novos sinais de expansão. A produção industrial, em outubro, cresceu 16,1%, quando comparado com o mesmo mês de 2008. Nos últimos 12 meses, cresceram: a geração de energia (17,1%), a produção de aço (22%), a produção de petróleo (10,4%) e as vendas no varejo (16,2%). Estas altas refletiram principalmente o aquecimento do mercado interno, já que o comércio externo apresentou os seguintes dados: queda de 13,8% das exportações (em relação a outubro do ano passado) e de 6,4% das importações (na mesma comparação).
A China, mais que o ocidente, mantém o forte controle do Estado sobre a economia, e, além das medidas anticíclicas que adota, continua a sua política de excessiva desvalorização do yuan.
Este é o resultado da ação da lei das crises cíclicas de superprodução que não permite o crescimento do Produto Interno Bruto a taxas constantes. Esta, juntamente como outras leis que estão na essência do sistema capitalista, criam as desigualdades entre e intra países, provocam conflitos sociais e tendem a elevar o nível do desemprego.
Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a crise global pode ter causado uma redução de 39 milhões de empregos, apenas este ano. Desde 2007, o número chega a 220 milhões. Para o órgão, a demanda privada ainda não é forte o suficiente para dispensar as “medidas excepcionais” dos governos. A estimativa feita pela OIT é de que haja uma diferença de 4 a 6 anos entre a retomada do crescimento e a do emprego.
Diante desses fatos, não será que as comemorações das Bodas de Porcelana do muro procuram esconder o fracasso de uma solução capitalista para os problemas que o socialismo tentou enfrentar?


Texto escrito por:
Lucas Milanez de Lima Almeida: Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB, Mestrando em Economia pelo CME-UFPB e membro do Progeb.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A anatomia de um contra-projeto de país

Semana de 02 a 08 de novembro de 2009


Os dados referentes ao comércio exterior brasileiro, nos últimos meses, são sinais de alerta sobre a capacidade de resposta da indústria nacional às novas exigências do mercado mundial. Embora a balança comercial do país apresente superávits, verifica-se uma polarização, no seu interior: enquanto o saldo de produtos básicos é cada vez mais superavitário, o dos produtos manufaturados é deficitário.
Para se ter uma idéia, em apenas seis meses, o déficit na balança comercial da indústria de transformação já atingiu US$ 6 bilhões. Isto mostra um padrão indesejado de especialização das exportações brasileiras, isto é, o país concentra grande parte das suas exportações em produtos baseados em recursos naturais.
Entre as causas apontadas para tal especialização está a valorização relativa do Real frente ao Dólar. Com isto os produtos nacionais ficam mais caros do que os produtos estrangeiros, o que, por sua vez, encarece as exportações. O governo recentemente instituiu uma cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras, IOF, para títulos de renda fixa e ações negociadas na bolsa de valores, na tentativa de conter a entrada de dólares na economia e deter a depreciação desta moeda face ao real. Contudo, segundo dados do Banco Central, houve um leve aumento no ingresso de dólares ao país. No período que vai de 26 a 30 de outubro, a entrada de dólares na economia totalizou US$ 7,312 bilhões, enquanto que, de 19 a 23 de outubro, o fluxo foi de US$ 6,898 bilhões. Como se não fosse o bastante, surge mais um agravante: a desvalorização da moeda chinesa (yuan) face ao dólar.
Além de estipular um nível salarial muito baixo para seus trabalhadores, a China, graças aos mecanismos cambiais, consegue lançar seus produtos no mercado mundial com preços muito baixos, dificultando a situação dos concorrentes brasileiros. O cenário é tão alarmente que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, considera que existe uma “concorrência desleal”. Nas palavras de Roberto Giannetti da Fonseca, diretor titular de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, vê-se “diariamente na Fiesp empresários desesperados para tentar barrar a competição chinesa”.
A política de manutenção de elevadas taxas de juros, estimula a entrada de capitais e influencia diretamente a taxa de câmbio provocando a valorização do real que se torna um dos principais fatores de perda de competitividade da indústria nacional. No longo prazo, isto pode ter efeitos deletérios sobre a estrutura produtiva da economia, ou seja, as exportações brasileiras podem se concentrar em produtos de baixo valor agregado. Ao que parece, o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva vem consolidando um contra-projeto de país, que se originou no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. Naquele governo, principalmente no primeiro mandato, 1994/1998, a apreciação artificial do câmbio, em conjunto com a política de altas taxas de juros, prejudicou a indústria nacional, que passou a importar máquinas e equipamentos.
O setor de Bens de Capital tem o papel de difusor do progresso tecnológico, uma vez que participa de todas as cadeias produtivas da economia, através do fornecimento de máquinas e equipamentos variados. Por isso, este setor tem um forte efeito multiplicador sobre a dinâmica da economia. Mas, uma vez que a produção nacional, no atual governo, é inviabilizada pela continuação da mesma política econômica, esses estímulos são transferidos para o exterior e o Brasil tenderá a sair mais lentamente das crises.
Com relação à fase do ciclo atual, os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, indicam que a indústria reduziu o ritmo de queda. O setor de Bens de Capital interrompeu três trimestres consecutivos de taxas negativas crescendo 6,1% em setembro. Entretanto, quando comparado com o mesmo mês do ano passado, o setor registrou uma taxa negativa de 20,5%. Os sub-setores que mais colaboraram para essa queda foram os de transportes (- 18,9%), de máquinas para a indústria (- 32,4%) e para o setor de energia elétrica (- 39,0%).




Produção Industrial - Brasil (*)
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Indicadores da produção industrial por categorias de uso
Brasil - Outubro de 2009 (*)
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Produção industrial
Índices mensal x Acumulado nos últimos 12 meses (*) (**) (***)
(*) Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem
(**) Base: igual mês do ano anterior = 100
(***) Base: Últimos dozes meses anteriores = 100
No front externo, os dados sugerem cautela quanto à recuperação da economia mundial. O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos divulgou a nova taxa de desemprego, que subiu de 9,85%, em setembro, para 10,2% em outubro. Essa é a maior taxa desde 1983. Os dados revelam que o ritmo de eliminação de postos de trabalho diminuiu. No mês de outubro foram fechados 190 mil postos de trabalho. Já no mês de setembro, tinham sido eliminados 219 mil. Empresas como a Microsoft, General Motors, Johnson & Johnson, Nokia-Siemens, além dos bancos HSBC e RBS, informaram que ainda pretendem cortar empregos.
Na União Européia, projeta-se uma retração de 4,1% para o PIB, e o ministro britânico das finanças, Alistair Darling, declarou que as autoridades do G-20 “concordam que é cedo demais para encerrar os pacotes de estímulos econômicos, já que a recuperação global ainda é frágil”. 
Os dados, portanto, parecem confirmar a nossa previsão de que a reanimação da economia será lenta e com uma característica peculiar ao ciclo atual: a manutenção de altas taxas de desemprego.

Texto escrito por:
Kaio Glauber Vital da Costa: Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Os caminhos tortuosos da economia planetária

Semana de 26 de outubro a 01 de novembro de 2009


No cenário internacional, alguns fatos significativos merecem a nossa atenção. A China espera a retomada do comércio internacional enquanto crescem os seus investimentos externos que atingiram o montante de US$ 20,5 bilhões . Suas exportações, como esperado, voltaram, a crescer e empresas em algumas regiões, já enfrentam dificuldades para recrutar trabalhadores, como afirmou ontem o Ministro Zhang Yutai, encarregado do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento ligado à Presidência do país. Pequim estima que as exportações ainda terão uma queda de 16 a 20% este ano, mas crescerão de 8 a 10% no ano que vem. O PIB dos EUA voltou a crescer 3,5%, entre julho e setembro, mas há dúvidas se a retomada é sustentável. A economia americana cresceu, fortemente , impulsionada pelo pacote de estímulo do governo, o que está contribuindo para encerrar a pior recessão no país desde os anos 30. No segundo trimestre, a estimativa de crescimento do Reino Unido é de 0,4%, em relação ao trimestre anterior. No mesmo período de comparação, a Alemanha e a França apresentam uma taxa modesta de crescimento de 0,3%. 


 Taxa trimestral de crescimento do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos - 1º trimestre de 2007/3º trimestre de 2009(*)
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 Taxa trimestral de crescimento do Produto Interno Bruto de países selecionados - 4º trimestre de 2006/3º trimestre de 2009(*)
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 A valorização do euro, no entanto, continua a ameaçar o aumento das exportações europeias. Apesar de tudo, nos países da zona euro, a confiança sobe. Já o Brasil apelou para o G-20 adotar medidas conjuntas visando evitar a entrada de capitais especulativos no país que agravem a apreciação da taxa de câmbio. O Ministro Guido Mantega, repetindo uma frase de Mario Henrique Simonsen, afirmou que “o câmbio mata a economia” e que o excelente desempenho que vem sendo demonstrado pela China, nos últimos 20 anos, em grande parte, deve-se ao trabalho com base numa moeda desvalorizada. Mantega, nesse contexto, defende a recente tributação de 2% de IOF sobre a entrada de capitais estrangeiros de curto prazo. A par dessa medida, o governo estuda a possibilidade de dar mais crédito aos exportadores e adotar medidas que reduzam os custos dos investimentos produtivos das empresas destinadas a esta atividade. Um estudo inédito, elaborado pela consultoria Booz &Company, com o título The Global Innovation 1000, revelou que as mil companhias que mais investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no planeta continuam a apostar no desenvolvimento de novos produtos. As oito primeiras empresas do ranking, permanecem as mesmas, alterando-se somente a ordem. A Toyota e a Nokia ocupam o primeiro e o segundo lugar. Pelo menos três empresas brasileiras estão colocadas nesse ranking internacional, a Embraer, a Petrobras e a Vale, que, se consideradas em conjunto, gastaram US$ 2,2 bilhões, 18,7% do total.
Diante das intervenções dos estados na economia, principalmente as injeções monetárias, prevê-se que ocorra uma onda de estatizações por todo o mundo. As fusões e aquisições também continuam o seu movimento e nesta semana destaca-se o movimento no setor de cimentos no sentido de uma larga fusão degrandes empresas.

Voltando à economia brasileira, nesta, o destaque principal foi para o papel da valorização do real face ao dólar, que vem provocando efeitos variados e contraditórios sobre a economia. O primeiro que chama a atenção é o efeito sobre a dívida pública. Enquanto no ano passado a relação dívida pública líquida/Produto Interno Bruto (PIB) equivalia a 38,8%, oito meses mais tarde bateu em 44%. Desse aumento de 5,2 pontos percentuais, menos da metade é explicado pelo aumento de gastos e a maior parte é referente à variação cambial, que correspondeu a 45% do aumento da dívida. No entanto, o efeito mais nefasto da dita desvalorização do dólar parece ser aquele que vem pela via do comércio externo e atinge o âmago dos produtores nacionais. As exportações tornam-se mais caras e retraem os potenciais importadores. Por outro lado, os preços dos produtos chineses tornam-se mais competitivos, diante da desvalorização do ien frente ao dólar. Com este mecanismo cambial, os produtos chineses também levam vantagem no mercado interno brasileiro.
O volume das importações do país cresceu generalizadamente no mês de setembro, principalmente por conta da valorização do câmbio. A quantidade total importada cresceu em15% em relação ao mês de agosto. Os preços subiram 0,25% no mesmo período. A alta mais significativa foi na compra de bens de capital, que cresceu 19,6% e, a seguir, os bens intermediários, com 13%.
Para tentar conter o movimento de capitais estrangeiros, o governo criou um imposto e tem atuado no mercado de dolares através do Banco Central, comprando divisas e aumentando as reservas internacionais. Essas reservas aumentam a “blindagem” externa do país, mas deterioram o quadro fiscal. A desvalorização do dólar, além dos efeitos perversos já referidos, diminui o valor do ativo brasileiro. Até agosto de 2009, o real já se tinha valorizado 23,89% frente ao dólar, que fechou aquele mês com a cotação de U$ 1 dolar valendo R$ 1,88. Desde então, a moeda brasileira foi apreciada em mais 7,44% e acumulou valorização de 33,95% no ano. Segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), o endividamento público bruto brasileiro, já estimado em 58,6% do PIB, fechará o ano atingindo os 70%. Atualmente essa relação é de 66%. A India é, entre os emergentes, o único país que tem uma relação maior do que a brasileira, com a sua dívida chegando a 85% do PIB.
São esses os dados para o tortuoso caminho pelo qual prossegue a economia planetária.

Texto escrito por:
Elivan Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. 
Email: progeb@ccsa.ufpb.br 

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A flutuação suja do câmbio e a livre atuação do Estado na Economia

Semana de 19 a 25 de outubro de 2009


A taxa de câmbio representa o valor da moeda de um país em termos da moeda de outro país. Esta taxa varia de acordo com as condições econômicas internacionais, saída e entrada de moeda estrangeira na economia e medidas de política econômica. Nos últimos anos, o regime cambial predominantemente adotado na maioria dos países tem sido a flutuação suja, que consiste na flutuação da taxa de câmbio, mas sempre dentro de certos limites, normalmente estabelecidos pela autoridade monetária de cada país (Banco Central), que, quando necessário, intervém no mercado, geralmente comprando ou vendendo moeda estrangeira (leia-se dólares), para assegurar que não haja desvalorização nem sobrevalorização “excessiva” da moeda nacional. Atualmente, porém, a flutuação do câmbio tem sido cada vez menos livre e cada vez mais suja, isto é, determinada pela intervenção dos bancos centrais nos mercados de câmbio, não refletindo, frequentemente, as reais condições econômicas de um país.
A esse respeito, muito se tem falado da moeda chinesa, o yuan. Uma das principais críticas é a manutenção, por parte da autoridade monetária chinesa, de uma taxa de câmbio artificialmente desvalorizada em relação ao dólar, o que, juntamente com o aumento da produtividade da indústria do país e com os baixos salários, tem elevado significativamente o grau de competitividade dos produtos chineses no mercado internacional. Como consequência, os produtos dos demais países emergentes, como o Brasil, estão perdendo espaço no comércio internacional. Ao contrário do que vem ocorrendo na China, a intervenção do banco central brasileiro no mercado de câmbio não tem sido suficiente para manter o real desvalorizado, o que está prejudicando o setor exportador, já que a apreciação do real frente ao dólar torna os produtos brasileiros mais caros no mercado externo.
Este movimento de valorização do real se deve, em grande medida, ao enorme volume de capitais que tem entrado no país para compra de ações e outros ativos financeiros. De acordo com o banco central brasileiro, o investimento estrangeiro em ações de empresas brasileiras atingiu, em outubro, o seu nível mais elevado em 60 anos, chegando a um total de mais de US$ 13 bilhões. Se considerados ainda os investimentos externos em ativos de renda fixa, como os títulos públicos, esta cifra chega a quase US$ 40 bilhões. O fato curioso é que cerca de um terço deste dinheiro sequer chegou a entrar no país, já que se refere à compra de papéis de empresas brasileiras negociados na bolsa de Nova York. Ou seja, apenas os outros dois terços atuaram no sentido de pressionar o dólar.
Para tentar controlar o crescimento no fluxo de dólares, para esse tipo de “investimento”, o governo brasileiro passou a taxar, desde o dia 20 deste mês, as operações com ações e títulos. A partir de agora, elas irão pagar 2% de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). Segundo o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, caso essa medida não tivesse sido tomada, o dólar já estaria abaixo de R$ 1,50. Nas três primeiras semanas de outubro, as transações comerciais e financeiras internacionais já trouxeram para o país US$ 13,7 bilhões. Desse total, o banco central comprou quase a metade na tentativa de evitar uma queda ainda maior do dólar.
O câmbio valorizado também está afetando o investimento no setor produtivo. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), este ano, a formação bruta de capital fixo, que mede os investimentos realizados em máquinas, equipamentos e na construção civil, cairá de 15% a 17%, em relação a 2008. Com o real apreciado, aumentam as importações de bens de capital, diminuindo a demanda e a produção internas desse tipo de produto. Assim, os produtores brasileiros continuarão protestando e implorando pela desvalorização do real, sob pena de perderem mais competitividade e ficarem em condições desvantajosas em relação aos produtores chineses e dos demais países. Desse mesmo modo, os produtores de cada país continuarão solicitando aos seus governos medidas no mesmo sentido, o que nos leva a concluir que, em se tratando de comércio internacional, a intervenção do Estado continuará ocorrendo ativamente.
No estágio atual do desenvolvimento do capitalismo mundial, essa intervenção, porém, não se restringe apenas ao comércio internacional, estando direcionada a diversas esferas da economia. Mais uma vez, a China é um exemplo notório disto. O programa de estímulo à produção executado pelo governo chinês aplicou quatro trilhões de yuans, o equivalente a US$ 586 bilhões, em ferrovias, rodovias, usinas de energia elétrica e habitação pública. A preocupação de alguns analistas agora é como manter o ritmo de crescimento da economia chinesa com o fim do programa, que termina no próximo ano. Mas esta intervenção do Estado na economia não se restringe apenas a países em desenvolvimento. Países economicamente avançados, como Estados Unidos e Inglaterra, também estão realizando grandes intervenções em suas economias, principalmente depois da destruição financeira e das falências de empresas provocadas pela crise.
No Brasil, os economistas do mercado financeiro esperam uma elevação na taxa básica de juros, a Selic, em 2010, de acordo com pesquisa realizada pelo banco central. Atualmente, em 8,75% ao ano, a aposta dos analistas é que suba para 10,5% até o final do próximo ano. Dentre os fatores que contribuíram para essa expectativa de elevação da Selic, estão os incentivos fiscais e a elevação dos gastos com a proximidade das eleições presidenciais. A preocupação com a inflação continua sendo bem maior que a preocupação com o desemprego. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego caiu para 7,7% em setembro, mas, em contrapartida, houve uma piora na criação de empregos formais. Conforme os dados do instituto, os empregos com carteira assinada atingiram 54,9% da população ocupada, o menor nível do ano. Em setembro, os empregos com carteira assinada tiveram uma redução de 29 mil postos, o que significa uma piora na qualidade dos empregos criados no país.
A busca incessante do governo para conseguir manter a inflação sob controle é algo que já se tornou marcante na política econômica brasileira, tendo sido o seu principal objetivo nos últimos anos. Entretanto, a redução do desemprego não tem se mostrado, nem de longe, uma meta que a política econômica persistentemente busque alcançar. A intervenção nesse sentido parece não ser tão importante dentro do jogo de interesses políticos, ainda mais num país em que o assistencialismo social constitui uma arma importante para a obtenção de votos e para a promoção de candidatos em campanhas eleitorais.




Texto escrito por:
Diego Mendes Lyra: Mestrando em economia, Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto globalização e crise na economia brasileira 
Email: progeb@ccsa.ufpb.br 

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um copo meio cheio ou meio vazio?

Semana de 12 a 18 de outubro de 2009

Dados econômicos divulgados na primeira quinzena deste mês mostraram uma realidade complexa acerca da recuperação e do crescimento da economia brasileira. Tais informações criam uma situação similar à da visão de um copo cheio até a metade, que uns podem considerar meio cheio e outros, meio vazio.
A produção industrial continua a se recuperar, mas ainda se encontra em um nível 10% abaixo do que se encontrava em agosto de 2008. Alguns setores conseguem avançar mais rápido do que outros: é o caso dos setores de material de construção, papel e celulose, além das indústrias automobilísticas e de eletrodomésticos. A recuperação destes segmentos foi fortemente apoiada pelos incentivos do governo, como o programa “Minha Casa, Minha Vida”, a ampliação do crédito imobiliário de bancos públicos e a isenção de IPI para carros e eletrodomésticos (linha branca).
Outros setores, como o da metalurgia e de bens de capital, que sofreram as maiores quedas no uso da capacidade instalada, 19,2% e 29,3%, respectivamente, caminham a passos mais lentos. E há ainda aqueles mais preocupantes, como os setores de calçados e vestuário, setores tradicionalmente exportadores que, além da restrição de crédito externo e interno, sofrem com a competitividade dos produtos importados, especialmente chineses, devido à valorização do real nos últimos meses.
Mesmo que o setor produtivo celebre o termino da fase “fundo do poço”, e que tenha conseguido criar 123.318 postos de trabalho em setembro, foi o setor de serviços quem mais contratou trabalhadores nos primeiros oito meses do ano, seguido pela construção civil, agricultura e comércio. Enquanto o setor de serviços gerou 411.426 postos de trabalho, o industrial criou 62.759, conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Sabemos que estes dados falseiam a realidade, pois, por imprecisão e pouco rigor científico das Contas Nacionais, o chamado setor de serviços esconde  muitas atividades industriais que, por falta de critérios científicos aí são classificadas.
O IBGE informa que a folha de pagamento na indústria, no acumulado dos oito primeiro meses do ano, caiu de 2,2% em comparação ao mesmo período de 2008.
Como comentamos em análises passadas, o que está surpreendendo o governo é a queda da arrecadação da Receita Federal. Para os especialistas, está ocorrendo o chamado “financiamento tributário”, ou seja, as empresas que ainda estão com insuficiência de caixa preferem atrasar o pagamento de impostos a pedir empréstimos para tapar os buracos nos seus balanços.
Analistas do governo avaliam que o Ministério da Fazenda esperava que o crescimento na economia tivesse reflexo positivo sobre a receita tributária já neste terceiro trimestre, o que, de fato, não ocorreu. Com isso, a equipe econômica tende a não conceder novas reduções de impostos ou prorrogar as existentes. Algumas empresas do setor de eletrodoméstico, por exemplo, já reivindicam a extensão do prazo de redução do IPI até o final do ano. Além disso, o governo reduziu, de R$ 522 milhões, para R$ 466 milhões, o seu orçamento anual.
O Banco Central (Bacen) prevê aceleração do déficit em conta corrente entre 2009 e 2010. A maior parte deste déficit decorre exatamente do resultado da balança comercial, com importações crescendo mais do que as exportações, como também da entrada de capital especulativo, o chamado “hot money”, voltado para os mercados de ações e de títulos da dívida.
Além disso, o Bacen, em apenas sete dias deste mês, realizou uma série de compras de dólares no mercado doméstico interbancário. Estas compras giraram em torno de US$ 5,3 bilhões. Embora não seja revelado, o objetivo principal de tal ação foi impedir uma valorização maior do real diante o dólar, com o conseqüente aumento do montante das famosas reservas nacionais. O que não se costuma revelar é o custo dessas transações para a dívida pública brasileira. O Banco Central, ao comprar grande quantidade de dólares, lança, no mercado, uma quantidade correspondente de reais. Para fugir à pressão que estas emissões possam causar sobre as taxas de inflação, ele é obrigado a “enxugar” este excesso, o que tem feito através do lançamento de títulos da dívida pública, em geral, atrelados à taxa Selic. O resultado é o aumento da dívida e do volume dos juros que já não se consegue pagar, abalando a credibilidade do governo.
Na economia dos Estados Unidos, por sua vez, o Federal Reserve, Banco Central do país, informou que o programa de compras de títulos atrelados a hipotecas e de títulos públicos de longo prazo, que seria encerrado em 31 de dezembro próximo, será estendido até março de 2010. Receosos quanto à fragilidadeda economia norte-americana, a equipe do Fed sinaliza que poderá expandir as compras de ativos, caso asperspectivas não melhorem. O Fed também resolveu manter a taxa básica de juros próxima a zero.
Além disso, ao longo dos últimos tempos, o dólar vem se desvalorizando em relação ao euro e às outras moedas, como o iene e o real. Tal tendência tem causado sérias dificuldades para a recuperação do comércio internacional. O que tem ocorrido é a redução ou o adiamento de pedidos dos varejistas das nações ricas aos países tradicionalmente exportadores, como Japão, Coréia do Sul e China. Conforme o Fundo Monetário Comercial, o volume de comércio mundial vai cair 11% este ano, e crescerá apenas 2,5% no ano que vem.
Na União Européia, a situação também causa preocupações. O Banco Central europeu (BCE) decidiu manter a taxa de juros em 1%, a mais baixa em sua história. Em pronunciamento, Jean-Claude Trichet anunciou que a zona do euro continua a se recuperar economicamente e que a fase de queda livre acabou. Contudo, ponderou sobre uma rápida recuperação ao afirmar: “Em geral, a recuperação deverá se manter bastante irregular”.
Como estamos vendo, tudo aponta para um processo de recuperação lento e cheio de tropeços.

Texto escrito por:
Maria Carolina Costa Madeira: Jornalista, mestre em Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. 
Email: progeb@ccsa.ufpb.br 

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A taxa de juros nos ameaça novamente

Semana de 05 a 11 de outubro de 2009

A previsão que fizemos acerca da recuperação da economia vai cada vez mais sendo confirmada. Podemos afirmar que a fase de crise do ciclo econômico já foi ultrapassada e estamos em plena fase de depressão. Como se sabe, o ciclo econômico é composto por quatro fases: crise, depressão, reanimação e auge. Com certeza, dentro de algum tempo, passaremos para a fase de reanimação, mas, segundo nossa opinião, ela ainda não começou. Talvez já tenhamos ultrapassado o fundo do poço, mas isso não significa que tenhamos entrado na fase seguinte. Os dados que surgem confirmam estas previsões.
O mercado já alterou suas estimativas para o crescimento do PIB, no ano, sugerindo o número muito preciso de 0,001%. Há informações sobre alguma recuperação da produção do setor de máquinas e equipamentos, mas os analistas atribuem isto a necessidade de reposição de equipamentos. Segundo Thaís Marzola Zara, economista sócia da Rosemberg & Associados, o fato se deve à “reposição de peças”. “A retomada de investimentos deve ocorrer mesmo em 2010.” Para Mário Bernardini, diretor de economia da Abimaq entidade que representa a indústria de máquinas, o movimento “está longe do que pode ser considerado uma retomada”. A indústria de bens de consumo duráveis também dá alguns sinais positivos, apoiada pela redução do IPI que o governo já pensa em prorrogar. 


Classes e gêneros de indústrias selecionados - Set. 09
Variação acumulada no ano(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.



 Indicadores conjunturais do setor de bens de capital - Set. 09(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.
 Fonte: IBGE - Pesquisa Industrial Mensal, disponível em  http://www.iedi.org.br



Com efeito, a recuperação é observada nos estados ligados à produção de automóveis e eletrodomésticos. No setor exportador, a Vale tem se mostrado otimista com o volume de suas vendas. No mês de setembro, em comparação com agosto, as exportações de aços planos aumentaram 69,5%, e as de fio-máquina, 36,6%. As exportações de celulares cresceram 32% e, no total, o volume de produtos manufaturados teve um aumento de 10,3% em setembro, em relação a agosto, embora ainda esteja 30,5% abaixo dos valores de setembro do ano passado. 
No resto do mundo, a situação segue no mesmo ritmo. Os indicadores publicados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE) mostram que a retomada do setor produtivo é lenta e difícil. Na zona do euro, apenas a Itália e a França vêm apresentando uma recuperação mais forte. Nos EUA, a situação ainda é preocupante. Não há sinais de recuperação do volume de crédito para os consumidores. Em julho, por exemplo, a queda do crédito atingiu uma taxa anualizada de 10,4%, a maior desde o começo da crise. A Delphi, a maior fabricante de autopeças americana, conseguiu sair da concordata em que se encontrava, mas teve de encerrar 21 das 29 fábricas que possuía, cortar 50% da mão de obra empregada e 40% dos trabalhadores administrativos. O desemprego subiu para 9,8%, a maior taxa desde 1983. Além disso, os pacotes de ajuda às empresas falidas estão contribuindo para atingir o recorde do déficit público federal, que é de US$ 1,6 trilhão. Em relação aos outros países capitalistas desenvolvidos, o desemprego é também o problema para o qual não se encontra solução, e o máximo que se tem conseguido é uma certa estabilização.



Brasil e países selecionados: variação da produção industrial
Variação no mês em relação ao mês anterior - com ajuste sazonal - %(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.
  Fonte: IBGE e Órgãos Nacionais de Estatísticas, disponível em http://www.iedi.org.br


Brasil e países selecionados: produção da indústria de transformação
Variação em relação ao mesmo período do ano anterior(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.

Fonte: IBGE-PIM (Brasil) e OCDE - Main Economic Indicator, disponível em http://www.iedi.org.br


Ao que parece, todo o berreiro dos dirigentes mundiais nas diversas reuniões para encontrar uma saída para a situação não se está transformando em medidas práticas minimamente credíveis, o que tem provocado protestos e desabafos. Em Istambul, por ocasião da reunião do FMI e do Banco Mundial, o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz propôs a criação de um imposto sobre transações financeiras para cobrir os danos causados aos países pobres, “vítimas inocentes”, culpando o setor financeiro pela catástrofe. Segundo ele, “o setor financeiro contaminou a economia global com ativos podres e agora precisa limpa-la”. Ele lembrou que, no começo do ano, em uma hora, Washington aprovou uma ajuda, aos banqueiros, de US$ 700 bilhões, o equivalente a toda ajuda externa global, de uma década, aos países atrasados, o que invalida o argumento de que não há dinheiro para o desenvolvimento.
Diante da situação de indefinição geral, causou impacto a notícia de que o banco central da Austrália subiu suas taxas de juros para 3,25%, com um aumento de 0,25%. A repercussão foi imediata nas bolsas de valores e mercadorias, provocando o nervosismo do sobe e desce.
No Brasil, a notícia também teve repercussões. Enquanto o presidente do Banco Central, HenriqueMeirelles, prepara aceleradamente a sua sucessão, na iminência de sua candidatura nas próximas eleições,procura garantir as bases que permitam a continuação da política de taxas de juros altas, por ele defendida.Diferentemente do que se poderia pensar, a escolha não é feita pelo presidente da República, mas por ele.Os jornais já especulam com o nome do diretor de normas, Alexandre Tombini, como o possível sucessor.Em relação a política monetária do banco, temos que a análise do último boletim do BC deixa insinuações de elevação da Selic para o próximo ano, além de fazer críticas às medidas tomadas pelo governo de aumento dos gastos públicos. O nervosismo do Meirelles provocou a desconfiança do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Aterrorizado com a possibilidade de elevação da Selic, apressou-se a afirmar que a economia não está aquecida e o crescimento no próximo ano não ultrapassará os 5%. Também presente na reunião do FMI de Istambul, continuou a contar bravatas sobre o empréstimo de US$ 10 bilhões que o Brasil fará a essa instituição, empréstimo que renderá juros de 0,25% ao ano. O negócio feito pelo BC é um pouco mais “inteligente”, pois, na atual situação, os dólares das reservas ou nada rendem, ou têm rendimentos próximos de zero, que são os juros pagos pelos títulos do tesouro dos EUA, onde eles estão aplicados. Não disse, porém, uma única palavra sobre a dívida pública interna, que já bateu todos os recordes.
Para tornar mais complicada a situação do país, a semana assistiu ao disparo do real, frente às principais moedas. No ano, a moeda nacional já se valorizou 34,42% em relação ao dólar, 29,10%, em relação ao euro, 49,35% em relação ao peso argentino e 33,73% em relação ao iene. Embora isto represente um sinal positivo para a economia, traz péssimas conseqüências para o setor exportador de produtos industrializados, que já se encontra em grandes dificuldades. Com certeza, teremos grandes novidades nos próximos meses de um ano pré-eleitoral.


Texto escrito por:
Nelson Rosas Ribeiro: Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do Progeb-Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira 
Email: progeb@ccsa.ufpb.br 

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

As seqüelas da crise entravam a recuperação

Semana de 28 de setembro a 04 de outubro de 2009

Na Grande Depressão de 1929, configurada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a economia norte-americana, após uma curta recuperação, sofreu uma nova crise em 1937 e foi atingida pelas conseqüências da guerra em 1939, o que provocou oscilações bruscas do PIB do país por mais de uma década. Na crise atual, excluída a guerra, a história poderá repetir-se. Depois da quebra do Lemhan Brothers e do escandaloso socorro governamental para que outros grandes bancos não quebrassem, a economia mundial passou por mais momentos de pânico. Os PIB´s da maior parte das economias capitalistas, principalmente das desenvolvidas, registraram retrações acentuadas durante vários trimestres consecutivos.
Contudo, nos últimos dois trimestres, houve uma trégua, de modo que algumas economias pararam de sofrer “queda livre”, e outras vêm registrando resultados positivos em suas taxas de crescimento, embora este sejam modestos. Observa-se, ainda, aumento nas exportações de alguns países.
A falta de perspectiva histórica e do devido conhecimento acerca do fenômeno crise no capitalismo têm levado a grande maioria dos analistas de mercado e os governos a acreditarem que a recuperação já começou e que, daqui para frente, é só melhora. Mas, não querendo decepcionar ninguém, nem tão pouco afirmar que o fim está por vir, acho importante esclarecer aos que fazem parte do grupo que vê a crise como coisa do passado que esta é uma conclusão precipitada. Pelo contrário, a crise é coisa do presente e continuará a fazer parte da história do capitalismo neste inicio de século.
Quem conhece o fenômeno em sua essência, sabe que são necessárias determinadas evidências empíricas muito claras para comprovar uma mudança no movimento cíclico. Com efeito, há indicadores que demonstram a fragilidade de uma possível recuperação.
Alguns dados são suficientes para comprovar esta afirmação. Um relatório sobre a saúde financeira global divulgado pelo FMI mostrou que o sistema bancário mundial ainda não percorreu metade do caminho para levantar o capital necessário para cobrir as perdas relacionadas à crise global. Estima-se que, até o final de 2010, os bancos terão de obter mais de US$ 1,5 trilhão para limpar seus balanços dos déficits resultantes dos calotes nos empréstimos concedidos e para efetuar as baixas contábeis provocadas pela perda quase total no valor de parte dos seus ativos, os tais “ativos podres”. O montante a ser levantado é maior que o PIB da maioria dos países capitalistas existentes.
De acordo com o FMI, os bancos já cobriram perdas relacionadas à crise equivalentes a US$ 1,3 trilhão. Esta cifra foi estimada considerando-se a valorização das ações dos bancos, os lucros auferidos e os capitais que levantaram no mercado com a ajuda de dinheiro público. O problema é que agora os governos já estão suspendendo os pacotes de ajuda, pressionados pelo aumento acelerado de seus déficits e devido à crença de que o processo de recuperação das economias já começou.
Mas, segundo José Vinals, do FMI, “os bancos ainda precisarão do suporte dos governos, tanto para cobrir rombos, como para oferecer mais crédito a consumidores e empresas, na medida em que a atividade econômica ganhar mais força”. Ele completa: “os governos ainda terão de continuar sustentando o sistema e o processo de desendividamento dos bancos, para que eles tenham fôlego para oferecer crédito ao mercado”.
Neste caso, pelo menos dois problemas podem ser identificados: o primeiro diz respeito à capacidade dos governos de assegurarem, ao mercado, toda a liquidez que ele necessita para evitar uma crise de insolvência generalizada. O segundo vai além da ação dos governos, constituindo-se em um comportamento espontâneo dos agentes em um momento como este. Tal comportamento é denominado de “desalavancagem” e representa o período no qual tais agentes (empresas e famílias) precisam conter seus gastos a fim de alinhar seus ativos com seus passivos. Com exceção do governo, é esta a postura assumida pela maior parte das empresas, bancos e famílias norte-americanas. Sendo assim, enquanto esta atitude predominar, existirão, ainda, grandes entraves à recuperação, mesmo que o Estado seja capaz de continuar gastando demasiadamente.
Os relatórios do FED, por sua vez, demonstram que o processo de desalavancagem está apenascomeçando. Isto é evidenciado, de um lado, pelas quedas acentuadas nos níveis de captação dos bancos e  empresas e pelos gastos das famílias. De outro, pelo imenso tamanho de suas dívidas. Ao contrário do queparece, ou do querem demonstrar, há grandes dúvidas sobre o fim da atual crise, que ainda pode estar longe!
A taxa de desemprego dos Estados Unidos continua a aumentar. No mês de setembro foram fechados 263 mil postos de trabalhos, o que elevou a taxa de desemprego da população economicamente ativa, de 9,7%, para 9,8%. Segundo o Departamento de Trabalho, esta foi a taxa mais alta desde junho de 1983, com o número de empregos caindo pelo vigésimo primeiro mês consecutivo.





Taxa mensal de desemprego para os Estados Unidos - Jan.99/Sep.09(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.


Para se ter uma idéia do tamanho do prejuízo, desde o início da crise, o número de pessoas desempregadas praticamente dobrou, passando, de 7,6 milhões, para 15,1 milhões.
Na Zona do Euro, a situação do emprego também é complicada, tendo a taxa de desemprego, que era de 9,5% em julho, subido para 9,6% em agosto, o maior patamar dos últimos 10 anos. As empresas continuam a eliminar postos de trabalho, apesar das duas maiores economias do bloco (França e Alemanha) terem registrado resultados positivos no PIB no segundo trimestre do ano. A previsão do FMI é que o desemprego no bloco atinja uma taxa de 11,7%.



Taxa de desemprego para a União Europeia - Set.09(*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.

A crise atual fez com que as taxas de desemprego das economias desenvolvidas suplantassem aquelas registradas nas economias subdesenvolvidas. Atualmente, enquanto a taxa de desemprego no Brasil, historicamente elevada, está em 8%, nos Estados Unidos e na Zona do Euro, ela aproxima-se de uma taxa de dois dígitos.
O G-20, criado com a missão de impor rédeas ao mercado financeiro mundial e meios de coordenação de política econômica num mundo globalizado, continua com muitas dificuldades em criar as normas necessárias para tanto. Até agora, o G-20 sabe o que quer fazer, mas o grande problema é como operar.
Em sua última reunião, concluiu-se que é necessário aumentar o tamanho das reservas em capital por parte dos bancos e controlar o pagamento de bônus aos executivos das finanças. No entanto, tudo se complica no momento de definir como fazer isto.
Durante o encontro do G-20 em Pittsburgh, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, demonstrou muita revolta contra os banqueiros. Sarkozy acusou-os de terem contado “duas grandes mentiras” aos governos. Segundo ele, os banqueiros mentiram quando argumentaram contra a necessidade de regulamentação, para ajudar na integração econômica global, e quando insistiram que sempre administraram os recursos de modo mais prudente que os governos. Ele disse ainda que estava farto de ouvir mentiras dos banqueiros e conclamou os outros líderes a não deixarem passar a ocasião para endurecer a regulamentação do sistema bancário e o controle dos bônus de executivos financeiros. Apesar da revolta do presidente francês, até o momento, o G-20 não conseguiu estabelecer marco regulatório nenhum.
O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, tem demonstrado preocupação neste sentido. Segundo ele, o risco, neste momento, não é mais de um “colapso na economia mundial”, mas o da “autocomplacência”. Afirmou que “se a crise melhorar, haverá uma tendência natural de as coisas voltarem a ser feitas como antes e será mais difícil convencer os países a cooperarem na solução de muitos dos problemas que provocaram esse colapso”.
Zoellick afirmou ainda que esses problemas puseram em perigo as vidas de milhões de pessoas, destacando a importância de aproveitar o momento para promover todas as reformas necessárias. Na visão dele, um dos legados desta crise foi o de demonstrar a importância de uma mudança na estrutura econômica global do poder.
Finalmente, concluiu que a importância de várias economias emergentes na atual recuperação aponta para a necessidade da construção de uma economia multipolar, menos dependente do consumidor americano.


Texto escrito por:
Águida Cristina Santos Almeida: Professora do Departamento de Economia e Finanças da Universidade Federal de Campina Grande - UFCG e integrante do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. 
Email: progeb@ccsa.ufpb.br

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Seminário Permanente

Olá Caros Leitores,

além do Grupo de Análise de Conjuntura – GAC e do Grupo de Produção Informática – GPI, o Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira - PROGEB - é formado pelo Seminário Permanente – SP, o qual promove apresentações sobre os temas que são estudados pelos pesquisadores do PROGEB.

E é com satisfação que convidamos a todos para a apresentação do seminário:

“A crise e os países da América Latina"

Atenciosamente,

Seminário Permanente – SP, Grupo de Produção Informática – GPI partes integrantes do e Observatório Econômico, Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira - PROGEB.



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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A retomada econômica terá sustentabilidade?

Semana de 21 a 27 de setembro 2009

A economia americana apresenta alguns indicadores que reforçam a ideia de que há sinais de recuperação naquele país. Segundo dados divulgados no dia 21 do presente mês, o índice do Conference Board, que prevê a situação econômica para os próximos três a seis meses, subiu 0,65 em agosto, depois da alta de 0,9% em julho. Aliados a isso estão, o crescimento da confiança do consumidor, da construção de imóveis residenciais e as altas dos preços das ações na bolsa, que, juntos, fortalecem a avaliação do Presidente do Fed (Banco Central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, de que a recessão terminou. O Fed dobrou o seu balanço para cerca de US$ 2 trilhões, através de injeção de dinheiro no mercado financeiro e, nesse momento, reduz as compras de dívidas e mantém estável a taxa de juro. Enquanto isso, a Rússia vem tentando reduzir seu déficit orçamentário, conter a inflação e privatizar alguns dos setores importantes da sua economia. As privatizações incidem sobre atividades tais como portos, aeroportos, empresas de transporte marítimo e da petroleira Rosneft. O objetivo, segundo Igor Shuvalov, é o de aumentar a receita estatal no segundo semestre desse ano. A China tenta controlar a enorme expansão do crédito, principal responsável pela recuperação econômica que aquela economia vem apresentando. A produção de aço, por exemplo, apesar da quebra da produção mundial, aumentou 22%, em agosto, se comparado com o ano anterior. Agora se fala que a China pode salvar os relógios da Suíça, que tem a economia encolhendo desde o terceiro trimestre de 2008. Segundo dados compilados pela bloomberg, as exportações de relógios de pulso e bolso da Suíça para a China foram de 1,19 bilhão de francos suíços (US$ 1,15 bilhão) em julho, cerca de 7,3% do total de exportações do país. Espera-se que, até 2012, a China seja o maior consumidor mundial de bens de luxo. O BDA – Banco de Desenvolvimento da Ásia – espera a recuperação da China ainda em 2010 e mudou as suas estimativas para o crescimento do país, de 7%, para 8,2%, em 2009, e de 8%, a 8,9% em 2010. Na economia monetária mundial, durante o desenrolar da crise, o euro tem mostrado sua força, pois se fortaleceu cerca de 20% face ao dólar, embora a zona do euro não se encontre fora de perigo.
A reunião do G20, em Pittsburgh, com um plano chamado “Bases para o Crescimento Equilibrado e Sustentado”, vem sendo acompanhada de perto pelos investidores, temerosos de que a reestruturação da economia possa corroer o papel dominante do dólar nas finanças e no comércio internacional. O plano, ao que tudo indica, avaliza essencialmente a ideia de um dólar mais fraco.
Os maiores nomes emergentes do G-20, o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), preocupados com o alto endividamento americano, já declararam que o mundo deveria, no futuro, abandonar o dólar como reserva monetária.
Na América Latina perdura uma situação de crise. Entre 2003 e 2008, acredita-se que 60 milhões de pessoas, nessa região, saíram da pobreza, mas, de acordo com projeções do Banco Mundial, a crise econômica reconduzirá 8 milhões delas de volta à situação anterior, onde sobreviverão com parcos US$ 4,00 por dia.
No Brasil, o Banco Central faz uma projeção pior para o déficit externo, mas os dados apontam para um melhor lugar a ser ocupado pela indústria no mercado internacional, enquanto cresce a concentração bancária, colocando, nas mãos de 10 bancos, 89% dos ativos financeiros do país. O destaque vai aqui para o Banco Santander Brasil, que ganha fôlego de R$ 80 bilhões, vindo os capitais novos basicamente da venda de ações. O Banco do Brasil pretende seguir caminho semelhante, tendo o governo já autorizado o aumento da fatia de capital do banco que fica nas mãos de investidores estrangeiros, de 12%, para 20% do total das suas ações. Hoje, 21,71% das ações do BB estão nas mãos do mercado, 11,1%, nas mãos de estrangeiros e 65%, nas mãos da União. A PREVI – fundo de pensões dos funcionários – tem 10,2% e o BNDES, 2,5%.
Para continuar na tentativa de reequilibrar a economia, o governo libera mais gastos e reduz o superávit primário, que pode ficar em até 1,56% do PIB e não mais nos 2,5% previstos anteriormente. É propósito do governo aplicar R$ 28,5 bilhões em investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC.
Na economia real, os destaques vão para o crescimento do setor produtor de bens de capital, onde aprodução de máquinas, depois do recuo de 10% apresentado em julho, apura um resultado 18% superior ao mês anterior. No setor siderúrgico, destaca-se a polêmica com Presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que apresentou a ideia da criação de uma grande usina global brasileira, ideia que não é nova e que não goza de grande simpatia entre os empresários do ramo. Quanto ao consumo de energia, em agosto, o aumento foi de 3,08%, e o setor de bens de consumo sai mais cedo da crise e acelera a expansão. Pela primeira vez, desde março, o mercado já descarta a hipótese de PIB negativo em 2009. O desemprego vai se mantendo estável, com taxa de desocupação de 8,1%; destaca-se a queda de postos de trabalho no setor rural.
Um estudo da FGV afirma que o potencial de geração de renda familiar cresceu mais do que o consumo entre 2003 e 2008. Enquanto o potencial do produtor cresceu 28,32%, o do consumo cresceu apenas 14,98%. Em outro estudo, mostra-se que a renda do trabalho explica dois terços da queda da desigualdade no Brasil entre 2001 e 2008. A bolsa família responde por 17%, as rendas da previdência, por 15,72% e as transferências privadas, por 0,5%. Nesse período estudado, os 10% mais pobres da população brasileira tiveram aumento de renda de 72,45%, enquanto para os 10% mais ricos, esse  rescimento foi de 11,37%. Os beneficiários da bolsa família são basicamente da classe E, e os reajustes de salário mínimo beneficiam principalmente a classe D.
Nesse meio tempo, o Governo libera mais gastos e reduz ainda mais o superávit primário. Apresentou também uma proposta de criação de uma taxa específica de imposto de renda de 22,5%, a incidir sobre as poupanças maiores do que R$ 50 mil.
Segundo Marcio Holand, economista da Fundação Getúlio Vargas – FGV, as exportações mundiais totais vão cair, entre o ano passado e este ano, em 11,5%, sendo que o Brasil apresenta perigosa piora na sua pauta exportadora, pois vende-se cada vez mais commodities, e os manufaturados estão ficando em segundo plano. Nesse quadro, quase 85% do que se exporta para China, atualmente principal parceiro do Brasil, são bens primários.
Mesmo com esse cenário um tanto sombrio, Henrique Meirelles, ainda Presidente do Banco Central, declara que o país sai depressa da crise.
As regiões que reagem melhor são Norte e Nordeste. Sendo as regiões mais carentes, as ajudas recebidas, através de bolsa família, e o aumento do salário mínimo nacional provocam um melhor estímulo e incentivo ao consumo. Além disso, muitas empresas varejistas têm procurado localização nessas regiões para fugirem ao custo mais elevado da mão de obra das regiões mais desenvolvidas, como a dos estados do sudeste.
Diante desse quadro, a pergunta legítima que se põe é se a economia sai de forma sustentada, ou se sai e volta a entrar. Mais uma vez vem a baila a polêmica entre o V, o U e o W, como “modelito”, em discussão, para a crise econômica.


Texto escrito por:
Elivan Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira
Email: progeb@ccsa.ufpb.br



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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O capital em movimento: ciclos, rotação, reprodução

É com prazer que divulgamos aos leitores deste blog o livro do professor Nelson Rosas Ribeiro, denominado "O capital em movimento: ciclos, rotação, reprodução". A seguir disponibilizamos uma breve resenha sobre o conteúdo do livro:

O livro II da obra de Marx "O capital", que tem como título geral "O processo de circulação do capital", continua a representar uma das maiores dificuldades aos estudiosos do pensamento deste autor. 
As razões para esta dificuldade paracem originar-se do fato de que Marx não teve o tempo necessário para prepará-lo convenientemente para a publicação. Engels, ao que tudo indica, não teve condições ou não quis fazer maiores alterações nos manuscritos, publicando-os como estavam.
Há duas outras razões que merecem referência: 1 - A abordagem feita desloca o foco para os capitais individuais que se movem nas organizações econômicas, nas empresas, abordagem que não é muito do agrado dos economistas marxistas. 2 -  Os dados e exemplos apresentados estão desatualizados e reportam uma realidade passada.
Os estudiosos da teoria econômica marxista geralmente, após o trabalho com o Livro l, passam diretamente ao Livro III, fazendo, quando muito, alguma referência aos esquemas de reprodução, que permitem um estudo macroeconômico. Este salto certamente cria grandes dificuldades para a correta compreensão da teoria de Marx.
O presente livro pretende expor, de forma mais clara e atual, os preciosos elementos da teoria marxiana contidos no Livro II, qie são imprescindíveis à análise do processo e acumulação do captal na sociedade moderna, procurando contribuir para a sua melhor compreensão. 




Aos interessados na aquisição do livro segue o email do PROGEB:

progeb@ccsa.ufpb.br
 


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Roda de diálogo - Observatório Econômico

Olá Caros Leitores,

entre os dias 19 a 23 de outubro, será realizada a IV semana pela democratização da comunicação, cujo tema é "Democratizando a comunicação: a sociedade no controle". No dia 20 de outubro, dentro da programação da IV semana pela democratização da comunicação, o PROGEB participará de um espaço autogestionado, com o tema "A crise econômica e a mídia". Este espaço autogestionado ocorrerá às 09:00, na sala 402 do CCHLA. Convidamos os leitores a participarem deste evento e da roda de diálogo. 





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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Obervatório Econômico

O projeto “Observatório Econômico: Explicando a Economia” pretende disponibilizar de forma acessível os resultados da investigação crítica dos fenômenos da economia brasileira para a comunidade acadêmica, para as entidades de classe interessadas, as organizações sociais e a população de modo geral. Com isso, pretende-se criar um canal ativo de comunicação entre professores e alunos, em nível acadêmico, e entre a universidade e a sociedade, visando construir uma interpretação crítica da economia brasileira capaz de fornecer elementos para a ação social.

Contato para realização de palestras: progeb@ccsa.ufpb.br


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terça-feira, 6 de outubro de 2009

A economia de muletas

Semana de 14 a 20 de setembro de 2009

Acaba de completar um ano o estouro do banco americano Lehman Brothers, que serviu como marco para a admissão da gravidade da crise, deflagrada nos EUA. Juntamente com ele, entraram, em ruptura, várias outras grandes instituições financeiras que antecederam a generalização do fenômeno a toda a economia. Passado o susto, agora aumenta o número de especialistas e representantes de governos que afirmam que a recuperação mundial será lenta. Também aumentam os partidários da idéia de que a atual crise terá uma trajetória similar a letra “W”, como temos afirmado em nossas últimas análises. Isto quer dizer que se generalizam os temores de que a lenta recuperação possa descambar em uma nova crise complementar.
O chamado “clube do W”, “W” de worry (preocupação, em inglês), é formado por economistas renomados como Ben Bernanke, presidente do Fed, William White, ex-chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS), e Nouriel Roubini, famoso por ter sido o primeiro a prever o advento da crise.
Para Roubini, por exemplo, existe um alerta para a possibilidade de uma nova queda na atividade econômica depois de uma recuperação. Mais enfático foi William White, o qual afirmou, em uma conferência em Hong Kong, que “o mundo ainda não resolveu os problemas subjacentes à crise”, e que os atuais sinais de recuperação não são sustentáveis. Já o presidente do banco central norte-americano, Ben Bernanke, espera uma recuperação moderada em 2010, com crescimento não muito rápido. A cautela estava presente em seu discurso apesar das animadas notícias sobre o aumento de 2,7%, em agosto, do consumo nos Estados Unidos, o maior em três anos, e da redução do número de desempregados. Contudo, o crescimento das vendas no varejo é resultado da ação dos programas do governo que subsidiaram a troca de veículos, das isenções fiscais para a compra de imóveis residenciais (que vão até novembro próximo) e da sazonalidade, já que agosto é o mês de volta às aulas.
Como se pode verificar, as ações governamentais, via pacotes de estímulo ao consumo e ajuda financeira, têm sido uma espécie de muleta, para ajudar as economias a se locomoverem.
Dados da Financial Economics Crisis mostraram que o tamanho do pacote fiscal, em relação ao PIB, chegou a 13% na China, 5,6% nos Estados Unidos e 4,7% no México. A conseqüência direta tem sido o aumento do endividamento dos governos. O governo federal estadunidense, por exemplo, vem aumentando suas dívidas a um ritmo anual de 28%. Já no Reino Unido, o déficit orçamentário deve dobrar neste ano, devendo atingir 12% do PIB.
Quem anda a desafinar o coro dos preocupados é o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, além de negar o formato em “W” da crise no Brasil e defender o formato em “V”, comemora o crescimento de 1,9% do PIB do país no segundo trimestre do ano. Não refere, ele, que este crescimento foi fortemente favorecido pelo aumento do consumo das famílias e do governo, graças às medidas de política econômica adotadas, como, por exemplo, a desoneração de tributos, (IPI sobre carros e outros utensílios domésticos) o aumento do crédito, a redução das taxas de juros, etc.



PIB e setores (com ajuste sazonal) - Taxa (%) do trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior (*)
* Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem.


 
Componentes da demanda (com ajuste sazonal) - Taxa (%) do trimestre em relação ao trimestre imediatamente anterior (*)
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Na mesma linha de pensamento está o presidente Lula, que, animado com o fim da recessão técnica no Brasil (resultado positivo do PIB após dois trimestres consecutivos de crescimento negativo), conclamou os empresários a retomarem os planos de investimentos que estavam engavetados. O presidente também não perdeu a chance de acrescentar mais uma expressão ao seu famoso repertório de frases de efeito ao dizer: “Agora não é mais o momento de dar antibióticos (para o país), é hora de dar vitaminas”.
Análises positivas a parte, a grande preocupação é quanto ao surgimento ou aumento de novos investimentos. Os resultados do PIB, do segundo trimestre, livre de influencias sazonais, mostram que a indústria cresceu 2,1%, mas os investimentos ficaram estagnados. Em comparação com os resultados obtidos no mesmo período em 2008, a indústria caiu 7,9%, e o investimento, 17%. Um dos indicadores que mostram a retração da oferta é a elevada capacidade ociosa da indústria, que se encontra atualmente abaixo da média histórica.



Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI)(*)
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Outra preocupação no ar é quanto à trajetória decrescente da arrecadação tributária federal, a qual registrou queda pelo décimo mês consecutivo. Nos oito primeiros meses de 2009, o total arrecadado sofreu uma redução de 7,9%. Os principais motivos para a diminuição nas receitas foram as desonerações fiscais, responsáveis pelo impacto negativo de R$ 17,3 bilhões nos cofres públicos, a queda do valor das importações e a retração da produção industrial. No que tange às importações e à produção industrial, tais indicadores diminuíram 31% e 12%, respectivamente, de janeiro a agosto deste ano.
Além disso, a redução no lucro das empresas abertas colaborou diretamente para a menor arrecadação do Imposto de Renda e da Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL). Só no primeiro trimestre, houve recuo de 29,5% nos lucros das 149 empresas de capital aberto que divulgaram balanço.
A respeito da trajetória da arrecadação, no próximo semestre, o coordenador de Estudos, Previsão eAnálise da Receita, Raimundo Eloi de Carvalho, avalia que não se sabe qual será a situação no final do ano.
Já com relação à formação de empregos, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados eDesempregados (Caged), dos 437,9 mil postos criados no país no primeiro semestre, dois terços foramoriginados na área de serviços, que costuma ter empregos com remuneração mais baixa. No entanto, a indústria mostrou uma queda de 122,5 mil vagas de janeiro a julho de 2009.
Como se pode ver, a situação continua a não ser confortável.


Texto escrito por:
 Maria Carolina Costa Madeira: Jornalista, mestre em Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
Email: progeb@ccsa.ufpb.br

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