quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A importância de uma política de enfrentamento da crise

Semana de 14 a 20 de fevereiro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Caros leitores, desde meados de 2014 o Brasil não tem uma política econômica efetiva de promoção do crescimento econômico. Obviamente, não se pode considerar as “reformas” aprovadas desde então como promotoras do crescimento. Pelo contrário, a maior parte das medidas econômicas adotadas de 2015 para cá (ainda com Dilma Rousseff) são daquelas que retraem a atividade. O resultado disto foi que, a partir daí, entramos numa profunda crise, da qual ainda não saímos e que foi piorada pela pandemia de Covid-19.

Por isso, para falarmos de políticas de enfrentamento das crises econômicas, é preciso retornar à última crise antes da atual. Não é difícil lembrar do Brasil dos anos 2000. Apesar do início difícil, os anos dessa década foram de grande bonança. Tanto a economia mundial, quanto as políticas econômicas e sociais internas contribuíram para as coisas melhorarem. Isso durou até meados de 2008, quando estourou uma nova fase de crise na economia mundial, deflagrada pela crise do mercado hipotecário dos EUA. Esta ficou conhecida como Crise do Subprime, que logo se espalhou pelo sistema financeiro de vários países.

No início, em um comparativo com um tsunami, o então presidente Lula afirmou que no Brasil esta crise chegaria apenas como uma “marolinha”. Mas não foi bem assim. Tanto que, depois de ter crescido 6,1% em 2007 e 5,1% em 2008, o PIB brasileiro reduziu seu tamanho em 0,1% no ano de 2009. Como forma de enfrentamento à crise, foram adotadas inúmeras medidas de política anticíclica (que vai no sentido oposto ao do movimento da economia, ou seja, se o momento é de crise, política anticíclica é aquela que promove o crescimento, se o momento é de crescimento, política anticíclica é aquela que esfria a atividade).

Vejamos apenas um dos muitos instrumentos utilizados em 2010 para enfrentar a crise: a expansão das operações de crédito do BNDES para financiamento de bens de capital produzidos no Brasil (através do FINAME). Em trabalho a ser publicado, o Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (PROGEB) estimou que o PIB brasileiro em 2010 seria 0,2% menor, caso o FINAME não fosse utilizado como instrumento de política anticíclica. Por sua vez, a massa de salários pagos pelos setores da economia brasileira seriam 0,21% menores e o número de ocupações geradas seria 0,11% menores.

Esses percentuais parecem pequenos, mas basta lembrar que, antes da pandemia, o máximo que a economia brasileira cresceu foi 1,8% em 2018. Ou seja, o uso de um único instrumento de política econômica, o fomento do crédito para aquisição de bens de capital nacionais, poderia ter ajudado o crescimento a ser maior a cada ano.

E como trazer isto para o cenário brasileiro atual? Para além do fomento a setores tradicionais da indústria nacional, como transportes, construção civil, máquinas e equipamentos e materiais elétricos, é de suma importância fomentar setores que estão direta e indiretamente ligados aos cuidados médicos da população. Naturalmente, o motivador imediato é a aparentemente interminável pandemia, que volta e meia ressurge através de outra variante do coronavírus. Ter condições adequadas de enfrentamento desta e das demais pandemias que muito provavelmente virão, garantiria a disponibilidade de meios internos de combate às mazelas, como também a possibilidade de exportação de produtos e tecnologia para outros países. Os ganhos seriam econômicos e sanitários.

Mas, sob gestões iguais às que assumiram o Estado brasileiro após o Golpe de 2016, não será possível. Menos ainda sob a gestão Bolsonaro. É preciso que haja a superação das políticas de arrocho, as quais recaem sempre sobre a maioria dos trabalhadores do país. Um projeto que saiba utilizar os instrumentos estatais para promover o crescimento é necessário. Até outubro, façamos nossa parte para garantir que isto ocorra. Participemos do debate público sobre a política nacional e local!


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Ana Isadora Meneguetti, Guilherme de Paula, Carolina Nantua e Eduardo Oliveira.

Share:

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Salve-se quem puder

Semana de 07 a 13 de fevereiro 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

O movimento da economia continua dentro do previsto. A recuperação mundial arraste-se travada pela nova onda da variante Ômicron e agora agravada pela crise provocada pelos EUA e seu novo presidente Biden que busca arranjar um pretexto para reverter seu desprestígio interno. A crise da Ucrânia não interessa à Europa. Uma guerra seria em território europeu e não nos EUA que assistiriam à distância. Os russos estão furiosos com as provocações americanas que pretendem colocar a OTAN nas suas portas. Afinal eles já pagaram o preço de duas guerras mundiais em seu território além da invasão napoleônica em 1812 e outras aventuras japonesas, britânicas e francesas em vários momentos. Por isso a reação russa era esperada. Parece que as tensões começam a esfriar e sobrou para o Brasil a ameaça de ficar sem o potássio de Belarus que sofre sanções, o que prejudica nossa agricultura. Mas, certamente, estamos salvos com a gloriosa missão diplomática do Bolsonaro à Rússia que trará a paz, evitando a terceira guerra mundial.

Além do caso Ucrânia há outras preocupações no panorama internacional. A China continua a desacelerar o que afeta a todos diante de sua importância. Ela é responsável por 15% do comércio mundial e 25% do crescimento global. A economia americana enfrenta a pior inflação desde 1982 com escassez de produtos e de mão de obra. O preço do petróleo continua a subir no mercado mundial impulsionando a inflação. Na Zona do Euro, esta chegou a 5,1% preocupando os Bacos Centrais. O Banco da Inglaterra já elevou os juros para 0,5% e o Banco Central Europeu (BCE), seguindo o Federal Reserve (Fed), o BC americano, programa também uma elevação. A consequência é a possível debandada dos capitais dos países emergentes, em busca de segurança, e particularmente do Brasil onde o governo prima pelo comportamento estúpido. Agora mesmo, na Organização Internacional do Trabalho (OIT) o país ficou isolado na companhia da Colômbia, opondo-se e não participando da comissão internacional que prepara uma proposta de reforma dos princípios da organização para uma “retomada centrada no humano” e criação de “condições de trabalho seguras e saudáveis”.

Mas, enquanto nosso presidente desempenha sua importante missão em defesa da paz mundial, por cá as coisas andam mal. Os indicadores observados são preocupantes. Além da ação nefasta da Ômicron que continua a matar e encher os hospitais o país tem de suportar a campanha dos bolso asnos contra a vacinação infantil e os protestos de grupos militares que recusam a vacinação. A degradação do parque industrial agravou-se. Entre 2011 e 2021 a participação da indústria de transformação nas exportações alterou-se. A percentagem dos produtos manufaturados no total exportado que era de 56,5% caiu para 27,4%. Os semimanufaturados caíram de 14,1% para 13,2% enquanto os produtos básicos subiram de 26,3% para 59,4%. A queda no varejo foi apontada pelo Índice Getnet (Igetnet) calculado pela empresa Getnet e o banco Santander. Em janeiro o varejo ampliado caiu 5,7% sendo a oitava contração seguida. As vendas de móveis e eletrodomésticos caíram 42,6% e materiais de construção 23,6%. As vendas do setor de automóveis caíram 27,4% em relação a 2021. São as menores desde 2005.

Pelo lado do consumo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência de Consumidores (Peic) feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou que 76,1% das famílias estão endividadas e a inadimplência é recorde. Por outro lado, a criação de empregos informais e de baixa remuneração fez a massa salarial no trimestre encerrado em novembro cair 1% seguindo tendência anterior. Apesar deste quadro adverso o Banco Central (BC), continuando com sua insensata e fanática política, subiu a taxa Selic de 9,25% para 10,75% apesar de manter, para o ano, a meta de 3,25% com teto de 5%, mas já estimou o estouro de inflação em 5,4%.

Se a economia não ajuda, o ambiente político continua a deteriorar-se com a certeza da derrota do Bolsonaro se espalhando no Congresso. As ratazanas já ensaiam o abandono do barco. No governo os ministros e auxiliares cavam sua própria eleição. Se não havia comando antes, agora o caos aumentou. Instala-se o salve-se quem puder.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Roberto Lucas e Alan Henriques Gomes.

Share:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Superávit primário de estados e municípios em 2021, para quê?

Semana de 31 de janeiro a 06 de fevereiro de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

A regra é simples: quem deve, tem que pagar. E como ex-colônia que nunca conseguiu superar as cicatrizes e feridas abertas do passado, o Brasil sempre deveu muito na praça. E nos tempos atuais, mais do que no passado, o endividamento de entes públicos é uma das principais formas de se manter a sangria de um povo. Mas, infelizmente, não é a única.

Já foi falado muitas vezes nesta coluna o quanto os preços das coisas estão subindo. Na realidade, nem precisava escrever. Todos estamos sentindo no bolso. Dentre as coisas que estão mais caras, os alimentos são as que trazem maiores danos sociais. Segundo um estudo do DIEESE para janeiro de 2022, de 17 capitais analisadas, em 12 a cesta básica custou mais da metade do novo salário mínio (que é de R$ 1.212,00). Em pior posição está São Paulo, com 63,7% do salário, enquanto em Aracaju a cesta básica custou 45,3% do salário. Ainda segundo o estudo, o tempo de trabalho médio para comprar os itens básicos para sua sobrevivência em janeiro foi de 112 horas e 20 minutos.

Em 2021, a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN) divulgou estudo mostrando que 55,2% das residências brasileiras passaram por alguma dificuldade para obter alimentos de forma plena e regular. Em outras palavras, 116,8 milhões de brasileiros estavam em algum grau de insegurança alimentar. Desses, 43,4 milhões não tinham acesso à quantidade suficiente de alimentos e 19 milhões passavam fome.

Em estudo mais recente, com 1.343 pessoas beneficiárias do Bolsa Família, o Unicef mostrou que 72% das suas crianças menores de 6 anos não comeram alguma refeição ou comeram menos do que o necessário devido a Pandemia. Antes o número já era alto, de 52%. Além disso, diante de “vantagens” como sabor, preço e praticidade, sempre há o risco do aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, mas de baixo valor nutricional, tais como biscoito recheado, bebidas açucaradas e achocolatados. Nessa pesquisa, em torno de 80% das famílias afirmaram ter alimentados seus filhos com algum ultraprocessados no dia anterior à entrevista.

Saída para isso há, mas aí passa pelo poder público. Programas, projetos, parcerias, financiamento de iniciativas populares, etc. são os meios pelos quais o Estado pode atuar em favor da segurança alimentar. Até já existiu um Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), mas foi extinto no primeiro dia de governo do atual presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro.

Para além da falta de preocupação com a barriga vazia alheia, tais medidas contribuem para pôr em prática o ideário de que o Estado deve reduzir seus gastos, custe o que custar (vide o teto dos gastos, apesar deste ter sido furado por Paulo Guedes). O objetivo é, voltando ao começo da conversa, pagar (ao menos tentar) a dívida dos entes da esfera pública. É deixar de gastar com uma coisa para pagar outra. A maior parte dos brasileiros sabemos o que é isso. É uma questão de prioridade, pagar o mercado, ao invés de comprar uma roupa, ter feijão, ao invés de tomar banho morno... Fazer superávit primário é deixar de gastar em algum canto para pagar os juros e, quem sabe, a amortização da dívida pública.

Esse é o contexto no qual podemos nos perguntar: diante desse cenário de fome, desemprego, inflação e pandemia, por que os estados e municípios resolveram economizar, juntos, R$ 97,7 bilhões? Por que não utilizaram grande parte desta verba já em 2021 para melhorar a situação da sua população?

O que já se sabe é que uma parte foi para pagar os juros e amortização de dívidas. Outra, muito maior, entrou no caixa. Sabendo que 2022 é ano de eleição, sugiro que estejamos de olhos bem abertos para os gastos eleitorais esse ano. A indústria da fome foi fomentada em 2021. Preparemo-nos para ver ela sendo explorada em 2022...


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Nertan Gonçalves, Guilherme de Paula, Carolina Nantua e Maria Cecilia Fernandes.

Share:

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

As previsões são confirmadas

Semana de 24 a 30 de janeiro de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

As previsões que temos feito nas últimas Análises continuam a ser confirmadas. Comecemos hoje pela situação internacional. Conforme temos falado, a recuperação que se esboçava tem sido prejudicada pela nova cepa da covid-19, a Ômicron. A Organização Mundial da Saúde (OMS) acredita que o pior já passou e a pandemia caminha para o fim. Na União Europeia (UE), apesar do aumento do contágio, os casos graves e internações diminuíram e muitos países estão relaxando as restrições, graças à vacinação em massa. Os movimentos anti-vacina, liderados pela extrema direita, tem provocado problemas e os países têm apertado o cerco aos não vacinados. Nos EUA a Ômicron também tem causado entraves e contribuído para a desaceleração, já agravada pela inflação, pelos gargalos nas cadeias de suprimento e falta de mão de obra. Esta é uma grande novidade. Há 3,6 milhões de trabalhadores a menos em dezembro de 2021 em relação a fevereiro de 2020. Um déficit de 2,3%. O Produto Interno Bruto (PIB) que havia se retraído -3,4% em 2020, cresceu 5,7% em 2021, mas deve cair em 2022.

A inflação provocou a reação do Federal Reserve (Fed.) banco central americano, que começou a encerrar o Quantitative Easing (QE), expansão monetária, e até março pretende encerrar as compras dos papeis de hipotecas e do Tesouro, para então elevar os juros acima de 2,5%, o que espalha temor no mercado dos países emergentes. Aliás a Organização Mundial do Comércio (OMC), através de sua diretora adjunta Anabil Gonzales mostrou sua preocupação quanto à desaceleração do comércio mundial, não apenas pela Ômicron, mas pelos riscos geopolíticos, macroeconômicos e monetários.

O ambiente internacional, portanto, continua desfavorável e agravado ainda com as ameaças vindas do conflito EUA x Rússia, por causa da Ucrânia. Destaque-se que os aliados europeus não estão muito interessados no conflito que os EUA se esforçam por provocar pois eles sabem que serão os grandes perdedores. Lembremos que a Rússia é o 5º parceiro comercial da UE e o primeiro fornecedor de energia (gás). Novo gasoduto está para ser inaugurado e muitas empresas europeias têm investimentos no país. Além disso eles sabem que os EUA têm interesse em vender o seu próprio gás, mais caro, à UE.

O mercado asiático é que tem se tornado grande comprador dos produtos brasileiros. Não falando da China que responde por 32% das nossas exportações, mais que UE, EUA e Mercosul juntos, a Malásia compra mais que Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales juntos, a Tailândia supera a França, a Índia ganha para a Itália e assim por diante. Além disso, há grandes bancos chineses e multinacionais que se apresentam com financiadores do comércio. Mesmo assim, o comércio exterior não será de grande ajuda.

Se o comércio exterior não ajuda nossa recuperação, a outra esperança que era o agronegócio também está mal. O clima não vai colaborar. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima uma queda na produção de grãos de 4,2 milhões de toneladas. Para os estoques finais espera-se uma queda de 35%. O Itaú Unibanco baixou sua estimativa de crescimento de 5% para 1%. E a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de 4% para 2,5%. A FGV Ibre também reviu sua estimativa para o PIB agro de 5% para 3,5%.  Com estas reduções as estimativas para o PIB de 2022 também foram rebaixadas. A FGV Ibre diminuiu de 0,7% para 0,6%. O Boletim Macro, para janeiro, calculou o Índice de Confiança Empresarial (ICE) em 91,6 pontos e o Índice de Confiança do Consumidor (ECI) em 72,6 pontos (abaixo de 100 significa pessimismo). A Selic foi estimada em 12,25%.

O setor imobiliário, outro setor que tem forte poder de arrasto, também não tem boas perspectivas. A associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança estima que o crédito para o setor crescerá apenas 2% e o PIB da Construção Civil não ultrapassará este mesmo valor: 2%. Como vemos de nenhum lado chegam boas notícias. Os dados só confirmam o que temos afirmado. 2022 será um ano difícil. A economia não vai ajudar a reeleição do Presidente.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Alves, Eduardo Oliveira e Ana Isadora Meneguetti.

Share:

Novidades

Recent Posts Widget

Postagens mais visitadas

Arquivo do blog