segunda-feira, 30 de março de 2026

TRUCULÊNCIA DE TRUMP PÕE ECONOMIA GLOBAL EM RISCO

 Semana de 16 a 22 de março de 2026   

Rosângela Palhano Ramalho[1]

   O presidente americano, Donald Trump, continua em sua incursão contra o mundo. Desta vez, aliado a Israel, produziu uma guerra contra o Irã. Com uma visão superdimensionada de si mesmo e tentando resgatar o protagonismo geopolítico e econômico dos Estados Unidos, o presidente americano pôs o mundo de joelhos. Assim como as falsas acusações que dirigiu a Maduro e à Venezuela, atribuiu ao Irã a ameaça nuclear. Ao bombardear e assassinar o líder supremo do país, Ali Khamenei, Trump concluiu que o Irã estava liquidado. Ledo engano. Em reação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz, canal marítimo por onde escoa 20% do petróleo consumido no mundo e passou a atacar as bases americanas nos países vizinhos espalhando o conflito por todo o Oriente Médio.

Em sua aventura voraz, Trump e Netanyahu impuseram a eles próprios e ao mundo as consequências. O preço do barril de petróleo, que em média custava US$ 73, ultrapassou, no ápice do conflito, o valor de US$ 119. Uma crise energética global surge no horizonte. Os Estados Unidos aliviaram as sanções a petroleiros russos em alto mar com o intuito de aumentar a oferta e distensionar os preços em seu território. Na Europa, o preço do gás natural subiu até 35% em apenas dois dias.

No Brasil, os fornecedores de óleo diesel turbinaram seus lucros às custas da população, antecipando uma alta de até 20% sobre os preços. Mas o pior está por vir. Segundo os analistas, se a guerra se estender, o país será desabastecido, já que um navio leva 15 dias para chegar com as cargas do óleo combustível. Além deste, diversos setores que usam o petróleo como fonte de energia ou como insumo, estão recompondo os preços. O transporte rodoviário em geral, as passagens aéreas no país, a alimentação fora de casa, os fertilizantes (dependentes em 85% da importação de ureia e amônia), os plásticos e as borrachas, que dependem da nafta, seu principal insumo produtivo, e o cimento, que precisa do coque como combustível para seus fornos, já apresentam aumento dos preços.

Diante desse cenário, é certo que o país não sairá ileso do confronto criado pela dupla Trump/Netanyahu. O PIB brasileiro desacelerou em 2025 quando comparado a 2024. O crescimento de 2,3% no ano passado foi arrefecido pela política monetária de juros altos, único remédio contra a inflação utilizado pelo Banco Central do Brasil. As incertezas causadas pela guerra trumpista lança ao país mais desafios, justamente quando o ciclo de alta dos juros já “estava contratado”. De fato, ao se reunir entre os dias 17 e 18 de março deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa de juros Selic de 15% para 14,75% ao ano, primeiro corte da taxa desde maio de 2024. Esperava-se uma redução de 0,5%, entretanto, prevaleceu um corte mais modesto, que veio acompanhado do alerta para a ocorrência de pressão inflacionária derivada da guerra declarada ao Oriente Médio.

Enquanto este texto era concluído, o Banco Central divulgou a ata da última reunião do Copom e ainda impressiona a linguagem dura em relação ao desempenho econômico interno. Crescer no regime de metas inflacionárias é um problema. Inicialmente, a ata o texto comemora a desaceleração econômica dizendo que “...o resultado do PIB no último trimestre de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica...” mas finaliza lamentando que “...o mercado de trabalho segue resiliente”. O próprio Copom admite que a inflação está sob controle “...apresentando algum arrefecimento...” mas, alimenta o monstro alertando que “...as medidas subjacentes seguiram, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”. O documento nos pede mais sacrifício. Para isso, nos brinda com uma dose de teoria econômica. “O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”. E eis que uma questão surge: por que não reequilibrar oferta e demanda pelo aumento da oferta agregada? Sinto dizer caro leitor, que esta solução está solenemente descartada pela teoria econômica dominante. Ela faz parte dos fenômenos impossíveis da economia. Discordamos. Mas como não determinamos os rumos da política econômica, nos resta informar que, embora outras soluções existam, não há espaço para elas.

Enfim, 2026 se configura como o ano das incertezas. A guerra trumpista, se estendida, tombará a economia mundial e contribuirá para que a nossa política monetária seja ainda mais contracionista. Some-se a isso o fato de que estamos em um ano eleitoral com o golpismo à espreita, esperando uma nova oportunidade para emergir...



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Maria Clara Gueiros, Vivian Maria, Sophie Ventura e Sophia Martins.

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segunda-feira, 16 de março de 2026

O PIB E O PIB DE 2025: CRISE?

 

   Semana de 02 a 08 de março de 2026    

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Para os que não estão familiarizados com o jargão econômico, PIB é abreviação de Produto Interno Bruto. Como define o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão estatal responsável pelo cálculo oficial no Brasil, “o PIB é um indicador de fluxo de novos bens e serviços finais produzidos durante um período”. Ou seja, é a soma da riqueza nova produzida em um território ao longo de um tempo determinado.

Os responsáveis por produzirem essa riqueza são os setores da atividade econômica, distribuídos entre Agropecuária, Indústria e Serviços. Sob esta perspectiva, podemos analisar o funcionamento da economia nacional pela ótica da produção/oferta. Ou seja, podemos identificar quais atividades são as mais importantes para a dinâmica produtiva em termos de criação de riqueza. A partir dos dados da Contas Nacionais Trimestrais, é possível observar isto.

Desde 1997, o setor que mais contribuiu para o crescimento da economia nacional foram os Serviços, podendo-se atribuir, em média, cerca de 73% da variação do PIB ao setor. O restante foi responsabilidade da Agropecuária (12%) e da Indústria (15%), com a importância de cada uma variando ao longo do tempo.

Por exemplo, entre 2003 e 2010, mais de 20% do crescimento do PIB foi puxado pela indústria. Para quem não lembra, este foi o período de maior crescimento da economia brasileira desde os anos 1980. Porém, entre 2011 e 2019, a indústria puxou nossa economia para baixo, diminuindo significativamente seu papel na atividade econômica nacional. Neste interregno, tivemos uma crise iniciada em meados de 2014, que se estendeu até 2016, sendo que os setores só retomaram uma trajetória consistente de crescimento em 2017.

Por fim, entre 2020 e 2025, a Agropecuária contribuiu, em média, um pouco mais do que a Indústria para a economia brasileira, sendo 16,9% de contribuição contra 14,3%, respectivamente. Para além das safras recorde, beneficiando o agro brasileiro, tivemos a Pandemia de Covid-19, que afetou nossa produção industrial. A situação brasileira foi tal que apenas em 2022 o valor do PIB, em termos reais, superou o observado em 2014. No caso da Indústria, isto só ocorreu em 2024.

Analisando apenas os dados desses últimos anos, em especial o que aconteceu em 2025, apesar dos indícios, ainda não podemos afirmar com clareza que a atual desaceleração da economia reflete o início de uma nova fase de crise cíclica (crise de superprodução). O motivo é que alguns acontecimentos estão perturbando o atual ciclo econômico.

O primeiro deles é o fato de que, entre 2018 e 2019, se gestavam os fatores objetivos para a manifestação de uma crise de superprodução. Contudo, as medidas de enfrentamento à Pandemia de Covid-19, em 2020, alteraram profundamente o próprio funcionamento do capitalismo. O resultado disso foi uma crise singular, que ficou conhecida como Crise da Covid. Em combate a ela, foi adotado um amplo conjunto de medidas de recuperação econômica, o que, efetivamente, alterou as condições de manifestação da superprodução generalizada. Como resultado, o desenvolvimento capitalista não passou por uma fase que lhe é essencial: o saneamento e destruição dos capitais em excesso. Esta deformação na dinâmica da acumulação, por sua vez, está se refletindo no ciclo atual e, dada a singularidade da situação, fica difícil prever o que irá acontecer.

Para piorar, vivemos um momento em que a grande potência que liderou o desenvolvimento capitalista no século XX passa por severas dificuldades para manter esse posto. Além das disputas nos campos tradicionais, temos que conviver com um país liderado por um ser indescritível, que consegue misturar o pior do passado com o pior do presente da humanidade. Isto, também, altera a maneira como a economia se movimenta do ponto de vista

cíclico, na medida em que as ações dos EUA têm alterado um conjunto de relações econômicas já estabelecidas. Vide o que já está acontecendo com o preço internacional do petróleo e o preço dos combustíveis aqui.

Bom, podemos ver que aquele que era o grande trunfo para a reeleição de Lula está sob ameaça. Antes vista como carta na manga, a bonança econômica está sob suspeita. Para piorar, mais uma vez, a mídia e os algoritmos das redes sociais já começaram a bombardear os eleitores com supostas associações entre Daniel Vorcaro, INSS, STF e Lula.

Para quem, no ano passado, achou que a reeleição estava ganha, aprenda de uma vez por todas: o capitalismo é um sistema muito contraditório e dinâmico, e a burguesia está aí para fazer com que isto se mantenha exatamente como está, aqui ou no resto do mundo. A nós, só resta lutar...

           


[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Lucas Carvalho, Lucas Gabriel, Luiz Vinicius.

 

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segunda-feira, 9 de março de 2026

A REALIDADE ECONÔMICA CONTINUA A PASSAR DESPERCEBIDA

 Semana de 23 de fevereiro a 01 de março de 2026  

Rosângela Palhano Ramalho[1]

  Caro leitor, o mês de março chegou, e o fechamento das contas nacionais do ano passado se aproxima. Espera-se, como já mencionado neste espaço, um arrefecimento da economia nacional em relação aos anos anteriores. O Banco Central já comemora e, na ata da reunião ocorrida no final do mês de janeiro, considerou “...iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião...”. Ainda há um inconformismo com a resiliência da economia brasileira, atribuída principalmente à política fiscal. O fato é que ainda teremos crescimento e a taxa ficará próxima dos 2,5%. O governo comemora, pois, mesmo com uma política monetária contracionista, tem conseguido sustentar um crescimento considerável.

   Um apanhado dos principais indicadores econômicos nos dá a dimensão dos avanços de 2025. O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros chegou a R$ 3.613,00 em 2025. Este valor, apurado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), é o maior da série histórica desde 2012 e representou uma alta de 12% em relação a 2024. O aumento populacional, a formalização do emprego e os reajustes salariais, foram os elementos determinantes para o ganho. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu de 6,6% em 2024 para 5,6% no ano passado, também o menor nível da série histórica da Pnad Contínua. O número médio de brasileiros desempregados caiu 7,2 milhões para 6,2 milhões de pessoas. Um recorde.

A inflação, monstro que, no Brasil, assusta mais que o desemprego, não apresenta sinal de aceleração. A taxa de inflação dos últimos doze meses terminados em janeiro, segundo o IBGE, foi de 4,4%. O resultado continua dentro do sistema de metas inflacionárias adotado pela autoridade monetária brasileira, cujo limite máximo é 4,5%. Mesmo assim, o mercado financeiro segue alimentando um cenário caótico no futuro, mantendo a pressão sobre o Banco Central para que ele não abandone o “compromisso” no controle de uma inflação que, segundo as métricas oficiais, já está controlada.

 No que diz respeito às contas públicas, estas não param de serem atacadas. O Tesouro Nacional divulgou o resultado primário do Governo Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) de 2025, que apresentou déficit de R$ 61,691 bilhões, resultado que ficou abaixo da meta estabelecida pelo Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias que previa déficit primário de R$ 75,718 bilhões para aquele ano. Vale ressaltar que, em dezembro de 2025, houve superávit primário de R$ 22,107 bilhões. Entretanto, exige-se tratamento empresarial para o Estado, como se o seu objetivo fosse o de apresentar lucro, com custos impostos à sociedade e, em especial, às pessoas mais vulneráveis. Lembro que o jornalismo econômico mantém na mesa a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário-mínimo, que desobrigaria o reajuste anual desses benefícios. Os reajustes, segundo esta proposta, passariam a ser feitos apenas pela inflação. Ou seja, para “salvar” as contas públicas propõe-se matar o pobre.

Então o leitor percebe que, embora os resultados da economia sejam visíveis e quantificáveis, como os ganhos reais de renda, a queda do desemprego e da inflação, além do controle das contas públicas com manutenção de diversos programas que promovem melhorias na renda, no acesso à educação, à moradia e à saúde, parte da população brasileira não os reconhece como positivos. Este fragmento social foi seduzido, ou encontrou representação, no discurso da extrema-direita do Brasil, que tem como pauta atacar e invisibilizar as conquistas recentes da economia brasileira, mantendo um clima de medo e desconfiança. E a elite econômica e financeira encampou este discurso pois ele atende seus interesses.

Infelizmente, a ascensão das mídias digitais e, em especial, a comunicação pessoal via redes sociais, facilitaram a disseminação da informação e da desinformação. Os resultados econômicos perderam espaço para as pautas de costumes, que passaram a nortear as discussões pessoais, políticas e institucionais. Preconceitos, ódio e discriminação proliferam numa velocidade jamais vista e a realidade não recebe a devida importância na percepção das pessoas, do jornalismo econômico e muito menos entre os economistas que ditam as decisões da política econômica nacional. São tempos difíceis.



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antônio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Gabriela Félix, Gabrielle Cavalcante, Júlia Araújo, Júlia Almeida e Jade Carvalho.

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

AUSTERIDADE E CORRIDA ELEITORAL: ALGUÉM TERÁ CORAGEM?

 Semana de 09 a 15 de fevereiro de 2026   

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

O Estado capitalista não funciona como um árbitro neutro, que atua distante das classes sociais. Na realidade, ele atua como um organizador dos interesses de grupos específicos. Tais grupos, por sua vez, são aqueles que detêm o controle dos recursos econômicos, especificamente, os meios de produção. No topo dessa hierarquia de poder, o segmento voltado ao crédito, aos juros e à especulação, dita os rumos da economia e da política nacionais. Como toda classe dominante, eles fazem com que o aparelho estatal funcione em benefício próprio.

Dentre outros caminhos, isto se dá através das regras de gestão orçamentária que priorizam o pagamento de obrigações financeiras sobre as necessidades básicas da população. Por sua vez, o discurso da austeridade é reforçado por “especialistas”, que apresentam os cortes de gastos sociais como uma necessidade incontestável para manter a “confiança do mercado”. Para esses agentes, a política econômica não é um campo de disputa social, mas uma esfera técnica de “responsabilidade fiscal”.

Esse discurso elitista mascara a função do Estado de garantir que a gestão da dívida pública permaneça como um canal perene de extração de riqueza em favor do setor financeiro. Assim, a gestão do orçamento vira uma ferramenta política que preserva a posição de comando desse grupo, independentemente das mudanças de governo. Há leis, instituições públicas e privadas, regras formais e informais que garantem a transformação do dinheiro da sociedade em rendimentos para uma elite parasitária.

Como acontece em todo começo de ano e, pior ainda, ano de eleições, as notícias recentes reforçam a continuidade dessa lógica. No ano passado, os gastos com os juros da dívida pública ultrapassaram R$ 1 trilhão. Junto com isto, a dívida bruta atingiu 78,7% do PIB. Esse cenário é utilizado para justificar o “combate ao desequilíbrio fiscal” focado exclusivamente na redução de gastos obrigatórios e em novas rodadas de reformas estruturais. 

A pressão por uma nova reforma da Previdência até 2030 e a implementação de reformas administrativas são apresentadas como soluções inevitáveis para abrir “espaço fiscal”. Leia-se: é preciso reduzir os gastos em áreas sociais e com pessoal em favor da garantia de pagamento aos detentores da dívida. Além disso, já há quem preveja a ativação de “gatilhos” no arcabouço fiscal para 2027, que impõem travas automáticas a despesas com salários e benefícios tributários diante de qualquer desvio nas metas de resultado primário. Dessa forma, o orçamento público é mantido sob uma rigidez que favorece a extração de riqueza pelo sistema financeiro, preservando a estrutura de dominação dessa fração de classe.

Tudo o que o país vive atualmente, porém, não é resultado de uma pretensa gastança do atual governo ou uma particularidade recente. Isto é produto do desenvolvimento histórico dos países periféricos que, desde as reformas neoliberais dos anos 1990, adotam um conjunto de políticas econômicas que aderem à forma como o capitalismo tem se desenvolvido nas últimas décadas. Prevalece, a partir dos anos 1980, a lógica especulativa sobre a produção real, tanto para o setor público, quanto para o privado. Se o Consenso de Washington é um símbolo mundial desta época, o tripé macroeconômico é o nosso.

Em suma, o noticiário nacional tem confirmado a tese de que a política econômica reflete a correlação de forças no bloco no poder, e não apenas decisões técnicas neutras. A narrativa da austeridade a todo custo serve para consolidar a dominação financeira, tratando o pagamento da dívida como um compromisso sagrado enquanto os direitos sociais e serviços públicos são vistos como “variáveis de ajuste”. A manutenção dessa estrutura sedimenta o modelo neoliberal, garantindo que o Estado, em sua conformação atual, continue a ser um instrumento de acumulação para a burguesia financeira por excelência.

Resta saber qual candidato, em ano de eleições, terá a coragem de assumir isto e explicitar em seu programa de governo. O pior de tudo é que, implicitamente, essa política estará em todos aqueles que têm chance de vencer, sem exceção.


[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Daphnne, Déborah e Genifer.


            

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

É preciso gerar desemprego...

    Semana de 02 a 08 de fevereiro de 2026    

Rosângela Palhano Ramalho[1] 

Ao longo do ano de 2025, informamos, através desta publicação, que os indicadores conjunturais da economia brasileira apresentaram bons resultados. Como a atividade econômica caminhou na contramão da política monetária de juros altos, foi alcunhada de resiliente. Mas o Banco Central já deixou claro: quebrará a resistência e,  através da manutenção da taxa de juros em 15%, a economia será desaquecida. Os analistas concordam que, em virtude da defasagem de resposta dos indicadores econômicos, o tombo poderá vir em 2026.

Embora a desaceleração dos últimos meses de 2025 tenha sido menor que a esperada, há um clima, ainda comedido, de comemoração no ar. A maioria dos economistas e analistas a serviço do mercado financeiro está aliviada, afinal, o primeiro grupo percebe o resultado como consolidação de sua crença teórica, e o outro grupo garante os ganhos do setor financeiro que podem ser referendados por uma ótica tecnicista-científica.

Ao longo do tempo, desde que o combate à inflação se tornou o principal objetivo da política monetária, a sociedade brasileira passa por um processo de convencimento de que deve ser grata pelo purgante, mesmo que isso signifique menos postos de trabalho formal e, consequentemente, prejuízo ao bem-estar social. Segundo esta visão, não há outro remédio para o aquecimento da economia (e a inflação daí decorrente), senão o desaquecimento. Ou seja, ao invés de optarmos por estimular um novo patamar de desenvolvimento da capacidade econômica, escolhe-se “estrategicamente” ficar aquém. Por esta razão, estamos presos a uma opção que condena a nossa economia ao baixo crescimento.

A inflação está controlada e dentro das metas delimitadas pelo Banco Central, mas qualquer sinal de estímulo, seja ele vindo do governo ou do setor privado, gera discursos preocupados no jornalismo econômico. A inquietação da vez é o ano eleitoral. Como o presidente se candidatará à reeleição, o desassossego é que ele libere geral, adotando medidas de política econômica “eleitoreiras” que estraguem o trabalho do Banco Central. E algumas delas, vejam só, já estão em andamento.

A isenção do pagamento do imposto de renda para os trabalhadores que recebem até R$ 5.000,00 e a redução da tributação de rendas entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00 é um exemplo. Temos aí um problema para o dogma econômico estabelecido. A implementação gerará uma renúncia fiscal de R$ 25,4 bilhões que se reverterá em renda disponível para o consumo de bens e serviços. O Daycoval, em tom de lamento, estimou que a medida terá impacto de 0,3 ponto percentual sobre o PIB de 2026, com os setores de habitação, transporte e alimentação recebendo os maiores estímulos. 

            Já o UBS Global Wealth Management, braço da gestão de fortunas do banco suíço UBS, lastimou a permanência dos programas sociais. “Tem muito estímulo fiscal já aprovado para 2026, como a desoneração do Imposto de Renda, o vale-gás, o programa Luz para Todos e várias iniciativas em termos de crédito...”. Pois é. Como a população vai usar a renda extra, em especial no setor de serviços, que está sustentando a inflação atualmente, mais inflação está sendo esperada para 2026. E o UBS GWM conclui, sem qualquer pudor: “O viés é de que, talvez, os serviços não desacelerem nada, porque, se não tiver um aumento do desemprego como as pessoas esperam (...) não dá pra ter a inflação de serviços caindo gradualmente”. É isto, caro leitor.

            No fim das contas, a teoria econômica referenda que a escolha entre emprego e inflação é inevitável e os rentistas recebem as benesses derivadas desta escolha. Resta ao trabalhador “entender” que ele precisa estar desempregado para que esta convergência de fatos aconteça, sem perceber, é claro, que esta condição é incompatível com a sua existência.

Inacreditável!



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, João Pedro de Oliveira, João Lucas Alves, Heitor Augustu e Mariana Sofia Rolim.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EMENDAS PARLAMENTARES: UMA DAS DIMENSÕES DO PROBLEMA...

 Semana de 19 a 25 de janeiro de 2026     

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Tema sempre presente em grandes debates sobre a execução do orçamento público, as emendas parlamentares têm sido atacadas em diversas frentes. A mais elementar e explícita se relaciona com a dificuldade de se rastrear e acompanhar o uso do dinheiro. Claro, isto dá muita vantagem política àqueles que se beneficiam da medida: a falta de transparência dos gastos permite tanto as maracutaias (como o sobrepreço de bens e serviços), quanto o desvio de finalidade (como a contratação de show sertanejo em vez de gastos com saúde ou educação). Em ano eleitoral, a farra é garantida.

Antes de mais nada, é preciso dizer que é legítima a reivindicação e a destinação de parte do orçamento federal a deputados e senadores. Eles, mais do que qualquer ministro da fazenda, conhecem a realidade e as necessidades de seus rincões. Portanto, é justo que destinem recursos e atendam às demandas específicas de seus redutos eleitorais. Afinal, eles foram escolhidos, também, para que suas localidades tivessem a atenção do poder público.

Contudo, é preciso destacar um elemento importante que joga contra esta distribuição de recursos federais, em especial, em seu formato atual: a descentralização excessiva das despesas. Na Lei Orçamentário Anual (LOA) de 2026, ficou aprovado o gasto de R$ 192,9 bilhões em investimentos. Ou seja, é recurso que o poder executivo pode destinar para a ampliação ou construção de escolas, hospitais, centros de pesquisa, sistemas de informatização, etc. Por sua vez, nesta mesma LOA, foi aprovado o gasto de R$ 49,9 bilhões em emendas parlamentares, que são despesas destinadas de acordo com as decisões de 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores). Isto significa que o equivalente a mais de 25% das despesas para investimento em ampliação e melhoria da oferta de serviços públicos é pulverizado entre pessoas com interesses e, principalmente, projetos completamente diferentes.

Mesmo admitindo a remota possibilidade de que todo o dinheiro será gasto de forma ilibada, ainda assim a situação está longe do ideal. Como demonstrou a ciência econômica a partir de meados dos anos 1950, bem como as práticas soviética (desde 1917) e chinesa (desde o primeiro plano quinquenal, de 1953), a participação do Estado no planejamento e execução de projetos é fundamental para a superação do atraso nas forças produtivas de um país. É através da centralização das decisões no poder executivo que se alcança a maior eficiência no atendimento das demandas coletivas.

A lógica é a seguinte: quanto mais pulverizado o poder de indicação das despesas, menor é a força do agente público perante os interesses individuais, dele próprio e de quem ele possa vir a beneficiar com suas decisões. É um prefeito que recebe uma emenda milionária de um deputado aliado e vai escolher entre asfaltar uma rua, pintar uma escola ou financiar um evento em seu município. Em todos os casos, a pressão sobre ele é direta. No caso de uma proposta ministerial, vinda do poder executivo, a decisão é tomada a partir de grupos de trabalho, conselhos deliberativos e órgãos colegiados. Obviamente, eles não estão imunes aos ataques dos diferentes grupos de interesse, os quais também têm o direito de reivindicar sua participação na tomada de decisões, mas o corpo técnico que atua no planejamento tem condições mais apropriadas de lidar com a situação do que um simples assessor em nível municipal.

Frequentemente, as emendas parlamentares são gastas de maneira desarticulada com outros projetos de interesse amplo da sociedade. Por exemplo, por mais que seja necessário ensinar robótica aos estudantes do ensino público, de que adianta comprar kits de robótica se a escola sequer tem instalação elétrica, equipamentos de informática ou internet adequados? Como essa medida vai ser efetiva?

Qual a saída? Para esta dimensão do problema, a saída seria o seguinte modelo: o poder executivo, liderado pelo presidente eleito, estabelece quais são as diretrizes para o desenvolvimento econômico e social; depois, através dos ministérios, elaboram-se os planos de ação, indicando as áreas beneficiadas, os valores destinados, etc.; por fim, uma parte do dinheiro é executada pelos respectivos ministérios e outra parte é distribuída entre os projetos apresentados pelos parlamentares. Assim, unir-se-iam, de maneira articulada e estruturada a um grande plano de desenvolvimento, as demandas particulares de cada reduto eleitoral e a oferta de emendas parlamentares.

Bom, como professor, me dou o direito de dizer que, em teoria e com base na ciência econômica, essa é uma das melhores formas de se resolver o problema. Já na prática, vai convencer a turma do centrão...

 



[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Sophie, Talita Ana, Thales, Vivian e Alicia.


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domingo, 25 de janeiro de 2026

O MUNDO TEM UM IMPERADOR. NO BRASIL, A TORCIDA PELO CAOS CONTINUA...

Semana de 12 a 18 de janeiro de 2026

   

Rosângela Palhano Ramalho[1]

  Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, se auto elegeu imperador do mundo. Infelizmente, seu blá-blá-blá ilógico para a ordem econômica mundial estabelecida ultrapassou a barreira da falácia. O ataque à Venezuela, a partir do sequestro de Nicolás Maduro e de sua mulher, foi apenas um aperitivo. Os desdobramentos, duas semanas após o fato, demonstram cristalinamente, que Trump não cederá os seus instintos violentos de submeter o mundo a seus pés, pois lança ameaças à Colômbia, Cuba e em especial, à Groenlândia. E o faz sob as mais variadas justificativas, inclusive a de que o mundo deixará de se aproveitar dos “inocentes e espoliados” Estados Unidos da América. Uma argumentação patética!

Enquanto se assiste inerte aos desvarios e ameaças do americano, aqui no Brasil, os políticos que se autointitulam patriotas logo se curvaram a Trump quase que implorando que o mesmo acontecesse ao Brasil. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) declarou em sua conta no Instagram: “Que todos os ditadores na América Latina, sejam presidentes ou juízes, encontrem o mesmo destino”. O parlamentar Zucco (PL-RS) declarou que a violência figura como uma “... oportunidade histórica para que a Venezuela possa reconstruir suas instituições, restabelecer o Estado de Direito, garantir eleições livres e devolver dignidade ao seu povo”. Vejam só. Golpistas falando de democracia. Outro golpista, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) comemorou: “...acabou, sobretudo, o tempo de passar pano para ditaduras e ditadores”. O próprio Trump já declinou do discurso político e assumiu publicamente que a agressão à Venezuela aconteceu para que os EUA pudessem espoliar a principal riqueza do país, o petróleo. E por fim, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também golpista e pré-candidato à presidência da República, afirmou do alto do seu cinismo: “Ditaduras não caem sozinhas, caem quando os povos escolhem a liberdade”. Falou o filho do presidiário que tentou dar um golpe de Estado no Brasil.

É importante que tais declarações fiquem registradas em nossa história. Como país, vivemos tempos sombrios. A extrema-direita no Brasil conseguiu pautar o golpe de Estado como saída e alimenta, em suas redes digitais, o desejo dos saudosistas da ditadura de 1964. Ou seja, uma ala expressiva da política do Brasil, que tem maioria no Congresso Nacional, continua golpista, pois seu discurso está sempre amparado pela violência política destinada aos adversários e pela aspiração de uma intervenção vinda dos militares nacionais ou de nações estrangeiras.

Embora a oposição política tenha se esforçado em criar um clima de conflito a partir da desinformação e do medo, os resultados econômicos de 2025 se sobrepuseram a este ambiente belicoso. Além disso, o país soube ultrapassar, com maestria, o desafio do aumento da sobretaxação vinda dos Estados Unidos. O PIB deve fechar 2025 com crescimento em torno de 2,5% segundo projeção da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. A taxa de desemprego no país alcançou o menor patamar desde a existência da pesquisa realizada pelo IBGE, e fechou o trimestre encerrado em novembro em 5,2%. Com o aumento do emprego formal, o trabalhador brasileiro se percebe mais seguro em relação às relações de trabalho. Pesquisa realizada pela FGV detectou que, como a desocupação caiu, a percepção de quem trabalha é de maior proteção e garantia dos direitos previstos na lei trabalhista.

Em termos das projeções para 2026, o relatório do Banco Mundial intitulado Perspectivas Econômicas Globais revisou para baixo a projeção para a taxa de crescimento econômico do país em 2026. Ainda cresceremos, mas segundo a instituição, a estimativa caiu de 2,2% para 2%. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, que tem acertado bastante em suas previsões, prevê crescimento de 2,4% em 2026.

A lei orçamentária anual foi aprovada. O Orçamento da União para 2026 será de R$ 6,54 trilhões e as áreas sociais receberam incrementos. A educação receberá para investimentos, R$ 233,7 bilhões do orçamento, a saúde contará com R$ 271,3 bilhões e o Bolsa Família terá a garantia de R$ 158,63 bilhões. Os programas Pé-de-Meia, Gás para Todos e a política de valorização do salário-mínimo continuarão a ser executados. Como estamos em ano eleitoral, os anunciadores do caos continuam a postos e continuam a exigir que o governo, que consideram perdulário, corte de gastos retirando dinheiro dos programas sociais. Pelo visto, não irão prosperar.


[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Antônio Queiroz, Julia Bomfim, Nelson Rosas, Maria Julia Alencar, Jéssica Brito, Icaro Moisés, Lucas Carvalho, Lucas Gabriel, Luís Vinicius e Mariana Sofia.


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