Produção do vídeo: Talita Ana e Maria Júlia
Edição: Natasha.
Produção do vídeo: Talita Ana e Maria Júlia
Edição: Natasha.
Semana de 01 a de 14 de junho de 2026
Rosângela Palhano Ramanho
Caro leitor, junho se inicia e, com ele, as tradicionais festas nordestinas que limitam os trabalhos do Poder Legislativo brasileiro e pausam o andamento de pautas importantes no Congresso Nacional, como o fim da escala de trabalho 6x1. A matéria foi negligenciada no Senado, e seu presidente, Davi Alcolumbre (União Brasil – AP), aproveita o recesso junino para reproduzir, nas festividades Brasil afora, sua dancinha ridícula e desengonçada. Enquanto isso, Hugo Motta (Republicanos – PB), presidente da Câmara dos Deputados, retornou às suas bases na cidade paraibana de Patos, mas seus festejos foram atropelados pela divulgação de áudios em que pede a liberação de R$ 22 milhões do Banco Master em benefício da empresa de sua cunhada. O procedimento ocorreu “por debaixo dos pano, pra ninguém saber...” como diz o forró da dupla de artistas paraibanos Antonio Barros e Cecéu. Quando descoberto, Motta se limitou a dizer que o tal pedido “está dentro da legalidade”.
Em
relação à conjuntura econômica, o noticiário continua a focar no que se
convencionou chamar de “bondades eleitorais” do governo Lula. Os anunciadores
do fim continuam em ação. Vendem o discurso de que as “irresponsabilidades fiscais”
de hoje cobrarão seu preço amanhã, e que este preço será tão alto que os
beneficiários de tais ações desejarão jamais tê-las recebido. Uma música do
cearense Santana, o cantador (de forró), ilustra a melhor resposta dos
vulneráveis assistidos pelas políticas públicas, que em sua peleja diária pela
sobrevivência encontram monstros maiores que o fim do mundo. Musicaliza o
cantador: “Não tenho medo do fim do mundo não, eu tenho medo é do fim do mês
(...) Tenho mais medo do fim do mês, do que do fim do mundo, o mês se acaba
todo mês e é o fim pra quase todo mundo...”
Anunciar o caos é uma estratégia antiga. Analistas vinculados ao sistema financeiro e os partidários da teoria econômica de manual buscam gerar um terror social ao mesmo tempo em que tentam pautar as decisões governamentais. O caminho teórico é simples. Um ajuste fiscal leva à redução da taxa de juros com efeito positivo no combate às desigualdades sociais, queda da inflação e aumento de investimentos, ou seja, maior eficiência econômica. O argumento arrumado não convence. O presidente Lula declarou em entrevista recente que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, “flexibilizou o bolso”, e que já não há “tanta dificuldade de liberar um dinheirinho”. Irritado, o presidente rechaçou o patrulhamento do seu governo e afirmou: “Déficit de 0,20%, déficit de 0,15%... (...) isso não abala o país. Aqui nós vivemos por conta disso e muitas vezes não se preocupam com o avanço que a sociedade brasileira está tendo.”
O
governo projeta, para este ano, um superávit primário de R$ 4,1 bilhões, dentro
do intervalo previsto pelas regras do arcabouço fiscal. Por outro lado, não há
descontrole inflacionário e o nível geral de preços caminha para fechar o ano
dentro das metas estabelecidas pelo Banco Central. Mesmo assim, o jornalismo
econômico está repleto de críticas. E ao reproduzi-las, mais como um ranço
político do que como análise técnica, a imprensa tenta pautar não só a
necessidade do ajuste fiscal, mas também a decisão da próxima reunião do Copom.
Reforça-se que ainda é muito cedo para um afrouxamento monetário.
Enquanto isso, mais uma pesquisa sobre intenção de
voto para as eleições presidenciais que se aproximam indica a reeleição do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo a Genial/Quaest, se o segundo
turno acontecesse hoje, Lula teria 44% dos votos ante 38% do adversário Flávio
Bolsonaro (PL-RJ).
Neste
eterno alavantu e anarriê da quadrilha do jogo democrático, o governo continua
marcando o passo até o balancê.
[1] Professora do Departamento de Economia da
UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Ícaro Moisés,
Júlia Bomfim, Antonio Queiroz, Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Maria Iane,
Sophia Maciel, Talita Ana, Vivian, Alyanne, Ana Carolina Oliveira, Ana Luiza,
Arthur Pessoa e Adrielio
Semana de 04 a 17 de maio de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Finalmente (e não faltaram alertas), o mundo começa
a pagar o preço da guerra de Trump. Em sua sanha colonialista, o presidente
americano impôs consequências também a seu povo. Os preços ao produtor nos
Estados Unidos nos últimos 12 meses encerrados em abril subiram 6%. A última
alta significativa foi verificada em 2022, com os preços do petróleo indo às
alturas em virtude da guerra entre Rússia e Ucrânia. Na Zona do euro, a
inflação subiu para 3%, ficando fora da meta.
No
Brasil, o impacto já é sentido nos preços dos bens industriais. Antes
contribuindo para o controle inflacionário, estes itens sofreram aumento de
0,65% nas primeiras semanas de abril, indicando uma aceleração de preços frente
à apuração prévia da inflação de março, que foi de 0,23%. Os preços dos
aparelhos eletroeletrônicos subiram de 0,5% para 1,06%, os materiais de higiene
pessoal de 0,38% para 1,32% e artigos de limpeza de -0,31% para 0,68%, segundo
apuração do IBGE. Se somarmos a variação dos preços da alimentação no
domicílio, dos bens industrializados e dos serviços comumente contratados pela
população brasileira, registra-se aumento de 0,67% em março. Nem o câmbio
valorizado fechando em torno de R$5 foi suficiente para conter a alta.
No acumulado dos 12 meses terminados em abril, a variação do IPCA foi de 4,39%. Apesar de o indicador encontrar-se dentro dos limites definidos pelo sistema de metas inflacionárias, o mercado financeiro já está comemorando. Afinal, um cenário de pressão inflacionária favorece uma ação mais cautelosa da autoridade monetária, decisão que manterá o Brasil como o olimpo dos rentistas.
O jornalista Pedro Cafardo, em dois artigos de opinião publicados no jornal Valor Econômico, abriu espaço na grande imprensa (e quase não o há), para a análise crítica relativa ao desempenho de nossa economia e à política de juros altos no Brasil. No primeiro artigo, veiculado no dia 10 de junho de 2025 e intitulado “Coisas que acontecem num certo país infeliz”, o autor faz um apanhado dos recentes bons resultados econômicos do país como o controle inflacionário, o crescimento do PIB, a redução da taxa de desemprego, o aumento da rendimento, da renda per capita e dos empregos formais, a redução da desigualdade social, o aumento do lucro líquido bancário e empresarial, os recordes de negociação na Bolsa de Valores... Entretanto, mesmo diante dos avanços, economistas e analistas de mercado anunciam um “terrível descontrole fiscal” e grande parte dos brasileiros continua cética. Já o segundo artigo, de título “Há exagerado pessimismo e muita tolerância com juro alto”, publicado quase 1 ano depois, em 12 de maio de 2026, retoma os bons números da economia que ainda são vistos com desconfiança por parte dos brasileiros. Por fim, Cafardo arremata que a mesma elite econômica e financeira que em coro acusa “gastança, gastança!”, forma as expectativas de inflação, produz a política de juros altos e ainda recebe as benesses dela.
Posicionamentos como este são raros na imprensa
nacional, que tende a priorizar seus espaços ao dogma econômico liberal. Por
exemplo: enquanto o governo atuava para negociar o “tarifaço” americano imposto
ao Brasil a pedido do deputado cassado e fugitivo Eduardo Bolsonaro, o
jornalismo econômico projetava cenários “preocupantes”. As ações do governo
federal como o lançamento do Novo Desenrola, o fim da taxa das blusinhas, o
Programa Brasil Contra o Crime Organizado renderam a seguinte manchete
jornalística: ‘Bondades’ eleitorais de governo Lula colocam fiscal, inflação e
juros em risco (Valor Econômico, 15/05/2026). Nada imparciais, “análises” como
esta proliferam. Sob o pretexto de “salvar” o Brasil deste governo
“incompetente”, pede-se ao governo que ele não governe e perca a eleição.
O cenário
brasileiro continua desafiador, especialmente em ano eleitoral...
[1] Professora do
Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com).
Colaboraram: Jéssica Brito, Ícaro Moisés, Júlia Bomfim, Antonio Queiroz, João Pedro, José Gustavo,
Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Natasha Carvalho, Júlia Almeida e Deborah Mª
Ferreira.
Semana de 20 de abril a 03 de maio de
2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Nas
últimas semanas, vimos ser aprovado um projeto de lei que busca regulamentar a
exploração das terras-raras brasileiras. Isto nos acende um alerta: será que o
Brasil está prestes a reproduzir um padrão de desenvolvimento que já se mostrou
ruim para nossa nação?
Em
meados do século passado, surgiu no Brasil uma corrente do pensamento econômico
que via na industrialização a grande saída para a superação do
subdesenvolvimento que nos assolava. Com a dinamização da produção
manufatureira viriam os ganhos oriundos do aumento da renda, da produtividade,
da eficiência, etc. Contudo, nada disso aconteceria automaticamente. Se foram
as forças do mercado que, historicamente, tinham nos levado ao
subdesenvolvimento, como essas mesmas forças nos tirariam desta situação?
O grande agente responsável pela correção
da rota seria uma instituição que reunisse forças sociais capazes de pressionar
e atuar contra um sistema (internacional) desigual que impunha a nós uma
posição de atraso. O Estado, com o respaldo da sociedade, seria o ator capaz de
reordenar e realinhar os pontos que se mostravam como gargalos ao
desenvolvimento. A ele cabia: investir em infraestrutura e setores de base,
qualificar a mão de obra, proteger a produção local, financiar os grandes
projetos, etc. Através do que ficou conhecido como desenvolvimentismo, o
objetivo era garantir que o país se desenvolvesse sob a liderança da atividade
industrial.
Isto resultou em uma época de bonança, com taxas de
crescimento que ultrapassaram os 10% ao ano. Entre 1972 e 1989 a participação
da indústria de transformação no PIB brasileiro superou os 30%, sendo o auge em
1985, com 35,9% do PIB nacional vindo do setor. Neste período, o país
internalizou a estrutura produtiva daquela que era a tecnologia mais avançada
da época, a metal-mecânica-química. Foi dela que surgiu a era do automóvel e
tudo o que se relaciona com os padrões de produção e consumo “fordistas”. Esse
rápido avanço foi possível graças à associação do capital nacional com o
capital estrangeiro, aquele que detinha a maior parcela do conhecimento
tecnológico.
Contudo,
como uma característica típica do capitalismo, esse paradigma logo deixou de
liderar o desenvolvimento das forças produtivas. Surgiu um novo que mudou em
vários sentidos a forma como a indústria funciona, assumindo um padrão (de
produção e consumo) “toyotista”, enxuto e flexível: o paradigma das tecnologias
da informação e comunicação. Mas as empresas brasileiras não foram as que
conduziram esse processo, sendo este, novamente, liderado pelas multinacionais.
Como
detentores de cerca de 23% das terras-raras do mundo, atrás apenas da China,
que detém cerca de 45%, o Brasil tem nas mãos uma grande moeda de troca a ser
utilizada na relação com as multinacionais dos setores mais avançados,
sobretudo as que não são chinesas. No passado, apoiados em uma burguesia com
alguma força, grandes estadistas tentaram manter a riqueza do território sob
domínio nacional, tal como Vargas com a Petrobrás. Muitos dos que o sucederam,
contudo, não tiveram a mesma intenção ou sorte. Agora, fiquemos de olho para
ver o que vai sair da presidência e do congresso nacional nos próximos meses.
Estamos prestes a passar por uma janela de oportunidade. Os projetos de Lula e
Flávio Bolsonaro são claros nessa questão. Nossas escolhas desse ano vão nos
dizer se vamos, ou não, repetir os erros do passado...
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Alyanne, Ana Carolina Oliveira, Arthur Henrique, Déborah, Eugênio, Gabryela Felix, João Gabriel e Henrique.
Semana de 06 a 19 de abril de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
O presidente Lula encaminha o encerramento
do seu 3º mandato. Político e gestor experiente, com escolhas de governo e
forma de governar já conhecidas, vem desde o dia 04 de outubro de 2022, quando
venceu o pleito, superando diversos desafios. O primeiro foi o de governar
antes mesmo de tomar posse, já que o seu antecessor, assim que perdeu a
eleição, abandonou covardemente a administração federal. A PEC da Transição foi
a solução para a pusilanimidade de Bolsonaro que, não satisfeito, impôs ao país
uma tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023. O governo federal,
resguardado pela atuação do Supremo Tribunal Federal, sobreviveu a esta
aberração e assiste a punição dos envolvidos. Seguiram-se a estes fatos as
insinuações de senilidade do presidente — que o impediria de recandidatar-se, é
claro — o ataque especulativo sofrido pelo real em dezembro de 2024, o tarifaço
americano em julho de 2025, mérito do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e, no
momento, os efeitos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, bem como uma
“possível desistência” de sua candidatura presidencial.
Lula, com maestria, lidou com todos os
contratempos, demonstrando seu vigor físico e utilizando, nos demais casos, o
aparato institucional disponível sem burlar as normas constitucionais. A
habilidade do presidente provoca ira em uma parte da sociedade que se ressente
da possibilidade de ser governada pela 4ª vez por um ex-metalúrgico,
semianalfabeto e sem um dos dedos da mão ceifado por um acidente de trabalho.
Para aquele grupo social há inúmeras perguntas sem resposta: Por que o Brasil
ainda não se transformou em uma Venezuela? Por que os empresários frustrados
com a vitória de Lula permaneceram no Brasil? Por que o presidente brasileiro é
prestigiado pela maioria dos chefes de Estado do mundo? Por que o agronegócio
lucra tanto com um governo progressista? Por que a Bolsa de Valores
ultrapassou, e continua ultrapassando, volumes recordes de negociação? Por que
o real está valorizado? Por que a economia brasileira continua a crescer mesmo
diante dos boicotes e de um cenário externo desfavorável?
Cegos pela intolerância e derrotados pela
realidade, os propagadores do caos não conseguem responder a estas questões e
continuam a fazer o que sabem fazer: anunciar o caos. Como abutres, estão à
espreita... Deliciam-se com a perspectiva de que a inflação brasileira
ultrapassará o teto da meta em 2026. Afinal, inflação em alta, governo em
queda... O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em março, apurado pelo
IBGE, subiu 0,88% em virtude da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o
Irã. O mercado esperava uma alta de até 0,82%. Outro dado bastante comemorado é
o endividamento do consumidor, turbinado em parte pelas apostas em bets.
Segundo levantamento do Banco Central, desde o mês de outubro 29% da renda das
famílias está comprometida com o pagamento de dívidas.
Para solucionar os problemas, é preciso
manter a máquina pública em funcionamento. A partir desta conclusão óbvia, os
anunciadores do caos argumentam: o país vai implodir se continuar gastando,
digo, se o presidente continuar governando. Fala-se isso com um despudor
assustador. Em primeiro lugar, porque não há descontrole das finanças públicas.
No ano de 2025, o governo cumpriu a meta fiscal com folga e, em 2026, o Governo
Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) registrou superávit
primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro e déficit primário de R$ 30,046
bilhões em fevereiro. O saldo líquido é positivo em R$ 56,854 bilhões no 1º
bimestre do ano. Em segundo lugar, não surpreende que todas as propostas de
ajuste fiscal passem pela punição aos aposentados e aos mais vulneráveis como
se parasitários do povo estes fossem.
Finalizemos este texto com um dado que vai
aterrorizar os portadores da desordem. O consumo das famílias puxará a
aceleração do PIB no 1º trimestre! Apesar do endividamento, o volume de vendas
do varejo restrito, que inclui os bens de consumo essenciais, que já tinha
avançado em 0,4% em janeiro, subiu para 0,6% em fevereiro, de acordo com o
IBGE. O varejo ampliado, que inclui veículos, material de construção e vendas
no atacado e no varejo, subiu 1% em fevereiro, frente a alta de 0,9% em
janeiro. Portanto, os números da economia continuam animadores e, ao que
parece, o caos tão desejado não passará de ressentimento enraizado. Novamente.
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Ícaro Moisés, Gabriel Viana,
Júlia Bomfim, João Gabriel Pereira, Antônio Queiroz, Nelson Rosas, Maria Júlia
Alencar, José Gustavo e Sophia Maciel.
Semana de 23 de março a 05 de abril de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Em
1936, Leo Huberman escreveu o livro “História da riqueza do homem”. Sem sombra
de dúvidas, uma das melhores descrições históricas acerca da conformação da sociedade
humana até aquela época. Um dos últimos capítulos do livro é intitulado “Eu
Anexaria os Planetas, se Pudesse...”. Estas não são palavras do autor, mas uma
citação de Cecil John Rhodes, classificado por ele como “um dos maiores
construtores de impérios”. Mas a que Rhodes se referia e por que Huberman o
citou?
A
maior parte do referido capítulo traz uma apresentação lógico-histórica da
transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista. Fato que
se concretiza no último quarto do século XIX, isto significou a destruição das
pequenas unidades produtivas e a transformação destas em grandes corporações
que dominavam setores inteiros, como a produção de metais, energia, ferrovias,
máquinas e equipamentos, automóveis, etc. Para além disso, e como complemento
necessário, também os bancos se transformaram em poucos, mas imensos bolsões de
riqueza.
Como
consequência, diante da disputa mortal entre as grandes corporações, o caos da
anarquia da produção capitalista transformou a concorrência em mero desejo e
retórica de ideólogos do capitalismo. Na prática, as decisões de produção
passaram a ser tomadas por sindicatos patronais, trustes, cartéis e demais
associações que reuniam os produtores e os organizavam diante dos pobres
consumidores. Os preços, então, passaram a ser preços de monopólio e os lucros,
antes rebaixados pela concorrência, passaram a se exacerbar.
Isso
ampliou ainda mais o excedente apropriado pelas grandes corporações,
industriais, comerciais e bancárias, amalgamadas e regidas pela lógica
financeira da época. Essas empresas atingiram magnitude tal que os espaços
nacionais onde atuavam se tornaram insuficientes para a aplicação dos seus
capitais excedentes, seja sob a forma dinheiro, produtiva ou mercadoria. Ou
seja, o espaço geográfico pátrio não comportava mais a expansão de suas
atividades e, muito menos, a aplicação da riqueza complementar oriunda dos
ganhos monopolistas. Para essas empresas, era necessário perpassar as
fronteiras estrangeiras para escoar o excedente e continuar a crescer.
Nesse
contexto, uma das principais manifestações desta nova estrutura do capitalismo
central foi a expansão das atividades das grandes empresas em direção a outros
países. Sendo o texto de 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, e apesar de ele
tê-la “previsto”, o destaque dado pelo autor recai sobre as colônias e a sua
exploração pelas metrópoles. A relação entre os países centrais e as colônias
africanas e asiáticas, relação esta que assume outra forma para a periferia
latino-americana, é aquela descrita na clássica divisão internacional do
trabalho: países avançados fornecem dinheiro, mercadorias e investimentos
diretos à periferia, enquanto estas fornecem matérias-primas e mão de obra
barata àqueles.
É aí
que entra o britânico Cecil Rhodes. Sob a bandeira da paz, de Deus e da
civilização, Huberman o cita: “Sustento que somos a primeira raça do mundo, e
quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor para a raça humana. ... Se houver
um Deus, creio que Ele gostaria que eu pintasse o mapa da África com as cores
britânicas”. E, diante do fato de que o mundo estava se dividindo entre as
diversas potências imperialistas da época, Rhodes diz: “O mundo está quase todo
parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado.
Pense nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos
atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse; penso sempre nisso. Entristece-me
vê-los tão claramente, e ao mesmo tempo tão distantes”.
Bom,
diante desses escritos que remontam a exatos 90 anos e diante dos
acontecimentos planetários atuais, que mostram uma concentração e uma
centralização inéditas da riqueza mundial, da irrupção cada vez mais frequente
de eventos climáticos extremos e da emergência de pandemias e epidemias dos
mais diversos tipos, convido o caro leitor a pensar sobre os motivos pelos
quais os seres humanos resolveram retornar à lua.
Longe
de mim pensar em teorias da conspiração. Mas não te faz refletir sobre quais
interesses serão atendidos com a execução de um projeto desse tipo?
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Júlia Araújo,
Maria Eduarda, Thales, Genifer, Gabriel Viana e Talita Ana.
Semana de 16 a 22 de março de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
O presidente americano, Donald Trump,
continua em sua incursão contra o mundo. Desta vez, aliado a Israel, produziu
uma guerra contra o Irã. Com uma visão superdimensionada de si mesmo e tentando
resgatar o protagonismo geopolítico e econômico dos Estados Unidos, o
presidente americano pôs o mundo de joelhos. Assim como as falsas acusações que
dirigiu a Maduro e à Venezuela, atribuiu ao Irã a ameaça nuclear. Ao bombardear
e assassinar o líder supremo do país, Ali Khamenei, Trump concluiu que o Irã
estava liquidado. Ledo engano. Em reação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz,
canal marítimo por onde escoa 20% do petróleo consumido no mundo e passou a
atacar as bases americanas nos países vizinhos espalhando o conflito por todo o
Oriente Médio.
Em sua aventura voraz, Trump e Netanyahu
impuseram a eles próprios e ao mundo as consequências. O preço do barril de petróleo,
que em média custava US$ 73, ultrapassou, no ápice do conflito, o valor de US$
119. Uma crise energética global surge no horizonte. Os Estados Unidos
aliviaram as sanções a petroleiros russos em alto mar com o intuito de aumentar
a oferta e distensionar os preços em seu território. Na Europa, o preço do gás
natural subiu até 35% em apenas dois dias.
No Brasil, os fornecedores de óleo diesel
turbinaram seus lucros às custas da população, antecipando uma alta de até 20%
sobre os preços. Mas o pior está por vir. Segundo os analistas, se a guerra se
estender, o país será desabastecido, já que um navio leva 15 dias para chegar
com as cargas do óleo combustível. Além deste, diversos setores que usam o
petróleo como fonte de energia ou como insumo, estão recompondo os preços. O
transporte rodoviário em geral, as passagens aéreas no país, a alimentação fora
de casa, os fertilizantes (dependentes em 85% da importação de ureia e amônia),
os plásticos e as borrachas, que dependem da nafta, seu principal insumo
produtivo, e o cimento, que precisa do coque como combustível para seus fornos,
já apresentam aumento dos preços.
Diante desse cenário, é certo que o país
não sairá ileso do confronto criado pela dupla Trump/Netanyahu. O PIB
brasileiro desacelerou em 2025 quando comparado a 2024. O crescimento de 2,3%
no ano passado foi arrefecido pela política monetária de juros altos, único
remédio contra a inflação utilizado pelo Banco Central do Brasil. As incertezas
causadas pela guerra trumpista lança ao país mais desafios, justamente quando o
ciclo de alta dos juros já “estava contratado”. De fato, ao se reunir entre os
dias 17 e 18 de março deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu
a taxa de juros Selic de 15% para 14,75% ao ano, primeiro corte da taxa desde
maio de 2024. Esperava-se uma redução de 0,5%, entretanto, prevaleceu um corte
mais modesto, que veio acompanhado do alerta para a ocorrência de pressão
inflacionária derivada da guerra declarada ao Oriente Médio.
Enquanto este texto era concluído, o Banco
Central divulgou a ata da última reunião do Copom e ainda impressiona a
linguagem dura em relação ao desempenho econômico interno. Crescer no regime de
metas inflacionárias é um problema. Inicialmente, a ata o texto comemora a
desaceleração econômica dizendo que “...o resultado do PIB no último trimestre
de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica...” mas
finaliza lamentando que “...o mercado de trabalho segue resiliente”. O próprio
Copom admite que a inflação está sob controle “...apresentando algum
arrefecimento...” mas, alimenta o monstro alertando que “...as medidas
subjacentes seguiram, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”. O
documento nos pede mais sacrifício. Para isso, nos brinda com uma dose de
teoria econômica. “O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é
um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da
economia e convergência da inflação à meta”. E eis que uma questão surge: por
que não reequilibrar oferta e demanda pelo aumento da oferta agregada? Sinto
dizer caro leitor, que esta solução está solenemente descartada pela teoria
econômica dominante. Ela faz parte dos fenômenos impossíveis da economia.
Discordamos. Mas como não determinamos os rumos da política econômica, nos
resta informar que, embora outras soluções existam, não há espaço para elas.
Enfim, 2026 se configura como o ano das
incertezas. A guerra trumpista, se estendida, tombará a economia mundial e
contribuirá para que a nossa política monetária seja ainda mais contracionista.
Some-se a isso o fato de que estamos em um ano eleitoral com o golpismo à
espreita, esperando uma nova oportunidade para emergir...
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas,
Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Maria Clara
Gueiros, Vivian Maria, Sophie Ventura e Sophia Martins.