Semana de 02 a 08 de março de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Para os que não
estão familiarizados com o jargão econômico, PIB é abreviação de Produto
Interno Bruto. Como define o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), órgão estatal responsável pelo cálculo oficial no Brasil, “o PIB é um
indicador de fluxo de novos bens e serviços finais produzidos durante um
período”. Ou seja, é a soma da riqueza nova produzida em um território ao longo
de um tempo determinado.
Os responsáveis por
produzirem essa riqueza são os setores da atividade econômica, distribuídos
entre Agropecuária, Indústria e Serviços. Sob esta perspectiva, podemos
analisar o funcionamento da economia nacional pela ótica da produção/oferta. Ou
seja, podemos identificar quais atividades são as mais importantes para a
dinâmica produtiva em termos de criação de riqueza. A partir dos dados da
Contas Nacionais Trimestrais, é possível observar isto.
Desde 1997, o setor
que mais contribuiu para o crescimento da economia nacional foram os Serviços,
podendo-se atribuir, em média, cerca de 73% da variação do PIB ao setor. O
restante foi responsabilidade da Agropecuária (12%) e da Indústria (15%), com a
importância de cada uma variando ao longo do tempo.
Por exemplo, entre
2003 e 2010, mais de 20% do crescimento do PIB foi puxado pela indústria. Para
quem não lembra, este foi o período de maior crescimento da economia brasileira
desde os anos 1980. Porém, entre 2011 e 2019, a indústria puxou nossa economia
para baixo, diminuindo significativamente seu papel na atividade econômica
nacional. Neste interregno, tivemos uma crise iniciada em meados de 2014, que
se estendeu até 2016, sendo que os setores só retomaram uma trajetória
consistente de crescimento em 2017.
Por fim, entre 2020
e 2025, a Agropecuária contribuiu, em média, um pouco mais do que a Indústria
para a economia brasileira, sendo 16,9% de contribuição contra 14,3%,
respectivamente. Para além das safras recorde, beneficiando o agro brasileiro,
tivemos a Pandemia de Covid-19, que afetou nossa produção industrial. A
situação brasileira foi tal que apenas em 2022 o valor do PIB, em termos reais,
superou o observado em 2014. No caso da Indústria, isto só ocorreu em 2024.
Analisando apenas
os dados desses últimos anos, em especial o que aconteceu em 2025, apesar dos
indícios, ainda não podemos afirmar com clareza que a atual desaceleração da
economia reflete o início de uma nova fase de crise cíclica (crise de
superprodução). O motivo é que alguns acontecimentos estão perturbando o atual
ciclo econômico.
O primeiro deles é
o fato de que, entre 2018 e 2019, se gestavam os fatores objetivos para a
manifestação de uma crise de superprodução. Contudo, as medidas de
enfrentamento à Pandemia de Covid-19, em 2020, alteraram profundamente o
próprio funcionamento do capitalismo. O resultado disso foi uma crise singular,
que ficou conhecida como Crise da Covid. Em combate a ela, foi adotado um amplo
conjunto de medidas de recuperação econômica, o que, efetivamente, alterou as
condições de manifestação da superprodução generalizada. Como resultado, o
desenvolvimento capitalista não passou por uma fase que lhe é essencial: o
saneamento e destruição dos capitais em excesso. Esta deformação na dinâmica da
acumulação, por sua vez, está se refletindo no ciclo atual e, dada a
singularidade da situação, fica difícil prever o que irá acontecer.
Para piorar,
vivemos um momento em que a grande potência que liderou o desenvolvimento
capitalista no século XX passa por severas dificuldades para manter esse posto.
Além das disputas nos campos tradicionais, temos que conviver com um país
liderado por um ser indescritível, que consegue misturar o pior do passado com
o pior do presente da humanidade. Isto, também, altera a maneira como a
economia se movimenta do ponto de vista
cíclico, na medida
em que as ações dos EUA têm alterado um conjunto de relações econômicas já
estabelecidas. Vide o que já está acontecendo com o preço internacional do
petróleo e o preço dos combustíveis aqui.
Bom, podemos ver
que aquele que era o grande trunfo para a reeleição de Lula está sob ameaça.
Antes vista como carta na manga, a bonança econômica está sob suspeita. Para
piorar, mais uma vez, a mídia e os algoritmos das redes sociais já começaram a
bombardear os eleitores com supostas associações entre Daniel Vorcaro, INSS,
STF e Lula.
Para quem, no ano
passado, achou que a reeleição estava ganha, aprenda de uma vez por todas: o
capitalismo é um sistema muito contraditório e dinâmico, e a burguesia está aí
para fazer com que isto se mantenha exatamente como está, aqui ou no resto do
mundo. A nós, só resta lutar...
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Lucas Carvalho, Lucas
Gabriel, Luiz Vinicius.


