quinta-feira, 3 de setembro de 2026

GOLPE, TRAIÇÃO E DOGMA ECONÔMICO: A ECONOMIA BRASILEIRA SEGUE RESISTINDO...

    Semana de 10 a 23 de agosto de 2026   

Rosângela Palhano Ramalho

  Estimado leitor, estamos às vésperas da campanha eleitoral no Brasil. Este ano, elegeremos o presidente da República, senadores, deputados federais e estaduais e governadores. Como de costume, a economia ganha destaque no debate eleitoral, e os eleitores buscam entender quais propostas orientarão as futuras gestões federal e estadual nessa área.
    Desde o último pleito, marcado por inúmeros motins — incluindo a tentativa de golpe de Estado, que jamais deve ser esquecida —, o PIB brasileiro cresceu 3,1% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Para 2026, a Secretaria de Política Econômica do Governo Federal estima nova alta de 2,3%, apesar dos indícios de arrefecimento da atividade econômica. Segundo o Monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas (FGV), entre janeiro e março, a economia cresceu 1,1%, e, no segundo trimestre, a alta foi de apenas 0,3%. Dentre as variáveis que compõem o indicador, o consumo segue apresentando os melhores resultados, com sua atenuação ditada pela queda dos investimentos.
  A desaceleração da economia observada nos últimos anos já era prevista. A disputa entre as teorias econômicas adotadas no Ministério da Fazenda e no Banco Central permanece em curso. O conflito entre as políticas fiscal e monetária marcou toda a gestão atual e segue gerando tensões, fato amplamente repercutido pela imprensa nacional. Inúmeros especialistas são ouvidos diariamente pelo jornalismo econômico, e um improvável caos inflacionário associado ao descontrole das contas públicas é alimentado incessantemente. Sem trégua. Aparecem, então, os administradores empresariais das contas públicas alheias propondo o de sempre – um novo e severo ajuste fiscal. Figuras ilustres, como Armínio Fraga e Henrique Meirelles, reaparecem para repetir a mesma receita: o ajuste deve ser concentrado, de preferência, no corte de auxílios e benefícios destinados à população mais vulnerável.
  Como já se sabe, as soluções propostas pela teoria econômica neoliberal — vertente que se consolidou como verdade absoluta da ciência econômica — produzem desemprego, queda da renda e retração da atividade econômica. Entretanto, oito dos treze candidatos à presidência da República não se constrangem em reproduzir a insensatez teórica como solução e a repetem em seus planos de governo como um mantra. A crueldade vem disfarçada em termos sofisticados. Propõe-se a desvinculação entre o reajuste do salário-mínimo e os benefícios previdenciários e assistenciais, a exemplo das aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC). Em outras palavras, busca-se acelerar a morte dos aposentados e pessoas mais pobres, impedindo-os de receber ganhos reais de renda, já que estes são vistos apenas como um fardo para o Estado. De forma igualmente cruel, circula a proposta de uma nova reforma da Previdência, apenas sete anos após a implantação da última. Nesta, o sistema previdenciário passaria a ser financiado também pela iniciativa privada, e homens e mulheres de áreas urbanas e rurais, sem distinção, se aposentariam com idade mínima de 67 anos. Mudanças nada sutis, que punem quem precisa sobreviver e beneficia a classe rentista.
  O governo atual, apesar das pressões, tem conseguido sustentar bons resultados econômicos nos últimos quatro anos, apesar do peso da política monetária contracionista e dos atentados à economia e à soberania brasileiras promovidos pela extrema-direita. O fato é que, entre o estímulo fiscal, o aperto monetário e as situações adversas, perdura a resiliência da economia do país. E isto certamente pesará na escolha do eleitor. Acompanhemos.




Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Alyanne Sofia, Julia Bomfim, Arthur Pessoa, Ana Carolina Oliveira, Sophia Maciel, Adrielio Álvaro, Luiz Vinícius, Flávio Tobias e Mariana Sofia.

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