terça-feira, 19 de maio de 2026

VAMOS REPETIR OS ERROS DO PASSADO?

 

  Semana de 20 de abril a 03 de maio de 2026  

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]   

           Nas últimas semanas, vimos ser aprovado um projeto de lei que busca regulamentar a exploração das terras-raras brasileiras. Isto nos acende um alerta: será que o Brasil está prestes a reproduzir um padrão de desenvolvimento que já se mostrou ruim para nossa nação?

           Em meados do século passado, surgiu no Brasil uma corrente do pensamento econômico que via na industrialização a grande saída para a superação do subdesenvolvimento que nos assolava. Com a dinamização da produção manufatureira viriam os ganhos oriundos do aumento da renda, da produtividade, da eficiência, etc. Contudo, nada disso aconteceria automaticamente. Se foram as forças do mercado que, historicamente, tinham nos levado ao subdesenvolvimento, como essas mesmas forças nos tirariam desta situação?

           O grande agente responsável pela correção da rota seria uma instituição que reunisse forças sociais capazes de pressionar e atuar contra um sistema (internacional) desigual que impunha a nós uma posição de atraso. O Estado, com o respaldo da sociedade, seria o ator capaz de reordenar e realinhar os pontos que se mostravam como gargalos ao desenvolvimento. A ele cabia: investir em infraestrutura e setores de base, qualificar a mão de obra, proteger a produção local, financiar os grandes projetos, etc. Através do que ficou conhecido como desenvolvimentismo, o objetivo era garantir que o país se desenvolvesse sob a liderança da atividade industrial.

           Os grandes beneficiários dessas medidas foram as empresas do setor. Muitas delas nacionais, privadas e estatais, muitas outras estrangeiras. De um lado, empresários com pouca experiência na produção manufatureira, do outro, grandes multinacionais que intensificavam sua expansão em direção aos países periféricos. No fim das contas, como regra, os setores mais avançados de tecnologia de ponta foram ocupados por empresas vindas de fora. Para o capital nacional restou ser subsidiário delas através do fornecimento de insumos mais ou menos elaborados e, principalmente, de matérias-primas básicas. Quase tudo produzido por aqui, pela Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional, Usiminas, Petrobrás, etc.

Isto resultou em uma época de bonança, com taxas de crescimento que ultrapassaram os 10% ao ano. Entre 1972 e 1989 a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro superou os 30%, sendo o auge em 1985, com 35,9% do PIB nacional vindo do setor. Neste período, o país internalizou a estrutura produtiva daquela que era a tecnologia mais avançada da época, a metal-mecânica-química. Foi dela que surgiu a era do automóvel e tudo o que se relaciona com os padrões de produção e consumo “fordistas”. Esse rápido avanço foi possível graças à associação do capital nacional com o capital estrangeiro, aquele que detinha a maior parcela do conhecimento tecnológico.

           Contudo, como uma característica típica do capitalismo, esse paradigma logo deixou de liderar o desenvolvimento das forças produtivas. Surgiu um novo que mudou em vários sentidos a forma como a indústria funciona, assumindo um padrão (de produção e consumo) “toyotista”, enxuto e flexível: o paradigma das tecnologias da informação e comunicação. Mas as empresas brasileiras não foram as que conduziram esse processo, sendo este, novamente, liderado pelas multinacionais.

           Para nós, a grande consequência foi a reestruturação produtiva que se seguiu nos anos 1990, que representou o fim do sonho desenvolvimentista e de um país liderado pela atividade industrial. As grandes empresas multinacionais reviram seus planos para o Brasil e adaptaram nosso papel às suas estratégias baseadas em cadeias produtivas globais. Por exemplo, voltamos a ser uma economia fundamentalmente primário-exportadora, setor este ainda dominado por capital nacional. O resultado é que a participação da indústria no PIB brasileiro caiu para 16,8% em 1995, e não superou mais o pico de 17,4% de 2004.

           Como detentores de cerca de 23% das terras-raras do mundo, atrás apenas da China, que detém cerca de 45%, o Brasil tem nas mãos uma grande moeda de troca a ser utilizada na relação com as multinacionais dos setores mais avançados, sobretudo as que não são chinesas. No passado, apoiados em uma burguesia com alguma força, grandes estadistas tentaram manter a riqueza do território sob domínio nacional, tal como Vargas com a Petrobrás. Muitos dos que o sucederam, contudo, não tiveram a mesma intenção ou sorte. Agora, fiquemos de olho para ver o que vai sair da presidência e do congresso nacional nos próximos meses. Estamos prestes a passar por uma janela de oportunidade. Os projetos de Lula e Flávio Bolsonaro são claros nessa questão. Nossas escolhas desse ano vão nos dizer se vamos, ou não, repetir os erros do passado...




[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Alyanne, Ana Carolina Oliveira, Arthur Henrique, Déborah, Eugênio, Gabryela Felix, João Gabriel e Henrique.

 


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