quinta-feira, 28 de maio de 2026

INFLAÇÃO, JUROS E ELEIÇÃO

 Semana de 04 a 17 de maio de 2026  

Rosângela Palhano Ramalho[1]

    Finalmente (e não faltaram alertas), o mundo começa a pagar o preço da guerra de Trump. Em sua sanha colonialista, o presidente americano impôs consequências também a seu povo. Os preços ao produtor nos Estados Unidos nos últimos 12 meses encerrados em abril subiram 6%. A última alta significativa foi verificada em 2022, com os preços do petróleo indo às alturas em virtude da guerra entre Rússia e Ucrânia. Na Zona do euro, a inflação subiu para 3%, ficando fora da meta.

    No Brasil, o impacto já é sentido nos preços dos bens industriais. Antes contribuindo para o controle inflacionário, estes itens sofreram aumento de 0,65% nas primeiras semanas de abril, indicando uma aceleração de preços frente à apuração prévia da inflação de março, que foi de 0,23%. Os preços dos aparelhos eletroeletrônicos subiram de 0,5% para 1,06%, os materiais de higiene pessoal de 0,38% para 1,32% e artigos de limpeza de -0,31% para 0,68%, segundo apuração do IBGE. Se somarmos a variação dos preços da alimentação no domicílio, dos bens industrializados e dos serviços comumente contratados pela população brasileira, registra-se aumento de 0,67% em março. Nem o câmbio valorizado fechando em torno de R$5 foi suficiente para conter a alta.

    No acumulado dos 12 meses terminados em abril, a variação do IPCA foi de 4,39%. Apesar de o indicador encontrar-se dentro dos limites definidos pelo sistema de metas inflacionárias, o mercado financeiro já está comemorando. Afinal, um cenário de pressão inflacionária favorece uma ação mais cautelosa da autoridade monetária, decisão que manterá o Brasil como o olimpo dos rentistas.

    O jornalista Pedro Cafardo, em dois artigos de opinião publicados no jornal Valor Econômico, abriu espaço na grande imprensa (e quase não o há), para a análise crítica relativa ao desempenho de nossa economia e à política de juros altos no Brasil. No primeiro artigo, veiculado no dia 10 de junho de 2025 e intitulado “Coisas que acontecem num certo país infeliz”, o autor faz um apanhado dos recentes bons resultados econômicos do país como o controle inflacionário, o crescimento do PIB, a redução da taxa de desemprego, o aumento da rendimento, da renda per capita e dos empregos formais, a redução da desigualdade social, o aumento do lucro líquido bancário e empresarial, os recordes de negociação na Bolsa de Valores... Entretanto, mesmo diante dos avanços, economistas e analistas de mercado anunciam um “terrível descontrole fiscal” e grande parte dos brasileiros continua cética. Já o segundo artigo, de título “Há exagerado pessimismo e muita tolerância com juro alto”, publicado quase 1 ano depois, em 12 de maio de 2026, retoma os bons números da economia que ainda são vistos com desconfiança por parte dos brasileiros. Por fim, Cafardo arremata que a mesma elite econômica e financeira que em coro acusa “gastança, gastança!”, forma as expectativas de inflação, produz a política de juros altos e ainda recebe as benesses dela.

    Posicionamentos como este são raros na imprensa nacional, que tende a priorizar seus espaços ao dogma econômico liberal. Por exemplo: enquanto o governo atuava para negociar o “tarifaço” americano imposto ao Brasil a pedido do deputado cassado e fugitivo Eduardo Bolsonaro, o jornalismo econômico projetava cenários “preocupantes”. As ações do governo federal como o lançamento do Novo Desenrola, o fim da taxa das blusinhas, o Programa Brasil Contra o Crime Organizado renderam a seguinte manchete jornalística: ‘Bondades’ eleitorais de governo Lula colocam fiscal, inflação e juros em risco (Valor Econômico, 15/05/2026). Nada imparciais, “análises” como esta proliferam. Sob o pretexto de “salvar” o Brasil deste governo “incompetente”, pede-se ao governo que ele não governe e perca a eleição.

    O cenário brasileiro continua desafiador, especialmente em ano eleitoral...




[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Ícaro Moisés, Júlia Bomfim, Antonio Queiroz, João Pedro, José Gustavo, Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Natasha Carvalho, Júlia Almeida e Deborah Mª Ferreira.

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terça-feira, 19 de maio de 2026

VAMOS REPETIR OS ERROS DO PASSADO?

 

  Semana de 20 de abril a 03 de maio de 2026  

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]   

           Nas últimas semanas, vimos ser aprovado um projeto de lei que busca regulamentar a exploração das terras-raras brasileiras. Isto nos acende um alerta: será que o Brasil está prestes a reproduzir um padrão de desenvolvimento que já se mostrou ruim para nossa nação?

           Em meados do século passado, surgiu no Brasil uma corrente do pensamento econômico que via na industrialização a grande saída para a superação do subdesenvolvimento que nos assolava. Com a dinamização da produção manufatureira viriam os ganhos oriundos do aumento da renda, da produtividade, da eficiência, etc. Contudo, nada disso aconteceria automaticamente. Se foram as forças do mercado que, historicamente, tinham nos levado ao subdesenvolvimento, como essas mesmas forças nos tirariam desta situação?

           O grande agente responsável pela correção da rota seria uma instituição que reunisse forças sociais capazes de pressionar e atuar contra um sistema (internacional) desigual que impunha a nós uma posição de atraso. O Estado, com o respaldo da sociedade, seria o ator capaz de reordenar e realinhar os pontos que se mostravam como gargalos ao desenvolvimento. A ele cabia: investir em infraestrutura e setores de base, qualificar a mão de obra, proteger a produção local, financiar os grandes projetos, etc. Através do que ficou conhecido como desenvolvimentismo, o objetivo era garantir que o país se desenvolvesse sob a liderança da atividade industrial.

           Os grandes beneficiários dessas medidas foram as empresas do setor. Muitas delas nacionais, privadas e estatais, muitas outras estrangeiras. De um lado, empresários com pouca experiência na produção manufatureira, do outro, grandes multinacionais que intensificavam sua expansão em direção aos países periféricos. No fim das contas, como regra, os setores mais avançados de tecnologia de ponta foram ocupados por empresas vindas de fora. Para o capital nacional restou ser subsidiário delas através do fornecimento de insumos mais ou menos elaborados e, principalmente, de matérias-primas básicas. Quase tudo produzido por aqui, pela Vale do Rio Doce, Companhia Siderúrgica Nacional, Usiminas, Petrobrás, etc.

Isto resultou em uma época de bonança, com taxas de crescimento que ultrapassaram os 10% ao ano. Entre 1972 e 1989 a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro superou os 30%, sendo o auge em 1985, com 35,9% do PIB nacional vindo do setor. Neste período, o país internalizou a estrutura produtiva daquela que era a tecnologia mais avançada da época, a metal-mecânica-química. Foi dela que surgiu a era do automóvel e tudo o que se relaciona com os padrões de produção e consumo “fordistas”. Esse rápido avanço foi possível graças à associação do capital nacional com o capital estrangeiro, aquele que detinha a maior parcela do conhecimento tecnológico.

           Contudo, como uma característica típica do capitalismo, esse paradigma logo deixou de liderar o desenvolvimento das forças produtivas. Surgiu um novo que mudou em vários sentidos a forma como a indústria funciona, assumindo um padrão (de produção e consumo) “toyotista”, enxuto e flexível: o paradigma das tecnologias da informação e comunicação. Mas as empresas brasileiras não foram as que conduziram esse processo, sendo este, novamente, liderado pelas multinacionais.

           Para nós, a grande consequência foi a reestruturação produtiva que se seguiu nos anos 1990, que representou o fim do sonho desenvolvimentista e de um país liderado pela atividade industrial. As grandes empresas multinacionais reviram seus planos para o Brasil e adaptaram nosso papel às suas estratégias baseadas em cadeias produtivas globais. Por exemplo, voltamos a ser uma economia fundamentalmente primário-exportadora, setor este ainda dominado por capital nacional. O resultado é que a participação da indústria no PIB brasileiro caiu para 16,8% em 1995, e não superou mais o pico de 17,4% de 2004.

           Como detentores de cerca de 23% das terras-raras do mundo, atrás apenas da China, que detém cerca de 45%, o Brasil tem nas mãos uma grande moeda de troca a ser utilizada na relação com as multinacionais dos setores mais avançados, sobretudo as que não são chinesas. No passado, apoiados em uma burguesia com alguma força, grandes estadistas tentaram manter a riqueza do território sob domínio nacional, tal como Vargas com a Petrobrás. Muitos dos que o sucederam, contudo, não tiveram a mesma intenção ou sorte. Agora, fiquemos de olho para ver o que vai sair da presidência e do congresso nacional nos próximos meses. Estamos prestes a passar por uma janela de oportunidade. Os projetos de Lula e Flávio Bolsonaro são claros nessa questão. Nossas escolhas desse ano vão nos dizer se vamos, ou não, repetir os erros do passado...




[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Alyanne, Ana Carolina Oliveira, Arthur Henrique, Déborah, Eugênio, Gabryela Felix, João Gabriel e Henrique.

 


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