Produção do vídeo: Talita Ana e Maria Júlia
Edição: Natasha.
Produção do vídeo: Talita Ana e Maria Júlia
Edição: Natasha.
Semana de 01 a de 14 de junho de 2026
Rosângela Palhano Ramanho
Caro leitor, junho se inicia e, com ele, as tradicionais festas nordestinas que limitam os trabalhos do Poder Legislativo brasileiro e pausam o andamento de pautas importantes no Congresso Nacional, como o fim da escala de trabalho 6x1. A matéria foi negligenciada no Senado, e seu presidente, Davi Alcolumbre (União Brasil – AP), aproveita o recesso junino para reproduzir, nas festividades Brasil afora, sua dancinha ridícula e desengonçada. Enquanto isso, Hugo Motta (Republicanos – PB), presidente da Câmara dos Deputados, retornou às suas bases na cidade paraibana de Patos, mas seus festejos foram atropelados pela divulgação de áudios em que pede a liberação de R$ 22 milhões do Banco Master em benefício da empresa de sua cunhada. O procedimento ocorreu “por debaixo dos pano, pra ninguém saber...” como diz o forró da dupla de artistas paraibanos Antonio Barros e Cecéu. Quando descoberto, Motta se limitou a dizer que o tal pedido “está dentro da legalidade”.
Em
relação à conjuntura econômica, o noticiário continua a focar no que se
convencionou chamar de “bondades eleitorais” do governo Lula. Os anunciadores
do fim continuam em ação. Vendem o discurso de que as “irresponsabilidades fiscais”
de hoje cobrarão seu preço amanhã, e que este preço será tão alto que os
beneficiários de tais ações desejarão jamais tê-las recebido. Uma música do
cearense Santana, o cantador (de forró), ilustra a melhor resposta dos
vulneráveis assistidos pelas políticas públicas, que em sua peleja diária pela
sobrevivência encontram monstros maiores que o fim do mundo. Musicaliza o
cantador: “Não tenho medo do fim do mundo não, eu tenho medo é do fim do mês
(...) Tenho mais medo do fim do mês, do que do fim do mundo, o mês se acaba
todo mês e é o fim pra quase todo mundo...”
Anunciar o caos é uma estratégia antiga. Analistas vinculados ao sistema financeiro e os partidários da teoria econômica de manual buscam gerar um terror social ao mesmo tempo em que tentam pautar as decisões governamentais. O caminho teórico é simples. Um ajuste fiscal leva à redução da taxa de juros com efeito positivo no combate às desigualdades sociais, queda da inflação e aumento de investimentos, ou seja, maior eficiência econômica. O argumento arrumado não convence. O presidente Lula declarou em entrevista recente que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, “flexibilizou o bolso”, e que já não há “tanta dificuldade de liberar um dinheirinho”. Irritado, o presidente rechaçou o patrulhamento do seu governo e afirmou: “Déficit de 0,20%, déficit de 0,15%... (...) isso não abala o país. Aqui nós vivemos por conta disso e muitas vezes não se preocupam com o avanço que a sociedade brasileira está tendo.”
O
governo projeta, para este ano, um superávit primário de R$ 4,1 bilhões, dentro
do intervalo previsto pelas regras do arcabouço fiscal. Por outro lado, não há
descontrole inflacionário e o nível geral de preços caminha para fechar o ano
dentro das metas estabelecidas pelo Banco Central. Mesmo assim, o jornalismo
econômico está repleto de críticas. E ao reproduzi-las, mais como um ranço
político do que como análise técnica, a imprensa tenta pautar não só a
necessidade do ajuste fiscal, mas também a decisão da próxima reunião do Copom.
Reforça-se que ainda é muito cedo para um afrouxamento monetário.
Enquanto isso, mais uma pesquisa sobre intenção de
voto para as eleições presidenciais que se aproximam indica a reeleição do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo a Genial/Quaest, se o segundo
turno acontecesse hoje, Lula teria 44% dos votos ante 38% do adversário Flávio
Bolsonaro (PL-RJ).
Neste
eterno alavantu e anarriê da quadrilha do jogo democrático, o governo continua
marcando o passo até o balancê.
[1] Professora do Departamento de Economia da
UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Ícaro Moisés,
Júlia Bomfim, Antonio Queiroz, Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Maria Iane,
Sophia Maciel, Talita Ana, Vivian, Alyanne, Ana Carolina Oliveira, Ana Luiza,
Arthur Pessoa e Adrielio
Semana de 04 a 17 de maio de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Finalmente (e não faltaram alertas), o mundo começa
a pagar o preço da guerra de Trump. Em sua sanha colonialista, o presidente
americano impôs consequências também a seu povo. Os preços ao produtor nos
Estados Unidos nos últimos 12 meses encerrados em abril subiram 6%. A última
alta significativa foi verificada em 2022, com os preços do petróleo indo às
alturas em virtude da guerra entre Rússia e Ucrânia. Na Zona do euro, a
inflação subiu para 3%, ficando fora da meta.
No
Brasil, o impacto já é sentido nos preços dos bens industriais. Antes
contribuindo para o controle inflacionário, estes itens sofreram aumento de
0,65% nas primeiras semanas de abril, indicando uma aceleração de preços frente
à apuração prévia da inflação de março, que foi de 0,23%. Os preços dos
aparelhos eletroeletrônicos subiram de 0,5% para 1,06%, os materiais de higiene
pessoal de 0,38% para 1,32% e artigos de limpeza de -0,31% para 0,68%, segundo
apuração do IBGE. Se somarmos a variação dos preços da alimentação no
domicílio, dos bens industrializados e dos serviços comumente contratados pela
população brasileira, registra-se aumento de 0,67% em março. Nem o câmbio
valorizado fechando em torno de R$5 foi suficiente para conter a alta.
No acumulado dos 12 meses terminados em abril, a variação do IPCA foi de 4,39%. Apesar de o indicador encontrar-se dentro dos limites definidos pelo sistema de metas inflacionárias, o mercado financeiro já está comemorando. Afinal, um cenário de pressão inflacionária favorece uma ação mais cautelosa da autoridade monetária, decisão que manterá o Brasil como o olimpo dos rentistas.
O jornalista Pedro Cafardo, em dois artigos de opinião publicados no jornal Valor Econômico, abriu espaço na grande imprensa (e quase não o há), para a análise crítica relativa ao desempenho de nossa economia e à política de juros altos no Brasil. No primeiro artigo, veiculado no dia 10 de junho de 2025 e intitulado “Coisas que acontecem num certo país infeliz”, o autor faz um apanhado dos recentes bons resultados econômicos do país como o controle inflacionário, o crescimento do PIB, a redução da taxa de desemprego, o aumento da rendimento, da renda per capita e dos empregos formais, a redução da desigualdade social, o aumento do lucro líquido bancário e empresarial, os recordes de negociação na Bolsa de Valores... Entretanto, mesmo diante dos avanços, economistas e analistas de mercado anunciam um “terrível descontrole fiscal” e grande parte dos brasileiros continua cética. Já o segundo artigo, de título “Há exagerado pessimismo e muita tolerância com juro alto”, publicado quase 1 ano depois, em 12 de maio de 2026, retoma os bons números da economia que ainda são vistos com desconfiança por parte dos brasileiros. Por fim, Cafardo arremata que a mesma elite econômica e financeira que em coro acusa “gastança, gastança!”, forma as expectativas de inflação, produz a política de juros altos e ainda recebe as benesses dela.
Posicionamentos como este são raros na imprensa
nacional, que tende a priorizar seus espaços ao dogma econômico liberal. Por
exemplo: enquanto o governo atuava para negociar o “tarifaço” americano imposto
ao Brasil a pedido do deputado cassado e fugitivo Eduardo Bolsonaro, o
jornalismo econômico projetava cenários “preocupantes”. As ações do governo
federal como o lançamento do Novo Desenrola, o fim da taxa das blusinhas, o
Programa Brasil Contra o Crime Organizado renderam a seguinte manchete
jornalística: ‘Bondades’ eleitorais de governo Lula colocam fiscal, inflação e
juros em risco (Valor Econômico, 15/05/2026). Nada imparciais, “análises” como
esta proliferam. Sob o pretexto de “salvar” o Brasil deste governo
“incompetente”, pede-se ao governo que ele não governe e perca a eleição.
O cenário
brasileiro continua desafiador, especialmente em ano eleitoral...
[1] Professora do
Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com).
Colaboraram: Jéssica Brito, Ícaro Moisés, Júlia Bomfim, Antonio Queiroz, João Pedro, José Gustavo,
Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Natasha Carvalho, Júlia Almeida e Deborah Mª
Ferreira.
Semana de 20 de abril a 03 de maio de
2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Nas
últimas semanas, vimos ser aprovado um projeto de lei que busca regulamentar a
exploração das terras-raras brasileiras. Isto nos acende um alerta: será que o
Brasil está prestes a reproduzir um padrão de desenvolvimento que já se mostrou
ruim para nossa nação?
Em
meados do século passado, surgiu no Brasil uma corrente do pensamento econômico
que via na industrialização a grande saída para a superação do
subdesenvolvimento que nos assolava. Com a dinamização da produção
manufatureira viriam os ganhos oriundos do aumento da renda, da produtividade,
da eficiência, etc. Contudo, nada disso aconteceria automaticamente. Se foram
as forças do mercado que, historicamente, tinham nos levado ao
subdesenvolvimento, como essas mesmas forças nos tirariam desta situação?
O grande agente responsável pela correção
da rota seria uma instituição que reunisse forças sociais capazes de pressionar
e atuar contra um sistema (internacional) desigual que impunha a nós uma
posição de atraso. O Estado, com o respaldo da sociedade, seria o ator capaz de
reordenar e realinhar os pontos que se mostravam como gargalos ao
desenvolvimento. A ele cabia: investir em infraestrutura e setores de base,
qualificar a mão de obra, proteger a produção local, financiar os grandes
projetos, etc. Através do que ficou conhecido como desenvolvimentismo, o
objetivo era garantir que o país se desenvolvesse sob a liderança da atividade
industrial.
Isto resultou em uma época de bonança, com taxas de
crescimento que ultrapassaram os 10% ao ano. Entre 1972 e 1989 a participação
da indústria de transformação no PIB brasileiro superou os 30%, sendo o auge em
1985, com 35,9% do PIB nacional vindo do setor. Neste período, o país
internalizou a estrutura produtiva daquela que era a tecnologia mais avançada
da época, a metal-mecânica-química. Foi dela que surgiu a era do automóvel e
tudo o que se relaciona com os padrões de produção e consumo “fordistas”. Esse
rápido avanço foi possível graças à associação do capital nacional com o
capital estrangeiro, aquele que detinha a maior parcela do conhecimento
tecnológico.
Contudo,
como uma característica típica do capitalismo, esse paradigma logo deixou de
liderar o desenvolvimento das forças produtivas. Surgiu um novo que mudou em
vários sentidos a forma como a indústria funciona, assumindo um padrão (de
produção e consumo) “toyotista”, enxuto e flexível: o paradigma das tecnologias
da informação e comunicação. Mas as empresas brasileiras não foram as que
conduziram esse processo, sendo este, novamente, liderado pelas multinacionais.
Como
detentores de cerca de 23% das terras-raras do mundo, atrás apenas da China,
que detém cerca de 45%, o Brasil tem nas mãos uma grande moeda de troca a ser
utilizada na relação com as multinacionais dos setores mais avançados,
sobretudo as que não são chinesas. No passado, apoiados em uma burguesia com
alguma força, grandes estadistas tentaram manter a riqueza do território sob
domínio nacional, tal como Vargas com a Petrobrás. Muitos dos que o sucederam,
contudo, não tiveram a mesma intenção ou sorte. Agora, fiquemos de olho para
ver o que vai sair da presidência e do congresso nacional nos próximos meses.
Estamos prestes a passar por uma janela de oportunidade. Os projetos de Lula e
Flávio Bolsonaro são claros nessa questão. Nossas escolhas desse ano vão nos
dizer se vamos, ou não, repetir os erros do passado...
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Alyanne, Ana Carolina Oliveira, Arthur Henrique, Déborah, Eugênio, Gabryela Felix, João Gabriel e Henrique.
Semana de 06 a 19 de abril de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
O presidente Lula encaminha o encerramento
do seu 3º mandato. Político e gestor experiente, com escolhas de governo e
forma de governar já conhecidas, vem desde o dia 04 de outubro de 2022, quando
venceu o pleito, superando diversos desafios. O primeiro foi o de governar
antes mesmo de tomar posse, já que o seu antecessor, assim que perdeu a
eleição, abandonou covardemente a administração federal. A PEC da Transição foi
a solução para a pusilanimidade de Bolsonaro que, não satisfeito, impôs ao país
uma tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023. O governo federal,
resguardado pela atuação do Supremo Tribunal Federal, sobreviveu a esta
aberração e assiste a punição dos envolvidos. Seguiram-se a estes fatos as
insinuações de senilidade do presidente — que o impediria de recandidatar-se, é
claro — o ataque especulativo sofrido pelo real em dezembro de 2024, o tarifaço
americano em julho de 2025, mérito do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e, no
momento, os efeitos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã, bem como uma
“possível desistência” de sua candidatura presidencial.
Lula, com maestria, lidou com todos os
contratempos, demonstrando seu vigor físico e utilizando, nos demais casos, o
aparato institucional disponível sem burlar as normas constitucionais. A
habilidade do presidente provoca ira em uma parte da sociedade que se ressente
da possibilidade de ser governada pela 4ª vez por um ex-metalúrgico,
semianalfabeto e sem um dos dedos da mão ceifado por um acidente de trabalho.
Para aquele grupo social há inúmeras perguntas sem resposta: Por que o Brasil
ainda não se transformou em uma Venezuela? Por que os empresários frustrados
com a vitória de Lula permaneceram no Brasil? Por que o presidente brasileiro é
prestigiado pela maioria dos chefes de Estado do mundo? Por que o agronegócio
lucra tanto com um governo progressista? Por que a Bolsa de Valores
ultrapassou, e continua ultrapassando, volumes recordes de negociação? Por que
o real está valorizado? Por que a economia brasileira continua a crescer mesmo
diante dos boicotes e de um cenário externo desfavorável?
Cegos pela intolerância e derrotados pela
realidade, os propagadores do caos não conseguem responder a estas questões e
continuam a fazer o que sabem fazer: anunciar o caos. Como abutres, estão à
espreita... Deliciam-se com a perspectiva de que a inflação brasileira
ultrapassará o teto da meta em 2026. Afinal, inflação em alta, governo em
queda... O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em março, apurado pelo
IBGE, subiu 0,88% em virtude da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o
Irã. O mercado esperava uma alta de até 0,82%. Outro dado bastante comemorado é
o endividamento do consumidor, turbinado em parte pelas apostas em bets.
Segundo levantamento do Banco Central, desde o mês de outubro 29% da renda das
famílias está comprometida com o pagamento de dívidas.
Para solucionar os problemas, é preciso
manter a máquina pública em funcionamento. A partir desta conclusão óbvia, os
anunciadores do caos argumentam: o país vai implodir se continuar gastando,
digo, se o presidente continuar governando. Fala-se isso com um despudor
assustador. Em primeiro lugar, porque não há descontrole das finanças públicas.
No ano de 2025, o governo cumpriu a meta fiscal com folga e, em 2026, o Governo
Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) registrou superávit
primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro e déficit primário de R$ 30,046
bilhões em fevereiro. O saldo líquido é positivo em R$ 56,854 bilhões no 1º
bimestre do ano. Em segundo lugar, não surpreende que todas as propostas de
ajuste fiscal passem pela punição aos aposentados e aos mais vulneráveis como
se parasitários do povo estes fossem.
Finalizemos este texto com um dado que vai
aterrorizar os portadores da desordem. O consumo das famílias puxará a
aceleração do PIB no 1º trimestre! Apesar do endividamento, o volume de vendas
do varejo restrito, que inclui os bens de consumo essenciais, que já tinha
avançado em 0,4% em janeiro, subiu para 0,6% em fevereiro, de acordo com o
IBGE. O varejo ampliado, que inclui veículos, material de construção e vendas
no atacado e no varejo, subiu 1% em fevereiro, frente a alta de 0,9% em
janeiro. Portanto, os números da economia continuam animadores e, ao que
parece, o caos tão desejado não passará de ressentimento enraizado. Novamente.
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Ícaro Moisés, Gabriel Viana,
Júlia Bomfim, João Gabriel Pereira, Antônio Queiroz, Nelson Rosas, Maria Júlia
Alencar, José Gustavo e Sophia Maciel.
Semana de 23 de março a 05 de abril de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Em
1936, Leo Huberman escreveu o livro “História da riqueza do homem”. Sem sombra
de dúvidas, uma das melhores descrições históricas acerca da conformação da sociedade
humana até aquela época. Um dos últimos capítulos do livro é intitulado “Eu
Anexaria os Planetas, se Pudesse...”. Estas não são palavras do autor, mas uma
citação de Cecil John Rhodes, classificado por ele como “um dos maiores
construtores de impérios”. Mas a que Rhodes se referia e por que Huberman o
citou?
A
maior parte do referido capítulo traz uma apresentação lógico-histórica da
transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista. Fato que
se concretiza no último quarto do século XIX, isto significou a destruição das
pequenas unidades produtivas e a transformação destas em grandes corporações
que dominavam setores inteiros, como a produção de metais, energia, ferrovias,
máquinas e equipamentos, automóveis, etc. Para além disso, e como complemento
necessário, também os bancos se transformaram em poucos, mas imensos bolsões de
riqueza.
Como
consequência, diante da disputa mortal entre as grandes corporações, o caos da
anarquia da produção capitalista transformou a concorrência em mero desejo e
retórica de ideólogos do capitalismo. Na prática, as decisões de produção
passaram a ser tomadas por sindicatos patronais, trustes, cartéis e demais
associações que reuniam os produtores e os organizavam diante dos pobres
consumidores. Os preços, então, passaram a ser preços de monopólio e os lucros,
antes rebaixados pela concorrência, passaram a se exacerbar.
Isso
ampliou ainda mais o excedente apropriado pelas grandes corporações,
industriais, comerciais e bancárias, amalgamadas e regidas pela lógica
financeira da época. Essas empresas atingiram magnitude tal que os espaços
nacionais onde atuavam se tornaram insuficientes para a aplicação dos seus
capitais excedentes, seja sob a forma dinheiro, produtiva ou mercadoria. Ou
seja, o espaço geográfico pátrio não comportava mais a expansão de suas
atividades e, muito menos, a aplicação da riqueza complementar oriunda dos
ganhos monopolistas. Para essas empresas, era necessário perpassar as
fronteiras estrangeiras para escoar o excedente e continuar a crescer.
Nesse
contexto, uma das principais manifestações desta nova estrutura do capitalismo
central foi a expansão das atividades das grandes empresas em direção a outros
países. Sendo o texto de 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, e apesar de ele
tê-la “previsto”, o destaque dado pelo autor recai sobre as colônias e a sua
exploração pelas metrópoles. A relação entre os países centrais e as colônias
africanas e asiáticas, relação esta que assume outra forma para a periferia
latino-americana, é aquela descrita na clássica divisão internacional do
trabalho: países avançados fornecem dinheiro, mercadorias e investimentos
diretos à periferia, enquanto estas fornecem matérias-primas e mão de obra
barata àqueles.
É aí
que entra o britânico Cecil Rhodes. Sob a bandeira da paz, de Deus e da
civilização, Huberman o cita: “Sustento que somos a primeira raça do mundo, e
quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor para a raça humana. ... Se houver
um Deus, creio que Ele gostaria que eu pintasse o mapa da África com as cores
britânicas”. E, diante do fato de que o mundo estava se dividindo entre as
diversas potências imperialistas da época, Rhodes diz: “O mundo está quase todo
parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado.
Pense nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos
atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse; penso sempre nisso. Entristece-me
vê-los tão claramente, e ao mesmo tempo tão distantes”.
Bom,
diante desses escritos que remontam a exatos 90 anos e diante dos
acontecimentos planetários atuais, que mostram uma concentração e uma
centralização inéditas da riqueza mundial, da irrupção cada vez mais frequente
de eventos climáticos extremos e da emergência de pandemias e epidemias dos
mais diversos tipos, convido o caro leitor a pensar sobre os motivos pelos
quais os seres humanos resolveram retornar à lua.
Longe
de mim pensar em teorias da conspiração. Mas não te faz refletir sobre quais
interesses serão atendidos com a execução de um projeto desse tipo?
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Júlia Araújo,
Maria Eduarda, Thales, Genifer, Gabriel Viana e Talita Ana.
Semana de 16 a 22 de março de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
O presidente americano, Donald Trump,
continua em sua incursão contra o mundo. Desta vez, aliado a Israel, produziu
uma guerra contra o Irã. Com uma visão superdimensionada de si mesmo e tentando
resgatar o protagonismo geopolítico e econômico dos Estados Unidos, o
presidente americano pôs o mundo de joelhos. Assim como as falsas acusações que
dirigiu a Maduro e à Venezuela, atribuiu ao Irã a ameaça nuclear. Ao bombardear
e assassinar o líder supremo do país, Ali Khamenei, Trump concluiu que o Irã
estava liquidado. Ledo engano. Em reação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz,
canal marítimo por onde escoa 20% do petróleo consumido no mundo e passou a
atacar as bases americanas nos países vizinhos espalhando o conflito por todo o
Oriente Médio.
Em sua aventura voraz, Trump e Netanyahu
impuseram a eles próprios e ao mundo as consequências. O preço do barril de petróleo,
que em média custava US$ 73, ultrapassou, no ápice do conflito, o valor de US$
119. Uma crise energética global surge no horizonte. Os Estados Unidos
aliviaram as sanções a petroleiros russos em alto mar com o intuito de aumentar
a oferta e distensionar os preços em seu território. Na Europa, o preço do gás
natural subiu até 35% em apenas dois dias.
No Brasil, os fornecedores de óleo diesel
turbinaram seus lucros às custas da população, antecipando uma alta de até 20%
sobre os preços. Mas o pior está por vir. Segundo os analistas, se a guerra se
estender, o país será desabastecido, já que um navio leva 15 dias para chegar
com as cargas do óleo combustível. Além deste, diversos setores que usam o
petróleo como fonte de energia ou como insumo, estão recompondo os preços. O
transporte rodoviário em geral, as passagens aéreas no país, a alimentação fora
de casa, os fertilizantes (dependentes em 85% da importação de ureia e amônia),
os plásticos e as borrachas, que dependem da nafta, seu principal insumo
produtivo, e o cimento, que precisa do coque como combustível para seus fornos,
já apresentam aumento dos preços.
Diante desse cenário, é certo que o país
não sairá ileso do confronto criado pela dupla Trump/Netanyahu. O PIB
brasileiro desacelerou em 2025 quando comparado a 2024. O crescimento de 2,3%
no ano passado foi arrefecido pela política monetária de juros altos, único
remédio contra a inflação utilizado pelo Banco Central do Brasil. As incertezas
causadas pela guerra trumpista lança ao país mais desafios, justamente quando o
ciclo de alta dos juros já “estava contratado”. De fato, ao se reunir entre os
dias 17 e 18 de março deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu
a taxa de juros Selic de 15% para 14,75% ao ano, primeiro corte da taxa desde
maio de 2024. Esperava-se uma redução de 0,5%, entretanto, prevaleceu um corte
mais modesto, que veio acompanhado do alerta para a ocorrência de pressão
inflacionária derivada da guerra declarada ao Oriente Médio.
Enquanto este texto era concluído, o Banco
Central divulgou a ata da última reunião do Copom e ainda impressiona a
linguagem dura em relação ao desempenho econômico interno. Crescer no regime de
metas inflacionárias é um problema. Inicialmente, a ata o texto comemora a
desaceleração econômica dizendo que “...o resultado do PIB no último trimestre
de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica...” mas
finaliza lamentando que “...o mercado de trabalho segue resiliente”. O próprio
Copom admite que a inflação está sob controle “...apresentando algum
arrefecimento...” mas, alimenta o monstro alertando que “...as medidas
subjacentes seguiram, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”. O
documento nos pede mais sacrifício. Para isso, nos brinda com uma dose de
teoria econômica. “O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é
um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da
economia e convergência da inflação à meta”. E eis que uma questão surge: por
que não reequilibrar oferta e demanda pelo aumento da oferta agregada? Sinto
dizer caro leitor, que esta solução está solenemente descartada pela teoria
econômica dominante. Ela faz parte dos fenômenos impossíveis da economia.
Discordamos. Mas como não determinamos os rumos da política econômica, nos
resta informar que, embora outras soluções existam, não há espaço para elas.
Enfim, 2026 se configura como o ano das
incertezas. A guerra trumpista, se estendida, tombará a economia mundial e
contribuirá para que a nossa política monetária seja ainda mais contracionista.
Some-se a isso o fato de que estamos em um ano eleitoral com o golpismo à
espreita, esperando uma nova oportunidade para emergir...
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas,
Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Maria Clara
Gueiros, Vivian Maria, Sophie Ventura e Sophia Martins.
Semana de 02 a 08 de março de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Para os que não
estão familiarizados com o jargão econômico, PIB é abreviação de Produto
Interno Bruto. Como define o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), órgão estatal responsável pelo cálculo oficial no Brasil, “o PIB é um
indicador de fluxo de novos bens e serviços finais produzidos durante um
período”. Ou seja, é a soma da riqueza nova produzida em um território ao longo
de um tempo determinado.
Os responsáveis por
produzirem essa riqueza são os setores da atividade econômica, distribuídos
entre Agropecuária, Indústria e Serviços. Sob esta perspectiva, podemos
analisar o funcionamento da economia nacional pela ótica da produção/oferta. Ou
seja, podemos identificar quais atividades são as mais importantes para a
dinâmica produtiva em termos de criação de riqueza. A partir dos dados da
Contas Nacionais Trimestrais, é possível observar isto.
Desde 1997, o setor
que mais contribuiu para o crescimento da economia nacional foram os Serviços,
podendo-se atribuir, em média, cerca de 73% da variação do PIB ao setor. O
restante foi responsabilidade da Agropecuária (12%) e da Indústria (15%), com a
importância de cada uma variando ao longo do tempo.
Por exemplo, entre
2003 e 2010, mais de 20% do crescimento do PIB foi puxado pela indústria. Para
quem não lembra, este foi o período de maior crescimento da economia brasileira
desde os anos 1980. Porém, entre 2011 e 2019, a indústria puxou nossa economia
para baixo, diminuindo significativamente seu papel na atividade econômica
nacional. Neste interregno, tivemos uma crise iniciada em meados de 2014, que
se estendeu até 2016, sendo que os setores só retomaram uma trajetória
consistente de crescimento em 2017.
Por fim, entre 2020
e 2025, a Agropecuária contribuiu, em média, um pouco mais do que a Indústria
para a economia brasileira, sendo 16,9% de contribuição contra 14,3%,
respectivamente. Para além das safras recorde, beneficiando o agro brasileiro,
tivemos a Pandemia de Covid-19, que afetou nossa produção industrial. A
situação brasileira foi tal que apenas em 2022 o valor do PIB, em termos reais,
superou o observado em 2014. No caso da Indústria, isto só ocorreu em 2024.
Analisando apenas
os dados desses últimos anos, em especial o que aconteceu em 2025, apesar dos
indícios, ainda não podemos afirmar com clareza que a atual desaceleração da
economia reflete o início de uma nova fase de crise cíclica (crise de
superprodução). O motivo é que alguns acontecimentos estão perturbando o atual
ciclo econômico.
O primeiro deles é
o fato de que, entre 2018 e 2019, se gestavam os fatores objetivos para a
manifestação de uma crise de superprodução. Contudo, as medidas de
enfrentamento à Pandemia de Covid-19, em 2020, alteraram profundamente o
próprio funcionamento do capitalismo. O resultado disso foi uma crise singular,
que ficou conhecida como Crise da Covid. Em combate a ela, foi adotado um amplo
conjunto de medidas de recuperação econômica, o que, efetivamente, alterou as
condições de manifestação da superprodução generalizada. Como resultado, o
desenvolvimento capitalista não passou por uma fase que lhe é essencial: o
saneamento e destruição dos capitais em excesso. Esta deformação na dinâmica da
acumulação, por sua vez, está se refletindo no ciclo atual e, dada a
singularidade da situação, fica difícil prever o que irá acontecer.
Para piorar,
vivemos um momento em que a grande potência que liderou o desenvolvimento
capitalista no século XX passa por severas dificuldades para manter esse posto.
Além das disputas nos campos tradicionais, temos que conviver com um país
liderado por um ser indescritível, que consegue misturar o pior do passado com
o pior do presente da humanidade. Isto, também, altera a maneira como a
economia se movimenta do ponto de vista
cíclico, na medida
em que as ações dos EUA têm alterado um conjunto de relações econômicas já
estabelecidas. Vide o que já está acontecendo com o preço internacional do
petróleo e o preço dos combustíveis aqui.
Bom, podemos ver
que aquele que era o grande trunfo para a reeleição de Lula está sob ameaça.
Antes vista como carta na manga, a bonança econômica está sob suspeita. Para
piorar, mais uma vez, a mídia e os algoritmos das redes sociais já começaram a
bombardear os eleitores com supostas associações entre Daniel Vorcaro, INSS,
STF e Lula.
Para quem, no ano
passado, achou que a reeleição estava ganha, aprenda de uma vez por todas: o
capitalismo é um sistema muito contraditório e dinâmico, e a burguesia está aí
para fazer com que isto se mantenha exatamente como está, aqui ou no resto do
mundo. A nós, só resta lutar...
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Lucas Carvalho, Lucas
Gabriel, Luiz Vinicius.
Semana de 23 de fevereiro a 01 de março de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Caro leitor, o mês de março chegou, e o
fechamento das contas nacionais do ano passado se aproxima. Espera-se, como já
mencionado neste espaço, um arrefecimento da economia nacional em relação aos
anos anteriores. O Banco Central já comemora e, na ata da reunião ocorrida no
final do mês de janeiro, considerou “...iniciar a flexibilização da política
monetária em sua próxima reunião...”. Ainda há um inconformismo com a
resiliência da economia brasileira, atribuída principalmente à política fiscal.
O fato é que ainda teremos crescimento e a taxa ficará próxima dos 2,5%. O
governo comemora, pois, mesmo com uma política monetária contracionista, tem
conseguido sustentar um crescimento considerável.
Um
apanhado dos principais indicadores econômicos nos dá a dimensão dos avanços de
2025. O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros chegou a R$
3.613,00 em 2025. Este valor, apurado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios), é o maior da série histórica desde 2012 e representou
uma alta de 12% em relação a 2024. O aumento populacional, a formalização do
emprego e os reajustes salariais, foram os elementos determinantes para o
ganho. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu de 6,6% em 2024 para 5,6% no ano
passado, também o menor nível da série histórica da Pnad Contínua. O número
médio de brasileiros desempregados caiu 7,2 milhões para 6,2 milhões de
pessoas. Um recorde.
A inflação, monstro que, no Brasil, assusta
mais que o desemprego, não apresenta sinal de aceleração. A taxa de inflação
dos últimos doze meses terminados em janeiro, segundo o IBGE, foi de 4,4%. O
resultado continua dentro do sistema de metas inflacionárias adotado pela
autoridade monetária brasileira, cujo limite máximo é 4,5%. Mesmo assim, o
mercado financeiro segue alimentando um cenário caótico no futuro, mantendo a
pressão sobre o Banco Central para que ele não abandone o “compromisso” no
controle de uma inflação que, segundo as métricas oficiais, já está controlada.
No
que diz respeito às contas públicas, estas não param de serem atacadas. O
Tesouro Nacional divulgou o resultado primário do Governo Central (Tesouro
Nacional, Previdência Social e Banco Central) de 2025, que apresentou déficit
de R$ 61,691 bilhões, resultado que ficou abaixo da meta estabelecida pelo
Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias que previa déficit
primário de R$ 75,718 bilhões para aquele ano. Vale ressaltar que, em dezembro
de 2025, houve superávit primário de R$ 22,107 bilhões. Entretanto, exige-se
tratamento empresarial para o Estado, como se o seu objetivo fosse o de
apresentar lucro, com custos impostos à sociedade e, em especial, às pessoas
mais vulneráveis. Lembro que o jornalismo econômico mantém na mesa a
desvinculação dos benefícios previdenciários do salário-mínimo, que
desobrigaria o reajuste anual desses benefícios. Os reajustes, segundo esta
proposta, passariam a ser feitos apenas pela inflação. Ou seja, para “salvar”
as contas públicas propõe-se matar o pobre.
Então
o leitor percebe que, embora os resultados da economia sejam visíveis e
quantificáveis, como os ganhos reais de renda, a queda do desemprego e da
inflação, além do controle das contas públicas com manutenção de diversos
programas que promovem melhorias na renda, no acesso à educação, à moradia e à
saúde, parte da população brasileira não os reconhece como positivos. Este
fragmento social foi seduzido, ou encontrou representação, no discurso da
extrema-direita do Brasil, que tem como pauta atacar e invisibilizar as
conquistas recentes da economia brasileira, mantendo um clima de medo e
desconfiança. E a elite econômica e financeira encampou este discurso pois ele
atende seus interesses.
Infelizmente, a ascensão das mídias
digitais e, em especial, a comunicação pessoal via redes sociais, facilitaram a
disseminação da informação e da desinformação. Os resultados econômicos
perderam espaço para as pautas de costumes, que passaram a nortear as
discussões pessoais, políticas e institucionais. Preconceitos, ódio e
discriminação proliferam numa velocidade jamais vista e a realidade não recebe
a devida importância na percepção das pessoas, do jornalismo econômico e muito
menos entre os economistas que ditam as decisões da política econômica
nacional. São tempos difíceis.
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia
Bomfim, Ícaro Moisés, Antônio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Gabriela Félix,
Gabrielle Cavalcante, Júlia Araújo, Júlia Almeida e Jade Carvalho.
Semana de 09 a 15 de fevereiro de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
O Estado capitalista não funciona como um árbitro neutro, que atua distante das classes sociais. Na realidade, ele atua como um organizador dos interesses de grupos específicos. Tais grupos, por sua vez, são aqueles que detêm o controle dos recursos econômicos, especificamente, os meios de produção. No topo dessa hierarquia de poder, o segmento voltado ao crédito, aos juros e à especulação, dita os rumos da economia e da política nacionais. Como toda classe dominante, eles fazem com que o aparelho estatal funcione em benefício próprio.
Dentre outros caminhos, isto se dá através das regras de gestão orçamentária que priorizam o pagamento de obrigações financeiras sobre as necessidades básicas da população. Por sua vez, o discurso da austeridade é reforçado por “especialistas”, que apresentam os cortes de gastos sociais como uma necessidade incontestável para manter a “confiança do mercado”. Para esses agentes, a política econômica não é um campo de disputa social, mas uma esfera técnica de “responsabilidade fiscal”.
Esse discurso elitista mascara a função do Estado de garantir que a gestão da dívida pública permaneça como um canal perene de extração de riqueza em favor do setor financeiro. Assim, a gestão do orçamento vira uma ferramenta política que preserva a posição de comando desse grupo, independentemente das mudanças de governo. Há leis, instituições públicas e privadas, regras formais e informais que garantem a transformação do dinheiro da sociedade em rendimentos para uma elite parasitária.
Como acontece em todo começo de ano e, pior ainda, ano de eleições, as notícias recentes reforçam a continuidade dessa lógica. No ano passado, os gastos com os juros da dívida pública ultrapassaram R$ 1 trilhão. Junto com isto, a dívida bruta atingiu 78,7% do PIB. Esse cenário é utilizado para justificar o “combate ao desequilíbrio fiscal” focado exclusivamente na redução de gastos obrigatórios e em novas rodadas de reformas estruturais.
A pressão por uma nova reforma da Previdência até 2030 e a implementação de reformas administrativas são apresentadas como soluções inevitáveis para abrir “espaço fiscal”. Leia-se: é preciso reduzir os gastos em áreas sociais e com pessoal em favor da garantia de pagamento aos detentores da dívida. Além disso, já há quem preveja a ativação de “gatilhos” no arcabouço fiscal para 2027, que impõem travas automáticas a despesas com salários e benefícios tributários diante de qualquer desvio nas metas de resultado primário. Dessa forma, o orçamento público é mantido sob uma rigidez que favorece a extração de riqueza pelo sistema financeiro, preservando a estrutura de dominação dessa fração de classe.
Tudo o que o país vive atualmente, porém, não é resultado de uma pretensa gastança do atual governo ou uma particularidade recente. Isto é produto do desenvolvimento histórico dos países periféricos que, desde as reformas neoliberais dos anos 1990, adotam um conjunto de políticas econômicas que aderem à forma como o capitalismo tem se desenvolvido nas últimas décadas. Prevalece, a partir dos anos 1980, a lógica especulativa sobre a produção real, tanto para o setor público, quanto para o privado. Se o Consenso de Washington é um símbolo mundial desta época, o tripé macroeconômico é o nosso.
Em suma, o noticiário nacional tem confirmado a tese de que a política econômica reflete a correlação de forças no bloco no poder, e não apenas decisões técnicas neutras. A narrativa da austeridade a todo custo serve para consolidar a dominação financeira, tratando o pagamento da dívida como um compromisso sagrado enquanto os direitos sociais e serviços públicos são vistos como “variáveis de ajuste”. A manutenção dessa estrutura sedimenta o modelo neoliberal, garantindo que o Estado, em sua conformação atual, continue a ser um instrumento de acumulação para a burguesia financeira por excelência.
Resta saber qual candidato, em ano de eleições, terá a coragem de assumir isto e explicitar em seu programa de governo. O pior de tudo é que, implicitamente, essa política estará em todos aqueles que têm chance de vencer, sem exceção.
[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim,
Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Daphnne, Déborah e
Genifer.
Semana de 02 a 08 de fevereiro de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Ao longo do ano de 2025, informamos,
através desta publicação, que os indicadores conjunturais da economia
brasileira apresentaram bons resultados. Como a atividade econômica caminhou na
contramão da política monetária de juros altos, foi alcunhada de resiliente.
Mas o Banco Central já deixou claro: quebrará a resistência e, através da
manutenção da taxa de juros em 15%, a economia será desaquecida. Os analistas
concordam que, em virtude da defasagem de resposta dos indicadores econômicos,
o tombo poderá vir em 2026.
Embora a desaceleração dos últimos meses de
2025 tenha sido menor que a esperada, há um clima, ainda comedido, de
comemoração no ar. A maioria dos economistas e analistas a serviço do mercado
financeiro está aliviada, afinal, o primeiro grupo percebe o resultado como
consolidação de sua crença teórica, e o outro grupo garante os ganhos do setor
financeiro que podem ser referendados por uma ótica tecnicista-científica.
Ao longo do tempo, desde que o combate à
inflação se tornou o principal objetivo da política monetária, a sociedade
brasileira passa por um processo de convencimento de que deve ser grata pelo
purgante, mesmo que isso signifique menos postos de trabalho formal e,
consequentemente, prejuízo ao bem-estar social. Segundo esta visão, não há
outro remédio para o aquecimento da economia (e a inflação daí decorrente),
senão o desaquecimento. Ou seja, ao invés de optarmos por estimular um novo
patamar de desenvolvimento da capacidade econômica, escolhe-se
“estrategicamente” ficar aquém. Por esta razão, estamos presos a uma opção que
condena a nossa economia ao baixo crescimento.
A inflação está controlada e dentro das
metas delimitadas pelo Banco Central, mas qualquer sinal de estímulo, seja ele
vindo do governo ou do setor privado, gera discursos preocupados no jornalismo
econômico. A inquietação da vez é o ano eleitoral. Como o presidente se
candidatará à reeleição, o desassossego é que ele libere geral, adotando
medidas de política econômica “eleitoreiras” que estraguem o trabalho do Banco Central.
E algumas delas, vejam só, já estão em andamento.
A isenção do pagamento do imposto de renda
para os trabalhadores que recebem até R$ 5.000,00 e a redução da tributação de
rendas entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00 é um exemplo. Temos aí um problema para
o dogma econômico estabelecido. A implementação gerará uma renúncia fiscal de
R$ 25,4 bilhões que se reverterá em renda disponível para o consumo de bens e
serviços. O Daycoval, em tom de lamento, estimou que a medida terá impacto de
0,3 ponto percentual sobre o PIB de 2026, com os setores de habitação, transporte
e alimentação recebendo os maiores estímulos.
Já
o UBS Global Wealth Management, braço da gestão de fortunas do banco suíço UBS,
lastimou a permanência dos programas sociais. “Tem muito estímulo fiscal já
aprovado para 2026, como a desoneração do Imposto de Renda, o vale-gás, o
programa Luz para Todos e várias iniciativas em termos de crédito...”. Pois é.
Como a população vai usar a renda extra, em especial no setor de serviços, que
está sustentando a inflação atualmente, mais inflação está sendo esperada para
2026. E o UBS GWM conclui, sem qualquer pudor: “O viés é de que, talvez, os
serviços não desacelerem nada, porque, se não tiver um aumento do desemprego
como as pessoas esperam (...) não dá pra ter a inflação de serviços caindo
gradualmente”. É isto, caro leitor.
No
fim das contas, a teoria econômica referenda que a escolha entre emprego e
inflação é inevitável e os rentistas recebem as benesses derivadas desta
escolha. Resta ao trabalhador “entender” que ele precisa estar desempregado
para que esta convergência de fatos aconteça, sem perceber, é claro, que esta
condição é incompatível com a sua existência.
Inacreditável!
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram:
Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria
Júlia Alencar, João Pedro de Oliveira, João Lucas Alves, Heitor Augustu e
Mariana Sofia Rolim.
Semana de 19 a 25 de janeiro de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Tema sempre presente em grandes debates
sobre a execução do orçamento público, as emendas parlamentares têm sido
atacadas em diversas frentes. A mais elementar e explícita se relaciona com a
dificuldade de se rastrear e acompanhar o uso do dinheiro. Claro, isto dá muita
vantagem política àqueles que se beneficiam da medida: a falta de transparência
dos gastos permite tanto as maracutaias (como o sobrepreço de bens e serviços),
quanto o desvio de finalidade (como a contratação de show sertanejo em vez de
gastos com saúde ou educação). Em ano eleitoral, a farra é garantida.
Antes de mais nada, é preciso dizer que é
legítima a reivindicação e a destinação de parte do orçamento federal a
deputados e senadores. Eles, mais do que qualquer ministro da fazenda, conhecem
a realidade e as necessidades de seus rincões. Portanto, é justo que destinem
recursos e atendam às demandas específicas de seus redutos eleitorais. Afinal,
eles foram escolhidos, também, para que suas localidades tivessem a atenção do
poder público.
Contudo, é preciso destacar um elemento
importante que joga contra esta distribuição de recursos federais, em especial,
em seu formato atual: a descentralização excessiva das despesas. Na Lei
Orçamentário Anual (LOA) de 2026, ficou aprovado o gasto de R$ 192,9 bilhões em
investimentos. Ou seja, é recurso que o poder executivo pode destinar para a
ampliação ou construção de escolas, hospitais, centros de pesquisa, sistemas de
informatização, etc. Por sua vez, nesta mesma LOA, foi aprovado o gasto de R$
49,9 bilhões em emendas parlamentares, que são despesas destinadas de acordo
com as decisões de 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores). Isto
significa que o equivalente a mais de 25% das despesas para investimento em
ampliação e melhoria da oferta de serviços públicos é pulverizado entre pessoas
com interesses e, principalmente, projetos completamente diferentes.
Mesmo admitindo a remota possibilidade de
que todo o dinheiro será gasto de forma ilibada, ainda assim a situação está
longe do ideal. Como demonstrou a ciência econômica a partir de meados dos anos
1950, bem como as práticas soviética (desde 1917) e chinesa (desde o primeiro
plano quinquenal, de 1953), a participação do Estado no planejamento e execução
de projetos é fundamental para a superação do atraso nas forças produtivas de
um país. É através da centralização das decisões no poder executivo que se
alcança a maior eficiência no atendimento das demandas coletivas.
A lógica é a seguinte: quanto mais
pulverizado o poder de indicação das despesas, menor é a força do agente
público perante os interesses individuais, dele próprio e de quem ele possa vir
a beneficiar com suas decisões. É um prefeito que recebe uma emenda milionária
de um deputado aliado e vai escolher entre asfaltar uma rua, pintar uma escola
ou financiar um evento em seu município. Em todos os casos, a pressão sobre ele
é direta. No caso de uma proposta ministerial, vinda do poder executivo, a
decisão é tomada a partir de grupos de trabalho, conselhos deliberativos e
órgãos colegiados. Obviamente, eles não estão imunes aos ataques dos diferentes
grupos de interesse, os quais também têm o direito de reivindicar sua
participação na tomada de decisões, mas o corpo técnico que atua no
planejamento tem condições mais apropriadas de lidar com a situação do que um
simples assessor em nível municipal.
Frequentemente, as emendas parlamentares
são gastas de maneira desarticulada com outros projetos de interesse amplo da
sociedade. Por exemplo, por mais que seja necessário ensinar robótica aos
estudantes do ensino público, de que adianta comprar kits de robótica se
a escola sequer tem instalação elétrica, equipamentos de informática ou
internet adequados? Como essa medida vai ser efetiva?
Qual a saída? Para esta dimensão do
problema, a saída seria o seguinte modelo: o poder executivo, liderado pelo
presidente eleito, estabelece quais são as diretrizes para o desenvolvimento
econômico e social; depois, através dos ministérios, elaboram-se os planos de
ação, indicando as áreas beneficiadas, os valores destinados, etc.; por fim,
uma parte do dinheiro é executada pelos respectivos ministérios e outra parte é
distribuída entre os projetos apresentados pelos parlamentares. Assim,
unir-se-iam, de maneira articulada e estruturada a um grande plano de
desenvolvimento, as demandas particulares de cada reduto eleitoral e a oferta
de emendas parlamentares.
Bom, como professor, me dou o direito de
dizer que, em teoria e com base na ciência econômica, essa é uma das melhores
formas de se resolver o problema. Já na prática, vai convencer a turma do
centrão...
[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Sophie, Talita Ana,
Thales, Vivian e Alicia.