Semana de 23 de março a 05 de abril de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Em
1936, Leo Huberman escreveu o livro “História da riqueza do homem”. Sem sombra
de dúvidas, uma das melhores descrições históricas acerca da conformação da sociedade
humana até aquela época. Um dos últimos capítulos do livro é intitulado “Eu
Anexaria os Planetas, se Pudesse...”. Estas não são palavras do autor, mas uma
citação de Cecil John Rhodes, classificado por ele como “um dos maiores
construtores de impérios”. Mas a que Rhodes se referia e por que Huberman o
citou?
A
maior parte do referido capítulo traz uma apresentação lógico-histórica da
transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista. Fato que
se concretiza no último quarto do século XIX, isto significou a destruição das
pequenas unidades produtivas e a transformação destas em grandes corporações
que dominavam setores inteiros, como a produção de metais, energia, ferrovias,
máquinas e equipamentos, automóveis, etc. Para além disso, e como complemento
necessário, também os bancos se transformaram em poucos, mas imensos bolsões de
riqueza.
Como
consequência, diante da disputa mortal entre as grandes corporações, o caos da
anarquia da produção capitalista transformou a concorrência em mero desejo e
retórica de ideólogos do capitalismo. Na prática, as decisões de produção
passaram a ser tomadas por sindicatos patronais, trustes, cartéis e demais
associações que reuniam os produtores e os organizavam diante dos pobres
consumidores. Os preços, então, passaram a ser preços de monopólio e os lucros,
antes rebaixados pela concorrência, passaram a se exacerbar.
Isso
ampliou ainda mais o excedente apropriado pelas grandes corporações,
industriais, comerciais e bancárias, amalgamadas e regidas pela lógica
financeira da época. Essas empresas atingiram magnitude tal que os espaços
nacionais onde atuavam se tornaram insuficientes para a aplicação dos seus
capitais excedentes, seja sob a forma dinheiro, produtiva ou mercadoria. Ou
seja, o espaço geográfico pátrio não comportava mais a expansão de suas
atividades e, muito menos, a aplicação da riqueza complementar oriunda dos
ganhos monopolistas. Para essas empresas, era necessário perpassar as
fronteiras estrangeiras para escoar o excedente e continuar a crescer.
Nesse
contexto, uma das principais manifestações desta nova estrutura do capitalismo
central foi a expansão das atividades das grandes empresas em direção a outros
países. Sendo o texto de 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, e apesar de ele
tê-la “previsto”, o destaque dado pelo autor recai sobre as colônias e a sua
exploração pelas metrópoles. A relação entre os países centrais e as colônias
africanas e asiáticas, relação esta que assume outra forma para a periferia
latino-americana, é aquela descrita na clássica divisão internacional do
trabalho: países avançados fornecem dinheiro, mercadorias e investimentos
diretos à periferia, enquanto estas fornecem matérias-primas e mão de obra
barata àqueles.
É aí
que entra o britânico Cecil Rhodes. Sob a bandeira da paz, de Deus e da
civilização, Huberman o cita: “Sustento que somos a primeira raça do mundo, e
quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor para a raça humana. ... Se houver
um Deus, creio que Ele gostaria que eu pintasse o mapa da África com as cores
britânicas”. E, diante do fato de que o mundo estava se dividindo entre as
diversas potências imperialistas da época, Rhodes diz: “O mundo está quase todo
parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado.
Pense nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos
atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse; penso sempre nisso. Entristece-me
vê-los tão claramente, e ao mesmo tempo tão distantes”.
Bom,
diante desses escritos que remontam a exatos 90 anos e diante dos
acontecimentos planetários atuais, que mostram uma concentração e uma
centralização inéditas da riqueza mundial, da irrupção cada vez mais frequente
de eventos climáticos extremos e da emergência de pandemias e epidemias dos
mais diversos tipos, convido o caro leitor a pensar sobre os motivos pelos
quais os seres humanos resolveram retornar à lua.
Longe
de mim pensar em teorias da conspiração. Mas não te faz refletir sobre quais
interesses serão atendidos com a execução de um projeto desse tipo?
[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Júlia Araújo,
Maria Eduarda, Thales, Genifer, Gabriel Viana e Talita Ana.


