Semana de 04 a 10 de agosto de 2025
Lucas Milanez de Lima Almeida [1]
Certamente, o caro leitor
já deve ter visto inúmeras análises sobre o tarifaço (ou tarifinho, a depender
do analista) imposto por Trump ao Brasil. Apesar de ter se aproveitado dos
sabujos que são a família Bolsonaro e a extrema direita do país, a real motivação
para ele foi a tentativa ianque de reconfigurar o comércio internacional a seu
favor. Dentre as análises mais divulgadas, destaco aquela que, apesar dos
pesares, vê o tarifaço como uma oportunidade para o Brasil.
Seria quase uma versão
minimizada dos choques externos que vivemos no início do século passado, com a
1ª e a 2ª Guerras Mundiais e com a Grande Depressão da década de 1930. À época,
o Brasil tinha uma economia fundamentalmente agrária, que dependia das
exportações de bens primários (principalmente o café) para ser dinamizada. Com
as Guerras e a crise iniciada em 1929, a economia internacional reduziu suas
compras de produtos brasileiros e o país teve que se virar para manter sua
economia funcionando. Nos primeiros momentos, o óbvio aconteceu: nossa economia
refletiu o movimento da economia mundial e desacelerou.
Porém, como havia espaço
para o desenvolvimento doméstico, isto rapidamente se transformou em
oportunidade. Indústrias logo começaram a produzir os bens que estavam faltando
no mercado mundial e a produção local foi substituindo a entrada desses
produtos que se exauriam. O resultado foi um intenso, mas limitado, início de
industrialização por substituição de importações (que foi um processo histórico
muito mais complexo do que apenas isto).
Por outro lado, os
produtos que o país exportava ficaram pouco rentáveis, porque a demanda mundial
também arrefeceu para os produtos nacionais. Algumas atividades, como a
cafeicultura, se beneficiaram de políticas estatais de manutenção de produção,
emprego e renda. Contudo, para manter a lucratividade, outros exportadores
foram obrigados a diversificar seus investimentos. A médio e longo prazos, isto
colaborou com criação de novos setores produtivos e, consequentemente, novas
dinâmicas econômicas.
Logicamente, há
diferenças cavalares entre o Brasil de hoje e o da primeira metade do século
passado. Contudo, há elementos que permanecem iguais. Por exemplo, a economia
brasileira ainda tem nas exportações de produtos primários sua principal fonte
de dólares. Além disso, apesar da mudança de paradigma tecnológico, temos
fontes abundantes dos principais insumos consumidos pelas tecnologias mais
avançadas, como as terras raras.
É neste contexto que
muitos analistas consideram que esta poderia ser uma janela de oportunidade
para o país. Porém, diferentemente do que ocorreu no século passado, agora não
seria apenas voltar nossas atenções para simplesmente atender o mercado
doméstico. Dessa vez poderíamos fomentar uma dinâmica interna, por um lado, a
partir do beneficiamento e transformação daquilo que exportamos com baixo valor
agregado e, por outro, buscando novos parceiros ao redor do planeta. Por
exemplo, ao invés de exportar o silício para Taiwan, produzir o chip e vender à
Europa; ao invés de só vender o európio, desenvolver TVs e monitores de alta
resolução.
Bem, no pacote das coisas
que não mudaram entre o Brasil de ontem e o de hoje, infelizmente, temos o fato
de o país não deter infraestrutura técnico-científica necessária para o
desenvolvimento de novas forças produtivas. Nossos parques industrial e de
P&D continuam consideravelmente atrasados em relação aos países que estão
na ponta de lança do desenvolvimento tecnológico. Ainda é gritante esse hiato e
isto, paradoxalmente, seria nossa janela de oportunidade. Como diriam os mais
esperançosos: capacidades produtiva e tecnológica se constroem.
Quem sabe, com muita
atuação estatal e esforço social talvez seja possível dar o salto adiante no
desenvolvimento. Contudo, o país precisa de classes dominantes interessadas
nisto. E é aí que vem a questão: quem disse que as frações dessa classe
dominante de hoje estão dispostas a bancar este projeto? No passado, ao que
parece, o desenvolvimentismo nacionalista era propagado e apoiado pelas
“elites”, em especial, a industrial. Mas, o caro leito realmente acha que a
elite atual, dentre os quais banqueiros, agroexportadores e grande mídia, está
disposta a encampar um projeto desses?
A pergunta é retórica...
[1] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com).
Colaboraram: Bruno Lins, Camylla Martins, Julia Bomfim, Mateus Eufrásio,
Maria Julia Alencar e Nelson Rosas.