quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A anatomia de um contra-projeto de país

Semana de 02 a 08 de novembro de 2009


Os dados referentes ao comércio exterior brasileiro, nos últimos meses, são sinais de alerta sobre a capacidade de resposta da indústria nacional às novas exigências do mercado mundial. Embora a balança comercial do país apresente superávits, verifica-se uma polarização, no seu interior: enquanto o saldo de produtos básicos é cada vez mais superavitário, o dos produtos manufaturados é deficitário.
Para se ter uma idéia, em apenas seis meses, o déficit na balança comercial da indústria de transformação já atingiu US$ 6 bilhões. Isto mostra um padrão indesejado de especialização das exportações brasileiras, isto é, o país concentra grande parte das suas exportações em produtos baseados em recursos naturais.
Entre as causas apontadas para tal especialização está a valorização relativa do Real frente ao Dólar. Com isto os produtos nacionais ficam mais caros do que os produtos estrangeiros, o que, por sua vez, encarece as exportações. O governo recentemente instituiu uma cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras, IOF, para títulos de renda fixa e ações negociadas na bolsa de valores, na tentativa de conter a entrada de dólares na economia e deter a depreciação desta moeda face ao real. Contudo, segundo dados do Banco Central, houve um leve aumento no ingresso de dólares ao país. No período que vai de 26 a 30 de outubro, a entrada de dólares na economia totalizou US$ 7,312 bilhões, enquanto que, de 19 a 23 de outubro, o fluxo foi de US$ 6,898 bilhões. Como se não fosse o bastante, surge mais um agravante: a desvalorização da moeda chinesa (yuan) face ao dólar.
Além de estipular um nível salarial muito baixo para seus trabalhadores, a China, graças aos mecanismos cambiais, consegue lançar seus produtos no mercado mundial com preços muito baixos, dificultando a situação dos concorrentes brasileiros. O cenário é tão alarmente que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Fiesp, considera que existe uma “concorrência desleal”. Nas palavras de Roberto Giannetti da Fonseca, diretor titular de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, vê-se “diariamente na Fiesp empresários desesperados para tentar barrar a competição chinesa”.
A política de manutenção de elevadas taxas de juros, estimula a entrada de capitais e influencia diretamente a taxa de câmbio provocando a valorização do real que se torna um dos principais fatores de perda de competitividade da indústria nacional. No longo prazo, isto pode ter efeitos deletérios sobre a estrutura produtiva da economia, ou seja, as exportações brasileiras podem se concentrar em produtos de baixo valor agregado. Ao que parece, o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva vem consolidando um contra-projeto de país, que se originou no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso. Naquele governo, principalmente no primeiro mandato, 1994/1998, a apreciação artificial do câmbio, em conjunto com a política de altas taxas de juros, prejudicou a indústria nacional, que passou a importar máquinas e equipamentos.
O setor de Bens de Capital tem o papel de difusor do progresso tecnológico, uma vez que participa de todas as cadeias produtivas da economia, através do fornecimento de máquinas e equipamentos variados. Por isso, este setor tem um forte efeito multiplicador sobre a dinâmica da economia. Mas, uma vez que a produção nacional, no atual governo, é inviabilizada pela continuação da mesma política econômica, esses estímulos são transferidos para o exterior e o Brasil tenderá a sair mais lentamente das crises.
Com relação à fase do ciclo atual, os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, indicam que a indústria reduziu o ritmo de queda. O setor de Bens de Capital interrompeu três trimestres consecutivos de taxas negativas crescendo 6,1% em setembro. Entretanto, quando comparado com o mesmo mês do ano passado, o setor registrou uma taxa negativa de 20,5%. Os sub-setores que mais colaboraram para essa queda foram os de transportes (- 18,9%), de máquinas para a indústria (- 32,4%) e para o setor de energia elétrica (- 39,0%).




Produção Industrial - Brasil (*)
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Indicadores da produção industrial por categorias de uso
Brasil - Outubro de 2009 (*)
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Produção industrial
Índices mensal x Acumulado nos últimos 12 meses (*) (**) (***)
(*) Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem
(**) Base: igual mês do ano anterior = 100
(***) Base: Últimos dozes meses anteriores = 100
No front externo, os dados sugerem cautela quanto à recuperação da economia mundial. O Departamento de Trabalho dos Estados Unidos divulgou a nova taxa de desemprego, que subiu de 9,85%, em setembro, para 10,2% em outubro. Essa é a maior taxa desde 1983. Os dados revelam que o ritmo de eliminação de postos de trabalho diminuiu. No mês de outubro foram fechados 190 mil postos de trabalho. Já no mês de setembro, tinham sido eliminados 219 mil. Empresas como a Microsoft, General Motors, Johnson & Johnson, Nokia-Siemens, além dos bancos HSBC e RBS, informaram que ainda pretendem cortar empregos.
Na União Européia, projeta-se uma retração de 4,1% para o PIB, e o ministro britânico das finanças, Alistair Darling, declarou que as autoridades do G-20 “concordam que é cedo demais para encerrar os pacotes de estímulos econômicos, já que a recuperação global ainda é frágil”. 
Os dados, portanto, parecem confirmar a nossa previsão de que a reanimação da economia será lenta e com uma característica peculiar ao ciclo atual: a manutenção de altas taxas de desemprego.

Texto escrito por:
Kaio Glauber Vital da Costa: Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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