quarta-feira, 10 de junho de 2015

A recessão mal começou

Semana de 01 a 07 de junho de 2015
Nelson Rosas Ribeiro[i]

É o jornal Valor Econômico quem estampa esta manchete. Aqui nesta coluna, nós já havíamos alertado para isto afirmando que não havíamos chegado ao fundo do poço e a situação ia piorar. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicados nas Contas Nacionais trimestrais, na semana passada, mostram um quadro desolador. Além de apontar uma queda de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB), e de um aumento da taxa de desemprego para 8%, mostrou que, entre janeiro e março, todos os componentes da demanda recuaram. O consumo das famílias recuou 1,5%. Os gastos do governo e a Formação Bruta de Capital Fixo (que mede os investimentos) caíram 1,3%. Até o setor de serviços desacelerou 1,2%. Com isto, a demanda total encolheu 1,4%.
O que as estatísticas demonstram é que a demanda, a procura por produtos, no país, está caindo. Isto significa que há mais mercadorias produzidas e disponíveis no mercado do que compradores. Resumindo: a oferta é maior do que a procura.
Mas não são apenas os frios números do IBGE que mostram este desequilíbrio. Do setor empresarial chovem as notícias que apontam na mesma direção. Nos dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), nos 12 meses encerrados em abril, a indústria de transformação caiu 6,3% e o seu faturamento 4,3%. Apenas entre março e abril a queda na produção foi de 1,2%, mas no faturamento foi de 6,4%.
Nas montadoras, a produção está parando, pois não há compradores para os veículos que são produzidos. Quase todos os fabricantes estão com os pátios cheios de veículos que não encontram compradores e adotam várias medidas para reduzir a produção. As notícias referem férias coletivas, redução de dias de trabalho na semana com redução de salário, suspensão dos contratos de trabalho, layoff (suspensão do contrato de trabalho com pagamento de parte do salário), Programas de Demissão Voluntária (PDF) ou simplesmente demissões. Estas medidas estão sendo adotadas por empresas como Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz, General Motors, Mitsubishi, Scania, Iveco, etc. Mesmo a linha de veículos militares da Iveco (o blindado Guarani) está sendo paralisada. É claro que estas paralisações produzem reações em cadeia e forçam toda a linha de fornecedores de autopeças e componentes (como a fábrica de motores pesados FPT). Outra consequência é a repercussão ao nível dos serviços e do comércio, em particular.
Mas, o problema é geral e estende-se a outros setores. Na metalurgia, a Vallouce & Sumitomo Tubos do Brasil (VSM), fabricante de tubos de aço, além de paralisar suas atividades de aciaria e laminação, vai colocar a metade de seus trabalhadores (1,1 mil) em layoff. A Usiminas está paralisando dois altos-fornos e pretende reduzir um dia na jornada de trabalho semanal de seus trabalhadores, consequência da queda de 7,5% nas vendas no período de janeiro a abril de 2015, em relação ao mesmo período de 2014.
E nada indica que as coisas tendem a melhorar. Os dados de maio, divulgados pala Fenabrave (entidade das concessionárias) revelaram que as vendas de veículos neste mês foram as piores em oito anos. Também nesses exemplos fica claro que existe um excesso de oferta em relação à procura.
Está mais que evidente que o problema da crise atual é um excesso de oferta em relação à demanda. Fica então a pergunta: de acordo com os manuais de economia nestes casos os preços dos produtos deveriam cair. Isto não ocorre. Pelo contrário eles estão subindo. E agora? Pela teoria dominante isto não pode acontecer.
Diante do paradoxo, o BC só consegue ver o aumento de preços que ele chama de inflação. E, no velho manual, só há um remédio: o aumento dos juros. Foi isso que o Copom decidiu em sua última reunião: decretou a elevação da Selic em 0,5%. Agora ela atingiu novo recorde: 13,75%.
Enquanto o ministro Levy brande a sua tesoura nos gastos do governo o ministro Barbosa torna-se o homem de uma mão só. Ele declarou em uma conferência na FGV que não se podem baixar juros por decreto. Esqueceu-se de dizer que se pode elevar.
É assim, o país vai sendo empurrado para o fundo do poço.



[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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