Semana de 10 a 16 de novembro de 2025
Paola Teotônio Cavalcante de Arruda[i]
Nas últimas semanas, o Brasil pareceu viver
vários enredos simultâneos — diplomáticos, econômicos, ambientais e de
segurança pública — todos exigindo atenção imediata, todos afetando o cotidiano
do país. É como se estivéssemos tentando decifrar um quebra-cabeça enquanto as
peças continuam se mexendo.
Comecemos pelo capítulo internacional,
porque é nele que uma reviravolta se consolida: depois do tarifaço, imposto ao
Brasil desde agosto, os Estados Unidos oficializaram um consenso. Mesmo com o
protecionismo endurecido, o secretário de Estado Marco Rubio acenou para um
acordo provisório, um “mapa do caminho” que permitirá resolver as pendências
bilaterais em até três meses. O próprio Rubio afirmou ter conversado com Donald
Trump, que demonstrou interesse em “resolver rapidamente” a relação. A mudança
de tom é visível e, para quem observava a escalada de tensões, quase irônica. O
Brasil não se dobrou, e o diálogo “reapareceu”.
No front interno, um outro impasse
se arrasta: o PL “antifacção” segue paralisado e, na prática, revela muito mais
do que simples divergências técnicas. O relator do projeto já apresentou quatro
versões, e mesmo assim a votação voltou a ser adiada, desta vez por pressão
simultânea do governo, da oposição e de governadores. Cada grupo empurra o
texto para um lado diferente, expondo contradições profundas no projeto:
governadores exigem mais rigor punitivo, o governo federal aponta retrocesso
jurídico e desorganização normativa, enquanto parte do Congresso insiste em
equiparar facções criminosas ao terrorismo, apesar dos alertas de que isso
poderia fragilizar a própria soberania e comprometer o sistema penal. O
resultado é um projeto que tenta equilibrar demandas mutuamente incompatíveis.
A paralisia, portanto, é a evidência de um Congresso que não consegue entregar
sequer aquilo que diz considerar prioritário.
No plano climático, outro contraste
gritante. A COP30, realizada em Belém, deveria simbolizar um esforço coletivo
global. Em vez disso, ganhou um símbolo desconfortável: as cadeiras vazias da
delegação dos Estados Unidos. Lula, ao abrir a conferência, criticou os
negacionistas e denunciou a era em que até o multilateralismo virou alvo de
guerras culturais. A ausência americana num evento sediado na Amazônia não
passa despercebida e expõe como parte do mundo desenvolvido continua tratando a
crise climática como pauta opcional, enquanto milhões são compulsoriamente
afetados por seus efeitos imediatos.
E, justamente na COP30, o Brasil conseguiu
registrar um raro avanço multilateral. O país lançou a Coalizão Aberta de
Mercados Regulados de Carbono, reunindo China, países da União Europeia, como
Alemanha e França, Canadá e outros atores globais de peso, dando um sinal claro
de que, enquanto os EUA se ausentam, outras potências não apenas comparecem
como endossam o protagonismo brasileiro. Segundo o Ministério da Fazenda, a
adesão foi maior que o esperado e reforça a credibilidade do país na agenda
climática internacional. É um contraste curioso: enquanto Washington ensaia
isolamento, o Brasil articula cooperação.
No somatório, o que se vê é um Brasil
enredado em tensões múltiplas: renegociando tarifas com uma potência que há
poucos meses tentava nos intimidar; tentando votar uma legislação essencial,
mas travada por disputa política; liderando um debate climático global,
enquanto grandes emissores se ausentam; e organizando, ainda assim, um
movimento relevante no mercado de carbono. O país vive um momento em que cada
frente parece exigir resposta imediata e todas as respostas precisam ser dadas
ao mesmo tempo. O problema é que quando as engrenagens do país se movem em
direções opostas, e o povo não se posiciona, o maior risco não é o conflito, é
a paralisia silenciosa que impede o Brasil de avançar quando mais precisa.
[i] Pesquisadora do PROGEB e Graduada em Relações Internacionais (UFPB). (paolatc.arruda@gmail.com). Colaboraram: Antonio Queirós, Julia Bomfim, Lara Souza, Maria Júlia, Nelson Rosas e Icaro Moisés.



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