sábado, 22 de novembro de 2025

BRASIL, ESSE LUGAR ONDE O RELÓGIO NUNCA PARA

Semana de 10 a 16 de novembro de 2025

  

Paola Teotônio Cavalcante de Arruda[i]

 

Nas últimas semanas, o Brasil pareceu viver vários enredos simultâneos — diplomáticos, econômicos, ambientais e de segurança pública — todos exigindo atenção imediata, todos afetando o cotidiano do país. É como se estivéssemos tentando decifrar um quebra-cabeça enquanto as peças continuam se mexendo.

Comecemos pelo capítulo internacional, porque é nele que uma reviravolta se consolida: depois do tarifaço, imposto ao Brasil desde agosto, os Estados Unidos oficializaram um consenso. Mesmo com o protecionismo endurecido, o secretário de Estado Marco Rubio acenou para um acordo provisório, um “mapa do caminho” que permitirá resolver as pendências bilaterais em até três meses. O próprio Rubio afirmou ter conversado com Donald Trump, que demonstrou interesse em “resolver rapidamente” a relação. A mudança de tom é visível e, para quem observava a escalada de tensões, quase irônica. O Brasil não se dobrou, e o diálogo “reapareceu”.

No front interno, um outro impasse se arrasta: o PL “antifacção” segue paralisado e, na prática, revela muito mais do que simples divergências técnicas. O relator do projeto já apresentou quatro versões, e mesmo assim a votação voltou a ser adiada, desta vez por pressão simultânea do governo, da oposição e de governadores. Cada grupo empurra o texto para um lado diferente, expondo contradições profundas no projeto: governadores exigem mais rigor punitivo, o governo federal aponta retrocesso jurídico e desorganização normativa, enquanto parte do Congresso insiste em equiparar facções criminosas ao terrorismo, apesar dos alertas de que isso poderia fragilizar a própria soberania e comprometer o sistema penal. O resultado é um projeto que tenta equilibrar demandas mutuamente incompatíveis. A paralisia, portanto, é a evidência de um Congresso que não consegue entregar sequer aquilo que diz considerar prioritário.

No plano climático, outro contraste gritante. A COP30, realizada em Belém, deveria simbolizar um esforço coletivo global. Em vez disso, ganhou um símbolo desconfortável: as cadeiras vazias da delegação dos Estados Unidos. Lula, ao abrir a conferência, criticou os negacionistas e denunciou a era em que até o multilateralismo virou alvo de guerras culturais. A ausência americana num evento sediado na Amazônia não passa despercebida e expõe como parte do mundo desenvolvido continua tratando a crise climática como pauta opcional, enquanto milhões são compulsoriamente afetados por seus efeitos imediatos.

E, justamente na COP30, o Brasil conseguiu registrar um raro avanço multilateral. O país lançou a Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono, reunindo China, países da União Europeia, como Alemanha e França, Canadá e outros atores globais de peso, dando um sinal claro de que, enquanto os EUA se ausentam, outras potências não apenas comparecem como endossam o protagonismo brasileiro. Segundo o Ministério da Fazenda, a adesão foi maior que o esperado e reforça a credibilidade do país na agenda climática internacional. É um contraste curioso: enquanto Washington ensaia isolamento, o Brasil articula cooperação.

No somatório, o que se vê é um Brasil enredado em tensões múltiplas: renegociando tarifas com uma potência que há poucos meses tentava nos intimidar; tentando votar uma legislação essencial, mas travada por disputa política; liderando um debate climático global, enquanto grandes emissores se ausentam; e organizando, ainda assim, um movimento relevante no mercado de carbono. O país vive um momento em que cada frente parece exigir resposta imediata e todas as respostas precisam ser dadas ao mesmo tempo. O problema é que quando as engrenagens do país se movem em direções opostas, e o povo não se posiciona, o maior risco não é o conflito, é a paralisia silenciosa que impede o Brasil de avançar quando mais precisa.


[i] Pesquisadora do PROGEB e Graduada em Relações Internacionais (UFPB). (paolatc.arruda@gmail.com). Colaboraram: Antonio Queirós, Julia Bomfim, Lara Souza, Maria Júlia, Nelson Rosas e Icaro Moisés.

 

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