Semana de 08 a 14 de dezembro de 2025
Paola Teotônio Cavalcante de Arruda[i]
“Eles sabem o que estão fazendo?” — é assim
que circulam as provocações dirigidas ao Federal Reserve, Banco Central
estadunidense, nas notícias da última semana sobre os juros americanos. A
crítica é dura: o Fed estaria agindo contra a própria teoria que difundiu ao
mundo, cortando juros mesmo com inflação acima da meta. Mas pause um instante.
Antes de apontarmos o dedo para Washington, talvez valha inverter o espelho: será
que nós sabemos o que estamos fazendo?
Os Estados Unidos, quando pressionados por
sua realidade econômica concreta, não hesitam em relativizar dogmas. Abandonam,
sem cerimônia, o manual que exportaram ao Sul Global: metas rígidas, sacrifício
do crescimento, juros elevados como remédio universal. Quando a economia real
ameaça, a teoria cede. O pragmatismo vence.
No Brasil, ocorre o oposto. Aqui, a teoria
parece sobreviver mesmo quando a realidade grita o contrário. A Selic
estacionada em 15% convive com inflação em trajetória de queda, projeções cada
vez mais próximas da meta e sinais claros de desaceleração da atividade
econômica. Ainda assim, o discurso oficial insiste na necessidade de um
“período bastante prolongado” de juros elevados — agora rebatizado, com
sutileza semântica, de estratégia “em curso” e “adequada”.
Você, caro leitor, percebe o deslocamento?
Não é mais a inflação corrente que guia a política monetária, mas expectativas
sobre expectativas, modelos sobre modelos, num exercício quase autorreferente.
É como se houvesse um vazio teórico: bancos centrais operam sem uma teoria
clara da inflação, apoiando-se em rituais comunicacionais, que assemelham a
“ciência econômica” por eles defendida a um xamanismo em contradição.
No Brasil, esse ritual cobra um preço alto.
Juros persistentemente elevados comprimem investimento, encarecem o crédito,
fragilizam a atividade produtiva e aprofundam a dependência financeira, tudo
isso enquanto a inflação segue comportada. O mercado, inclusive, reconhece a
contradição, mas tem ciência de que ela é cômoda: parte significativa dos
analistas admite que um corte já seria justificável, ainda que o Copom insista
em cautela extrema e não se movimente para mudar a realidade.
Então, voltemos à pergunta inicial. Se os
Estados Unidos flexibilizam quando precisam, mesmo contrariando o discurso que
impõem ao mundo, por que o Brasil insiste em performar ortodoxia máxima, mesmo
quando os dados autorizam outra leitura? A quem serve essa rigidez?
Talvez o problema não seja se o Fed sabe o
que está fazendo. Talvez a questão central seja outra: por que, diante de
sinais tão claros, seguimos fingindo que não sabemos o que poderíamos fazer
diferente? E essa, convenhamos, é uma pergunta bem mais incômoda.
[i]
Pesquisadora do PROGEB e Graduan


