segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

E SE A PERGUNTA FOSSE SOBRE NÓS?

Semana de 08 a 14 de dezembro de 2025

     

Paola Teotônio Cavalcante de Arruda[i]

     

“Eles sabem o que estão fazendo?” — é assim que circulam as provocações dirigidas ao Federal Reserve, Banco Central estadunidense, nas notícias da última semana sobre os juros americanos. A crítica é dura: o Fed estaria agindo contra a própria teoria que difundiu ao mundo, cortando juros mesmo com inflação acima da meta. Mas pause um instante. Antes de apontarmos o dedo para Washington, talvez valha inverter o espelho: será que nós sabemos o que estamos fazendo?

Os Estados Unidos, quando pressionados por sua realidade econômica concreta, não hesitam em relativizar dogmas. Abandonam, sem cerimônia, o manual que exportaram ao Sul Global: metas rígidas, sacrifício do crescimento, juros elevados como remédio universal. Quando a economia real ameaça, a teoria cede. O pragmatismo vence.

No Brasil, ocorre o oposto. Aqui, a teoria parece sobreviver mesmo quando a realidade grita o contrário. A Selic estacionada em 15% convive com inflação em trajetória de queda, projeções cada vez mais próximas da meta e sinais claros de desaceleração da atividade econômica. Ainda assim, o discurso oficial insiste na necessidade de um “período bastante prolongado” de juros elevados — agora rebatizado, com sutileza semântica, de estratégia “em curso” e “adequada”.

Você, caro leitor, percebe o deslocamento? Não é mais a inflação corrente que guia a política monetária, mas expectativas sobre expectativas, modelos sobre modelos, num exercício quase autorreferente. É como se houvesse um vazio teórico: bancos centrais operam sem uma teoria clara da inflação, apoiando-se em rituais comunicacionais, que assemelham a “ciência econômica” por eles defendida a um xamanismo em contradição.

No Brasil, esse ritual cobra um preço alto. Juros persistentemente elevados comprimem investimento, encarecem o crédito, fragilizam a atividade produtiva e aprofundam a dependência financeira, tudo isso enquanto a inflação segue comportada. O mercado, inclusive, reconhece a contradição, mas tem ciência de que ela é cômoda: parte significativa dos analistas admite que um corte já seria justificável, ainda que o Copom insista em cautela extrema e não se movimente para mudar a realidade.

Então, voltemos à pergunta inicial. Se os Estados Unidos flexibilizam quando precisam, mesmo contrariando o discurso que impõem ao mundo, por que o Brasil insiste em performar ortodoxia máxima, mesmo quando os dados autorizam outra leitura? A quem serve essa rigidez?

Talvez o problema não seja se o Fed sabe o que está fazendo. Talvez a questão central seja outra: por que, diante de sinais tão claros, seguimos fingindo que não sabemos o que poderíamos fazer diferente? E essa, convenhamos, é uma pergunta bem mais incômoda.


[i] Pesquisadora do PROGEB e Graduanda em Relações Internacionais (UFPB). (paolatc.arruda@gmail.com). Colaboraram: Antonio Queirós, Julia Bomfim, Jéssica Brito, Maria Júlia Alencar, Nelson Rosas e Icaro Moisés.

 

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