Semana de 22 de dezembro de 2025 a 04 de janeiro de 2026
Lucas Milanez de Lima Almeida [i]
Sob o infantil pretexto de que era preciso
acabar com o narcoterrorismo liderado por Nicolás Maduro na Venezuela, vimos os
EUA realizarem um covarde ataque a Caracas e sequestrarem o presidente e a
primeira-dama, Cilia Flores. Certamente, este argumento não convence sequer os
tios do zap. Não há a menor possibilidade de uma pessoa com o mínimo de
sanidade mental acreditar nisto. É tanto que, rapidamente, Donald Trump veio a
público e confirmou aquilo que diversos internacionalistas já haviam explicado:
esta é uma típica ação imperialista. Mas em que consiste o imperialismo?
Defendendo aqui uma posição teórica, o
imperialismo pode ser entendido como um processo sistemático de exploração de
um país pelo outro. Tal exploração, contudo, tem conteúdo e forma. Como
essência no cerne de tal conteúdo, o imperialismo é uma relação econômica de
transferência de riqueza de um país para o outro. Esta “sucção” sistemática de
valor é resultado direto das diferenças nos níveis de desenvolvimento entre os
países que conformam o capitalismo mundial. Aqueles com forças produtivas mais
avançadas se destacam sobre os mais atrasados, pois lideram o desenvolvimento
capitalista em geral. Os últimos, por sua vez, para garantir sua própria
existência, precisam recorrer aos mais avançados para ter acesso, por exemplo,
a tecnologias melhores, ao crédito mais barato, etc. Como contrapartida, tendo
em vista que o capitalismo não é um sistema filantrópico, os países atrasados
pagam pelo uso do capital (dinheiro, produtivo ou mercadorias) vindo dos países
avançados. Esse pagamento é o que está na essência do imperialismo, sendo os
mecanismos econômicos (as leis de funcionamento do capitalismo) os demais
elementos que compõem o conteúdo.
Como pudemos ver, os elementos que compõem
o conteúdo do imperialismo são de caráter mais geral e, portanto, abstrato.
Porém, a forma com o imperialismo se manifesta é algo histórico e, portanto,
concreto. Em cada momento da história, diferentes foram as formas através das
quais as burguesias dos países capitalistas mais avançados impuseram-se sobre
as sociedades mais atrasadas. Na época da transição entre o feudalismo e o
capitalismo, isto se deu sob forte coação extra econômica (uso da força), tendo
como grande símbolo o Antigo Sistema Colonial. À época, as Américas, o litoral
da África e alguns países da Ásia eram controlados sob os ideais do
Mercantilismo e sob a liderança de Portugal. Após a Revolução Industrial, no
fim do século XVIII, tanto o ideal quanto a liderança mudaram: o Liberalismo
baseou o pensamento e a Inglaterra liderou o desenvolvimento capitalista.
Foi nesse contexto que vimos as colônias
das Américas se transformarem em países politicamente independentes, apesar do
mesmo ainda não acontecer na África e na Ásia. As mudanças se deram porque, a
partir de então, os elementos necessários à ação imperialista (as leis
capitalistas) se consolidaram de fato. Em algumas economias, como a brasileira,
não era mais preciso o uso da força militar para garantir a extração de
riqueza, bastava firmar alianças e acordos com as classes dominantes locais.
Naturalmente, quando necessário, a força
sempre foi um instrumento utilizado para a efetivação do imperialismo.
Sobretudo quando os fatores econômicos não eram capazes de resolver os conflitos de
interesse. Contudo, com a instauração das Guerras Mundiais, duas guerras de
confronto imperialista, tal expediente foi cada vez menos utilizado.
Disputas militares e destruição sempre foram toleradas pelos países avançados, desde que em territórios de países atrasados. Já o confronto e a destruição em suas casas não poderiam ser tolerados, pois significa destruição de seus próprios capitais. Diante disto, no pós-Segunda Guerra e sob a liderança dos EUA, constituiu-se um conjunto de organizações internacionais que passou a figurar como campo político para se travarem as batalhas que envolvem interesses econômicos dos mais diversos. Códigos, regras, resoluções, enfim, uma institucionalidade que tem como principal objetivo evitar a disputa entre as potências. O problema é que, ao fim ao cabo, pouco importava a forma como o imperialismo se expandia pelo mundo. Inclusive, o uso da força sobre países atrasados se manteve, sobretudo no Oriente Médio e sob a influência dos EUA.
O que estamos vendo acontecer com a Venezuela, portanto, não é algo novo. É o império atacando novamente. O que chama a atenção é que há décadas isto não acontecia por aqui. Chama ainda mais atenção o fato de ser o petróleo o grande desejo da ação. Enquanto novos paradigmas tecnológicos se estabelecem e despontam como fio condutor do desenvolvimento capitalista, Donald Trump lidera os EUA em direção ao passado. Isto é um grande sintoma da decadência do país na função de líder do desenvolvimento capitalista global. Resta saber o que mais os EUA vão fazer antes disto se concretizar.
Em tempo, o Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira expressa seu mais violento repúdio aos EUA, nação imperialista e maior violadora da soberania dos povos da história recente.
[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e
Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antonio Queirós, Jessica Brito, Julia
Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Icaro Ludovico, Igor, João Lucas e João Pedro.



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