Semana de 02 a 08 de fevereiro de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Ao longo do ano de 2025, informamos,
através desta publicação, que os indicadores conjunturais da economia
brasileira apresentaram bons resultados. Como a atividade econômica caminhou na
contramão da política monetária de juros altos, foi alcunhada de resiliente.
Mas o Banco Central já deixou claro: quebrará a resistência e, através da
manutenção da taxa de juros em 15%, a economia será desaquecida. Os analistas
concordam que, em virtude da defasagem de resposta dos indicadores econômicos,
o tombo poderá vir em 2026.
Embora a desaceleração dos últimos meses de
2025 tenha sido menor que a esperada, há um clima, ainda comedido, de
comemoração no ar. A maioria dos economistas e analistas a serviço do mercado
financeiro está aliviada, afinal, o primeiro grupo percebe o resultado como
consolidação de sua crença teórica, e o outro grupo garante os ganhos do setor
financeiro que podem ser referendados por uma ótica tecnicista-científica.
Ao longo do tempo, desde que o combate à
inflação se tornou o principal objetivo da política monetária, a sociedade
brasileira passa por um processo de convencimento de que deve ser grata pelo
purgante, mesmo que isso signifique menos postos de trabalho formal e,
consequentemente, prejuízo ao bem-estar social. Segundo esta visão, não há
outro remédio para o aquecimento da economia (e a inflação daí decorrente),
senão o desaquecimento. Ou seja, ao invés de optarmos por estimular um novo
patamar de desenvolvimento da capacidade econômica, escolhe-se
“estrategicamente” ficar aquém. Por esta razão, estamos presos a uma opção que
condena a nossa economia ao baixo crescimento.
A inflação está controlada e dentro das
metas delimitadas pelo Banco Central, mas qualquer sinal de estímulo, seja ele
vindo do governo ou do setor privado, gera discursos preocupados no jornalismo
econômico. A inquietação da vez é o ano eleitoral. Como o presidente se
candidatará à reeleição, o desassossego é que ele libere geral, adotando
medidas de política econômica “eleitoreiras” que estraguem o trabalho do Banco Central.
E algumas delas, vejam só, já estão em andamento.
A isenção do pagamento do imposto de renda
para os trabalhadores que recebem até R$ 5.000,00 e a redução da tributação de
rendas entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00 é um exemplo. Temos aí um problema para
o dogma econômico estabelecido. A implementação gerará uma renúncia fiscal de
R$ 25,4 bilhões que se reverterá em renda disponível para o consumo de bens e
serviços. O Daycoval, em tom de lamento, estimou que a medida terá impacto de
0,3 ponto percentual sobre o PIB de 2026, com os setores de habitação, transporte
e alimentação recebendo os maiores estímulos.
Já
o UBS Global Wealth Management, braço da gestão de fortunas do banco suíço UBS,
lastimou a permanência dos programas sociais. “Tem muito estímulo fiscal já
aprovado para 2026, como a desoneração do Imposto de Renda, o vale-gás, o
programa Luz para Todos e várias iniciativas em termos de crédito...”. Pois é.
Como a população vai usar a renda extra, em especial no setor de serviços, que
está sustentando a inflação atualmente, mais inflação está sendo esperada para
2026. E o UBS GWM conclui, sem qualquer pudor: “O viés é de que, talvez, os
serviços não desacelerem nada, porque, se não tiver um aumento do desemprego
como as pessoas esperam (...) não dá pra ter a inflação de serviços caindo
gradualmente”. É isto, caro leitor.
No
fim das contas, a teoria econômica referenda que a escolha entre emprego e
inflação é inevitável e os rentistas recebem as benesses derivadas desta
escolha. Resta ao trabalhador “entender” que ele precisa estar desempregado
para que esta convergência de fatos aconteça, sem perceber, é claro, que esta
condição é incompatível com a sua existência.
Inacreditável!
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram:
Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria
Júlia Alencar, João Pedro de Oliveira, João Lucas Alves, Heitor Augustu e
Mariana Sofia Rolim.



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