quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

É preciso gerar desemprego...

    Semana de 02 a 08 de fevereiro de 2026    

Rosângela Palhano Ramalho[1] 

Ao longo do ano de 2025, informamos, através desta publicação, que os indicadores conjunturais da economia brasileira apresentaram bons resultados. Como a atividade econômica caminhou na contramão da política monetária de juros altos, foi alcunhada de resiliente. Mas o Banco Central já deixou claro: quebrará a resistência e,  através da manutenção da taxa de juros em 15%, a economia será desaquecida. Os analistas concordam que, em virtude da defasagem de resposta dos indicadores econômicos, o tombo poderá vir em 2026.

Embora a desaceleração dos últimos meses de 2025 tenha sido menor que a esperada, há um clima, ainda comedido, de comemoração no ar. A maioria dos economistas e analistas a serviço do mercado financeiro está aliviada, afinal, o primeiro grupo percebe o resultado como consolidação de sua crença teórica, e o outro grupo garante os ganhos do setor financeiro que podem ser referendados por uma ótica tecnicista-científica.

Ao longo do tempo, desde que o combate à inflação se tornou o principal objetivo da política monetária, a sociedade brasileira passa por um processo de convencimento de que deve ser grata pelo purgante, mesmo que isso signifique menos postos de trabalho formal e, consequentemente, prejuízo ao bem-estar social. Segundo esta visão, não há outro remédio para o aquecimento da economia (e a inflação daí decorrente), senão o desaquecimento. Ou seja, ao invés de optarmos por estimular um novo patamar de desenvolvimento da capacidade econômica, escolhe-se “estrategicamente” ficar aquém. Por esta razão, estamos presos a uma opção que condena a nossa economia ao baixo crescimento.

A inflação está controlada e dentro das metas delimitadas pelo Banco Central, mas qualquer sinal de estímulo, seja ele vindo do governo ou do setor privado, gera discursos preocupados no jornalismo econômico. A inquietação da vez é o ano eleitoral. Como o presidente se candidatará à reeleição, o desassossego é que ele libere geral, adotando medidas de política econômica “eleitoreiras” que estraguem o trabalho do Banco Central. E algumas delas, vejam só, já estão em andamento.

A isenção do pagamento do imposto de renda para os trabalhadores que recebem até R$ 5.000,00 e a redução da tributação de rendas entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00 é um exemplo. Temos aí um problema para o dogma econômico estabelecido. A implementação gerará uma renúncia fiscal de R$ 25,4 bilhões que se reverterá em renda disponível para o consumo de bens e serviços. O Daycoval, em tom de lamento, estimou que a medida terá impacto de 0,3 ponto percentual sobre o PIB de 2026, com os setores de habitação, transporte e alimentação recebendo os maiores estímulos. 

            Já o UBS Global Wealth Management, braço da gestão de fortunas do banco suíço UBS, lastimou a permanência dos programas sociais. “Tem muito estímulo fiscal já aprovado para 2026, como a desoneração do Imposto de Renda, o vale-gás, o programa Luz para Todos e várias iniciativas em termos de crédito...”. Pois é. Como a população vai usar a renda extra, em especial no setor de serviços, que está sustentando a inflação atualmente, mais inflação está sendo esperada para 2026. E o UBS GWM conclui, sem qualquer pudor: “O viés é de que, talvez, os serviços não desacelerem nada, porque, se não tiver um aumento do desemprego como as pessoas esperam (...) não dá pra ter a inflação de serviços caindo gradualmente”. É isto, caro leitor.

            No fim das contas, a teoria econômica referenda que a escolha entre emprego e inflação é inevitável e os rentistas recebem as benesses derivadas desta escolha. Resta ao trabalhador “entender” que ele precisa estar desempregado para que esta convergência de fatos aconteça, sem perceber, é claro, que esta condição é incompatível com a sua existência.

Inacreditável!



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, João Pedro de Oliveira, João Lucas Alves, Heitor Augustu e Mariana Sofia Rolim.

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