segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EMENDAS PARLAMENTARES: UMA DAS DIMENSÕES DO PROBLEMA...

 Semana de 19 a 25 de janeiro de 2026     

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Tema sempre presente em grandes debates sobre a execução do orçamento público, as emendas parlamentares têm sido atacadas em diversas frentes. A mais elementar e explícita se relaciona com a dificuldade de se rastrear e acompanhar o uso do dinheiro. Claro, isto dá muita vantagem política àqueles que se beneficiam da medida: a falta de transparência dos gastos permite tanto as maracutaias (como o sobrepreço de bens e serviços), quanto o desvio de finalidade (como a contratação de show sertanejo em vez de gastos com saúde ou educação). Em ano eleitoral, a farra é garantida.

Antes de mais nada, é preciso dizer que é legítima a reivindicação e a destinação de parte do orçamento federal a deputados e senadores. Eles, mais do que qualquer ministro da fazenda, conhecem a realidade e as necessidades de seus rincões. Portanto, é justo que destinem recursos e atendam às demandas específicas de seus redutos eleitorais. Afinal, eles foram escolhidos, também, para que suas localidades tivessem a atenção do poder público.

Contudo, é preciso destacar um elemento importante que joga contra esta distribuição de recursos federais, em especial, em seu formato atual: a descentralização excessiva das despesas. Na Lei Orçamentário Anual (LOA) de 2026, ficou aprovado o gasto de R$ 192,9 bilhões em investimentos. Ou seja, é recurso que o poder executivo pode destinar para a ampliação ou construção de escolas, hospitais, centros de pesquisa, sistemas de informatização, etc. Por sua vez, nesta mesma LOA, foi aprovado o gasto de R$ 49,9 bilhões em emendas parlamentares, que são despesas destinadas de acordo com as decisões de 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores). Isto significa que o equivalente a mais de 25% das despesas para investimento em ampliação e melhoria da oferta de serviços públicos é pulverizado entre pessoas com interesses e, principalmente, projetos completamente diferentes.

Mesmo admitindo a remota possibilidade de que todo o dinheiro será gasto de forma ilibada, ainda assim a situação está longe do ideal. Como demonstrou a ciência econômica a partir de meados dos anos 1950, bem como as práticas soviética (desde 1917) e chinesa (desde o primeiro plano quinquenal, de 1953), a participação do Estado no planejamento e execução de projetos é fundamental para a superação do atraso nas forças produtivas de um país. É através da centralização das decisões no poder executivo que se alcança a maior eficiência no atendimento das demandas coletivas.

A lógica é a seguinte: quanto mais pulverizado o poder de indicação das despesas, menor é a força do agente público perante os interesses individuais, dele próprio e de quem ele possa vir a beneficiar com suas decisões. É um prefeito que recebe uma emenda milionária de um deputado aliado e vai escolher entre asfaltar uma rua, pintar uma escola ou financiar um evento em seu município. Em todos os casos, a pressão sobre ele é direta. No caso de uma proposta ministerial, vinda do poder executivo, a decisão é tomada a partir de grupos de trabalho, conselhos deliberativos e órgãos colegiados. Obviamente, eles não estão imunes aos ataques dos diferentes grupos de interesse, os quais também têm o direito de reivindicar sua participação na tomada de decisões, mas o corpo técnico que atua no planejamento tem condições mais apropriadas de lidar com a situação do que um simples assessor em nível municipal.

Frequentemente, as emendas parlamentares são gastas de maneira desarticulada com outros projetos de interesse amplo da sociedade. Por exemplo, por mais que seja necessário ensinar robótica aos estudantes do ensino público, de que adianta comprar kits de robótica se a escola sequer tem instalação elétrica, equipamentos de informática ou internet adequados? Como essa medida vai ser efetiva?

Qual a saída? Para esta dimensão do problema, a saída seria o seguinte modelo: o poder executivo, liderado pelo presidente eleito, estabelece quais são as diretrizes para o desenvolvimento econômico e social; depois, através dos ministérios, elaboram-se os planos de ação, indicando as áreas beneficiadas, os valores destinados, etc.; por fim, uma parte do dinheiro é executada pelos respectivos ministérios e outra parte é distribuída entre os projetos apresentados pelos parlamentares. Assim, unir-se-iam, de maneira articulada e estruturada a um grande plano de desenvolvimento, as demandas particulares de cada reduto eleitoral e a oferta de emendas parlamentares.

Bom, como professor, me dou o direito de dizer que, em teoria e com base na ciência econômica, essa é uma das melhores formas de se resolver o problema. Já na prática, vai convencer a turma do centrão...

 



[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Sophie, Talita Ana, Thales, Vivian e Alicia.


Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Novidades

Recent Posts Widget

Postagens mais visitadas

Arquivo do blog