Semana de 23 de fevereiro a 01 de março de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Caro leitor, o mês de março chegou, e o
fechamento das contas nacionais do ano passado se aproxima. Espera-se, como já
mencionado neste espaço, um arrefecimento da economia nacional em relação aos
anos anteriores. O Banco Central já comemora e, na ata da reunião ocorrida no
final do mês de janeiro, considerou “...iniciar a flexibilização da política
monetária em sua próxima reunião...”. Ainda há um inconformismo com a
resiliência da economia brasileira, atribuída principalmente à política fiscal.
O fato é que ainda teremos crescimento e a taxa ficará próxima dos 2,5%. O
governo comemora, pois, mesmo com uma política monetária contracionista, tem
conseguido sustentar um crescimento considerável.
Um
apanhado dos principais indicadores econômicos nos dá a dimensão dos avanços de
2025. O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros chegou a R$
3.613,00 em 2025. Este valor, apurado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios), é o maior da série histórica desde 2012 e representou
uma alta de 12% em relação a 2024. O aumento populacional, a formalização do
emprego e os reajustes salariais, foram os elementos determinantes para o
ganho. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu de 6,6% em 2024 para 5,6% no ano
passado, também o menor nível da série histórica da Pnad Contínua. O número
médio de brasileiros desempregados caiu 7,2 milhões para 6,2 milhões de
pessoas. Um recorde.
A inflação, monstro que, no Brasil, assusta
mais que o desemprego, não apresenta sinal de aceleração. A taxa de inflação
dos últimos doze meses terminados em janeiro, segundo o IBGE, foi de 4,4%. O
resultado continua dentro do sistema de metas inflacionárias adotado pela
autoridade monetária brasileira, cujo limite máximo é 4,5%. Mesmo assim, o
mercado financeiro segue alimentando um cenário caótico no futuro, mantendo a
pressão sobre o Banco Central para que ele não abandone o “compromisso” no
controle de uma inflação que, segundo as métricas oficiais, já está controlada.
No
que diz respeito às contas públicas, estas não param de serem atacadas. O
Tesouro Nacional divulgou o resultado primário do Governo Central (Tesouro
Nacional, Previdência Social e Banco Central) de 2025, que apresentou déficit
de R$ 61,691 bilhões, resultado que ficou abaixo da meta estabelecida pelo
Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias que previa déficit
primário de R$ 75,718 bilhões para aquele ano. Vale ressaltar que, em dezembro
de 2025, houve superávit primário de R$ 22,107 bilhões. Entretanto, exige-se
tratamento empresarial para o Estado, como se o seu objetivo fosse o de
apresentar lucro, com custos impostos à sociedade e, em especial, às pessoas
mais vulneráveis. Lembro que o jornalismo econômico mantém na mesa a
desvinculação dos benefícios previdenciários do salário-mínimo, que
desobrigaria o reajuste anual desses benefícios. Os reajustes, segundo esta
proposta, passariam a ser feitos apenas pela inflação. Ou seja, para “salvar”
as contas públicas propõe-se matar o pobre.
Então
o leitor percebe que, embora os resultados da economia sejam visíveis e
quantificáveis, como os ganhos reais de renda, a queda do desemprego e da
inflação, além do controle das contas públicas com manutenção de diversos
programas que promovem melhorias na renda, no acesso à educação, à moradia e à
saúde, parte da população brasileira não os reconhece como positivos. Este
fragmento social foi seduzido, ou encontrou representação, no discurso da
extrema-direita do Brasil, que tem como pauta atacar e invisibilizar as
conquistas recentes da economia brasileira, mantendo um clima de medo e
desconfiança. E a elite econômica e financeira encampou este discurso pois ele
atende seus interesses.
Infelizmente, a ascensão das mídias
digitais e, em especial, a comunicação pessoal via redes sociais, facilitaram a
disseminação da informação e da desinformação. Os resultados econômicos
perderam espaço para as pautas de costumes, que passaram a nortear as
discussões pessoais, políticas e institucionais. Preconceitos, ódio e
discriminação proliferam numa velocidade jamais vista e a realidade não recebe
a devida importância na percepção das pessoas, do jornalismo econômico e muito
menos entre os economistas que ditam as decisões da política econômica
nacional. São tempos difíceis.
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia
Bomfim, Ícaro Moisés, Antônio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Gabriela Félix,
Gabrielle Cavalcante, Júlia Araújo, Júlia Almeida e Jade Carvalho.


