segunda-feira, 30 de março de 2026

TRUCULÊNCIA DE TRUMP PÕE ECONOMIA GLOBAL EM RISCO

 Semana de 16 a 22 de março de 2026   

Rosângela Palhano Ramalho[1]

   O presidente americano, Donald Trump, continua em sua incursão contra o mundo. Desta vez, aliado a Israel, produziu uma guerra contra o Irã. Com uma visão superdimensionada de si mesmo e tentando resgatar o protagonismo geopolítico e econômico dos Estados Unidos, o presidente americano pôs o mundo de joelhos. Assim como as falsas acusações que dirigiu a Maduro e à Venezuela, atribuiu ao Irã a ameaça nuclear. Ao bombardear e assassinar o líder supremo do país, Ali Khamenei, Trump concluiu que o Irã estava liquidado. Ledo engano. Em reação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz, canal marítimo por onde escoa 20% do petróleo consumido no mundo e passou a atacar as bases americanas nos países vizinhos espalhando o conflito por todo o Oriente Médio.

Em sua aventura voraz, Trump e Netanyahu impuseram a eles próprios e ao mundo as consequências. O preço do barril de petróleo, que em média custava US$ 73, ultrapassou, no ápice do conflito, o valor de US$ 119. Uma crise energética global surge no horizonte. Os Estados Unidos aliviaram as sanções a petroleiros russos em alto mar com o intuito de aumentar a oferta e distensionar os preços em seu território. Na Europa, o preço do gás natural subiu até 35% em apenas dois dias.

No Brasil, os fornecedores de óleo diesel turbinaram seus lucros às custas da população, antecipando uma alta de até 20% sobre os preços. Mas o pior está por vir. Segundo os analistas, se a guerra se estender, o país será desabastecido, já que um navio leva 15 dias para chegar com as cargas do óleo combustível. Além deste, diversos setores que usam o petróleo como fonte de energia ou como insumo, estão recompondo os preços. O transporte rodoviário em geral, as passagens aéreas no país, a alimentação fora de casa, os fertilizantes (dependentes em 85% da importação de ureia e amônia), os plásticos e as borrachas, que dependem da nafta, seu principal insumo produtivo, e o cimento, que precisa do coque como combustível para seus fornos, já apresentam aumento dos preços.

Diante desse cenário, é certo que o país não sairá ileso do confronto criado pela dupla Trump/Netanyahu. O PIB brasileiro desacelerou em 2025 quando comparado a 2024. O crescimento de 2,3% no ano passado foi arrefecido pela política monetária de juros altos, único remédio contra a inflação utilizado pelo Banco Central do Brasil. As incertezas causadas pela guerra trumpista lança ao país mais desafios, justamente quando o ciclo de alta dos juros já “estava contratado”. De fato, ao se reunir entre os dias 17 e 18 de março deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa de juros Selic de 15% para 14,75% ao ano, primeiro corte da taxa desde maio de 2024. Esperava-se uma redução de 0,5%, entretanto, prevaleceu um corte mais modesto, que veio acompanhado do alerta para a ocorrência de pressão inflacionária derivada da guerra declarada ao Oriente Médio.

Enquanto este texto era concluído, o Banco Central divulgou a ata da última reunião do Copom e ainda impressiona a linguagem dura em relação ao desempenho econômico interno. Crescer no regime de metas inflacionárias é um problema. Inicialmente, a ata o texto comemora a desaceleração econômica dizendo que “...o resultado do PIB no último trimestre de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica...” mas finaliza lamentando que “...o mercado de trabalho segue resiliente”. O próprio Copom admite que a inflação está sob controle “...apresentando algum arrefecimento...” mas, alimenta o monstro alertando que “...as medidas subjacentes seguiram, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”. O documento nos pede mais sacrifício. Para isso, nos brinda com uma dose de teoria econômica. “O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”. E eis que uma questão surge: por que não reequilibrar oferta e demanda pelo aumento da oferta agregada? Sinto dizer caro leitor, que esta solução está solenemente descartada pela teoria econômica dominante. Ela faz parte dos fenômenos impossíveis da economia. Discordamos. Mas como não determinamos os rumos da política econômica, nos resta informar que, embora outras soluções existam, não há espaço para elas.

Enfim, 2026 se configura como o ano das incertezas. A guerra trumpista, se estendida, tombará a economia mundial e contribuirá para que a nossa política monetária seja ainda mais contracionista. Some-se a isso o fato de que estamos em um ano eleitoral com o golpismo à espreita, esperando uma nova oportunidade para emergir...



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Maria Clara Gueiros, Vivian Maria, Sophie Ventura e Sophia Martins.

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segunda-feira, 16 de março de 2026

O PIB E O PIB DE 2025: CRISE?

 

   Semana de 02 a 08 de março de 2026    

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Para os que não estão familiarizados com o jargão econômico, PIB é abreviação de Produto Interno Bruto. Como define o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão estatal responsável pelo cálculo oficial no Brasil, “o PIB é um indicador de fluxo de novos bens e serviços finais produzidos durante um período”. Ou seja, é a soma da riqueza nova produzida em um território ao longo de um tempo determinado.

Os responsáveis por produzirem essa riqueza são os setores da atividade econômica, distribuídos entre Agropecuária, Indústria e Serviços. Sob esta perspectiva, podemos analisar o funcionamento da economia nacional pela ótica da produção/oferta. Ou seja, podemos identificar quais atividades são as mais importantes para a dinâmica produtiva em termos de criação de riqueza. A partir dos dados da Contas Nacionais Trimestrais, é possível observar isto.

Desde 1997, o setor que mais contribuiu para o crescimento da economia nacional foram os Serviços, podendo-se atribuir, em média, cerca de 73% da variação do PIB ao setor. O restante foi responsabilidade da Agropecuária (12%) e da Indústria (15%), com a importância de cada uma variando ao longo do tempo.

Por exemplo, entre 2003 e 2010, mais de 20% do crescimento do PIB foi puxado pela indústria. Para quem não lembra, este foi o período de maior crescimento da economia brasileira desde os anos 1980. Porém, entre 2011 e 2019, a indústria puxou nossa economia para baixo, diminuindo significativamente seu papel na atividade econômica nacional. Neste interregno, tivemos uma crise iniciada em meados de 2014, que se estendeu até 2016, sendo que os setores só retomaram uma trajetória consistente de crescimento em 2017.

Por fim, entre 2020 e 2025, a Agropecuária contribuiu, em média, um pouco mais do que a Indústria para a economia brasileira, sendo 16,9% de contribuição contra 14,3%, respectivamente. Para além das safras recorde, beneficiando o agro brasileiro, tivemos a Pandemia de Covid-19, que afetou nossa produção industrial. A situação brasileira foi tal que apenas em 2022 o valor do PIB, em termos reais, superou o observado em 2014. No caso da Indústria, isto só ocorreu em 2024.

Analisando apenas os dados desses últimos anos, em especial o que aconteceu em 2025, apesar dos indícios, ainda não podemos afirmar com clareza que a atual desaceleração da economia reflete o início de uma nova fase de crise cíclica (crise de superprodução). O motivo é que alguns acontecimentos estão perturbando o atual ciclo econômico.

O primeiro deles é o fato de que, entre 2018 e 2019, se gestavam os fatores objetivos para a manifestação de uma crise de superprodução. Contudo, as medidas de enfrentamento à Pandemia de Covid-19, em 2020, alteraram profundamente o próprio funcionamento do capitalismo. O resultado disso foi uma crise singular, que ficou conhecida como Crise da Covid. Em combate a ela, foi adotado um amplo conjunto de medidas de recuperação econômica, o que, efetivamente, alterou as condições de manifestação da superprodução generalizada. Como resultado, o desenvolvimento capitalista não passou por uma fase que lhe é essencial: o saneamento e destruição dos capitais em excesso. Esta deformação na dinâmica da acumulação, por sua vez, está se refletindo no ciclo atual e, dada a singularidade da situação, fica difícil prever o que irá acontecer.

Para piorar, vivemos um momento em que a grande potência que liderou o desenvolvimento capitalista no século XX passa por severas dificuldades para manter esse posto. Além das disputas nos campos tradicionais, temos que conviver com um país liderado por um ser indescritível, que consegue misturar o pior do passado com o pior do presente da humanidade. Isto, também, altera a maneira como a economia se movimenta do ponto de vista

cíclico, na medida em que as ações dos EUA têm alterado um conjunto de relações econômicas já estabelecidas. Vide o que já está acontecendo com o preço internacional do petróleo e o preço dos combustíveis aqui.

Bom, podemos ver que aquele que era o grande trunfo para a reeleição de Lula está sob ameaça. Antes vista como carta na manga, a bonança econômica está sob suspeita. Para piorar, mais uma vez, a mídia e os algoritmos das redes sociais já começaram a bombardear os eleitores com supostas associações entre Daniel Vorcaro, INSS, STF e Lula.

Para quem, no ano passado, achou que a reeleição estava ganha, aprenda de uma vez por todas: o capitalismo é um sistema muito contraditório e dinâmico, e a burguesia está aí para fazer com que isto se mantenha exatamente como está, aqui ou no resto do mundo. A nós, só resta lutar...

           


[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Lucas Carvalho, Lucas Gabriel, Luiz Vinicius.

 

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segunda-feira, 9 de março de 2026

A REALIDADE ECONÔMICA CONTINUA A PASSAR DESPERCEBIDA

 Semana de 23 de fevereiro a 01 de março de 2026  

Rosângela Palhano Ramalho[1]

  Caro leitor, o mês de março chegou, e o fechamento das contas nacionais do ano passado se aproxima. Espera-se, como já mencionado neste espaço, um arrefecimento da economia nacional em relação aos anos anteriores. O Banco Central já comemora e, na ata da reunião ocorrida no final do mês de janeiro, considerou “...iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião...”. Ainda há um inconformismo com a resiliência da economia brasileira, atribuída principalmente à política fiscal. O fato é que ainda teremos crescimento e a taxa ficará próxima dos 2,5%. O governo comemora, pois, mesmo com uma política monetária contracionista, tem conseguido sustentar um crescimento considerável.

   Um apanhado dos principais indicadores econômicos nos dá a dimensão dos avanços de 2025. O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros chegou a R$ 3.613,00 em 2025. Este valor, apurado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), é o maior da série histórica desde 2012 e representou uma alta de 12% em relação a 2024. O aumento populacional, a formalização do emprego e os reajustes salariais, foram os elementos determinantes para o ganho. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu de 6,6% em 2024 para 5,6% no ano passado, também o menor nível da série histórica da Pnad Contínua. O número médio de brasileiros desempregados caiu 7,2 milhões para 6,2 milhões de pessoas. Um recorde.

A inflação, monstro que, no Brasil, assusta mais que o desemprego, não apresenta sinal de aceleração. A taxa de inflação dos últimos doze meses terminados em janeiro, segundo o IBGE, foi de 4,4%. O resultado continua dentro do sistema de metas inflacionárias adotado pela autoridade monetária brasileira, cujo limite máximo é 4,5%. Mesmo assim, o mercado financeiro segue alimentando um cenário caótico no futuro, mantendo a pressão sobre o Banco Central para que ele não abandone o “compromisso” no controle de uma inflação que, segundo as métricas oficiais, já está controlada.

 No que diz respeito às contas públicas, estas não param de serem atacadas. O Tesouro Nacional divulgou o resultado primário do Governo Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) de 2025, que apresentou déficit de R$ 61,691 bilhões, resultado que ficou abaixo da meta estabelecida pelo Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias que previa déficit primário de R$ 75,718 bilhões para aquele ano. Vale ressaltar que, em dezembro de 2025, houve superávit primário de R$ 22,107 bilhões. Entretanto, exige-se tratamento empresarial para o Estado, como se o seu objetivo fosse o de apresentar lucro, com custos impostos à sociedade e, em especial, às pessoas mais vulneráveis. Lembro que o jornalismo econômico mantém na mesa a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário-mínimo, que desobrigaria o reajuste anual desses benefícios. Os reajustes, segundo esta proposta, passariam a ser feitos apenas pela inflação. Ou seja, para “salvar” as contas públicas propõe-se matar o pobre.

Então o leitor percebe que, embora os resultados da economia sejam visíveis e quantificáveis, como os ganhos reais de renda, a queda do desemprego e da inflação, além do controle das contas públicas com manutenção de diversos programas que promovem melhorias na renda, no acesso à educação, à moradia e à saúde, parte da população brasileira não os reconhece como positivos. Este fragmento social foi seduzido, ou encontrou representação, no discurso da extrema-direita do Brasil, que tem como pauta atacar e invisibilizar as conquistas recentes da economia brasileira, mantendo um clima de medo e desconfiança. E a elite econômica e financeira encampou este discurso pois ele atende seus interesses.

Infelizmente, a ascensão das mídias digitais e, em especial, a comunicação pessoal via redes sociais, facilitaram a disseminação da informação e da desinformação. Os resultados econômicos perderam espaço para as pautas de costumes, que passaram a nortear as discussões pessoais, políticas e institucionais. Preconceitos, ódio e discriminação proliferam numa velocidade jamais vista e a realidade não recebe a devida importância na percepção das pessoas, do jornalismo econômico e muito menos entre os economistas que ditam as decisões da política econômica nacional. São tempos difíceis.



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antônio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Gabriela Félix, Gabrielle Cavalcante, Júlia Araújo, Júlia Almeida e Jade Carvalho.

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