Semana de 16 a 22 de março de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
O presidente americano, Donald Trump,
continua em sua incursão contra o mundo. Desta vez, aliado a Israel, produziu
uma guerra contra o Irã. Com uma visão superdimensionada de si mesmo e tentando
resgatar o protagonismo geopolítico e econômico dos Estados Unidos, o
presidente americano pôs o mundo de joelhos. Assim como as falsas acusações que
dirigiu a Maduro e à Venezuela, atribuiu ao Irã a ameaça nuclear. Ao bombardear
e assassinar o líder supremo do país, Ali Khamenei, Trump concluiu que o Irã
estava liquidado. Ledo engano. Em reação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz,
canal marítimo por onde escoa 20% do petróleo consumido no mundo e passou a
atacar as bases americanas nos países vizinhos espalhando o conflito por todo o
Oriente Médio.
Em sua aventura voraz, Trump e Netanyahu
impuseram a eles próprios e ao mundo as consequências. O preço do barril de petróleo,
que em média custava US$ 73, ultrapassou, no ápice do conflito, o valor de US$
119. Uma crise energética global surge no horizonte. Os Estados Unidos
aliviaram as sanções a petroleiros russos em alto mar com o intuito de aumentar
a oferta e distensionar os preços em seu território. Na Europa, o preço do gás
natural subiu até 35% em apenas dois dias.
No Brasil, os fornecedores de óleo diesel
turbinaram seus lucros às custas da população, antecipando uma alta de até 20%
sobre os preços. Mas o pior está por vir. Segundo os analistas, se a guerra se
estender, o país será desabastecido, já que um navio leva 15 dias para chegar
com as cargas do óleo combustível. Além deste, diversos setores que usam o
petróleo como fonte de energia ou como insumo, estão recompondo os preços. O
transporte rodoviário em geral, as passagens aéreas no país, a alimentação fora
de casa, os fertilizantes (dependentes em 85% da importação de ureia e amônia),
os plásticos e as borrachas, que dependem da nafta, seu principal insumo
produtivo, e o cimento, que precisa do coque como combustível para seus fornos,
já apresentam aumento dos preços.
Diante desse cenário, é certo que o país
não sairá ileso do confronto criado pela dupla Trump/Netanyahu. O PIB
brasileiro desacelerou em 2025 quando comparado a 2024. O crescimento de 2,3%
no ano passado foi arrefecido pela política monetária de juros altos, único
remédio contra a inflação utilizado pelo Banco Central do Brasil. As incertezas
causadas pela guerra trumpista lança ao país mais desafios, justamente quando o
ciclo de alta dos juros já “estava contratado”. De fato, ao se reunir entre os
dias 17 e 18 de março deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu
a taxa de juros Selic de 15% para 14,75% ao ano, primeiro corte da taxa desde
maio de 2024. Esperava-se uma redução de 0,5%, entretanto, prevaleceu um corte
mais modesto, que veio acompanhado do alerta para a ocorrência de pressão
inflacionária derivada da guerra declarada ao Oriente Médio.
Enquanto este texto era concluído, o Banco
Central divulgou a ata da última reunião do Copom e ainda impressiona a
linguagem dura em relação ao desempenho econômico interno. Crescer no regime de
metas inflacionárias é um problema. Inicialmente, a ata o texto comemora a
desaceleração econômica dizendo que “...o resultado do PIB no último trimestre
de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica...” mas
finaliza lamentando que “...o mercado de trabalho segue resiliente”. O próprio
Copom admite que a inflação está sob controle “...apresentando algum
arrefecimento...” mas, alimenta o monstro alertando que “...as medidas
subjacentes seguiram, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação”. O
documento nos pede mais sacrifício. Para isso, nos brinda com uma dose de
teoria econômica. “O Comitê relembra que o arrefecimento da demanda agregada é
um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da
economia e convergência da inflação à meta”. E eis que uma questão surge: por
que não reequilibrar oferta e demanda pelo aumento da oferta agregada? Sinto
dizer caro leitor, que esta solução está solenemente descartada pela teoria
econômica dominante. Ela faz parte dos fenômenos impossíveis da economia.
Discordamos. Mas como não determinamos os rumos da política econômica, nos
resta informar que, embora outras soluções existam, não há espaço para elas.
Enfim, 2026 se configura como o ano das
incertezas. A guerra trumpista, se estendida, tombará a economia mundial e
contribuirá para que a nossa política monetária seja ainda mais contracionista.
Some-se a isso o fato de que estamos em um ano eleitoral com o golpismo à
espreita, esperando uma nova oportunidade para emergir...
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e
pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br,
rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas,
Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Maria Clara
Gueiros, Vivian Maria, Sophie Ventura e Sophia Martins.



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