segunda-feira, 9 de março de 2026

A REALIDADE ECONÔMICA CONTINUA A PASSAR DESPERCEBIDA

 Semana de 23 de fevereiro a 01 de março de 2026  

Rosângela Palhano Ramalho[1]

  Caro leitor, o mês de março chegou, e o fechamento das contas nacionais do ano passado se aproxima. Espera-se, como já mencionado neste espaço, um arrefecimento da economia nacional em relação aos anos anteriores. O Banco Central já comemora e, na ata da reunião ocorrida no final do mês de janeiro, considerou “...iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião...”. Ainda há um inconformismo com a resiliência da economia brasileira, atribuída principalmente à política fiscal. O fato é que ainda teremos crescimento e a taxa ficará próxima dos 2,5%. O governo comemora, pois, mesmo com uma política monetária contracionista, tem conseguido sustentar um crescimento considerável.

   Um apanhado dos principais indicadores econômicos nos dá a dimensão dos avanços de 2025. O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros chegou a R$ 3.613,00 em 2025. Este valor, apurado pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), é o maior da série histórica desde 2012 e representou uma alta de 12% em relação a 2024. O aumento populacional, a formalização do emprego e os reajustes salariais, foram os elementos determinantes para o ganho. A taxa de desemprego, por sua vez, caiu de 6,6% em 2024 para 5,6% no ano passado, também o menor nível da série histórica da Pnad Contínua. O número médio de brasileiros desempregados caiu 7,2 milhões para 6,2 milhões de pessoas. Um recorde.

A inflação, monstro que, no Brasil, assusta mais que o desemprego, não apresenta sinal de aceleração. A taxa de inflação dos últimos doze meses terminados em janeiro, segundo o IBGE, foi de 4,4%. O resultado continua dentro do sistema de metas inflacionárias adotado pela autoridade monetária brasileira, cujo limite máximo é 4,5%. Mesmo assim, o mercado financeiro segue alimentando um cenário caótico no futuro, mantendo a pressão sobre o Banco Central para que ele não abandone o “compromisso” no controle de uma inflação que, segundo as métricas oficiais, já está controlada.

 No que diz respeito às contas públicas, estas não param de serem atacadas. O Tesouro Nacional divulgou o resultado primário do Governo Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) de 2025, que apresentou déficit de R$ 61,691 bilhões, resultado que ficou abaixo da meta estabelecida pelo Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias que previa déficit primário de R$ 75,718 bilhões para aquele ano. Vale ressaltar que, em dezembro de 2025, houve superávit primário de R$ 22,107 bilhões. Entretanto, exige-se tratamento empresarial para o Estado, como se o seu objetivo fosse o de apresentar lucro, com custos impostos à sociedade e, em especial, às pessoas mais vulneráveis. Lembro que o jornalismo econômico mantém na mesa a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário-mínimo, que desobrigaria o reajuste anual desses benefícios. Os reajustes, segundo esta proposta, passariam a ser feitos apenas pela inflação. Ou seja, para “salvar” as contas públicas propõe-se matar o pobre.

Então o leitor percebe que, embora os resultados da economia sejam visíveis e quantificáveis, como os ganhos reais de renda, a queda do desemprego e da inflação, além do controle das contas públicas com manutenção de diversos programas que promovem melhorias na renda, no acesso à educação, à moradia e à saúde, parte da população brasileira não os reconhece como positivos. Este fragmento social foi seduzido, ou encontrou representação, no discurso da extrema-direita do Brasil, que tem como pauta atacar e invisibilizar as conquistas recentes da economia brasileira, mantendo um clima de medo e desconfiança. E a elite econômica e financeira encampou este discurso pois ele atende seus interesses.

Infelizmente, a ascensão das mídias digitais e, em especial, a comunicação pessoal via redes sociais, facilitaram a disseminação da informação e da desinformação. Os resultados econômicos perderam espaço para as pautas de costumes, que passaram a nortear as discussões pessoais, políticas e institucionais. Preconceitos, ódio e discriminação proliferam numa velocidade jamais vista e a realidade não recebe a devida importância na percepção das pessoas, do jornalismo econômico e muito menos entre os economistas que ditam as decisões da política econômica nacional. São tempos difíceis.



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antônio Queiroz, Maria Júlia Alencar, Gabriela Félix, Gabrielle Cavalcante, Júlia Araújo, Júlia Almeida e Jade Carvalho.

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