quinta-feira, 15 de março de 2012

“Tsunami monetário”, guerra cambial, PIB frustrante: E agora, Dilma?

Semana de 05 a 11 de março de 2012

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Enquanto os banqueiros europeus festejam o derrame de US$ 4 trilhões, pelo Banco Central Europeu (BCE), na semana passada, os países emergentes estudam formas de barrar o “tsunami monetário” que certamente os atingirá. Como apresentado na análise anterior, a expressão “tsunami monetário” foi utilizada pela presidente Dilma para reclamar dos efeitos que as decisões do BCE provocará. “O que você gostaria que nós fizéssemos?” perguntou a chanceler Angela Merkel à Dilma, dando a entender que não havia outra solução e ignorando os efeitos da medida sobre a economia brasileira.

O governo brasileiro já anunciou que não tolerará a enxurrada de dinheiro estrangeiro e tomará as medidas necessárias para proteger o país de uma guerra cambial, embora não deixe claro, qual será o arsenal de medidas utilizado para combater os efeitos da grande onda.

O Tesouro Nacional deverá entrar na guerra. Autorizado pelo governo, o órgão pretende enxugar dólares internamente, com o argumento de que precisa das divisas para honrar os pagamentos da dívida externa. O Tesouro Nacional já tem em caixa um valor de US$ 7,4 bilhões, equivalente a 49% da dívida que vencerá até 2015. Por seu lado o Banco Central já retirou de circulação desde fevereiro, US$ 8 bilhões.

A queda da taxa de juros, aprovada pelo Copom esta semana, diminuiu o impacto do “tsunami monetário”. Mas, o corte de 0,75%, que reduziu a taxa de 10,5% para 9,75% ao ano, não altera a posição do Brasil de campeão entre os países com os maiores juros reais do mundo. Com a taxa real de 4,2% ao ano O Brasil é seguido pela Rússia (3,4%), pela Indonésia, (2,1%) e pela China, com 2%. Com juros tão atrativos, a enxurrada de divisas continuará embora os ganhos de arbitragem diminuam.

Como se não bastasse, o governo está aconselhando que os possuidores de títulos públicos troquem os papéis indexados à Selic por outros que apresentem uma maior rentabilidade. O argumento é que a rentabilidade dos títulos atrelados à Selic tem ficado abaixo de alguns ofertados no mercado como, por exemplo, àqueles indexados ao IMA (Índice de Mercado Aberto) que paga cerca de 16,5% ao ano. O governo ainda recomenda como alternativa, a aplicação nos títulos atrelados ao índice de preços.

A decisão do Copom foi motivada também pelos resultados da atividade econômica. A recente divulgação dos números do PIB preocupou seriamente a presidente. O crescimento registrado no último trimestre do ano foi de apenas 0,3%. Em 2011, a desaceleração se confirmou e o PIB cresceu apenas 2,7%. A agropecuária contribuiu com 3,9%, a indústria com 1,6% e os serviços com 2,7%. A indústria de transformação registrou queda de 2,5%. O consumo das famílias cresceu 4,1%, o do governo 1,9% e a formação bruta de capital fixo foi de apenas 4,7%. As exportações cresceram 4,5% e as importações 9,7%.

Ficamos atrás do PIB da Alemanha (3%), da China (9,2%), da Índia (6,9%) e até da África do Sul que cresceu 3,1%. A justificativa de Mantega para os números do PIB foi “...o agravamento da crise no segundo semestre. Se ela não tivesse acontecido, nosso crescimento seria mais próximo dos 4% do que dos 3%”. Mas as previsões de Mantega, há tempos, estão desacreditadas. Para o ano passado, suas previsões começaram com 5% e terminaram com 3,5% e mesmo assim, o registrado ficou aquém disso. Para este ano, o ministro já arrisca uma nova previsão: o PIB deve fechar próximo a 4,5%.

Esses dados fizeram crescer as críticas à política econômica do governo. As medidas macroprudenciais, segundo os analistas, foram as responsáveis pelo PIB decepcionante. Certamente elas contribuíram, mas, o desempenho fraco na indústria era esperado. Há muito tempo os empresários reclamam da passividade do governo brasileiro quanto ao processo de desindustrialização interno.

E as perspectivas não são boas. A atividade industrial de janeiro caiu 2,1%, a produção da indústria de bens de capital, 16% e a produção da indústria automotiva, 30%, o que reforça as projeções de queda da atividade econômica para o primeiro trimestre do ano. Segundo o IBGE, 14 dos 27 ramos da indústria considerados na pesquisa de janeiro apresentaram queda. Ao considerar o período de 12 meses a queda da atividade industrial já é de 3,4%.

No desespero, o governo Dilma tenta reverter a situação e lançará na próxima semana um “remendo” ao Projeto “Brasil Maior” para aumentar a competitividade da indústria brasileira, em especial para a indústria automotiva. A presidente também quer editar o “PAC do PAC”, com o objetivo de acelerar as grandes obras e para isto irá visitá-las pessoalmente.

Um número persegue a presidente Dilma: 7,5%, a taxa de crescimento do PIB de 2010. O único consolo que ela teve veio de outro número: 9,75%. O único desejo satisfeito da presidente, até agora, foi o de retornar à taxa de juros de um dígito.



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e crise na economia brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

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