segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

AUSTERIDADE E CORRIDA ELEITORAL: ALGUÉM TERÁ CORAGEM?

 Semana de 09 a 15 de fevereiro de 2026   

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

O Estado capitalista não funciona como um árbitro neutro, que atua distante das classes sociais. Na realidade, ele atua como um organizador dos interesses de grupos específicos. Tais grupos, por sua vez, são aqueles que detêm o controle dos recursos econômicos, especificamente, os meios de produção. No topo dessa hierarquia de poder, o segmento voltado ao crédito, aos juros e à especulação, dita os rumos da economia e da política nacionais. Como toda classe dominante, eles fazem com que o aparelho estatal funcione em benefício próprio.

Dentre outros caminhos, isto se dá através das regras de gestão orçamentária que priorizam o pagamento de obrigações financeiras sobre as necessidades básicas da população. Por sua vez, o discurso da austeridade é reforçado por “especialistas”, que apresentam os cortes de gastos sociais como uma necessidade incontestável para manter a “confiança do mercado”. Para esses agentes, a política econômica não é um campo de disputa social, mas uma esfera técnica de “responsabilidade fiscal”.

Esse discurso elitista mascara a função do Estado de garantir que a gestão da dívida pública permaneça como um canal perene de extração de riqueza em favor do setor financeiro. Assim, a gestão do orçamento vira uma ferramenta política que preserva a posição de comando desse grupo, independentemente das mudanças de governo. Há leis, instituições públicas e privadas, regras formais e informais que garantem a transformação do dinheiro da sociedade em rendimentos para uma elite parasitária.

Como acontece em todo começo de ano e, pior ainda, ano de eleições, as notícias recentes reforçam a continuidade dessa lógica. No ano passado, os gastos com os juros da dívida pública ultrapassaram R$ 1 trilhão. Junto com isto, a dívida bruta atingiu 78,7% do PIB. Esse cenário é utilizado para justificar o “combate ao desequilíbrio fiscal” focado exclusivamente na redução de gastos obrigatórios e em novas rodadas de reformas estruturais. 

A pressão por uma nova reforma da Previdência até 2030 e a implementação de reformas administrativas são apresentadas como soluções inevitáveis para abrir “espaço fiscal”. Leia-se: é preciso reduzir os gastos em áreas sociais e com pessoal em favor da garantia de pagamento aos detentores da dívida. Além disso, já há quem preveja a ativação de “gatilhos” no arcabouço fiscal para 2027, que impõem travas automáticas a despesas com salários e benefícios tributários diante de qualquer desvio nas metas de resultado primário. Dessa forma, o orçamento público é mantido sob uma rigidez que favorece a extração de riqueza pelo sistema financeiro, preservando a estrutura de dominação dessa fração de classe.

Tudo o que o país vive atualmente, porém, não é resultado de uma pretensa gastança do atual governo ou uma particularidade recente. Isto é produto do desenvolvimento histórico dos países periféricos que, desde as reformas neoliberais dos anos 1990, adotam um conjunto de políticas econômicas que aderem à forma como o capitalismo tem se desenvolvido nas últimas décadas. Prevalece, a partir dos anos 1980, a lógica especulativa sobre a produção real, tanto para o setor público, quanto para o privado. Se o Consenso de Washington é um símbolo mundial desta época, o tripé macroeconômico é o nosso.

Em suma, o noticiário nacional tem confirmado a tese de que a política econômica reflete a correlação de forças no bloco no poder, e não apenas decisões técnicas neutras. A narrativa da austeridade a todo custo serve para consolidar a dominação financeira, tratando o pagamento da dívida como um compromisso sagrado enquanto os direitos sociais e serviços públicos são vistos como “variáveis de ajuste”. A manutenção dessa estrutura sedimenta o modelo neoliberal, garantindo que o Estado, em sua conformação atual, continue a ser um instrumento de acumulação para a burguesia financeira por excelência.

Resta saber qual candidato, em ano de eleições, terá a coragem de assumir isto e explicitar em seu programa de governo. O pior de tudo é que, implicitamente, essa política estará em todos aqueles que têm chance de vencer, sem exceção.


[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Daphnne, Déborah e Genifer.


            

Share:

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

É preciso gerar desemprego...

    Semana de 02 a 08 de fevereiro de 2026    

Rosângela Palhano Ramalho[1] 

Ao longo do ano de 2025, informamos, através desta publicação, que os indicadores conjunturais da economia brasileira apresentaram bons resultados. Como a atividade econômica caminhou na contramão da política monetária de juros altos, foi alcunhada de resiliente. Mas o Banco Central já deixou claro: quebrará a resistência e,  através da manutenção da taxa de juros em 15%, a economia será desaquecida. Os analistas concordam que, em virtude da defasagem de resposta dos indicadores econômicos, o tombo poderá vir em 2026.

Embora a desaceleração dos últimos meses de 2025 tenha sido menor que a esperada, há um clima, ainda comedido, de comemoração no ar. A maioria dos economistas e analistas a serviço do mercado financeiro está aliviada, afinal, o primeiro grupo percebe o resultado como consolidação de sua crença teórica, e o outro grupo garante os ganhos do setor financeiro que podem ser referendados por uma ótica tecnicista-científica.

Ao longo do tempo, desde que o combate à inflação se tornou o principal objetivo da política monetária, a sociedade brasileira passa por um processo de convencimento de que deve ser grata pelo purgante, mesmo que isso signifique menos postos de trabalho formal e, consequentemente, prejuízo ao bem-estar social. Segundo esta visão, não há outro remédio para o aquecimento da economia (e a inflação daí decorrente), senão o desaquecimento. Ou seja, ao invés de optarmos por estimular um novo patamar de desenvolvimento da capacidade econômica, escolhe-se “estrategicamente” ficar aquém. Por esta razão, estamos presos a uma opção que condena a nossa economia ao baixo crescimento.

A inflação está controlada e dentro das metas delimitadas pelo Banco Central, mas qualquer sinal de estímulo, seja ele vindo do governo ou do setor privado, gera discursos preocupados no jornalismo econômico. A inquietação da vez é o ano eleitoral. Como o presidente se candidatará à reeleição, o desassossego é que ele libere geral, adotando medidas de política econômica “eleitoreiras” que estraguem o trabalho do Banco Central. E algumas delas, vejam só, já estão em andamento.

A isenção do pagamento do imposto de renda para os trabalhadores que recebem até R$ 5.000,00 e a redução da tributação de rendas entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00 é um exemplo. Temos aí um problema para o dogma econômico estabelecido. A implementação gerará uma renúncia fiscal de R$ 25,4 bilhões que se reverterá em renda disponível para o consumo de bens e serviços. O Daycoval, em tom de lamento, estimou que a medida terá impacto de 0,3 ponto percentual sobre o PIB de 2026, com os setores de habitação, transporte e alimentação recebendo os maiores estímulos. 

            Já o UBS Global Wealth Management, braço da gestão de fortunas do banco suíço UBS, lastimou a permanência dos programas sociais. “Tem muito estímulo fiscal já aprovado para 2026, como a desoneração do Imposto de Renda, o vale-gás, o programa Luz para Todos e várias iniciativas em termos de crédito...”. Pois é. Como a população vai usar a renda extra, em especial no setor de serviços, que está sustentando a inflação atualmente, mais inflação está sendo esperada para 2026. E o UBS GWM conclui, sem qualquer pudor: “O viés é de que, talvez, os serviços não desacelerem nada, porque, se não tiver um aumento do desemprego como as pessoas esperam (...) não dá pra ter a inflação de serviços caindo gradualmente”. É isto, caro leitor.

            No fim das contas, a teoria econômica referenda que a escolha entre emprego e inflação é inevitável e os rentistas recebem as benesses derivadas desta escolha. Resta ao trabalhador “entender” que ele precisa estar desempregado para que esta convergência de fatos aconteça, sem perceber, é claro, que esta condição é incompatível com a sua existência.

Inacreditável!



[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Jéssica Brito, Nelson Rosas, Júlia Bomfim, Ícaro Moisés, Antonio Queiroz, Maria Júlia Alencar, João Pedro de Oliveira, João Lucas Alves, Heitor Augustu e Mariana Sofia Rolim.

Share:

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

EMENDAS PARLAMENTARES: UMA DAS DIMENSÕES DO PROBLEMA...

 Semana de 19 a 25 de janeiro de 2026     

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Tema sempre presente em grandes debates sobre a execução do orçamento público, as emendas parlamentares têm sido atacadas em diversas frentes. A mais elementar e explícita se relaciona com a dificuldade de se rastrear e acompanhar o uso do dinheiro. Claro, isto dá muita vantagem política àqueles que se beneficiam da medida: a falta de transparência dos gastos permite tanto as maracutaias (como o sobrepreço de bens e serviços), quanto o desvio de finalidade (como a contratação de show sertanejo em vez de gastos com saúde ou educação). Em ano eleitoral, a farra é garantida.

Antes de mais nada, é preciso dizer que é legítima a reivindicação e a destinação de parte do orçamento federal a deputados e senadores. Eles, mais do que qualquer ministro da fazenda, conhecem a realidade e as necessidades de seus rincões. Portanto, é justo que destinem recursos e atendam às demandas específicas de seus redutos eleitorais. Afinal, eles foram escolhidos, também, para que suas localidades tivessem a atenção do poder público.

Contudo, é preciso destacar um elemento importante que joga contra esta distribuição de recursos federais, em especial, em seu formato atual: a descentralização excessiva das despesas. Na Lei Orçamentário Anual (LOA) de 2026, ficou aprovado o gasto de R$ 192,9 bilhões em investimentos. Ou seja, é recurso que o poder executivo pode destinar para a ampliação ou construção de escolas, hospitais, centros de pesquisa, sistemas de informatização, etc. Por sua vez, nesta mesma LOA, foi aprovado o gasto de R$ 49,9 bilhões em emendas parlamentares, que são despesas destinadas de acordo com as decisões de 594 parlamentares (513 deputados e 81 senadores). Isto significa que o equivalente a mais de 25% das despesas para investimento em ampliação e melhoria da oferta de serviços públicos é pulverizado entre pessoas com interesses e, principalmente, projetos completamente diferentes.

Mesmo admitindo a remota possibilidade de que todo o dinheiro será gasto de forma ilibada, ainda assim a situação está longe do ideal. Como demonstrou a ciência econômica a partir de meados dos anos 1950, bem como as práticas soviética (desde 1917) e chinesa (desde o primeiro plano quinquenal, de 1953), a participação do Estado no planejamento e execução de projetos é fundamental para a superação do atraso nas forças produtivas de um país. É através da centralização das decisões no poder executivo que se alcança a maior eficiência no atendimento das demandas coletivas.

A lógica é a seguinte: quanto mais pulverizado o poder de indicação das despesas, menor é a força do agente público perante os interesses individuais, dele próprio e de quem ele possa vir a beneficiar com suas decisões. É um prefeito que recebe uma emenda milionária de um deputado aliado e vai escolher entre asfaltar uma rua, pintar uma escola ou financiar um evento em seu município. Em todos os casos, a pressão sobre ele é direta. No caso de uma proposta ministerial, vinda do poder executivo, a decisão é tomada a partir de grupos de trabalho, conselhos deliberativos e órgãos colegiados. Obviamente, eles não estão imunes aos ataques dos diferentes grupos de interesse, os quais também têm o direito de reivindicar sua participação na tomada de decisões, mas o corpo técnico que atua no planejamento tem condições mais apropriadas de lidar com a situação do que um simples assessor em nível municipal.

Frequentemente, as emendas parlamentares são gastas de maneira desarticulada com outros projetos de interesse amplo da sociedade. Por exemplo, por mais que seja necessário ensinar robótica aos estudantes do ensino público, de que adianta comprar kits de robótica se a escola sequer tem instalação elétrica, equipamentos de informática ou internet adequados? Como essa medida vai ser efetiva?

Qual a saída? Para esta dimensão do problema, a saída seria o seguinte modelo: o poder executivo, liderado pelo presidente eleito, estabelece quais são as diretrizes para o desenvolvimento econômico e social; depois, através dos ministérios, elaboram-se os planos de ação, indicando as áreas beneficiadas, os valores destinados, etc.; por fim, uma parte do dinheiro é executada pelos respectivos ministérios e outra parte é distribuída entre os projetos apresentados pelos parlamentares. Assim, unir-se-iam, de maneira articulada e estruturada a um grande plano de desenvolvimento, as demandas particulares de cada reduto eleitoral e a oferta de emendas parlamentares.

Bom, como professor, me dou o direito de dizer que, em teoria e com base na ciência econômica, essa é uma das melhores formas de se resolver o problema. Já na prática, vai convencer a turma do centrão...

 



[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Sophie, Talita Ana, Thales, Vivian e Alicia.


Share:

Novidades

Recent Posts Widget

Postagens mais visitadas

Arquivo do blog