Semana de 04 a 17 de maio de 2026
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Finalmente (e não faltaram alertas), o mundo começa
a pagar o preço da guerra de Trump. Em sua sanha colonialista, o presidente
americano impôs consequências também a seu povo. Os preços ao produtor nos
Estados Unidos nos últimos 12 meses encerrados em abril subiram 6%. A última
alta significativa foi verificada em 2022, com os preços do petróleo indo às
alturas em virtude da guerra entre Rússia e Ucrânia. Na Zona do euro, a
inflação subiu para 3%, ficando fora da meta.
No
Brasil, o impacto já é sentido nos preços dos bens industriais. Antes
contribuindo para o controle inflacionário, estes itens sofreram aumento de
0,65% nas primeiras semanas de abril, indicando uma aceleração de preços frente
à apuração prévia da inflação de março, que foi de 0,23%. Os preços dos
aparelhos eletroeletrônicos subiram de 0,5% para 1,06%, os materiais de higiene
pessoal de 0,38% para 1,32% e artigos de limpeza de -0,31% para 0,68%, segundo
apuração do IBGE. Se somarmos a variação dos preços da alimentação no
domicílio, dos bens industrializados e dos serviços comumente contratados pela
população brasileira, registra-se aumento de 0,67% em março. Nem o câmbio
valorizado fechando em torno de R$5 foi suficiente para conter a alta.
No acumulado dos 12 meses terminados em abril, a variação do IPCA foi de 4,39%. Apesar de o indicador encontrar-se dentro dos limites definidos pelo sistema de metas inflacionárias, o mercado financeiro já está comemorando. Afinal, um cenário de pressão inflacionária favorece uma ação mais cautelosa da autoridade monetária, decisão que manterá o Brasil como o olimpo dos rentistas.
O jornalista Pedro Cafardo, em dois artigos de opinião publicados no jornal Valor Econômico, abriu espaço na grande imprensa (e quase não o há), para a análise crítica relativa ao desempenho de nossa economia e à política de juros altos no Brasil. No primeiro artigo, veiculado no dia 10 de junho de 2025 e intitulado “Coisas que acontecem num certo país infeliz”, o autor faz um apanhado dos recentes bons resultados econômicos do país como o controle inflacionário, o crescimento do PIB, a redução da taxa de desemprego, o aumento da rendimento, da renda per capita e dos empregos formais, a redução da desigualdade social, o aumento do lucro líquido bancário e empresarial, os recordes de negociação na Bolsa de Valores... Entretanto, mesmo diante dos avanços, economistas e analistas de mercado anunciam um “terrível descontrole fiscal” e grande parte dos brasileiros continua cética. Já o segundo artigo, de título “Há exagerado pessimismo e muita tolerância com juro alto”, publicado quase 1 ano depois, em 12 de maio de 2026, retoma os bons números da economia que ainda são vistos com desconfiança por parte dos brasileiros. Por fim, Cafardo arremata que a mesma elite econômica e financeira que em coro acusa “gastança, gastança!”, forma as expectativas de inflação, produz a política de juros altos e ainda recebe as benesses dela.
Posicionamentos como este são raros na imprensa
nacional, que tende a priorizar seus espaços ao dogma econômico liberal. Por
exemplo: enquanto o governo atuava para negociar o “tarifaço” americano imposto
ao Brasil a pedido do deputado cassado e fugitivo Eduardo Bolsonaro, o
jornalismo econômico projetava cenários “preocupantes”. As ações do governo
federal como o lançamento do Novo Desenrola, o fim da taxa das blusinhas, o
Programa Brasil Contra o Crime Organizado renderam a seguinte manchete
jornalística: ‘Bondades’ eleitorais de governo Lula colocam fiscal, inflação e
juros em risco (Valor Econômico, 15/05/2026). Nada imparciais, “análises” como
esta proliferam. Sob o pretexto de “salvar” o Brasil deste governo
“incompetente”, pede-se ao governo que ele não governe e perca a eleição.
O cenário
brasileiro continua desafiador, especialmente em ano eleitoral...
[1] Professora do
Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com).
Colaboraram: Jéssica Brito, Ícaro Moisés, Júlia Bomfim, Antonio Queiroz, João Pedro, José Gustavo,
Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Natasha Carvalho, Júlia Almeida e Deborah Mª
Ferreira.



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