sábado, 16 de outubro de 2010

As Peripécias do Saci Macroeconômico

Semana de 04 a 10 de outubro de 2010

Na semana passada, ao analisarmos a política econômica do governo atual, conhecida como Tripé Macroeconômico (obtenção de elevados superávits primários, regime de câmbio flutuante e regime de metas para inflação), descobrimos que a economia do nosso país sustenta-se em apenas um desses pilares: o regime de metas para inflação. Após tal descoberta, julgamos mais apropriado denominar tal política econômica de Saci Macroeconômico Brasileiro. Entretanto, não chegamos a avaliar as conseqüências da utilização desta.

O Saci Macroeconômico é um personagem bastante travesso e já “aprontou” inúmeras peripécias com a economia nacional. O grande problema é que, mesmo sabendo da sua existência, os “policy-makers” do governo (elaboradores de política econômica) parecem não suspeitar que esta figura inusitada não só é a causadora de uma série de problemas, como poderá gerar danos ainda maiores à economia.

Recentemente, a valorização do real frente ao dólar tem dado “dores de cabeça” à industria nacional exportadora. Tal fenômeno, ao tornar nossos produtos mais caros em relação aos demais produtos do mercado internacional, faz com que os exportadores percam competitividade, o que conseqüentemente reduz suas receitas. Este novo panorama cambial fez com que empresas como a Tupy (indústria de fundição fabricante de peças e componentes para veículos pesados) e a Weg (fabricante de motores, geradores, transformadores e tintas) passassem a importar insumos como forma de “dolarizar” os custos. Como se não bastasse a pressão negativa na balança comercial, a nova situação também torna preferível para os exportadores produzir fora do país, que é o caso da Motorola e mais uma vez da Weg. Existem até fábricas que optam pelo fechamento, como é o caso da fábrica de móveis da Irani (negócio dimensionado para exportação), em Santa Catarina, que empregava 120 funcionários e teve que fechar as portas nesta última sexta-feira. Não é de se admirar que a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) tenha caído, de 19,2%, para 15,5%, em cinco anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Este é o menor patamar desde 1947, quando o Brasil ainda era um país agrário.

Diante disto, os “policy-makers” decidiram agir: o ministro da fazenda, Guido Mantega, aumentou a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), de 2%, para 4%, e o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, intensificou as operações de swap cambial reverso, batendo recordes de compras de dólares. Para eles, se o que causa a valorização do real frente ao dólar é o aumento da oferta deste último no país, a neutralização deste aumento resolveria o problema. Assim, Meirelles retiraria do mercado os dólares excedentes e Mantega certificar-se-ia de que ela não aumentaria no futuro. A questão é que eles parecem esquecer que a taxa de juros do Brasil é uma das mais altas do mundo. Portanto, utilizar o IOF para fazer com que o rendimento de títulos como a NTN-F, de juros pré-fixados, por exemplo, passe, de 11,61%, para 11,376%, não afetará em nada o fluxo de capitais estrangeiros. Com isto, prossegue o ingresso de dólares no Brasil, e o BC permanece pagando altas taxas de juros para retirar os dólares do mercado. Assim, a manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados para combater a tão falada inflação de demanda não só tem como conseqüência a sabotagem da indústria nacional, como também origina uma dívida desnecessária. Vendo por este ângulo, até parece que esta é realmente a intenção da equipe econômica do governo.

Outra peripécia do nosso Saci que pode custar caro à economia brasileira é fazer surgir receitas misteriosas nas contas do governo para o cumprimento da meta do superávit primário. Em uma conjuntura econômica onde todos temem a deflagração de uma nova crise, o governo deveria saber que a utilização de manobras contábeis para fazer a situação parecer diferente do que realmente é, como fez a Grécia recentemente, traz sérios riscos à nossa economia, podendo gerar uma crise na dívida do país.

Sem saber com quem estão lidando, ou negligenciando o fato, Mantega e Meireles, com o aval do presidente Lula, seguem pulando em uma perna só, de mãos dadas com o nosso Saci Macroeconômico. Os prognósticos acerca do destino ao qual nos levará esta caminhada saltitante, entretanto, não são nada bons. Preparemo-nos para o pior!


Texto escrito por:
Antonio Carneiro de Almeida Júnior: Economista, Mestrando do Programa de Pós - Graduação em Desenvolvimento Econômico da UFPR, PPGDE/UFPR, e pesquisador do PROGEB - Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
(progeb@ccsa.ufpb.br)

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