quarta-feira, 25 de abril de 2012

Bastava apenas uma canetada


Semana de 16 a 22 de abril de 2012


Rosângela Palhano Ramalho[i]




            Caro leitor, há duas semanas, falávamos, neste espaço, sobre os entraves que impedem o avanço da nossa economia e, em nossa última análise, de como a presidente Dilma Roussef localizou nos spreads bancários mais um entrave ao crescimento. A “caravana do governo” está tentando passar em meio aos “cães ferozes” baixando os spreads bancários. A Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) veio em defesa dos banqueiros, com falas inflamadas e tentando “cantar de galo”. Cobrou do governo a execução do cadastro positivo, que permitiria aos bons pagadores ter acesso a taxas de juros mais baixas, ou seja, tentando justificar que o spread no país é alto porque o brasileiro é um mau pagador. Após duras críticas, o órgão já discursa em tom mais ameno, o que nos leva a crer que “a caravana do governo vai passar”. Liderados pelos bancos públicos, Caixa e Banco do Brasil, os bancos privados como HSBC, Santander, Bradesco e mais recentemente Itaú-Unibanco promoveram quedas nas taxas de juros cobradas nas transações realizadas pelas pessoas físicas e jurídicas. Ao anunciar a queda de diversas taxas cobradas às pequenas e médias empresas, o Santander negou que a medida tenha relação com a determinação do governo, afinal de contas os seus funcionários estavam em treinamento há 90 dias. Acreditem se quiser! É obvio que o contratante deve estar atento às “letrinhas miúdas” que virão no rodapé destes novos contratos.
            Além disso, mais uma boa nova vem da política monetária. O Copom reduziu a taxa Selic, de 9,75%, para 9%, e o Brasil cede o posto de primeiro lugar no ranking dos juros mais altos do mundo para a Rússia. Segundo o BC, o recuo da inflação e a desaceleração da economia contribuíram para a decisão. De fato, ao nível da produção, o cenário não melhorou. Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que a indústria fechou, em março, 5.048 vagas, fato que é preocupante, já que nesse mês, normalmente, as contratações superam as demissões, após os ajustes realizados pelas empresas em janeiro e fevereiro. O Índice de Atividade do Banco Central aponta para um PIB fraco no primeiro trimestre de 2012. Entre janeiro e fevereiro, o indicador recuou em 0,23%.
            A expressão “dando seguimento”, apresentada na ata do Copom, estressou o mercado. Afinal, se esperava uma parada no ciclo de quedas e esta expressão deu a entender que o afrouxamento irá continuar. É de conhecimento comum que a presidente Dilma Roussef quer a queda da taxa Selic, de 9%, para 8% até julho. Analistas já cogitam a possibilidade de que os 8% provocariam uma fuga em massa de recursos aplicados em fundos de investimentos para a poupança, aplicação que não paga taxa de administração e nem imposto de renda. E como os fundos de investimento são os principais credores do governo, tal procedimento “não seria adequado”, afinal estes teriam uma rentabilidade menor que a poupança. Pensando nisto, a presidente já declarou que vai bancar o ônus de mudar as regras da caderneta de poupança e já convocou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para tratar do assunto. A ideia é que a remuneração da poupança seja atrelada à taxa básica de juros para preservar os ganhos dos fundos de investimentos. O governo também aconselhará os bancos a diminuírem as taxas de administração dos fundos, que contribuem par reduzir os ganhos destes títulos em pelo menos 5% ao mês. E daí, Dilma? Onde está escrito que os fundos devem ser protegidos? Tanta valentia com relação aos spreads e agora mais proteção ao setor bancário!
            Ainda em relação aos spreads, há uma observação importante a se fazer: a decisão foi tomada por uma canetada. É isto: bastava uma canetada para barrar a farra dos juros estratosféricos! Tal decisão só escancara mais uma vergonha no nosso país: a conivência dos governos com os ganhos do setor bancário, principalmente nos governos de Lula e FHC.
            Convido o leitor a relembrar a frase célebre de Lula, num discurso valioso de R$ 200 mil, pago pelos banqueiros, em maio do ano passado, em que enaltecia a promoção por seu governo da “maior ascensão social de todos os tempos”:
            “Eu sei que tem gente que tem preconceito contra mim. Mas eu desafiaria qualquer um de vocês: eu duvido que algum empresário já ganhou mais dinheiro nesse país do que no meu mandato. Duvido que os bancos já tiveram mais lucro nesse país do que no meu mandato.”
            Pois é! Conivências à parte, bastava apenas vontade política para uma canetada...


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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