terça-feira, 23 de outubro de 2012

Efeito ressaca do IPI


Semana de 15 a 21 de outubro de 2012


Eric Gil Dantas [i]




A economia capitalista funciona em ciclos. Esta afirmação poderia ser bastante polêmica se fosse colocada há décadas atrás. No entanto, hoje, ninguém pode esconder esta tendência, já que estamos vivendo em meio a uma grande crise econômica mundial. Há altos e baixos, e nenhum governo mudará isto.
Em artigos anteriores, já falamos que as isenções do IPI dadas pelo governo a diversos setores da economia não seriam suficientes para salvar o Brasil da crise. Agora chegou o momento de verificarmos isto na prática.
No mês de setembro, a venda de carros caiu 31,5% em relação ao mês anterior. Para Fabio Ramos, da Quest Investimentos, os estímulos concedidos pelo governo à economia “vão cobrar seu preço” neste quarto trimestre. Ele explica que “a expansão será menor, não porque o governo vai remover o IPI, mas sim porque, quando os preços foram reduzidos com um prazo determinado, a demanda foi ‘empurrada’ para o terceiro trimestre”. Este movimento está sendo chamado de “efeito ressaca” do IPI. A queda nas vendas é preocupante para a economia em geral, pois o setor automobilístico representa, diretamente, cerca de 30% das vendas no varejo e 13% da produção industrial do país.
Além da queda na produção e nas vendas, o “efeito ressaca” inclui o aumento do endividamento das famílias. Estimuladas pela redução dos impostos, também para outros bens duráveis, elas correram para aproveitar a ocasião, agravando a situação.
Mas, há outros setores sofrendo com a crise. O de mineração, por exemplo. Este ano, a Vale já planeja reduzir a remuneração dos seus acionistas a 66% do ano anterior e, em 2013, provavelmente será pior. Isto decorre da queda nos preços dos minérios. Para se ter uma ideia, em 2011, o minério de ferro foi vendido em média por U$136 a tonelada. Em 2012, a média deverá ser em torno de U$75. Em relação ao aço, a Vale interrompeu a produção em três das dez usinas de pelotização. Philip Hopwood, líder para o setor de mineração da Deloitte, disse que as mineradoras já estão sofrendo com margens pequenas e, por isso, buscam redução de custos.
A China é apontada como a grande responsável pelos problemas do setor. Com a queda da sua demanda, o volume de minério de ferro exportado para lá caiu 1,68%. A queda da demanda chinesa pelo petróleo foi ainda pior: atingiu 15,37%.
Mesmo com esta retração da demanda, os economistas conservadores, supostamente preocupados com uma possível inflação, intensificam as suas críticas ao corte da taxa básica de juros pelo Banco Central do Brasil. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, já declarou, no editorial de sua revista “Conjuntura Econômica”, que, em pouco tempo, as taxas de juros deverão subir para conter a inflação. Já o Armínio Fraga, ex-presidente do BC e agora principal acionista da Gávea Investimentos, em entrevista à Folha de São Paulo, endossou o discurso, dizendo que “mais um corte neste momento requer uma explicação do Banco Central”.
No Velho Continente, as coisas ainda continuam complicadas. Portugal já anunciou fortes aumentos de impostos e cortes de gastos no orçamento de 2013, o que fará a população sofrer ainda mais para garantir as condições impostas para o resgate de €78 bilhões. A situação chegou ao ponto do megainvestidor George Soros, presidente da Soros Fund Management, dizer que a solução da crise europeia era a Alemanha deixar a Zona do Euro.
            A curiosidade da semana ficou para o Prêmio Nobel de Economia. Este nada teve a ver com o tema da grande crise econômica mundial, com os inúmeros protestos diários de massas, os suicídios em locais públicos, as taxas de desemprego que chegam a 25%. O Nobel (para variar) dado aos estadunidenses Alvin Roth e Lloyd Shapley foi atribuído por um trabalho que serviu de base teórica para eventos que visam facilitar a escolha de um par amoroso, ou para a distribuição de vagas em escolas de ensino médio. Além disto, para vergonha dos economistas, Shapley declarou-se surpreso: “Eu me considero um matemático, e o prêmio é de economia. [...] Nunca, nunca na minha vida fiz um curso de economia.”


[i] Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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