quarta-feira, 21 de março de 2018

Crescimento para baixo, de novo



Semana de 12 a 18 de março de 2018

Rosângela Palhano Ramalho [i]

O assassinato da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, ganhou, esta semana, praticamente todo o espaço da mídia, não só pela brutalidade do ocorrido, mas também pela onda de insensatez provocada pela divulgação de fake news acerca da vida da parlamentar assassinada. As notícias de cunho econômico foram colocadas em segundo plano.
            Pesquisando os dados, no entanto, verificamos que nada mudou. A produção industrial não voltou a crescer, a capacidade ociosa e o desemprego permanecem altos e as poucas estatísticas só reforçam o marasmo econômico.
            A debilidade da economia já suscita especulações acerca de uma nova queda da taxa de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). A Selic está em 6,75% ao ano e deverá cair 0,25%. Mesmo com taxa de juros em queda, segundo levantamento de Claudia Safatle, articulista do Jornal Valor Econômico, com base em dados do Banco Central, as taxas ao tomador final de crédito continuam exorbitantes. Entre setembro de 2016 e março deste ano, o juro do cheque especial da pessoa jurídica caiu de 337,6% para 330,19% e o da pessoa física, de 324,9% ao ano para 324,7%. Os juros do cartão de crédito caíram de 491,25% para 327,92% para pessoas físicas e de 355,39% para 234,6% para as pessoas jurídicas. Proporcionalmente à queda da Selic, a queda das demais taxas é, de fato, muito tímida. Curiosamente, apenas quatro bancos dominam o mercado de crédito no país. Com inflação e Selic em queda, a concentração bancária passa a ser a única explicação para os altos juros cobrados aos brasileiros, mas esta discussão não é posta à mesa. Daí não virá estímulos ao consumo e investimento.
            Por outro lado, o desmonte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) feito propositadamente pelo governo continua, e pode ser comprovado através da perda de peso da instituição nos financiamentos do país. Em 2014, segundo a Fipe, os desembolsos do BNDES respondiam por 15,2% dos investimentos, passando para 11% em 2015, 6% em 2016 e 5,3% em 2017.
            Enquanto isso, na Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), o presidente Michel Temer, realizou um balanço de 22 meses de governo comparando-se ao seu próprio governo, enquanto era vice-presidente “decorativo”. “Modestamente”, Temer projetou que o seu governo poderá ser “o melhor governo que o Brasil conheceu nestes últimos anos”. Falando como candidato, exaltou a queda da inflação e dos juros e disse que a intervenção federal no Rio de Janeiro será concluída até setembro, quando, a partir daí, aprovará a Reforma da Previdência.
            Mas os fatos como sempre submergem todo discurso “positivo”. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) usado como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), que vinha crescendo por quatro meses seguidos, recuou 0,56% em janeiro, segundo o Banco Central. É mais um balde de água fria nos arautos da recuperação. O ministro Meirelles já tinha feito um esforço incrível para justificar o resultado do PIB de 2017 e terá que explicar, de novo, porque nossa economia continua a crescer para baixo. Então, para tornar este decréscimo de janeiro, digerível, o governo desprezou este recuo calculado com base no mês anterior e passou a olhar a comparação com janeiro do ano passado, já que o PIB sobre esta base cresceu 2,97%.
A evolução dos dados por setores mostram um cenário preocupante. E aqui vamos olhar para a comparação mensal, que fornece uma ideia clara da evolução da atividade econômica. A produção industrial caiu 2,4% e os serviços recuaram 1,9%. Só o comércio apresentou alta. As vendas no varejo cresceram 0,9% e foram lideradas, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, pelo setor de hiper e supermercados. Já no varejo ampliado que engloba os setores de automóveis e material de construção, as vendas caíram 0,1%.
Preparam-se novos discursos para justificar o crescimento para baixo.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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