quinta-feira, 20 de março de 2025

QUE SORTE, O PIB CRESCEU DE NOVO EM 2024

Semana de 10 a 16 de março de 2025

   

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Ainda estávamos nos recuperando dos festejos carnavalescos e cinematográficos quando o IBGE divulgou os dados oficiais sobre a economia brasileira em 2024. Poucos foram os que viram a notícia, e menos ainda são os que se lembram: o PIB brasileiro cresceu 3,4% no ano passado. Alguns diriam que foi sorte, argumentando que o presidente Lula sempre pega a economia com o bonde da economia em condições favoráveis (como nos anos entre 2003 e 2010). Porém, ninguém é suficientemente louco para dizer que este é o caso atual.

Primeiro, a economia mundial não está em franca ascensão, pelo contrário. Para além da desaceleração da produção e do comércio internacionais, o mundo enfrenta mudanças estruturais que se intensificaram durante a pandemia de Covid-19. Em segundo, essas mudanças levaram ao aumento dos preços das commodities e a mudanças significativas na relação do dólar com outras moedas, tornando a inflação um fenômeno mundial. Além disso, vimos um aguçamento das contradições entre ocidente e oriente (leia-se, EUA e China) na disputa pela liderança do desenvolvimento tecnológico mundial. Isto tem desmantelado, em maior ou menor grau, o “equilíbrio” da economia internacional e tende a trazer mais efeitos negativos que positivos para a grande maioria dos países, em especial, para o Brasil.

Internamente, há pelo menos 10 anos, as pressões para a adoção de políticas orçamentárias restritivas se intensificaram, o que resultou em um forte estrangulamento da capacidade do Estado de atuar no atendimento dos interesses da fração da sociedade ligada ao setor urbano nacional. Consequentemente, além de os empresários do setor industrial e comercial terem perdido lucro, perderam também os trabalhadores. O emprego ficou em baixa, a renda, pior. A informalidade, até hoje, está em valores recorde. Sem falar do maior sucateamento da máquina pública que se sucedeu à PEC do Teto dos Gastos, de 2016.

Enfim, quando assumiu, o grande mérito do governo Lula 3 foi conseguir atender aos interesses de outras frações da burguesia, para além do atendimento prioritário dos setores financeiro e agroexportador. Quando isto aconteceu, estes se revoltaram. Não que tenham perdido seu assento premiado, apenas houve um freio no escárnio que foi a gestão orçamentária da dupla Bolsonaro-Paulo Guedes (com menção honrosa a Michel Temer).

O resultado da mudança de governo já havia sido visto em 2023. Naquele ano, a indústria havia crescido 1,7% em relação a 2022. Agora, a situação foi ainda melhor, pois, entre 2023 e 2024, o crescimento da indústria quase dobrou, indo para 3,3%. Ainda na indústria, os destaques positivos vão para a construção civil (+4,3%) e indústria de transformação (+3,8%). Dentre os serviços, que no total cresceram 3,7%, o destaque foi para os serviços de informação e comunicação, com aumento de 6,3%. Por sua vez, neste mesmo período, os investimentos cresceram 7,3%.

Ainda assim, há duas más notícias. A primeira é a queda de 3,2% no PIB agropecuário, resultado de intempéries climáticas. A segunda é o aumento de 14,7% nas importações, que mostra a frágil capacidade da nossa estrutura produtiva de fornecer produtos quando a economia entra em rota de crescimento. Por outro lado, dentre os principais produtos importados, o destaque é a compra de bens de capital, que servem para ampliar a capacidade produtiva do país. São mercadorias que só são compradas quando a perspectiva de crescimento é boa.

Porém, como dito na análise da semana passada, parece que isso tudo não é bom para o Brasil. Pelo menos é o que acham os “operadores do mercado” e aqueles que tomam as decisões de política econômica, em especial, o Banco Central. Mesmo que o crescimento de 2024 tenha apresentado uma forte desaceleração nos últimos meses do ano, é certo que, mais uma vez, a taxa Selic será elevada em 1% na reunião que vai acontecer essa semana, nos dias 18 e 19/03/2025. Mesmo que a inflação tenha fugido tão pouco da meta.

Infelizmente, para quem tem poder, a alegria do povo é um tormento. Resultado de sorte ou competência, é difícil mudar essa triste realidade do país. Não há outra saída que não a boa e velha luta de classes.


[i] Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Camylla Martins, Icaro Formiga, Mateus Eufrasio, Jéssica Brito, Lara Souza, Raquel Lima, Ryann Félix e Paola Arruda.

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