Semana de 17 a 23 de março de 2025
Rosângela Palhano Ramalho[1]
Prezado leitor, nosso título contém ironia,
mas resume bem o sentimento exposto nas colunas de análise econômica com a
divulgação do mais recente dado conjuntural interno. O Índice de Atividade
Econômica do Banco Central (IBC-Br) subiu 0,89% em janeiro na comparação com
dezembro, alta que foi estimulada pelos bons resultados da produção agrícola.
Para surpresa de ninguém, o mercado cometeu o primeiro erro do ano. O resultado
esperado pelos representantes do setor financeiro ouvidos pelo Jornal Valor Econômico
era de alta do IBC-BR de apenas 0,25%. O número decepcionou os defensores da
política monetária contracionista, que não cansam de ver seus pressupostos
teóricos se diluírem na realidade. Mas eles não se deixam abater. Afinal, suas
previsões (em 2024, 95% das vezes, erradas), certamente se concretizarão ao
longo do ano. A “atividade doméstica deve desacelerar ao longo do ano”, já que
haverá “menor expansão da renda disponível às famílias”, “condições financeiras
mais apertadas” e “menor impulso fiscal". Afinal, o remédio amargo foi
prescrito e em “algum momento” fará efeito.
Divulgado dois dias antes da decisão do
Copom sobre os juros, o excelente resultado do IBC-Br trouxe preocupações
porque não puniu devidamente o consumidor que insiste em gastar sua renda, nem
desestimulou o produtor agrícola que teimou em produzir e sequer intimidou o
próprio governo que persiste em executar o orçamento, gastando os recursos
públicos. Felizmente, dizem os analistas econômicos e os especialistas do
mercado, o Copom tinha contratado mais um aumento na taxa de juros. O mantra da
semana então foi eleito: o Banco Central precisa olhar o IBC-Br de janeiro com
certa cautela para não abandonar a política de juros altos cedo demais, já que
o purgante parece não ter deixado a economia em estado terminal.
O Copom se reuniu e, como esperado, de
forma unânime, elevou a taxa de juros de 13,25% para 14,25%. O ciclo de aperto
monetário com altas consecutivas de 1% nos juros, indicadas de forma
antecipada, encerrou-se nesta reunião. A nota que embasa a decisão do Colegiado
justifica o aumento: “O cenário mais recente é marcado por desancoragem
adicional das expectativas de inflação, projeções de inflação elevadas,
resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho, o que
exige uma política monetária mais contracionista.” Sem detectar riscos de
aceleração inflacionária, chamam atenção os termos “resiliência” e “pressões”
usados pelo Copom para explicar porque devemos concordar com uma política
monetária restritiva. Primeiro, tentam nos convencer de que a morte é iminente,
depois, que o paciente vai morrer caso a prescrição não seja aplicada, e uma
vez prescrita, dizem, a medicação vai evitar a morte, mas o paciente precisa
ficar em coma por algum tempo. Não são boas escolhas! Em especial, porque elas
punem os mais vulneráveis! E destroem a economia nacional.
O Copom também informou, no seu comunicado,
que o cenário externo continua “desafiador”, em virtude da conjuntura e da
política econômica americana, bem como das incertezas que cercam a sua política
comercial. O fato é que as atitudes tresloucadas de Trump já estão produzindo
resultados. Os mais recentes dados da economia americana mostram que os
consumidores estão diminuindo seus gastos. De acordo com a consultoria
RetailNext, o fluxo de clientes nas varejistas americanas caiu 4,3% em março
comparado ao mesmo mês do ano passado. A Placer.ai também registrou menos
visitas às varejistas como Walmart, Target e Best Buy nas últimas semanas. Por
sua vez, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)
revisou, para baixo, as expectativas de crescimento do mundo. O mundo crescerá,
em 2025, segundo o órgão, 3,1% ao invés dos 3,2% previstos antes. Os Estados
Unidos tiveram sua projeção revisada de 2,4% para 2,2% e a previsão brasileira
caiu de 2,3% para 2,1%.
Ao que parece, o desaquecimento econômico
americano e mundial contribuirá para que o coma econômico induzido, tão
cortejado por nossa autoridade monetária, aconteça. Se isto se concretizar, a
“sorte” de crescer internamente cessará, os bons resultados conjunturais não
precisarão ser lamentados e poder-se-á comemorar à vontade os aumentos da taxa
de juros.
[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Rubens Gabriel, Victória Rodrigues, Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Júlia Bonfim e Gustavo Figueiredo.
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