quinta-feira, 27 de março de 2025

QUE PENA, O IBC-BR CRESCEU... QUE BOM, OS JUROS AUMENTARAM DE NOVO!

Semana de 17 a 23 de março de 2025

  

Rosângela Palhano Ramalho[1]

 

Prezado leitor, nosso título contém ironia, mas resume bem o sentimento exposto nas colunas de análise econômica com a divulgação do mais recente dado conjuntural interno. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) subiu 0,89% em janeiro na comparação com dezembro, alta que foi estimulada pelos bons resultados da produção agrícola. Para surpresa de ninguém, o mercado cometeu o primeiro erro do ano. O resultado esperado pelos representantes do setor financeiro ouvidos pelo Jornal Valor Econômico era de alta do IBC-BR de apenas 0,25%. O número decepcionou os defensores da política monetária contracionista, que não cansam de ver seus pressupostos teóricos se diluírem na realidade. Mas eles não se deixam abater. Afinal, suas previsões (em 2024, 95% das vezes, erradas), certamente se concretizarão ao longo do ano. A “atividade doméstica deve desacelerar ao longo do ano”, já que haverá “menor expansão da renda disponível às famílias”, “condições financeiras mais apertadas” e “menor impulso fiscal". Afinal, o remédio amargo foi prescrito e em “algum momento” fará efeito.

Divulgado dois dias antes da decisão do Copom sobre os juros, o excelente resultado do IBC-Br trouxe preocupações porque não puniu devidamente o consumidor que insiste em gastar sua renda, nem desestimulou o produtor agrícola que teimou em produzir e sequer intimidou o próprio governo que persiste em executar o orçamento, gastando os recursos públicos. Felizmente, dizem os analistas econômicos e os especialistas do mercado, o Copom tinha contratado mais um aumento na taxa de juros. O mantra da semana então foi eleito: o Banco Central precisa olhar o IBC-Br de janeiro com certa cautela para não abandonar a política de juros altos cedo demais, já que o purgante parece não ter deixado a economia em estado terminal.

O Copom se reuniu e, como esperado, de forma unânime, elevou a taxa de juros de 13,25% para 14,25%. O ciclo de aperto monetário com altas consecutivas de 1% nos juros, indicadas de forma antecipada, encerrou-se nesta reunião. A nota que embasa a decisão do Colegiado justifica o aumento: “O cenário mais recente é marcado por desancoragem adicional das expectativas de inflação, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho, o que exige uma política monetária mais contracionista.” Sem detectar riscos de aceleração inflacionária, chamam atenção os termos “resiliência” e “pressões” usados pelo Copom para explicar porque devemos concordar com uma política monetária restritiva. Primeiro, tentam nos convencer de que a morte é iminente, depois, que o paciente vai morrer caso a prescrição não seja aplicada, e uma vez prescrita, dizem, a medicação vai evitar a morte, mas o paciente precisa ficar em coma por algum tempo. Não são boas escolhas! Em especial, porque elas punem os mais vulneráveis! E destroem a economia nacional.

O Copom também informou, no seu comunicado, que o cenário externo continua “desafiador”, em virtude da conjuntura e da política econômica americana, bem como das incertezas que cercam a sua política comercial. O fato é que as atitudes tresloucadas de Trump já estão produzindo resultados. Os mais recentes dados da economia americana mostram que os consumidores estão diminuindo seus gastos. De acordo com a consultoria RetailNext, o fluxo de clientes nas varejistas americanas caiu 4,3% em março comparado ao mesmo mês do ano passado. A Placer.ai também registrou menos visitas às varejistas como Walmart, Target e Best Buy nas últimas semanas. Por sua vez, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) revisou, para baixo, as expectativas de crescimento do mundo. O mundo crescerá, em 2025, segundo o órgão, 3,1% ao invés dos 3,2% previstos antes. Os Estados Unidos tiveram sua projeção revisada de 2,4% para 2,2% e a previsão brasileira caiu de 2,3% para 2,1%. 

Ao que parece, o desaquecimento econômico americano e mundial contribuirá para que o coma econômico induzido, tão cortejado por nossa autoridade monetária, aconteça. Se isto se concretizar, a “sorte” de crescer internamente cessará, os bons resultados conjunturais não precisarão ser lamentados e poder-se-á comemorar à vontade os aumentos da taxa de juros.


[1] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; rospalhano@yahoo.com.br, rosangelapalhano31@gmail.com). Colaboraram: Rubens Gabriel, Victória Rodrigues, Nelson Rosas, Maria Júlia Alencar, Júlia Bonfim e Gustavo Figueiredo.

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