segunda-feira, 20 de abril de 2026

“EU ANEXARIA OS PLANETAS, SE PUDESSE...”. A LUA SERVE?

 Semana de 23 de março a 05 de abril de 2026   

Lucas Milanez de Lima Almeida [i] 

       Em 1936, Leo Huberman escreveu o livro “História da riqueza do homem”. Sem sombra de dúvidas, uma das melhores descrições históricas acerca da conformação da sociedade humana até aquela época. Um dos últimos capítulos do livro é intitulado “Eu Anexaria os Planetas, se Pudesse...”. Estas não são palavras do autor, mas uma citação de Cecil John Rhodes, classificado por ele como “um dos maiores construtores de impérios”. Mas a que Rhodes se referia e por que Huberman o citou?

       A maior parte do referido capítulo traz uma apresentação lógico-histórica da transformação do capitalismo concorrencial em capitalismo monopolista. Fato que se concretiza no último quarto do século XIX, isto significou a destruição das pequenas unidades produtivas e a transformação destas em grandes corporações que dominavam setores inteiros, como a produção de metais, energia, ferrovias, máquinas e equipamentos, automóveis, etc. Para além disso, e como complemento necessário, também os bancos se transformaram em poucos, mas imensos bolsões de riqueza.

       Como consequência, diante da disputa mortal entre as grandes corporações, o caos da anarquia da produção capitalista transformou a concorrência em mero desejo e retórica de ideólogos do capitalismo. Na prática, as decisões de produção passaram a ser tomadas por sindicatos patronais, trustes, cartéis e demais associações que reuniam os produtores e os organizavam diante dos pobres consumidores. Os preços, então, passaram a ser preços de monopólio e os lucros, antes rebaixados pela concorrência, passaram a se exacerbar.

       Isso ampliou ainda mais o excedente apropriado pelas grandes corporações, industriais, comerciais e bancárias, amalgamadas e regidas pela lógica financeira da época. Essas empresas atingiram magnitude tal que os espaços nacionais onde atuavam se tornaram insuficientes para a aplicação dos seus capitais excedentes, seja sob a forma dinheiro, produtiva ou mercadoria. Ou seja, o espaço geográfico pátrio não comportava mais a expansão de suas atividades e, muito menos, a aplicação da riqueza complementar oriunda dos ganhos monopolistas. Para essas empresas, era necessário perpassar as fronteiras estrangeiras para escoar o excedente e continuar a crescer.

       Nesse contexto, uma das principais manifestações desta nova estrutura do capitalismo central foi a expansão das atividades das grandes empresas em direção a outros países. Sendo o texto de 1936, antes da Segunda Guerra Mundial, e apesar de ele tê-la “previsto”, o destaque dado pelo autor recai sobre as colônias e a sua exploração pelas metrópoles. A relação entre os países centrais e as colônias africanas e asiáticas, relação esta que assume outra forma para a periferia latino-americana, é aquela descrita na clássica divisão internacional do trabalho: países avançados fornecem dinheiro, mercadorias e investimentos diretos à periferia, enquanto estas fornecem matérias-primas e mão de obra barata àqueles.

       É aí que entra o britânico Cecil Rhodes. Sob a bandeira da paz, de Deus e da civilização, Huberman o cita: “Sustento que somos a primeira raça do mundo, e quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor para a raça humana. ... Se houver um Deus, creio que Ele gostaria que eu pintasse o mapa da África com as cores britânicas”. E, diante do fato de que o mundo estava se dividindo entre as diversas potências imperialistas da época, Rhodes diz: “O mundo está quase todo parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Pense nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse; penso sempre nisso. Entristece-me vê-los tão claramente, e ao mesmo tempo tão distantes”.

       Bom, diante desses escritos que remontam a exatos 90 anos e diante dos acontecimentos planetários atuais, que mostram uma concentração e uma centralização inéditas da riqueza mundial, da irrupção cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos e da emergência de pandemias e epidemias dos mais diversos tipos, convido o caro leitor a pensar sobre os motivos pelos quais os seres humanos resolveram retornar à lua.

       Longe de mim pensar em teorias da conspiração. Mas não te faz refletir sobre quais interesses serão atendidos com a execução de um projeto desse tipo?

           


[i]Professor (DRI/UFPB; PPGCPRI/UFPB; PPGRI/UEPB) e Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Antônio Queirós, Jessica Brito, Julia Bomfim, Maria Julia Alencar, Ícaro Moisés, Nelson Rosas, Bernardo, Júlia Araújo, Maria Eduarda, Thales, Genifer, Gabriel Viana e Talita Ana.

 

Share:

0 comentários:

Postar um comentário

Novidades

Recent Posts Widget

Postagens mais visitadas

Arquivo do blog