sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Samba de uma nota só

Semana de 25 a 31 de outubro de 2010

Nas últimas semanas, a orquestra da economia mundial tem tocado o samba da mesma nota: a valorização cambial. Em análises passadas, vimos que, principalmente por causa da elevada taxa de juro, há uma grande entrada de dólares no Brasil e uma consequente redução da taxa de câmbio. Mas, enquanto o governo e o Banco Central considerarem que a inflação é causada pelo crescimento, estaremos sujeitos a esta partitura.

Um consumidor, quando quer comprar um produto importado, tem que converter o preço expresso na moeda do país de origem em um preço expresso na moeda local para, depois disto, adquirir o produto. Por exemplo, não é possível comprar qualquer produto no Brasil com dólar. É necessário converter o dólar em reais. Por outro lado, por causa da diferença na capacidade produtiva de cada país, as moedas têm diferentes poderes de compra (um dólar nos EUA não compra a mesma coisa que um real no Brasil). Por causa disso, há diferenças de valor entre as moedas. Estas diferenças determinarão as relações de troca entre a moeda local e a estrangeira e vice-versa, ou seja, determinarão a taxa de câmbio de uma moeda por outra. Atualmente, o dólar no Brasil está cotado a R$ 1,70, isto quer dizer que é necessária essa quantia em reais para se obter US$ 1,00.

Imaginemos que uma TV LCD 42", nos EUA, vale US$ 1.000. Se um brasileiro quiser comprá-la, terá que desembolsar R$ 1.700 (sem impostos). Considerando que, no Brasil, este mesmo televisor custa em média R$ 2.000, será melhor para o brasileiro importar a TV. No caso de um brasileiro que queira exportar o televisor ocorre o seguinte: ao valer R$ 2.000, seu produto valerá US$ 1.176. Este valor é superior ao cobrado pelo produto nos EUA, logo, não é vantajoso, para os americanos, comprar do Brasil. Mas, se a taxa de câmbio fosse R$ 2,50, por exemplo, o produto americano, quando convertido, custaria R$ 2.500 ao importador brasileiro. Por sua vez, o exportador daqui venderia a TV lá nos EUA por US$ 800, mais barato do que o produto local. Assim, seria menos vantajoso para o brasileiro importar e mais vantajoso exportar os produtos. Essa lógica é aplicada a todas as mercadorias, sejam elas oriundas do setor primário, secundário ou terciário, e é isso que está por traz da "guerra cambial".

Apresentada a base do samba, vejamos outras notas.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao divulgar o resultado do Indicador de Nível de Atividade (INA), chegou à conclusão de que, nos últimos meses, as importações atingiram um ritmo de crescimento inédito. A projeção para o crescimento da indústria de transformação paulista este ano ficou em 11%. Porém, segundo o INA, esta cifra poderia ser bem maior, caso o real não estivesse sobrevalorizado e a aquecida demanda interna não fosse suprida pelos produtos estrangeiros. Segundo Paulo Francini, da Fiesp, o setor opera com capacidade folgada. Para ele, "o país nunca correu um risco tão grande de desindustrialização como agora". Além disso, se esta situação continuar, a expectativa é de que, nos próximos anos, a participação do setor no PIB caia, de 15%, para 10%.

Já na indústria de máquinas e equipamentos de todo o país, houve um crescimento de 1,8% na comparação entre setembro de 2009 e setembro de 2010. As exportações do setor avançaram 27,4% em um ano, ao atingir, em setembro, a cifra de US$ 810 milhões, enquanto as importações cresceram 64,2% (também em um ano), ao baterem, em setembro, o recorde de agosto com US$ 2,667 bilhões.

A valorização do real chegou a tal ponto que a Renault do Brasil transferiu o contrato de produção de um modelo, o qual será vendido no México, para a Colômbia. Segundo Denis Barbier, vice-presidente da Renault para as Américas, "ao fazer a equação percebemos que não somos competitivos na produção desse veículo no Brasil para enviá-los ao México". Segundo ele, além do câmbio, outros custos também oneram esta venda (como matérias-primas e salários). Situação semelhante vive o Japão, que viu, em 2009-2010, grandes empresas exportarem suas fábricas para outros países: do total da produção da Toyota, 43% foi no Japão e 57% foi no resto do mundo; na Nissan, 29% foi produzido no Japão e 71% fora; na Sony, 45%, no país e 55%, fora do Japão.

Note que o resultado desta política é a externalização da produção, ou seja, o consumo cresce, mas seu abastecimento fica a cargo do país estrangeiro.

Além do Brasil e do Japão, países como Tailândia, Indonésia, Cingapura e Índia estão preocupados com a desvalorização do dólar. A Coréia do Sul, por sua vez, anuncia a tomada de medidas para o controle dos capitais que ingressam no país.

Mas pelo visto neste samba continuaremos, toda a escala utilizaremos, e se o maestro não mudar, para mesma nota voltaremos e todos neste samba iremos dançar.


Texto escrito por:
Lucas Milanez de Lima Almeida: Mestre em Economia, professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e membro do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)
Share:

sábado, 30 de outubro de 2010

A guerra dos mundos

Semana de 18 a 24 de outubro de 2010

O panorama econômico atual lembra bastante o filme “Guerra dos Mundos”. A diferença é em relação ao invasor. Enquanto na obra de Orson Welles tratavam-se de possíveis marcianos, na atualidade, os invasores são os dólares. Com efeito, o fluxo de recursos direcionados especialmente aos países emergentes tem feito com que a maioria dos governos, inclusive o do Brasil, tente utilizar um poderoso arsenal para controlar a valorização de suas moedas nacionais em relação ao dólar.

Considerada por alguns como “guerra cambial”, de um lado, vê-se o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, desculpando-se e tentando explicar que seu país não persegue uma política deliberada de desvalorização do dólar em busca de conseguir prosperidade. Por outro lado, os bancos centrais de diferentes países reforçam ações para limitar a valorização de suas moedas. De modo geral, as medidas resumem-se à compra de dólares no mercado e ao controle da entrada de capitais. É o que tem feito, por exemplo, a África do Sul, Rússia, China e os países da América do Sul, como Chile, Colômbia e Brasil.

Apesar da atuação incisiva, muitos capítulos ainda virão pela frente. É o que considera o professor da Universidade de Rosário (em Bogotá) Gonzalo Palau. Segundo ele, “O que se fez até agora foi um paliativo para um problema mundial, que é o mar de dólares que vem circulando por aí”.

Interessante foi a constatação de Guido Pennano, ex-ministro peruano, que considera que a valorização da moeda dá a impressão de que esta é saudável. “Mas ela vem deixando doente os setores produtores”, complementa. Se a carapuça servir para o Brasil...

Aliás, no Brasil, a principal medida tomada para conter a situação foi o aumento da alíquota de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 2% para 4%. Além disso, o Tesouro diminuiu a quantidade de títulos públicos postos em leilão na semana passada e não vendeu os de prazos mais longos (o caso NTN-F 2021), que são da preferência dos especuladores estrangeiros. Enquanto isso, a taxa básica de juros permaneceu a mesma do último trimestre, 10,75%, mantendo-se como a mais alta do mundo. Esta variável, que poderia ser mais uma ferramenta para desestimular a entrada de capital estrangeiro, continua no papel de filha de general: intocável.

Para Paulo Sandroni, professor da FGV, o governo ainda não fez o suficiente para conter a valorização do Real. Para ele, a taxação (por meio da elevação do IOF) é um instrumento limitado. “Taxação é como as baionetas, você pode fazer de tudo com elas menos sentar em cima”, diz ele. Sandroni também sugere que o Banco Central – Bacen – aumente os depósitos compulsórios dos bancos, de maneira a conter o crédito e segurar as pressões inflacionárias.

Metáforas militares a parte, a situação na economia real dos países europeus não está nada pacífica. Crescem as manifestações sociais e os protestos de trabalhadores, principalmente na França e Reino Unido, onde o enxugamento orçamentário e as reformas previdenciárias com o alargamento da idade para a aposentadoria, encaminhados pelo executivo, estão sendo discutidos pelo legislativo.

Como uma herança maldita da crise financeira de 2008, os países europeus tentam organizar suas contas públicas, mas, com isso, causam sérias tensões sociais. O Reino Unido divulgou o corte de 490 mil funcionários públicos nos próximos cinco anos. O ministro das Finanças do país, George Osborne, ao anunciar o corte orçamentário, explicou: “Hoje é o dia em que o Reino Unido dá um passo para trás bem adiante do abismo da falência”.

O que as organizações sociais européias criticam é a falta de diálogo com os governos e a pouca atenção dada a temas sociais, apesar dos protestos que têm pouco efeito. Como pontua John Monks, da Confederação Europeia Sindical (Etuc), “Os trabalhadores pagaram a conta para salvar os bancos e agora estão pagando para tirar os países de seus déficits”.

Texto escrito por:
Jornalista, mestre em Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).
Share:

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Boca de forno... forno!

Semana de 11 a 17 de outubro de 2010

O diapasão para a procura do tom que moveas taxas de câmbio em qualquer parte do Planeta continua localizado no Federal Reserve Bank (Fed), que,nesse momento, preocupado em enfrentar a ameaça de deflaçãoque ronda os Estados Unidos há cerca de pelo menos um ano, optou pelo “afrouxamento quantitativo” através da compra de títulos. As dificuldades econômicas levaram a diretoria do banco a despejar centenas de bilhões de dólares nos T-bonds (títulos da dívida americana).

A repercursão na economia global, inicialmente na área financeira, não se fez esperar e, com certeza, alastrar-se-á por todas as outras. É de relembrar o fato de que o Capital Financeiro Internacional tem o comando, quase de forma absoluta, da economia mundial, as vezes sendo atropelado pela implacável imponderabilidade dos agentes econômicos. É relevante destacar aopinião do Diretor Gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, de cujo conteúdo não se pode discordar.Para ele, a coordenação de políticas econômicas dos governos perdeu ímpeto, e a busca de soluções domésticas para um problema que é globalapenas criará dificuldades ao retorno da economia mundial a um equilíbrio, ou seja,a saída da crise ou recuperação.

A batuta do FMI ordena que as famílias americanas e da Europa gastem menos, enquanto as famílias dos emergentes, particularmente da China, devem ampliar o seu consumo. Essas mudanças sãoum dos fatores relevantes para a materializaçãodo objetivo: a alteração relativa dos valores das moedas. Chegamos ao ponto central do problema que se quer aqui abordar:a manipulação da taxa de câmbio.

Como no jogo Boca de Forno, o trabalho de casa vem sendo feito direitinho pelo conjunto dos emergentes. O caso do Brasil tem sido exemplar e o daChina rebelde vem furando o esquema do jogo e, porisso mesmo, tem criado uma situação muito desfavorável àquele país na chamada guerra cambial.Há quem prognostique que o colosso chinês vai ficar em breve com “a corda no pescoço”.

Voltando ao Brasil, sendo a taxa de juro superior ao resto do mundo, apesar da fraca taxa de conversibilidade, o real internacionaliza-se evaloriza-se,observando-se uma maior rentabilidade nas operações de “bid-ask”, diferença existente no mercado entre o ask (melhor oferta) e o bid (melhor compra),através da prática do “carry trade”(compra de moeda com juros baixos e troca por moedas com juros altos).As únicas incertezas decorrem das possíveis mudanças da taxa de câmbio.

A taxa de câmbio torna-se assim a variável econômica mais estratégica para o crescimento econômico. Com isso, o Presidente do Banco Central (BACEN), esquecendo que “câmbio flutuante é para flutuar”,muda a tônicae passa a uma política mais agressiva, ao verificar que os ajustamentos no mercado cambial não se dão de forma imediata.A valorização do realestá a causar danos irreparáveis ao setor exportador da economia, ampliando os deficits em conta corrente e preparando a eclosão de uma crise cambial aguda. Paulo Francini, Diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), acredita que a forte valorização do câmbio vai provocar uma “ressaca” na indústria, através de muitos canais, liderados pelo canal da importação.

Na realidade, a desvalorização da moeda americana é boa para os americanos, para o capital financeiro internacional, para os importadores, para os grandes especuladores, mas não parece assim tão boa para a saúde da “economia tupiniquim”. O que fazer sem romper com os cânones da cartilha do FMI? Meirelles mantém a coerência e o respeitoàs regras do jogo, através da expansão fiscal e do acúmulo de reservas, ambos alvos de criticas na última reunião do FMI.

Deduz-se que continuamos no jogode onde nunca saimos, desde os tempos idos e sofridos, do qual o Governo Colorpode ser considerado um marco,e,juntamente com o resto do mundo, obedientes, repetimos:“faremos tudo que o mestre mandar”. Será que não poderemos tentar sair da brincadeira e aspirarpor moderninhos jogos, sem mestres, onde todos os parceiros interagem com relativa independência?


Texto escrito por:
Elivan Gonçalves Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB - Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. Email: progeb@ccsa.ufpb.br.
Share:

Novidades

Recent Posts Widget

Postagens mais visitadas

Arquivo do blog