quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O vendedor de ilusões

Semana de 15 a 21 de agosto de 2016

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, 100 dias até 20 de agosto se passaram desde a posse do presidente interino Michel Temer. O estelionato eleitoral iniciado pela presidente afastada, Dilma Rousseff, concretiza-se a passos largos pelo novo governo. Há pouco mais de 100 dias, o plano prometido na eleição foi jogado no lixo por aqueles que indiretamente o criaram. A coalizão formada põe em prática o plano de governo daqueles que não foram escolhidos pelo voto.
Traições e estelionatos à parte, o homem que se apresentou como “Salvador da pátria” tratou rapidamente de comemorar seus 100 dias de governo, enaltecendo o reerguimento da economia do Brasil.
As publicações comemorativas do seu partido não economizaram em modéstia. “100 dias de governo Temer: reerguendo a economia do Brasil. Produção crescendo... PIB aumentando... Exportações em alta... Inflação em queda...”.
Se acreditássemos em frases de efeito, creríamos que o homem é um fenômeno! Mas como cientistas que somos, temos a obrigação de apresentar os fatos.
Fato no 1: Produção crescendo... No período compreendido entre maio e agosto, o correspondente aos 100 dias do governo interino, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), órgão oficial de estatística, divulgou os seguintes números para a produção industrial: perante abril, a atividade industrial ficou estável em maio (caindo em oito dos 14 locais pesquisados) e em junho cresceu 1,1% (crescendo em nove dos 14 locais pesquisados). Segundo o IBGE, a atividade industrial acumula queda de 9,1% no primeiro semestre, sendo a maior desde outubro de 2009. Os números de julho e agosto ainda não saíram, mas a CNI (Confederação Nacional da Indústria) já apurou, em julho, a sua Sondagem Industrial, feita com 2.532 empresas. Neste mês o índice de evolução da produção industrial fechou em 46,6 pontos e permaneceu estável em relação a junho, mas como permanece abaixo dos 50 pontos, o dado mostra que a produção continua a cair entre junho e julho. Confirmando esse resultado, o relatório Focus do Banco Central aponta para uma queda da produção industrial de 5,95%, em 2016.
Fato no 2: PIB aumentando... O PIB do primeiro trimestre de 2016 caiu 0,3%, segundo o IBGE, e deve continuar sua trajetória de queda no segundo trimestre. De acordo com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br, que foi criado para tentar antecipar o resultado oficial, o PIB apresentará queda de 0,53%, no segundo trimestre deste ano, comparado ao primeiro trimestre. Segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Carlos Hamilton, a economia em 2016 recuará 3%, o que representa uma melhora da projeção anterior de 3,1%. Só em 2017 é que o PIB aumentaria em 1,6%, mas lembre, caro leitor, que esta retomada já era prevista pela gestão anterior.
Fato no 3: Exportações em alta... Em maio, as exportações brasileiras somaram US$ 17,571 bilhões, valor 14,31% menor se comparado a abril; em junho, o total foi de US$ 16,739, com uma queda de 4,73% e em julho, US$ 16,331, queda de 2,44%. Segundo o próprio Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), o superávit da balança comercial está ligado não ao aumento das exportações, mas sim à queda das importações. Até o dia 14 agosto de 2016, as exportações somaram US$ 114,52 bilhões (o que representa uma queda de 4,7% sobre o mesmo período do ano passado) e as importações somaram US$ 83,97 bilhões (queda de 26,4%, quando comparado com igual período de 2015).
Fato no 4: Inflação em queda... A trajetória mensal da inflação não é de queda. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), em maio, subiu 0,78%, em junho, cresceu 0,35% e em julho, o IPCA subiu 0,52%. O indicador fechará o ano, segundo o Boletim Focus do Banco Central, com uma alta 7,31%.
Diante dos fatos, esfacelam-se os tão alardeados resultados dos 100 dias de governo interino Temer, que se esforça em vender ilusões.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Vender tudo o que houver

Semana de 08 a 14 de agosto de 2016

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
Não há maiores novidades na economia mundial. Tudo continua no mesmo ritmo. Os EUA caminham lentamente o que leva o Federal Reserve (Fed), Banco Central americano, a adiar a elevação das taxas de juros. A União Europeia (UE) também se arrasta, acompanhada pelo Japão (com crescimento zero) e a China com a economia em desaceleração. A atitude do Banco Central Europeu (BCE) e demais bancos centrais continua de afrouxamento monetário (Quantitative Easing), jogando dinheiro nos bancos através da compra de títulos podres. Com o Brexit, a situação da economia do Reino Unido piorou e as consequências estão se amplificando.
Aqui no Brasil as coisas também seguem o mesmo rumo. A preocupação do governo continua a ser de criar a impressão de que as expectativas estão melhorando e com isto virá a recuperação. Alguns dados, no entanto, apontam em direção contrária. A publicação “Prisma Fiscal”, do Ministério da Fazenda, mostra piora nas projeções do mercado para os déficits primários de 2016 e 2017. O ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira, do PRB, ameaçou demitir-se se o governo não implementar o prometido ajuste fiscal. Isso mostra queda na credibilidade do governo diante das concessões que têm sido feitas aos políticos e que implicam em aumento das despesas.  Até o carrancudo Meirelles mostra dificuldades em tirar do papel suas tão propaladas medidas de austeridade. A prometida restauração do sacrossanto tripé macroeconômico já está manca. O pé do “câmbio flutuante” foi arrancado quando o BC, diante da explosiva valorização de 26% do real, no acumulado do ano, interveio no mercado elevando de US$ 500 para US$ 750 milhões a oferta de swap cambial reverso (corresponde à compra de dólares no mercado futuro), no dia 11 passado, e mais US$ 750 milhões, no dia seguinte. O BC não sabe o que fazer com a especulação do capital financeiro internacional que, diante de excesso de liquidez mundial, das baixas taxas de juros internacionais e elevadas taxas no Brasil realiza operações de “carry trade” trazendo bilhões de dólares, obtidos a juros baixos, para aplicações no Brasil.
Outros indicadores mostram que a situação econômica continua em desaceleração. O faturamento dos supermercados, em julho, caiu 1,2% ante junho e o acumulado do ano mostra queda de 8,2%, em relação ao mesmo período de 2015. Os pedidos de falência e recuperação judicial, no acumulado de janeiro a julho, cresceram 75%, segundo a Serasa Experian, em relação a 2015. O Grupo GTFoods, do Paraná, a terceira maior empresa do país produtora de frangos, pediu recuperação judicial. O crédito caiu 4,4%, em 12 meses. Mesmo com estes sintomas de desaceleração, a inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), entre junho e julho, subiu de 0,35% para 0,52%.
Este preocupante quadro só tende a se agravar com as intrigas e rumores que se multiplicam de Brasília. O interino Temer entrou descaradamente na batalha do impeachment pressionando senadores. Há negociações com o novo presidente da Câmara para adiar o julgamento de Eduardo Cunha para depois da votação do impeachment, com medo que, numa delação premiada, o deputado comprometa o resultado da votação dos senadores. Circula também a existência de um acordão para a aprovação de uma anistia para os políticos da lava jato diante de outra delação, a de Odebrecht, que poderia afetar 200 parlamentares.
Neste ambiente, o presidente interino Temer concedeu uma entrevista ao Jornal Valor Econômico. Como vitórias, apresentou a aprovação na Câmara da meta fiscal de R$170 bilhões e da DRU. Como metas futuras, restaurar a confiança e depois incentivar os investimentos. Afirmou que não tem política industrial e pretende privatizar “tudo que houver para vender”. Depois de sua confirmação no cargo dará início às reformas trabalhista e da previdência. Perguntado se isso não provocaria reações afirmou que “Sim, vai ser uma luta feroz”. Só não acrescentou que já havia preparado o terreno para isso com o seu trio da repressão: Alexandre de Morais, na Justiça (O truculento ex-secretário de segurança de SP), Raul Jungman, na Defesa (o ex-comunista) e o General Sergio Etchegoyen, no GSI e Abin (sobrinho e filho de generais ligados a torturadores). Parece uma boa equipe para enfrentar a ferocidade esperada. Os trabalhadores que se cuidem.
A guerra está declarada.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Crise econômica mundial: não há saída à vista

Semana de 01 a 07 de agosto de 2016

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor. Enquanto o país vive a euforia de sediar as Olimpíadas, reina o marasmo político e econômico. O processo de impeachment caminha no Congresso Nacional e já é dado como certo o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff. O presidente interino não tem coragem de implantar as reformas mais indigestas e fica à espera do fim do período eleitoral e da sua posse definitiva à frente da presidência.
Segundo a Pesquisa Industrial Mensal Produção Física do IBGE, no segundo trimestre a produção industrial cresceu 1,2%. É a primeira alta desde o primeiro trimestre de 2014. De acordo com o IBGE o câmbio favoreceu o resultado e na avaliação geral pesa a opinião de que a retomada será modesta e dúvidas sobre sua “consistência”. Em contrapartida, as más notícias da conjuntura econômica não cessam. Impossível falar em recuperação industrial quando o consumo de energia está em queda. Em junho, segundo a Empresa de Pesquisa Energética, o setor industrial, consumiu 13.652 GWH. Isto representa uma queda de 3,3% frente a igual período do ano passado. O setor comercial, por sua vez, registrou queda de 2,9%. E, segundo a Confederação Nacional do Comércio, de janeiro de 2015 até junho de 2016, o varejo brasileiro fechou 166,9 mil lojas. Embora perceba “melhora das expectativas”, o órgão prevê queda de 10,6% nas vendas do varejo ampliado neste ano.
No setor têxtil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, a produção caiu 9,2%, a receita nominal encolheu 7,3% e as exportações caíram 9,1%. Enquanto a ociosidade do setor têxtil gira em torno de 22%, o mesmo indicador para o setor automobilístico ultrapassou os 50%. E a situação interna irá piorar, pois segundo um estudo da consultoria Deloitte, realizado em abril, junto a 130 empresas de diversos setores, 38% das companhias preveem reduzir o número de empregados até o fim do ano, quando apenas 8% pretendem aumentar.
Imerso em seus próprios problemas, o Brasil não percebe como o mundo luta para recuperar-se da armadilha das baixas taxas de crescimento. O crescimento da zona do euro continua a decepcionar. O índice dos gerentes de compras (PMI) da indústria na zona do euro caiu de 52,8 pontos, em junho, para 52 pontos, em julho, de acordo com a consultoria Markit. Desempenhos frustrantes foram registrados na Alemanha, na França, Itália e Espanha. Já o Banco da Inglaterra, na esteira do Brexit, lançou um pacote que reduziu a taxa de juros de 0,5% para 0,25% e aumentou em 60 bilhões de libras o programa de compra de títulos soberanos.
Nos EUA, o índice de atividade industrial do Instituto para Gestão da Oferta caiu de 53,2 em junho para 52,6 em julho. A expansão por lá é considerada moderada e está um pouco acima das mínimas registradas no período pós-crise financeira global. No primeiro semestre, a economia cresceu apenas 1% segundo o Departamento de Comércio. As maiores companhias americanas registraram, no segundo trimestre do ano, a quarta queda seguida nos lucros.
Na China, o PMI do setor industrial caiu a 49,9 pontos, em julho, após o registro de 50 pontos, em junho. No Japão, o índice ficou em 49,3 pontos, indicando contração. Tentando desempacar a economia, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, aprovou um pacote de estímulo governamental de 28 trilhões de ienes (US$ 274,4 bilhões). O dinheiro irá para projetos de infraestrutura e para a construção de instalações de processamento de alimentos visando ampliar as exportações de produtos agrícolas. O governo ainda dará 15 mil ienes (cerca de US$ 147) aos 22 milhões de pessoas de baixa renda, aumentará o número de beneficiados do sistema público de previdência e também de bolsas de estudos. No segundo trimestre estima-se queda de 0,1% da atividade econômica.
As recentes experiências têm mostrado que o arsenal contra a crise está se esgotando. Jogar dinheiro de helicóptero está definitivamente tornando-se uma opção cada vez mais apontada como alternativa para salvar o mundo da crise econômica.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Confiança e realidade

Semana de 25 a 31 de julho de 2016

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Em várias análises temos falado sobre o “fundo do poço” e teremos de continuar falando, pois a questão continua na ordem do dia e na boca de todos os analistas econômicos. Essa discussão implica no reconhecimento de que a economia se desenvolve em ciclos que se repetem com fases sucessivas: crise (começo da queda), depressão (parte mais baixa da queda, fundo do poço), recuperação (retomada do crescimento) e auge (crescimento rápido e euforia). Todos admitem que a crise nos levou ao fundo do poço (depressão). O que se discute é se continuamos lá, se estabilizamos a queda ou se já começamos o movimento de recuperação. Alguns tentam fazer crer que tudo é uma questão de expectativas. É por isso que o governo e seus agentes esperneiam na tentativa de aparentar confiabilidade, coisa difícil quando analisamos a ação do governo. Sucessivos ministros e outros auxiliares são demitidos, sempre que suas ligações com a corrupção são descobertas. O discurso de equilíbrio fiscal desmoraliza-se quando são aprovados aumentos de salários para funcionários públicos e recriam-se ministérios extintos. Comenta-se que será recriado o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), para premiar o grande pelego Paulinho da Força, cujo filho já foi agraciado com o INCRA de São Paulo. O governo Temer continua usando os mesmos métodos criticados no governo anterior, do qual ele fazia parte, para comprar com cargos sua base no congresso. E as comissões de empresários, que se sucedem em visitas de apoio irrestrito, chegam todas com o apoio em uma mão e a cobrança de favores na outra. Foi assim com os representantes da Confederação Nacional da Indústria, do Comércio, dos bancos, da construção civil, etc. Todos pediram crédito barato, favores fiscais, encomendas do governo e as reformas, que sempre objetivam retirar as garantias que protegem os trabalhadores, desonerar as folhas de pagamento, reduzir os impostos, “flexibilizar” o mercado de trabalho, etc.
Enquanto isso, a economia continua a apresentar sinais de que continuamos no fundo do poço. As montadoras e setor de autopeças trabalham com 52% de ociosidade. Na produção de caminhões a ociosidade sobe para 75%. Desde janeiro a venda de carros de passeio caiu 25,4% e a de caminhões 31,4%. A queda na atividade econômica tem reflexos na arrecadação de impostos e a contribuição mais negativa é a da indústria. No primeiro semestre a queda na indústria foi de 10,3%, pior que a no varejo, que foi de 9,8%. Na indústria metalúrgica a queda foi de 31,8%, nas máquinas e equipamentos, 24,1% e nos equipamentos de informática e eletrônicos, 22,5%. Na arrecadação de impostos a queda, em junho, foi de 7,14% e no semestre, 7,33%.
Apesar deste nebuloso quadro o governo acredita que a recuperação terá início no quarto trimestre e acelerará em 2017, apontando como único perigo o ambiente externo, com a alta de juros dos EUA, a desaceleração da China e as dificuldades da União Europeia (EU) após o Brexit. Já o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), no Boletim Macro, considera que a economia ainda não saiu do fundo do poço, que este ano a queda do PIB será 3,5%, e não vê expansão do PIB em 2017. O Banco Central (BC), no seu Boletim Focus aponta uma queda de 3,27% para ao PIB deste ano e a Cepal estima em 3,5% esta queda, para o Brasil, e 0,8%, para o conjunto da América Latina.
O desemprego continua em torno dos 11,3%, no último trimestre, e a Fiesp, afirma que o Índice do Nível de Atividades (INA) apresentou uma queda de 9,9%, no primeiro semestre, frente ao ano passado.
Estes dados mostram que a economia ainda não voltou aos trilhos e a credibilidade do governo não é reconhecida nem pelo BC que, na reunião do Copom, manteve a taxa Selic em 14,25% por não confiar, nem na seriedade, nem na “qualidade” do ajuste fiscal prometido.
Enquanto isso o secretário-geral da OCDE, após a reunião do G-20, declarou os seus temores de que a situação da economia mundial piorou e continuará mal em 2017, pois os quatro motores que a impulsionam deixaram de funcionar: investimentos, comércio internacional, financiamento, emergentes.
Está mal! Será que não se pode confiar na realidade?

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).