quarta-feira, 23 de maio de 2018

Após 2 anos, recuperação econômica não vinga

Charge de Jota A
Semana de 14 a 20 de maio de 2018

Rosângela Palhano Ramalho [i]

O presidente Michel Temer procurou motivos pra comemorar os dois anos de seu governo e tratou de listar os convidados para a cerimônia celebrativa do dia 15 de maio. Ministros, ex-ministros, presidentes de estatais e aliados foram convocados. Mais que as presenças, chamaram à atenção as ausências dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia e do Senado, Eunício Oliveira. Fingindo não tomar conhecimento dos fatos, o presidente enalteceu a aprovação do teto dos gastos públicos, a recuperação da credibilidade da Petrobras, a “provável” privatização da Eletrobrás, a entrega de 1 milhão de moradias no programa Minha Casa, Minha Vida, a aprovação da reforma trabalhista, a redução da taxa básica de juros e o fim da recessão.
Pois bem. Um dia depois destes anúncios, foi divulgado o resultado do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). O indicador caiu 0,13% em relação ao último trimestre de 2017. As quedas de 0,1% da produção industrial, de 0,2% dos serviços e a leve alta de 0,3% do varejo medidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) permitiram construir o índice geral que é uma prévia do PIB oficial.
Então, os últimos números apresentados pela economia brasileira indicam que, ao contrário do que o governo afirmou, o crescimento do PIB de 2018 será mais próximo de 2% do que dos 3% prometidos no início do ano. Além das revisões para baixo citadas em nossa última análise, esta semana foi a vez do Bank of America Merrill Lynch revisar sua projeção de 3% para 2,1%. O Boletim Focus também rebaixou sua estimativa de 2,7% para 2,51%. O Comitê de Acompanhamento Macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) cortou a previsão para o PIB de 3% para 2,4%. E o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) admitiu que a atividade econômica evolui abaixo do esperado e apontou o recuo do indicador de consumo aparente de bens industriais de 2%, em março, como um dado preocupante. Mesmo assim, o órgão afirmou que, na “...ausência de novas fontes significativas de volatilidade ou instabilidade no cenário externo ou no front político doméstico, a atividade deverá continuar em sua trajetória de recuperação gradual ao longo do ano.”
A economia cresce a níveis baixíssimos e de forma bastante irregular, e os especialistas continuam a exaltar sua “trajetória gradual e consistente”. Veja-se o exemplo do Banco Central. O Copom manteve a taxa básica de juros em 6,5% em sua última reunião ocorrida em 16 de maio, encerrando o ciclo de queda monetária. E uma das suas justificativas para a manutenção da taxa chama a atenção: “Os últimos indicadores de atividade econômica mostram arrefecimento, num contexto de recuperação consistente, mas gradual, da economia brasileira...” A atividade econômica arrefece, mas sua “recuperação é gradual e consistente”!
Isto é que é coerência!
Some-se a esta “consistência” os dados do IBGE que dão conta, no primeiro trimestre deste ano, de 27,7 milhões de trabalhadores subutilizados. O desemprego ampliado, que caracteriza a subutilização da força de trabalho, computa os trabalhadores desempregados, os subocupados por insuficiência de horas (trabalham menos de 40 horas semanais, mas gostariam de trabalhar mais) e os trabalhadores potenciais (que não buscam emprego, mas estão disponíveis para trabalhar). O desemprego ampliado subiu de 23,6% para 24,7%, na comparação com o quarto trimestre de 2017. Já o desalento (medido pela desistência do trabalhador em procurar emprego) atinge 4,6 milhões de pessoas, aumento de 278 mil em relação ao fim do ano passado. Além disso, a taxa de desemprego, que está em 13,1%, se elevou em todas as faixas etárias, no primeiro trimestre, e continuou a penalizar a parcela jovem da população. O número de desempregados de 14 a 24 anos de idade aumentou em 600 mil e já atinge 5,6 milhões.
Com 71,2% da população classificando o seu governo como ruim ou péssimo e contando com apenas 0,9% das intenções de voto para o próximo pleito, segundo a última pesquisa CNT/MDA, Michel Temer insiste, há 2 anos, em continuar desconectado da realidade.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

Publicidade e realidade


Semana de 07 a 13 de maio de 2018

Nelson Rosas Ribeiro[i]

A anunciada campanha publicitária do governo foi lançada e está em marcha. É uma vã tentativa de vender gato por lebre. O desmoralizado governo Temer, com o nosso dinheiro, procura esconder o resultado da última pesquisa de opinião divulgada no final da semana. Apenas 4,3% da população do país considera o governo ótimo ou bom e 71,3% consideram-no ruim ou péssimo. Ainda bem que seu marqueteiro, o Elsinho é Mouco.
Temer sente-se na obrigação de livrar sua própria cara para tentar recuperar a imagem do MDB que está na iminência de ter mais 2 ministros processados além de enfrentar ele próprio um novo pedido de processo. Haja ladrão.
Teremos de suportar o bombardeio da publicidade descarada sabendo que ela é paga com o dinheiro da nação. Enquanto gastam, continuam falando em rombo da previdência (melhor seria roubo da previdência), equilíbrio e austeridade fiscal, etc.
O que o governo pretende apresentar  como realização sua é o aumento do emprego (sem carteira assinada), a queda da inflação (graças à crise e a queda do poder de compra da população), a redução dos juros (feita pelo Banco Central (BC) independente), a boa safra agrícola (obra de São Pedro), os saldos da balança comercial (presente do mercado mundial), a saída da crise e recuperação da economia (resultado natural da reversão do ciclo econômico), etc.
Onde está a ação do governo nestes acontecimentos?
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) mostram um quadro diferente e este sim é obra do governo.
Comparado com o último trimestre de 2017, o trimestre encerrado em março mostra uma desaceleração na produção industrial. O crescimento de 4,9%, em 2017, caiu para 3,1% agora. A produção de bens intermediários caiu 0,7%. Nos bens de consumo semi e não duráveis o crescimento de 2,8% desacelerou para 0,8%. Em março, a produção industrial caiu 0,1% e, dos 26 ramos pesquisados, 14 tiveram taxas negativas. A situação não foi pior por causa das exportações que cresceram 15,6% em quantum, segundo cálculos da Funcex.
Os dados do comércio também não são animadores. O indicador Serasa Experian de Atividade do Comércio mostrou que as compras, em abril, em relação a março, caíram 0,1%, com os ajustes sazonais. O Índice de Confiança do Empresário do comércio (ICEC) no município de São Paulo mostrou uma queda de 0,2%, no mesmo período.
Nos bancos, a carteira de crédito dos 4 maiores, após 8 meses de queda, apresentou crescimento decepcionante de 0,6%
Por conta desses resultados todos começaram a reduzir as estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2018. O governo reduziu sua estimativa de 3% para 2,6% (dados do BC). O banco JP Morgan reduziu de 3% para 2,6% e o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 2,8% para 2,6%.
Parece que o Elsinho Mouco, além de usar aparelho auditivo para ouvir o povo, vai ter de rebolar para dourar a pílula do governo Temer.
Para agravar a situação, o Departamento de Estudos Econômicos do banco Bradesco, com base nos dados do IBGE, calculou que 900 mil pessoas deixaram de integrar as classes A e B. Só a classe A (os que recebem salários superiores a R$11.001,00) perdeu 500 mil pessoas.
Enquanto isso, os 4 maiores bancos Banco do Brasil, Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander tiveram, no primeiro trimestre um retorno médio de 18,3%, quase 3 vezes o valor da Selic que, em março, ficou em 6,5%.
Para completar a semana tivemos as loucuras do presidente Trump que resolveu tocar fogo no oriente médio mudando a embaixada dos EUA para Jerusalém, retirando-se do acordo nuclear com o Irã e declarando uma guerra comercial com a China.
Haja coração!


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quinta-feira, 10 de maio de 2018

Por que os juros americanos preocupam tanto?


Semana de 30 de abril a 06 de maio de 2018

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Poderíamos utilizar esse espaço para falarmos do governo Temer, que, em pouco menos de dois anos, já tem o maior número de vetos derrubados pelo congresso desde a redemocratização (total de 15). Poderíamos também falar da sua genial afirmação, de que o desemprego não se elevou, mas “aumentou o número dos que procuram emprego”. Contudo, o assunto mais quente e que atualmente já aterroriza nossa “hermana” Argentina é o arrocho na política monetária do Banco Central dos EUA (Fed).
As economias nacionais, como partes, se desenvolvem de maneira desigual, mas estas desigualdades se combinam formando a economia mundial, como totalidade. Cada integrante do mercado mundial ocupa uma posição diferenciada naquilo que se chama de divisão internacional do trabalho. Os capitais das economias mais avançadas, aquelas onde se desenvolvem novas tecnologias, máquinas, equipamentos, etc., se inserem nos estratos mais elevados desta hierarquia. Contudo, existem as atrasadas, onde os capitais locais não têm condições de dinamizar a atividade econômica através de suas forças internas. Por isso, elas dependem das primeiras para poderem funcionar a pleno vapor.
Foi assim, por exemplo, que Brasil, México e Argentina se industrializaram no século passado. Por serem atrasadas, estas economias usaram recursos externos para diversos fins, sejam estes produtivos, tecnológicos, financeiros ou apenas para consumo final. E foi justamente isso as que tornou tão vulneráveis às variações no dólar.
A questão fundamental é que, como em qualquer iniciativa capitalista, os empreendimentos nas economias dependentes precisam oferecer retorno aos empresários que ali decidem investir ou especular. Como a especulação, tem maior influência sobre o câmbio dos países que adotam a “livre” flutuação, quando os EUA elevam (mesmo que em apenas 0,25%) sua taxa básica de juros, os especuladores decidem tirar seu dinheiro das aplicações menos seguras (em países atrasados) para colocar naquela que é considerada uma das aplicações mais seguras do mundo: os títulos do tesouro americano. Como os EUA só aceitam dólares em suas negociações, mais moeda estadunidense será procurada nos mercados cambiais (para que se possam comprar os referidos títulos), elevando, portanto, o preço de compra do dólar.
Assim, dois problemas se manifestam (às vezes, simultaneamente). Primeiro isto afeta negativamente o balanço de pagamentos (registro de todas as transações entre um país e o resto do mundo), que tende a apresentar déficits e diminuir a quantidade de poupança externa disponível para investimento e aplicação no país (o que cria problemas ao funcionamento “normal” da economia dependente). Segundo, o movimento de capitais para os EUA, ao encarecer o câmbio, eleva diretamente os preços de tudo aquilo que é comprado em moeda estrangera, gerando, assim, inflação. Este é o carma das economias dependentes, incluindo-se os países da América Latina.
Uma das formas de se impedir a fuga de capitais é através da elevação da taxa básica de juros, pois isto poderia fazer com que os aplicadores preferissem manter o dinheiro onde está mesmo com a elevação dos juros pelo Fed. Esta é a estratégia utilizada, sem sucesso, pelo presidente argentino Mauricio Macri, que nas últimas semanas elevou a taxa básica de juros do país para 40%, a maior do mundo. Seu objetivo era conter tanto a desvalorização de 8% do peso em uma semana (devido à fuga de capitais), quanto a inflação prevista em mais de 20% para 2018.
No Brasil, a Selic está em 6,5% desde o dia 22 de março, o que, teoricamente, daria grande margem de manobra ao Banco Central do Brasil para tentar conter a escalada do dólar (isto já foi feito em outras épocas). Soma-se a isso os US$ 381 bilhões que este banco tem em reservas prontas para qualquer intervenção (isto ainda não foi feito).
A questão que se apresenta, então é: isto será suficiente?
Não, pois no horizonte próximo (nem mesmo longínquo), não há sinais de que o Brasil irá superar sua condição de atraso e apresentar maior resistência frente a estes movimentos de capitais.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: lucasmilanez@gmail.com

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segunda-feira, 7 de maio de 2018

200 Anos do aniversário de Karl Marx




No último 5 de maio foi comemorado em várias partes do mundo o 200º aniversário de nascimento de Karl Marx. Não à toa este evento foi registrado em todos os continentes do planeta. Para além de um cientista que desnudou as leis e as mazelas fundamentais do capitalismo, ele, juntamente com Friedrich Engels, é o maior símbolo das lutas e conquistas da classe operária em todos os tempos. Esse é um dos seus legados.


Nós, do PROGEB, não poderíamos deixar esta data passar em branco. Por isso, em comemoração ao bicentenário de nascimento do pai da crítica da economia política, lançamos agora um curso online de introdução à Teoria Econômica Marxiana, ministrado pelo Professor Dr. Nelson Rosas Ribeiro. O público alvo deste curso é variado, desde pessoas com nível básico de educação a profissionais que buscam entender o funcionamento do Modo de Produção Capitalista. Este módulo está dividido em 12 aulas, disponibilizadas no Canal do PROGEB no Youtube, que vão da origem dos fundamentos do pensamento de Marx à transformação do dinheiro em capital.



Desde já agradecemos os comentários e sugestões. Além disso, quaisquer dúvidas podem ser apresentadas diretamente na seção de comentários nas páginas das respectivas aulas ou no Facebook do PROGEB.



Há braços.


ASSISTA AQUI
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quarta-feira, 2 de maio de 2018

Tem que manter isso, viu?


Semana de 23 a 29 de abril de 2018

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Corre a notícia que o governo fará um último esforço para resgatar a popularidade de Temer lançando, no início de maio, publicidade que fará alusão aos “dois anos que salvaram o Brasil”. Os marqueteiros “abusando” das suas competências usarão o bordão “Tem que manter isso, viu?”, que quase derrubou Temer, associado a uma versão positiva. Frases como: “A inflação está em 2,8%, tem que manter isso, viu?”, “Os juros caíram para 6,5%, tem que manter isso, viu?”, “Os empregos estão voltando, tem que manter isso, viu?”, serão repetidas como um mantra.
Inacreditável!
O presidente, que acha que salvou o Brasil, até agora foi incapaz de salvar a si mesmo. Se a sua popularidade e sua candidatura à presidência dependerem dos números acima citados, Temer está em péssimos lençóis, pois segundo pesquisa do próprio Planalto, os brasileiros não lhe atribuem os feitos questionáveis que ele propaga.
            No que diz respeito à inflação, a crise continua a jogá-la para baixo e a façanha que o governo diz ser dele, foi provocada pela conjuntura econômica de crise e pela safra agrícola recorde que barateou os preços dos alimentos.
Na tentativa de alavancar a economia, o Copom promoveu a queda dos juros, mas tal medida não se converteu em estímulos aos consumidores e empresas, pois o crédito continua caro. O estoque de crédito bancário, segundo o Banco Central, cresceu apenas 0,6% em março deste ano, quando comparado a fevereiro. E só agora os especialistas do Banco Central perceberam que a queda dos juros “não está surtindo efeitos em estimular a economia”, pois os juros bancários não estão acompanhando a queda da Selic. Um estudo da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) questiona o porquê dos altos níveis de spreads bancários no Brasil. O presidente da Febraban, Murilo Portugal, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, disse que os spreads elevados decorrem dos altos custos da intermediação financeira, ou seja, 77% do spread bancário são formados por custos. Os custos com inadimplência representam 55,7% desta fatia, enquanto que os  impostos são responsáveis por 15,6%. A Fiesp desmontou este argumento ao demonstrar que em outros mercados que apresentam taxas de calotes mais baixas, os spreads são menores que os nossos como é o caso de Itália, Irlanda, Portugal, Rússia e Espanha.
A razão para nós parece óbvia, mas grandes “esforços mentais” têm sido direcionados para entender o fenômeno. Ricardo de Menezes Barboza, economista da UFRJ, afirma com surpresa: “Tem alguma coisa no mercado de crédito que não está fluindo como o esperado (...) Tem algo acontecendo que não está derrubando o spread”.
Este blá, blá, blá todo encobre apenas uma verdade: os juros e spreads elevados decorrem da concentração bancária. Ponto. Os bancos não baixam os spreads porque não querem, pois os quatro maiores bancos do país respondem por quase 80% do crédito concedido. Baixa concorrência, juros altos, lucros altos. O Bradesco, por exemplo, registrou lucro líquido de R$ 5,1 bilhões no primeiro trimestre, alta de 4,9% em relação ao trimestre anterior e de 9,8% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado ficou acima do projetado pelos analistas, que também esperam aumento dos lucros do Banco do Brasil, Itaú Unibanco e Santander.
            Mas o governo Temer prenuncia: “Os empregos estão voltando, tem que manter isso viu?”. Dois dias depois do anúncio deste slogan, o IBGE divulgou os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). A taxa de desemprego subiu de 11,8% no último trimestre de 2017, para 13,1% no primeiro trimestre deste ano. O número de pessoas desocupadas cresceu de 12,3 milhões para 13,7 milhões. A indústria reduziu seus postos de trabalho em 2,7% (327 mil pessoas), a construção civil em 5,6% (ou 389 mil pessoas) e o comércio em 2,2% (396 mil pessoas).
Sem ter o que mostrar, o governo continua encurralado. De um lado, novas denúncias de corrupção ameaçam passar-lhe outra rasteira, e de outro, os “feitos” do grande herói da nação continuam a soar como uma grande ficção.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 25 de abril de 2018

A economia é a salvação


Semana de 16 a 22 de abril de 2018

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
É compreensível o desespero do presidente Temer em mostrar números positivos na economia. É a taboa de salvação para ele, para o seu parceiro Meirelles, o chefe da “equipe dos pesadelos”, e para o próprio MDB. As sondagens de opinião sobre seu governo não conseguem atingir 4% de aprovação. As sondagens eleitorais também o colocam nas últimas posições. As outras lideranças do partido encontram-se na fila das execuções dos tribunais. Resumindo, o MDB está entalado. Parece que ele só consegue tomar o poder através de golpes.
Os partidos da base ameaçam abandonar a canoa que faz água por todos os lados. Só os cargos e as verbas distribuídas ainda os mantêm agregados num abraço de afogados.
O sufoco para demonstrar a recuperação da economia obriga os arautos do governo a manobras de contorcionismo e os comentaristas amigos a procurar chifre em cabeça de cavalo.
Já comentamos nesta coluna que nos finais de 2017 a economia mostrava sinais de recuperação, ou seja, estávamos superando a fase cíclica de crise e entrando na fase seguinte que tecnicamente se chama de “reanimação” e que se costuma também chamar de recuperação. O problema é saber “qual recuperação”. Há várias maneiras de uma economia sair de uma crise. Costuma-se falar em saída em V, saída em U, saída em W, etc. O que o governo gostaria era de uma saída em V, ou seja, com rápido crescimento. Isto podemos garantir que não está ocorrendo e não ocorrerá. Nossa profecia é reforçada pela “equipe dos pesadelos” com sua louca política de austeridade e equilíbrio fiscal que não tem sido aplicada com o rigor desejado por causa das eleições, da corrupção e da compra da base de apoio para a aprovação das reformas impopulares. Recursos têm sido gastos também para livrar a cara de um presidente corrupto impedindo o prosseguimento das investigações. É preciso lembrar ainda a alta remuneração que deve ser garantida aos especuladores financeiros através dos elevados juros.
Os dados econômicos que, em conta-gotas, continuam a ser divulgados tiram o rebolado dos sardenbergs e leitões da vida e os deixam em dificuldades. Vejamos alguns exemplos
O Banco Central (BC) divulgou o seu Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) para o mês de fevereiro. Este índice é um indicador antecedente do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Para fevereiro, em relação a março, o IBC-Br mostrou um crescimento de 0,09%, ou seja, não chegou sequer a 0,1%. Com isto, as consultorias começaram a rever para baixo suas estimativas para o ano de 2018. Na média, as estimativas, que rondavam os 3%, caíram agora para 2,5%. A.C. Pastore & Associados, consultoria do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, reduziu a sua previsão de 3% para 2,2%, lamentando que o cenário benigno do começo do ano não se confirmou. O consumo das famílias caiu, o emprego degradou-se com o trabalho por conta própria e sem carteira assinada, as taxas de juros continuaram altas e o investimento privado estagnado.
Segundo os cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Tendência Consultoria o Indicador Mensal da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) mostra uma desaceleração dos investimentos em fevereiro em relação a janeiro provocada pela estagnação da construção civil.
Por outro lado, mesmo com lento processo de recuperação, as desigualdades sociais continuaram a aumentar, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE. Os 10% mais ricos ganharam 43,3% da riqueza enquanto os 10% mais pobres ficaram com apenas 0,7%. Assim, 12,4 milhões de pessoas ganharam tanto quanto 99,6 milhões. O número de pessoas em extrema pobreza aumentou de 13,34 milhões para 14,83 milhões, um aumento de 11,2%. Em um ano, mais 1,49 milhão de pessoas mergulharam na miséria. O desemprego, que atingiu seu máximo no primeiro trimestre de 2017 com 13 milhões de pessoas, caiu, mas graças a criação de emprego informal. Juntando-se a isso a perda dos rendimentos com a redução dos programas sociais, a situação agravou-se muito.
Estas são as razões do desespero do presidente.


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 18 de abril de 2018

O agro que deseja ser “pop”, “tudo” e “tech” não nos salvará


Semana de 09 a 15 de abril de 2018

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Enquanto o estandarte do bloco “Sanatório Geral” está passando, os novos números da atividade econômica corroboram a nossa visão de que a recuperação econômica é lenta e ainda incerta. Segundo o IBGE, as vendas, em fevereiro, do varejo restrito recuaram 0,2% e as do varejo ampliado caíram 0,1%, quando comparadas a janeiro. O resultado foi um banho de água fria nas projeções das consultorias divulgadas pelo Jornal Valor Econômico. Esperava-se aumento de 0,6% e 0,5% respectivamente. Por esta razão, as instituições pesquisadas baixaram a projeção do PIB do primeiro trimestre de 0,3% para 0,1%.
O mercado financeiro, a partir de apuração do Boletim Focus, reduziu suas projeções para o PIB em 2018 de 2,84% para 2,8%. O Banco Central, contrariando o seu Relatório Trimestral de Inflação divulgado em março, continuou a projetar alta do PIB deste ano em 3,6%. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi mais contida e espera crescimento de 2,6% para o PIB.
A atividade industrial continua a patinar. A indústria têxtil e de confecções, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e o Sinditêxtil-SP pode apresentar nova queda este ano. O aumento de 27,9% nas importações, no primeiro trimestre, figura como o maior empecilho do setor. De acordo com o IBGE, a produção de artigos de vestuário e acessórios caiu 7,5% nos dois primeiros meses do ano e o varejo de vestuário cresceu apenas 0,2%, no mês de janeiro.
A deflação dos alimentos e a grande ociosidade da economia têm provocado quedas consecutivas da inflação. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março subiu apenas 0,09% e ficou abaixo do esperado, segundo o IBGE.
A letargia continua. Ao analisar os microdados da PNAD Contínua, a LCA Consultores comprovou que a taxa de desocupação estacionou em 12,4%, desde o último trimestre de 2017. Como a ocupação está concentrada nos trabalhos por conta própria e sem carteira assinada, a capacidade de demanda da população foi reduzida. Além disso, a LCA Consultores também constatou que a pobreza extrema aumentou em 2017. O número de pessoas nessa situação subiu de 13,34 milhões em 2016 para 14,83 milhões no ano passado, uma alta de 11,2%.
            Embora os números demonstrem a fraqueza da nossa retomada, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) estranha a queda do Índice de Confiança Empresarial e do Índice de Confiança do Consumidor. O alto desemprego, o aumento da inadimplência e a incerteza política têm condicionado a queda destes índices.
O novo ministro do Planejamento, Esteves Colnago, enterrou qualquer disposição do governo em estimular a economia: “Nos próximos três anos, o setor público não vai poder ser o motor de desenvolvimento. Ele vai precisar que a iniciativa privada faça isso.” E se depender da nova Secretária-Executiva do Ministério da Fazenda, Ana Paula Vescovi, nomeada pelo novo ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, o ditado se cumprirá. Ela apresentou como prioridades do ministério, a “disciplina fiscal, o fortalecimento do mercado de capitais e de investimentos e o desenvolvimento e promoção de uma agenda de produtividade e eficiência”. Como sabemos que estes objetivos são excludentes, nada de crescimento econômico.
Espera-se então, que da agropecuária venha a salvação. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) acabou de elevar em 1,5% a estimativa para a produção de grãos e fibras, na safra 2017/18. A colheita de grãos deve alcançar 229,53 milhões de toneladas. Este volume embora alto é 3,4% inferior ao recorde da safra 2016/17. Se a safra recorde do ano passado atenuou a desaceleração e produziu pífio crescimento de 1%, duvida-se que este ano o feito se repita com uma safra menor.
Portanto, o agro não é “tudo”, o agro não é “tech” e agro não é “pop” e, mesmo que o fosse, jamais teria a capacidade de levar a economia do país nas costas.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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