quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Além do fundo do poço

Semana de 11 a 17 de setembro de 2017

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
As tendências de evolução da economia, que temos apontado nas últimas análises, continuam se mantendo. Tudo indica que ultrapassamos o fundo do poço e foi iniciada uma recuperação lenta e penosa. Se a “equipe dos pesadelos” comandada pelo banqueiro Henrique Meirelles não atrapalhar com sua política econômica de austeridade o processo, embora contraditório, deve manter-se.
Os dados confirmam nossas observações. Em nove meses as montadoras criaram quatro mil vagas. A fábrica da General Motors (GM), em Gravataí (RS), pretende criar mais 700 empregos e a MAN (RJ), 300. Com os novos empregos a GM iniciará o 3º turno, passando a operar 24 horas. Na indústria automobilista como um todo, os trabalhadores em layoff e no Programa Seguro Desemprego foram reduzidos à metade, caindo de 12,2 mil, para 6,3 mil, entre julho e agosto.
O Sindipeças, sindicado dos Produtores de Autopeças, está revendo suas estimativas de crescimento neste ano, de 10% para 20%. A ociosidade, que era de 50%, caiu para 34% no início do semestre.
O Conselho de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central (BC), na ata da reunião em que reduziu a taxa Selic para 8,25%, assinalou que “já são perceptíveis os primeiros sinais dessa recuperação”. O IBC-Br, Índice antecedente do BC, que é uma estimativa do PIB, apontou, em julho, um crescimento de 0,41%. O BC corrigiu a estimativa de junho, de 0,50% para 0,55%. Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre-FGV reconheceu que “O PIB está vindo com velocidade um pouco mais forte do que estávamos esperando”. A FGV estima, para 2017, um crescimento do PIB de 0,7%.
Estes dados positivos têm como base o estímulo da agroindústria graças à safra recorde de grãos. As exportações subiram 18,5%, em agosto, em relação a agosto de 2016 e as importações caíram 4% aumentando o saldo da balança comercial.
Outro indicador antecedente, as vendas de papelão, subiram 8,05%, em agosto, em relação ao mesmo mês de 2016 e 7,66% em relação a julho deste ano. Os números não são muito significativos, pois, ao ser feito o ajuste sazonal, os 7,66% caem para 0,61%, e mesmo este número pode significar recomposição de estoques, de acordo com Jairo Lorezatto, diretor da Rigesa, um dos maiores produtores do setor.
Outro dado desalentador é o recuo dos serviços. O volume caiu 0,8%, em julho sobre junho, e 3,2% em relação ao mesmo mês de 2016. E isto graças ao consumo das famílias, pois em relação às empresas os serviços de informação caíram -0,8%, os profissionais e administrativos -2% e os de transportes -0,9%.
Mais um dado negativo é fornecido pela FGV. O indicador de intenção de investimento da indústria elaborado pela entidade caiu 2,8 pontos, no terceiro trimestre, em relação ao segundo. Cerca de 63% das empresas preveem a estabilidade dos investimentos. Ainda no campo negativo, o número de famílias endividadas em São Paulo cresceu 2,8% chegando a 53,4% do total, segundo a Federal do Comércio de Bens e Serviços do Estado de São Paulo (Fecomercio SP).
Estes dados mostram a delicadeza e debilidade da recuperação. Apesar disso são suficientes para o presidente Temer, tentando driblar as denúncias de corrupção que o atingem, trombetear pelos quatro cantos o sucesso de sua administração. E descaradamente acrescentar como obra do seu governo a queda dos juros (ação do BC) e da inflação e até a super safra agrícola (resultado das condições climáticas favoráveis), bem como os saldos da balança comercial (resultado do comércio mundial). Claro que a reversão do ciclo econômico que estamos vivendo, e é resultado das leis objetivas da economia, é atribuída às medidas tomadas pelo seu corrupto ministério. Mais corrupto que na semana passada diante da denúncia do ministro da agricultura Blairo Maggi em consequência da delação do ex-governador de Mato Grosso Silval Barbosa, também do PMDB.
O próprio presidente Temer foi atingido por uma nova denúncia durante a semana e certamente pegará na caneta e no cofre para conseguir o seu engavetamento pela Câmara.
É isso que nos espera além do fundo do poço.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A Criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social


Semana de 04 a 10 de setembro de 2017

Antonio Carneiro de Almeida Júnior [i]

           
Criado em 1952, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, como o próprio nome já indica, surgiu com o propósito de acelerar o processo de desenvolvimento da economia brasileira. Acelerar o desenvolvimento, por sua vez, necessariamente implica ir além das possibilidades criadas pelo mercado, ou seja, criar condições mais favoráveis para a acumulação do capital nacional do que as que se criariam espontaneamente, pela livre iniciativa. Medidas recentes tomadas pelo governo Temer, contudo, atuarão no sentido de privar o banco do seu objetivo fundamental. A instituição certamente permanecerá nacional, mas dificilmente conseguirá promover o desenvolvimento.
A primeira dessas medidas, que entrará em vigor em janeiro de 2018, foi a extinção da Taxa de Juros de Longo Prazo, TJLP (atual taxa de referência para os empréstimos concedidos pelo banco), para substituí-la pela TLP, a Taxa de Longo Prazo.
Definida trimestralmente pelo Conselho Monetário Nacional, CMN, a TJLP era calculada através da adição de um pequeno prêmio de risco à inflação do período. Com isso, o BNDES oferecia ao capital nacional uma fonte de financiamento bem mais barata do que a que poderia ser oferecida pelo mercado. Certamente que, para fazê-lo, o Estado brasileiro desembolsava recursos, mas é o que se espera na realização de políticas promotoras do desenvolvimento. Já a TLP, deve partir do patamar atual da TJLP, convergindo para uma nova taxa. Essa nova taxa será calculada somando-se a remuneração da Nota do Tesouro Nacional Série B de cinco anos, NTN-B 5 anos, à inflação do período. Com isso as condições de oferta de crédito do banco serão colocadas num patamar muito semelhante ao dos bancos privados, fazendo com que sua ação, do ponto de vista da aceleração do desenvolvimento, seja basicamente inócua.
Para Júlio Gomes de Almeida, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultor do Instituto para o Desenvolvimento Industrial, Iedi, com a TLP “o BNDES tende à extinção”. Já Sérgio Lazzarini, professor do Insper, acredita que a instituição mudará seu perfil, deixando de ser uma instituição financiadora de projetos, para “passar a operar com mecanismos de garantias de crédito”.
Para agravar a situação, o governo vem utilizando o caixa da instituição para cobrir o enorme déficit do setor público. Nos próximos meses, por exemplo, o BNDES deverá realizar uma devolução antecipada ao Tesouro que poderá chegar a R$130 bilhões, estando atualmente com um caixa de ordem de R$176 bilhões, de acordo com o seu balanço financeiro. Descapitalizado, o banco vem perdendo participação no financiamento da Formação Bruta de Capital Fixo, FBCF, da economia brasileira. Nos quatro trimestres encerrados em junho, essa participação caiu ao menor nível desde 2004, ficando em 5,5% do total da FBCF, um número muito baixo se comparado ao pico da instituição, que ocorreu em 2009 e alcançou uma participação de 18%. Esse espaço deixado pelo BNDES, por sua vez, foi ocupado pelo capital estrangeiro. Esses capitais, que respondiam por 11,3% dos financiamentos da FBCF, em 2009, passaram a realizar 29,1% desses financiamentos nos quatro trimestres encerrados em junho.
Enquanto essas medidas vão sendo tomadas, a recuperação econômica do país permanece incerta. Após crescer 1% no primeiro trimestre desse ano, o Brasil cresceu apenas 0,3% no segundo. É oportuno destacar que tal crescimento no segundo semestre só foi possível graças à elevação do consumo das famílias, que contaram com o estímulo de R$44 bilhões em saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, FGTS, fato que não se repetirá na mesma escala. Nessa conjuntura de recuperação econômica errática, o enfraquecimento do BNDES representará a retirada de um dos catalisadores do crescimento fato que, certamente, não deixará de cobrar o seu pedágio e poderá retardar a retomada da economia. Todos sabem que a decisão de investir só é tomada pelos empresários se há boas expectativas de lucro no horizonte.


[i] Professor Substituto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).
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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O magro PIB do segundo trimestre


Semana de 28 de agosto a 03 de setembro de 2017

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, na última sexta-feira, 1º de setembro, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgou o resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre. O indicador cresceu 0,2% no segundo trimestre do ano, quando comparado ao primeiro trimestre deste ano, e 0,3% quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Em nota à imprensa, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, festejou o resultado, já que havia declarado que esperava uma queda trimestral.
Mas, há alguns pontos relacionados ao resultado do PIB do segundo trimestre que devemos considerar.
Primeiro, após dois anos consecutivos de queda, este é o segundo resultado positivo do PIB, pois no primeiro trimestre, o indicador cresceu 1% em virtude da safra recorde na agricultura. A coordenadora do estudo foi muito mais comedida do que a equipe econômica ao comentar os resultados. Segundo Rebeca Palis, do IBGE, ainda não é possível afirmar que a economia brasileira está em recuperação. Afinal, o crescimento é sempre bem vindo, mas um crescimento de 1% no primeiro trimestre que se reduz para 0,2% no segundo trimestre significa decrescer!
Segundo, mais importante que o número fechado, é a desagregação deste. Por setores, o resultado se apresentou assim: a agropecuária cresceu 0%, a indústria teve queda de 0,5% e os serviços cresceram 0,6%. O efeito da safra recorde na agricultura foi dissipado. Restaurado o “padrão normal”, a indústria continua apresentando quedas e pressionando o resultado para baixo. Tal constatação é reforçada pela Formação Bruta de Capital Fixo que caiu 6,5%, pela 13ª vez consecutiva e a taxa de investimento que continua baixa, em 15,5% do PIB.
Terceiro, com este resultado, o PIB fecha o primeiro semestre do ano nulo se comparado ao mesmo semestre do ano anterior e, no acumulado nos quatro últimos trimestres do ano, comparados aos quatro trimestres imediatamente anteriores, o PIB foi negativo em 1,4%.
E, por último, segundo o IBGE, se não fosse o crescimento do consumo das famílias de 0% para 1,4% entre os trimestres, não haveria crescimento. Justamente o indicador condenado pela atual equipe econômica ao bombardear a gestão de Dilma Roussef por apostar no crescimento pelo consumo.
Segundo Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, só restou o mea culpa. Disse ele, que, ao contrário do previsto, a retomada da atividade não está ocorrendo pelo investimento e sim pelo consumo. De parte do ministro Henrique Meirelles, nenhuma modéstia. Em sua nota à imprensa, após sair o resultado do PIB, ele reforçou: “As medidas que adotamos para recolocar o Brasil no caminho do crescimento sustentável começam a mostrar seus efeitos. (...)” E se apressou em prometer: “Esta retomada da atividade irá se fortalecer nos próximos meses. Entraremos em 2018 num ritmo forte e constante. Continuaremos a trabalhar para garantir que essa expansão seja longa e duradoura, gerando emprego e renda para os brasileiros”.
O ministro contraria o próprio órgão oficial de pesquisa e fala em retomada da atividade. Infelizmente para a equipe econômica, os primeiros números divulgados para o terceiro trimestre não são promissores. E 2018 com ritmo forte e constante parece cada vez mais distante. Embora o desemprego tenha caído entre junho e julho, de 13% para 12,8%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), foi por meio do avanço das ocupações precárias. De 1,4 milhão de vagas criadas, 819 mil representaram empregos sem carteira assinada e trabalho por conta própria. Outro fato que pode reverter a alta do consumo reside na queda da confiança do comércio e também do consumidor, em agosto, apuradas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Além disso, segundo levantamento encomendado pelo Jornal Valor Econômico, o fôlego através do consumo pode ser abortado, pois em 15,2 milhões de domicílios no Brasil, ninguém trabalha, ou seja, em um a cada cinco lares, não há residentes ocupados.
Mais uma vez, nada a comemorar...


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br
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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Recuperação lenta e privatização acelerada


Semana de 21 a 27 de agosto de 2017

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Parece haver um acordo geral sobre a retomada do crescimento na economia do país. Os órgãos oficiais afirmam isto, a imprensa esbraveja alto, os porta vozes do governo gritam. Todos querem convencer as pessoas que a retomada começou. Isto faz parte da ideologia dominante entre os economistas e a famosa “equipe dos pesadelos” comandada pelo banqueiro Meirelles. Para eles a recuperação começa quando os agentes econômicos criam “expectativas” positivas sobre o futuro.
A ideologia vai mais longe. Para criar boas “expectativas” é preciso que o governo tenha “credibilidade”. Para ter “credibilidade” é preciso a austeridade fiscal para o equilíbrio das contas públicas, as reformas trabalhista e da previdência, etc. Em relação ao pagamento dos juros da dívida, aos subsídios para as empresas, ao perdão das dívidas dos empresários trambiqueiros e dos ruralistas, nada se fala. Ou seja: austeridade para os trabalhadores, que devem pagar a conta. Eis o governo Temer
Em defesa deste governo juntam-se todos: banqueiros, empresários, políticos do PSDB, PMDB e centrão. Corruptos e corruptores irmanados em torno de um programa de classe, da classe empresarial, da burguesia. E agora é o vale tudo sem ética ou moral.
Para citar mais um exemplo, a cada dia são divulgados os dados sobre o preço da compra dos deputados para engavetar o processo contra o presidente da mala. Carlos Ritti, secretário executivo do Observatório do Clima, calcula que a bancada ruralista levou entre R$28 bilhões e R$32 bilhões para votar pelo engavetamento. Estes valores correspondem à regularização de terras griladas na Amazônia com a Lei 13465, com a Medida Provisória do Funrural, que reduziu a contribuição patronal de 2,1% para 1,3%, e mais R$715 milhões para emendas parlamentares.
Triste espetáculo!
Enquanto o governo se desmoraliza interna e internacionalmente a economia tende a estabilizar-se no fundo do poço. Tudo parece indicar que paramos de afundar. No entanto, concordamos com a opinião geral que a recuperação vai ser lenta e sofrida. Os dados mostram isso.
Claudio Considera, coordenador do Monitor do PIB-FGV, indicador antecedente do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado pela Fundação Getúlio Vargas, apesar de chamar de “falso negativo”, teve de engolir a queda de 0,24% que este indicador apontou para o PIB, no segundo trimestre, em relação ao primeiro. E apressou-se em afirmar que a expectativa para os próximos trimestres é positiva embora reconheça que, segundo os dados apurados, o crescimento dos transportes foi 0,96%, o do comércio, 1,05%, mas o agropecuário caiu -4,63% e a indústria, -0,27% e a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), em base anual, caiu -5.1%. O IBC-Br, indicador antecedente do Banco Central (BC) para o PIB, mostrou um dado mais positivo para o mês de junho: um crescimento do PIB de 0,5% e um acumulado de 0,25% para o segundo trimestre. Segundo o jornal Valor Econômico a “recuperação é dada como certa”, mas “ninguém espera uma arrancada”.
Alguns dados fazem aumentar as dúvidas. O Sindicado da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo revisou suas previsões para o setor de crescimento de 0,5% para queda de 3,5% no ano. Outro dado específico é sobre a atitude dos bancos. Apesar da queda da Selic, os juros bancários voltaram a subir, de 28,8%, para 29%, entre junho e julho. Para as empresas, as taxas subiram de 24,8% para 25,3%. Além disso, os empréstimos para pessoas jurídicas caíram 23,3%, no mesmo período. O pior é que os bancos criam dificuldades principalmente para o financiamento das grandes empresas, pois o índice de inadimplência delas passou de 0,38%, em fins de 2014, para 1,09%, em 2015, três vezes maior. Outro dado preocupante é o número de recuperações judiciais que, desde 2015 até agora chegou a 4.000.
Curiosa esta recuperação em que os grandes não merecem confiança.
Por seu lado, vendo cair a receita. O governo resolveu vender tudo que for possível. Como um vulgar mascate, vai tentar encontrar compradores para o que ainda pode ser vendido. Além do petróleo, aeroporto, estradas, ferrovias, portos, entram no leilão, agora, as elétricas, represas e até a casa da moeda.
O país está a venda. Quem dá mais?


[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O Governo Temer e o Esforço Fiscal Seletivo


Semana de 14 a 20 de agosto de 2017

Antonio Carneiro de Almeida Júnior [i]

           
Como se tem divulgado nas nossas análises, desde o início da crise política que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o atual presidente Michel Temer e a sua equipe econômica, encabeçada pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles, têm defendido a necessidade de reverter o processo de deterioração fiscal pelo qual passa o Estado brasileiro, para que a consequente elevação das expectativas dos empresários resulte numa retomada do crescimento econômico. Com esse argumento, têm tentado convencer toda a população de que todos devem arcar com sua cota de sacrifício em prol do país. Este governo, no entanto, não só vem realizando o ajuste fiscal de forma insatisfatória, como demonstra claramente sua intenção de concentrar o sacrifício sobre a grande massa da população trabalhadora, enquanto “passa a mão na cabeça” da classe dos empresários.
Recentemente, o governo abandonou as metas fiscais estabelecidas para 2017 e 2018, que eram de R$139 bilhões e R$129 bilhões, respectivamente, elevando ambas para R$159 bilhões. Com isso, divulgou na terça-feira (15/08) uma nova previsão para a trajetória da dívida bruta, que sairá dos 75,7% do PIB previstos para esse ano, para 78,7%, em 2018, e 80,6%, em 2019. Isso representa uma deterioração de R$200 bilhões, ou 2,6% do PIB, para o déficit primário (receitas menos despesas, das quais está excluído o serviço da dívida) entre 2017 e 2020. Disto poderia se derivar a conclusão de que o governo e os demais parlamentares estariam alarmados com a situação e, por isso, querem restringir qualquer medida que venha a aumentar a degradação da situação fiscal. Mas não é bem por aí.
Com a Medida Provisória 783, batizada de Novo Refis, que atualmente está em tramitação no Congresso, o governo pode abrir mão de uma receita de R$543,3 bilhões em um período de três anos, de acordo com reportagem divulgada pelo El País no supracitado dia 15. Tudo isso porque a medida, na sua atual formatação, perdoará de 85% a 99% dos juros e multas a serem recebidos de empresas que devem à União. Ao invés de cobrar esse elevado valor a empresários para, com a elevação das receitas, contribuir para o equilíbrio das contas, o governo decidiu centrar no corte de despesas. No pacote de medidas anunciado, prevê um corte de R$7,9 bilhões nas despesas de 2018, dos quais R$5,1 bilhões se referem ao adiamento por um ano de reajustes salariais de funcionários públicos federais que já haviam sido programados para o referido ano.
Outra solução proposta para retirar a economia da crise, essa já implementada, foi a reforma trabalhista aprovada em julho desse ano, a qual já apresenta resultados. Após a criação da possibilidade de terceirização de atividade fim e do aumento do período de contratação de funcionários temporários permitido por lei, empresas como o grupo italiano GI Group, que oferecem serviços de gestão de funcionários temporários e terceirizados, estão ampliando seus negócios no Brasil. No referido grupo, por exemplo, a divisão de gestão de trabalhadores temporários cresceu 40% e, desde abril desse ano, o número desse tipo de trabalhador na folha do grupo cresceu 55%. Reformas como esta sem dúvida não só facilitam a retomada do crescimento econômico após uma crise, como também amplificam a possibilidade de elevação de atividade num período de efervescência da economia. Contudo, é necessário chamar atenção para o fato de que, com isso, todos os prejuízos decorrentes de excesso de força de trabalho em períodos de crise cairão exclusivamente sobre os trabalhadores brasileiros em situação de subemprego, privados de uma série de direitos trabalhistas na nova legislação, ao passo que as benesses de períodos de expansão são quase que totalmente apropriadas pelos empresários, que contratarão sem assumir qualquer risco (pagamento de direitos trabalhistas) em caso de excederem os limites do mercado, ao mesmo tempo em que os trabalhadores, no máximo, conseguirão uma vaga de emprego por alguns meses.
Em resumo, portanto, é necessário fazer esforço para sair da crise, mas, na leitura do governo Temer, essa é uma tarefa exclusiva dos pobres e explorados do país, enquanto empresários caloteiros são afagados e presenteados mesmo em períodos tão difíceis quanto o atual.


[i] Professor Substituto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nada mudou


Semana de 07 a 13 de agosto de 2017

Rosângela Palhano Ramalho [i]

A conjuntura econômica brasileira continua a dar sinais dúbios. Em junho, por exemplo, a produção industrial brasileira ficou estável, após ter crescido 1,3% em abril e 1,2% em maio. No primeiro semestre do ano, o setor cresceu 0,5% quando comparado ao primeiro semestre de 2016, segundo informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A demanda externa e a safra recorde na agricultura tem sustentado o cenário de estabilidade. O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) apurou queda de 3,1% no Indicador de Consumo Aparente da Indústria (Produção interna acrescida das importações e subtraída das exportações) nos 12 meses terminados em junho. Este resultado derivou da redução de 1,9% da produção industrial, do aumento de 2,1% das exportações e de 0,9% das importações.
Embora a indústria tenha apresentado resultado positivo para o emprego, com a criação de 35,9 mil vagas em julho, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a construção civil continua a desempregar. O emprego no setor caiu 0,39% em julho, o que corresponde ao fechamento de 9.675 vagas. O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) apurou que as regiões Sul, Nordeste e Sudeste apresentaram quedas no emprego e segundo a instituição, não há perspectivas de retomada, pois, as obras de infraestrutura no país continuam paralisadas e o desemprego compromete a construção de residências.
Outro fator preocupante em relação à indústria brasileira é a persistência da alta ociosidade. A oscilação dos estoques tem sido uma constante e o nível de utilização da capacidade instalada calculado pela Fundação Getulio Vargas fechou em 74,7% no mês de julho. A redução dos estoques em virtude do aumento das exportações foi apenas momentânea. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) compartilha a ideia de que, com estas constantes oscilações, não há retomada sólida. Em sondagem, a CNI detectou que as intenções de investimentos ainda continuam apresentando índice abaixo de 50 pontos, o que acontece desde o início de 2015. Segundo dados fornecidos pelas Associações Nacionais dos Produtores, o setor de calçados, apresenta nível de utilização da capacidade instalada em torno de 72%, o de alimentos, índice de 67%, o setor de eletroeletrônicos opera com 71% da capacidade, o de máquinas e equipamentos tem 70%, na produção de automóveis a utilização média da capacidade é de 55% e no setor de plásticos, 67% de uso da capacidade.
Por outro lado, como reflexo da crise, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) aumentou apenas 0,24% em julho. Desde o início do ano o índice acumula taxa de 1,43%, já em 12 meses a inflação fechou em 2,71%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os gastos com habitação tiveram alta de 1,64% e os gastos com transporte cresceram 0,34%, mas as menores despesas com alimentação contribuíram com uma deflação de 0,47% em julho.
A equipe econômica continua a dar declarações alimentando o discurso de que tudo está indo bem e que para ser melhor, é necessário aprovar as reformas. Como benesse, o governo resolveu injetar R$ 7 bilhões na economia nacional ao anunciar a divisão, entre os trabalhadores, do lucro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Esse valor é correspondente à metade do lucro do FGTS obtido em 2016.
Mas, enquanto logra o povo com o discurso de que é necessário ter responsabilidade fiscal, o governo não se fez de rogado ao “negociar” os votos para barrar a denúncia contra o presidente Temer no Supremo Tribunal Federal. Segundo levantamento do jornal Valor Econômico, os 263 votos favoráveis ao arquivamento do processo custaram ao povo R$ 13,4 bilhões, entre emendas parlamentares e outros favores, como o perdão de dívidas ao setor ruralista. Uma bagatela de R$ 51 milhões por deputado.
Enquanto isso, o governo já assumiu que foi incapaz de cumprir a “meta de rombo fiscal” de R$ 139 bilhões estipulada para este ano e já mudou para um rombo de R$ 159 bilhões para 2017 e 2018. O governo do “faça o que eu digo, mas não o que eu faço”, mais uma vez, mostra que nada mudou.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Lista de exercícios Economia Política 1



Segue abaixo as listas de exercícios para a disciplina de Economia Política 1. Clicar na lista para ter acesso.

Professora Rosângela Palhano:

  1. Lista para primeira prova.
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