sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O desencontro entre realidade e confiança continua

Semana de 06 a 12 de fevereiro de 2017

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Enquanto assistimos, estupefatos, as manobras do governo e do Congresso Nacional, capitaneando a indicação de Alexandre de Moraes como Ministro do Supremo Tribunal Federal e blindando, com status de ministro, Moreira Franco, citadíssimo nas apurações da Operação Lava Jato, continuamos à espera de uma reação da nossa economia. Entretanto, poucas são as boas novas trazidas pela conjuntura econômica.
A queda da inflação e a redução dos juros deixaram os empresários e consumidores confiantes no início do ano. O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) apurou melhora no Índice de Confiança Empresarial (ICE) que agrega os setores de serviços, indústria, construção civil e comércio que subiu para 82,3 entre dezembro e janeiro, alta de 3,8 pontos. Já o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu de 73,1 pontos para 79,3 pontos no mesmo período. Apesar disso, ambos os índices continuam no campo negativo.
Mas, os poucos resultados divulgados para janeiro não evidenciam o esperado encontro entre a melhora da confiança e a recuperação da atividade econômica. Embora tenha ocorrido uma melhora do Nível de Utilização da Capacidade Instalada apurado pela FGV, que aumentou de 72,9% para 74,6%, em janeiro, a alta da produção industrial de 2,3%, observada em dezembro, não deve se repetir no começo do ano, segundo os analistas.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, Fernando Pimentel, disse que os resultados de janeiro para o setor são “contraditórios”. As vendas do Natal não foram boas e a produção do setor têxtil e de confecção certamente crescerá muito pouco no primeiro trimestre em relação a igual período de 2016.
O movimento no comércio paulista, segundo a Associação Comercial de São Paulo, caiu 5% em janeiro confrontado a janeiro de 2016.
Já os pedidos de recuperação judicial caíram 43,4% em janeiro em comparação com dezembro. Este, embora pareça um dado animador, reforça a tese dos analistas de que as empresas estão apenas adiando o pedido em virtude do corte recente da taxa de juros.
Mas, é no setor automobilístico onde reside toda a preocupação. O licenciamento de veículos (automóveis, comerciais leves, motocicletas, caminhões e ônibus) apurado pela Fenabrave, caiu 3,2% em janeiro, comparado a dezembro.
A indústria automobilística produziu, em janeiro, 174 mil veículos, voltando aos níveis de agosto, setembro e outubro de 2016. E as vendas de janeiro representaram uma queda de 5,2%, comparadas a janeiro de 2016. O número de trabalhadores afastados no setor passou de 7,4 mil em dezembro, para 10,3 mil em janeiro. Do total de 104,2 mil trabalhadores, 1,6 mil estão em “layoff” e outros 8,6 mil estão no Programa Seguro Desemprego.
Houve também queda de 33,3% na venda de caminhões, comparado a janeiro de 2016. Este foi o pior janeiro para o setor desde 1997.
Com a quebra no ritmo de vendas, a Ford comunicou que dará um período de férias coletivas e de folgas na fábrica de São Bernardo do Campo em São Paulo, por 26 dias após o Carnaval. A General Motors, que já havia anunciado a parada neste período, na fábrica de São José dos Campos, anunciou folga por um mês na fábrica de São Caetano do Sul também em São Paulo. A decisão da Volkswagen é a mesma.
Os fornecedores da indústria, por sua vez, reclamam que não há novas encomendas, um sinal de que nos próximos meses, a produção deverá voltar aos níveis de outubro do ano passado.
Os números não mentem. A melhoria da confiança foi registrada, mas confiança e realidade continuam separadas por uma distância abissal.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O governo Temer em apuros

Semana de 30 de janeiro a 05 de fevereiro de 2017

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
Os acontecimentos políticos atropelaram a economia. Continuamos a assistir o assalto do PMDB ao poder, em aliança com o PSDB. Já não há nenhuma vergonha. No congresso foi estabelecida a paz com Rodrigo Maia (DEM) na presidência da Câmara e Eunício Oliveira (PMDB) na presidência do Senado, coadjuvado pelo corrupto cassado Cunha Lima (PSDB), na vice. Um novo ministro para o STF também já foi indicado: Alexandre de Moraes (PSDB), antigo ministro da justiça. São todos íntimos colaboradores do presidente Temer, que continuou na ofensiva. Contrariando o que prometeu, criou mais dois ministérios: o da Secretaria Geral, entregue ao Moreira Franco, ameaçado pela Lava-jato, e agora blindado com o foro privilegiado, atitude condenada no caso da nomeação de Lula, no governo Dilma. O outro ministério criado foi o dos Direitos Humanos, doado ao PSDB, com a jurista Luislinda Valois. A indicação do Moreira Franco para ministro já está provocando várias ações de impugnação na Justiça. A situação política fica, nessas circunstâncias, muito longe de qualquer estabilidade. Se a Lava-jato não for enterrada corremos o risco de ficar, de uma hora para outra, sem o presidente da República e sem os presidentes das duas casas legislativas.
O cenário político roubou as atenções e as notícias econômicas ficaram em segundo plano. Passaram despercebidos certos aspectos do déficit fiscal primário de 2016. Foi o maior rombo da história: R$154,255 bilhões. E o Henrique Meirelles teve o descaramento de contar vantagem, pois ficou abaixo dos R$170,5 bilhões que eles haviam previsto. Claro que a culpa foi colocada na “herança maldita” e no “rombo da previdência”. Esconderam que houve um aumento real dos gastos que cresceram 11,2%, comparados com 2015. O austero governo Temer aumentou as despesas em relação ao PIB e a taxa atingiu o valor mais elevado da história.
Apesar de toda a gastança a situação da economia não se apresentou promissora.
Nos bastidores continua a pressão para fazer crer que a recuperação já começou. O desespero aumenta na grande imprensa capitaneada pela Globo, mas se reflete até em órgãos de alguma credibilidade. A teoria das “expectativas” continua em voga e os mais realistas lamentam timidamente que elas não conseguem influenciar a realidade. Alguns indicadores melhoraram, apesar de continuarem no campo negativo. É o caso do Índice de Confiança Empresarial (ICE) e o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), ambos calculados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV). No entanto os dados da economia não são animadores. O licenciamento de veículos (dados da Fenabrave) recuou 3,2%, em janeiro, sobre dezembro, segundo cálculos da MCM Consultores. As vendas de veículos, em janeiro, foram as mais baixas dos últimos 11 anos. Em relação a 2016 houve uma queda de 5,18%. O setor produtor de veículos de carga trabalhou com 75% de ociosidade e o de carros com 50%. Segundo a consultoria Markitt, no setor industrial, o Índice de Gerentes de Compras (PMI) atingiu o menor nível em sete meses.
A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) apurou que o movimento das lojas na cidade, em janeiro, comparado a 2016, caiu 3,8%, nas compras a prazo, e 6,2% nas compras à vista. Para a entidade, o primeiro trimestre será de retração. Para Aloísio Campelo, superintendente de estatísticas públicas do Ibre-FGV não é possível afirmar que a economia já saiu da recessão.
Preocupado, o presidente da Ford para a América do Sul, Rogelio Golfarb, declarou: “É preciso olhar os números friamente e tirar um pouco das ilusões provocadas pela bolha do fim do ano”.
Concluindo, as notícias da semana nos permitem afirmar que nem de longe a situação política estabilizou-se e a economia continua no fundo do poço. O ano promete ser muito rico em acontecimentos.
Quem viver verá.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

À espera...

Semana de 23 a 29 de janeiro de 2017

Rosângela Palhano Ramalho [i]

O mundo está em polvorosa com as decisões do novo governo norte-americano. Parece que Donald Trump está realmente disposto a cumprir suas promessas de campanha. Seu primeiro ato como presidente foi o de retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico e reafirmar a construção do muro na fronteira com o México. Além disso, proibiu por 90 dias, a entrada no país de imigrantes do Iraque, Irã, Sudão, Somália, Síria, Iêmen e Líbia e por tempo indeterminado a entrada de refugiados de todas as nacionalidades. Os últimos acontecimentos têm fortalecido na Europa a união de renomados políticos “populistas”, da mesma estirpe de Trump, que prometem uma “primavera patriótica” ao reforçar ideias nacionalistas.
Internamente, continuamos à espera. Nos últimos dias, não houve divulgação de estatísticas econômicas significativas. Apenas algumas estimativas e os subjetivos indicadores de “humor” de consumidores e empresários foram publicados. A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) prevê crescimento de 5% na receita líquida em 2017, após quatro anos consecutivos de queda. O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), projeta que, com um impulso vindo do setor agropecuário, o Produto Interno Bruto (PIB) superará o campo negativo, no primeiro trimestre deste ano, com alta pouquíssimo significativa de 0,1%. A inflação foi revisada para baixo, pela terceira vez consecutiva, pelo Boletim Focus do Banco Central. As novas estimativas projetam uma alta de 4,71% este ano.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) comemora a melhora do pessimismo dos empresários do comércio. O Índice de Expansão do Comércio caiu para em 85,1 pontos em janeiro. Em dezembro havia fechado em 89,9 pontos. A comemoração fica por conta do crescimento do indicador de 18,1% em relação a janeiro de 2016. Mesmo assim, o índice permanece abaixo de 100, número que representa a fronteira entre o pessimismo e otimismo.
Confiante mesmo está o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Seus subordinados, afirmam que, em dezembro, a economia brasileira deu sinais animadores. Baseando-se em dados (alguns ainda não divulgados), Meirelles chegou a afirmar que houve “... uma inflexão (do crescimento) em dezembro para valer”. Segundo o Ministério, a produção de veículos cresceu 5% na comparação com novembro, a produção de papelão ondulado, caixa, acessórios e chapas, cresceu 1,3%, a movimentação do pedágio de veículos pesados aumentou 4,8%, o consumo de energia elétrica subiu 0,6% e as importações do país se elevaram em 3,7%. E em janeiro, houve melhora da confiança da indústria, que subiu 3,1% e da confiança dos consumidores, que se elevou 6,2%. Em razão disso, um novo surto de otimismo empolgou o governo.
Mas, registre-se que o Investimento Direto no País (IDP) fechou 2016 em US$ 78,929 bilhões. O ingresso de recursos, segundo o Departamento Econômico do Banco Central, foi usado para financiar empréstimos intercompanhia, ou seja, a cifra não estimulou o investimento propriamente dito. A participação no capital caiu de US$ 56,421 bilhões em 2015 para US$ 54,021 bilhões em 2016, enquanto que as operações intercompanhia subiram de US$ 18,053 bilhões para US$ 24,908 bilhões.
Os investimentos internos também não receberão impulso dos bancos públicos. Ordenados a restringir a operação, a queda registrada no fornecimento de crédito por estas instituições no país foi de 3,7%, sendo a primeira retração desde 2001.
Portanto, não é surpresa que, mesmo diante do otimismo de Meirelles, as projeções para 2017 não deslanchem.
O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), prevê expansão de 0,3%, o Banco Central 0,5% e o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu sua estimativa de 0,5% para 0,2%. O próprio Ministério da Fazenda projeta 1%, mesma previsão do Banco Itaú.
O mundo e o Brasil, por razões diferentes, continuam em compasso de espera.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A crise é séria, mas está terminando

Semana de 16 a 22 de janeiro de 2017

Nelson Rosas Ribeiro[i]

A semana foi pobre quanto à divulgação de dados econômicos, mas rica em relação a acontecimentos.
Começamos com a realização do Fórum Econômico Mundial, em Davos, cidade na Suíça, onde se reuniram cerca de 3.000 participantes, entre chefes de estado dos países mais poderosos do mundo, executivos, banqueiros e acadêmicos. As discussões mostraram a grande preocupação com as incertezas provocadas pela eleição de Trump nos EUA, o Brexit do Reino Unido e as eleições que ocorrerão na França, Áustria e Alemanha, onde o perigo do populismo de direita cresce.
Aproveitando o debate sobre a concentração da riqueza, a ONG britânica Oxfam divulgou dados impressionantes. Usando como fonte o banco Crédit Suisse, a Oxfam mostrou que a fortuna de apenas oito bilionários é equivalente ao total da riqueza possuída por 3,6 bilhões de pessoas, ou seja, mais da metade da população do planeta.
Em Davos o ministro Meirelles procurou vender o Brasil o melhor que pôde afirmando que: “A crise é séria e grave, mas está terminando”. Garantiu que, já no primeiro trimestre deste ano, o crescimento seria sentido e no quarto trimestre atingiria 2%, com dados anualizados e referido ao mesmo período de 2016. Ele não lembrou que, em novembro, o seu ministério previa para o ano, um crescimento do PIB de 2,8%.
Reforçando a defesa do governo que os representa, os empresários também apresentaram um quadro otimista. Luis Carlos Trabuco, do Bradesco, garantiu que o Brasil está em virada e o fundo do poço ficou para trás.
Ainda em Davos a consultoria PricewaterhauseCoopers (PwC) divulgou o resultado de uma pesquisa que mostrou que 57% dos executivos brasileiros acreditavam que o fundo do poço ficou para trás.
Remando na mesma direção o presidente Temer, um pouco mais cauteloso, em entrevista à agência Reuters, reforçou a ideia de que o crescimento dará sinais no primeiro trimestre, mas o desemprego só cairá no segundo.
Apesar de todas estas declarações que pretendem criar expectativas favoráveis, o Fundo Monetário Internacional (FMI) continua a estimar em 0,2% o crescimento do PIB brasileiro em 2017 e o Banco Mundial e o Boletim Focus do próprio Banco Central (BC), mais otimistas, falam em crescimento de 0,5%.
No país, a divulgação da ata do Conselho de Política Monetária (Copom) não trouxe grandes novidades. Apenas confirmou a tendência para novos cortes na Selic, apontando para a manutenção do ritmo de 0,75%. O BC explicitou sua preocupação com a recessão e com os sinais observados de que ela se estenderia ao quarto trimestre de 2016. Contrariando as afirmações do governo, para o Copom, “a retomada deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente”.
Na política a novidade foi a confirmação da candidatura para a reeleição de Maia para a presidência da Câmara, com apoio de vários partidos, inclusive o PSD do chamado Centrão, que caminha para o esfacelamento. Maia contaria ainda com o apoio velado do presidente Temer. Em sua campanha, mostrando-se mais realista do que o rei, Maia promete acelerar, com o regime de urgência, as reformas trabalhista e da previdência.
Envergonhando a nação, a revolta nos presídios, fora de controle, provocou uma reunião do alto comando da segurança pública, envolvendo comandantes das forças armadas, ministros, inteligência, polícias, etc., que terminou na declaração solene e ridícula do ministro Jungmann de pôr as Forças Armadas a disposição dos governadores. Além de ser o reconhecimento da incompetência das forças policiais demonstra a total ignorância do papel e atribuições das Forças Armadas.
A semana foi encerrada com o trágico acidente que vitimou o ministro do STF Teori Zavascki, relator da operação Lava-Jato e que estava na iminência de aceitar a delação premiada da Odebrecht e seus funcionários. A tragédia está provocando grandes suspeitas sobre as causas do acidente e a hipótese de atentado tem sido levantada.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Meirelles promete crescimento econômico para o primeiro trimestre

Semana de 09 a 15 de janeiro de 2017

Rosângela Palhano Ramalho [i]

O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou o corte de 0,75% na taxa Selic. Os juros no país caíram para 13%. Expectativas de inflação “ancoradas” e atividade econômica se comportando aquém do esperado, foram as justificativas para o corte. Como a maioria dos analistas esperava um corte de 0,5%, a decisão foi recebida com euforia. O presidente Michel Temer, por exemplo, fingindo respeitar a tal “independência” do Banco Central, sem cerimônias, meteu o seu bedelho político elogiando a decisão. E afirmou que, continuando a tendência de queda da inflação, a taxa deve cair mais.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o resultado da inflação para 2016. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano em 6,29%. Ainda houve uma pressão forte dos alimentos que é o grupo com o maior peso no cálculo do índice. As despesas com alimentação aumentaram 8,62%, em 2016. Segundo o IBGE, dos 373 itens pesquisados, 120 apresentaram aumento de preços maior que 10%. O resultado foi melhor do que o previsto. No início de 2016, a previsão era de aumento em torno de 7%, mas a piora da crise interna certamente contribuiu para a redução da inflação ao longo do ano.
Ao elogiar a atitude do Banco Central, o presidente Temer disse acreditar que com a queda da inflação e dos juros, as condições para a retomada do crescimento econômico e criação de novos empregos estão dadas. Dadas, talvez. Concretizadas não. Ao confrontar o discurso com a realidade econômica, somos novamente obrigados a verificar que, segundo os dados da Serasa Experian o movimento dos consumidores nas lojas, em todo o país, caiu 6,6%, no ano de 2016, comparado a 2015. O segmento de veículos, motos e peças, registrou queda de 13%; nas lojas de tecidos, vestuário, calçados e acessórios, a queda foi de 12,6%; as vendas de material de construção caíram 5,4%; nos supermercados, hipermercados, alimentos e bebidas a queda foi de 7% e apenas o segmento de combustíveis apresentou alta de 1,8%. Este é o pior resultado do varejo brasileiro nos últimos 16 anos.
A crise afeta também a saúde financeira das empresas comerciais. A Serasa Experian apurou que os pedidos de recuperação judicial aumentaram 51,2% no comércio e 48,5% nos serviços, em 2016, números maiores que os da indústria que apresentou alta de 24,5% nestes pedidos.
E não há alento no mercado de força de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) projeta que a taxa mundial de desemprego subirá de 5,7%, em 2016, para 5,8%, em 2017. Serão mais 3,4 milhões pessoas desempregadas no mundo. E o pior: a cada três novos desempregados no mundo neste ano, um será brasileiro. Serão, em 2017, 1,2 milhão de desempregados a mais do que em 2016, totalizando 13,6 milhões de pessoas sem ocupação.
Também não há indicações de recuperação dos investimentos. O IBGE apurou uma leve alta de 0,2% na produção industrial em novembro, mas o Indicador IPEA de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que é um termômetro dos investimentos, registrou queda de 1,1%, em novembro de 2016, na comparação com outubro. Espera-se queda dos investimentos de 11,2% no ano passado.
Mas, mesmo diante do desastre econômico interno de 2016 e as perspectivas ruins para 2017, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles foi ao Fórum Econômico Mundial em Davos, e lá, contrariando todas as projeções, mentiu descaradamente. Ele disse que a economia brasileira voltará a crescer já no primeiro trimestre de 2017. Em suas palavras: “... no primeiro trimestre já vamos ver um crescimento. E esperamos que o último trimestre de 2017 apresente um crescimento de 2% em relação ao mesmo período em 2016.” Ou ele está diante de outra realidade ou acredita que uma mentira dita repetidas vezes tornar-se-á verdade. Relembrando Mantega, ministro da Fazenda de Dilma, parece que a mentira é um atributo de todos os ministros que ocupam esta pasta.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br