quarta-feira, 12 de maio de 2010

Juros: o COPOM ataca novamente

Semana de 26 de abril a 02 de maio de 2010



Apesar de monótono e irritante temos de continuar a bater na mesma tecla. Já não há paciência que chegue. Os leitores que nos desculpem, mas novamente estamos diante dos juros. Esta é a grande novidade da semana. A política monetária, no Brasil, e talvez no mundo, virou sinônimo de taxas de juros. Infelizmente, os economistas têm toda a culpa no cartório, pois isto é conseqüência da aplicação da teoria oficialmente adotada e ensinada nas escolas. É incrível ouvir as mesmas justificações para a decisão do Conselho de Política Monetária (COPOM), do Banco Central, que, na quarta passada, elevou a taxa Selic (sigla que significa Sistema Especial de Liquidação e Custódia), que constitui a taxa de juros de referência no país. O aumento foi de 0,75% e a Selic que era de 8,75%, uma das maiores do mundo, passou para 9,5% a.a., com ameaças de que continuará subindo. A desculpa, como sempre, foi a possibilidade de crescimento da inflação.
Como era de se esperar, os comentários se repetiram. Todo o sistema financeiro e os assessores dos grandes bancos aplaudiram. O economista-chefe do Itaú Unibanco, Illan Goldfajn, considerou o ajuste mais que necessário, pois o Brasil não pode crescer mais que 5% sem inflação e “temos de sair do ritmo de crescimento chinês para o brasileiro”. Para o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg, a decisão era esperada pelo mercado financeiro. Para Walter Machado de Barros, presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef-SP), a decisão foi a mais acertada. O diretor do departamento de economia do Bradesco, Octavio de Barros, estimando um crescimento de 6,4% para o PIB do país, este ano, acredita que o BC aumentará a Selic 3,5% até o final do ano. Na contramão, mais uma vez, os setores empresariais condenaram. As palavras do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – Abimaq, pronunciadas por antecipação, servem de exemplo: o aumento “é um crime que vai ser feito contra a área de investimentos ... vai ser uma paulada nos investimentos”.
Nos EUA, seguindo em direção oposta, o Federal Reserve, banco central americano, decidiu manter a sua taxa básica variando entre zero e 0,25%, apesar das notícias de recuperação da economia do país. Seguindo o bom exemplo, e o lema de que o que é bom para os Estados Unidos é bom para a América Latina, vários países da região decidiram manter igualmente suas taxas. Tal foi o caso de países como a Argentina, Chile (0,5%), Colômbia (3,5%), México (4,5%), Peru (1,25%) e Uruguai.
As consequências do aumento da Selic já começam a surgir. O desequilíbrio entre as taxas de juros interna e externa pode ter como conseqüência o “carry trade” (tomada de empréstimos em países estrangeiros para operações de financiamentos no Brasil, com o objetivo de ganhar na diferença das taxas). O afluxo de dólares pode provocar a supervalorização do real, o que prejudica as exportações e beneficia as importações. Com esta preocupação o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, anunciou que o governo está disposto a comprar dólares podendo, se necessário, lançar títulos do Tesouro sem limites e utilizar os recursos do Fundo Soberano no montante de R$ 17 bilhões.
Todo o empenho do BC visa desaquecer a demanda tida, por ele, como causa da inflação. Com juros altos são desestimulados os investimentos e o consumo. Ora, se o governo tira com uma mão, dá com a outra. No Conselho Monetário Nacional – (CMN) foi tomada uma decisão de ampliar de R$ 44 bilhões para R$ 124 bilhões os recursos para empréstimos a taxas subsidiadas abaixo do mercado, para o Programa de Sustentação do Investimento (PSI).
Como se vê, depois de uma curta trégua, a guerra, entre o Ministério da Fazenda (Guido Mantega) e o BC (Henrique Meirelles), continua, para o mau da nação. Se as intenções do Meirelles forem levadas à prática, a tímida recuperação que se esboça poderá ser abortada, com trágicas consequências para as eleições. Infelizmente nenhum dos candidatos favoritos tem capacidade para tirar vantagens do desastre. Até a Marina Silva perdeu uma ótima oportunidade de ficar calada ao elogiar a atitude do BC.
E isto acontece no momento em que se avoluma o tsunami da retomada da crise financeira internacional com a quebradeira que se anuncia nos orçamentos dos PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) e em toda a zona do euro.
Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do Progeb-Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
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