terça-feira, 18 de maio de 2010

A crise do euro e a taxa de juros

Semana de 03 a 09 de maio de 2010





Na semana passada, terminamos nossa análise anunciando um tsunami em formação na União Européia (UE). Este tsunami vem sendo impulsionado por vários abalos sísmicos nos orçamentos dos países que compõem a sigla PIGS, palavra que em inglês significa “porcos”. Já há quem tenha alterado a sigla para PIIGS, incluindo, além de Portugal, Itália, Grécia e Espanha (o S de Spain), a Islândia. A ordem de fogo, no entanto não está respeitando a sigla. O primeiro abalo sísmico vem da Grécia onde a situação se agrava a cada dia. Além do déficit orçamentário, que atingiu os 13,6% do Produto Interno Bruto (PIB), em dezembro de 2009, o país encontra-se em recessão que, segundo as estimativas, chegará a -3%, no final de 2010. Portugal apresentou em 2009, um déficit de 9,8% do PIB. A situação da Espanha, porém, é a mais preocupante, não só pelo tamanho, mas porque sua economia, no ano passado, encolheu 3,6% e só conseguiu crescer 0,1%, no primeiro trimestre deste ano, em relação ao trimestre anterior. Além disso, com um alto grau de endividamento e déficit fiscal, o desemprego chega a 20%, o maior de toda a União Européia.
Mas, não são só os Pigs que estão em situação complicada. Todos os países europeus apresentam seus rombos no orçamento. A própria Alemanha não conseguiu manter o teto máximo de 3% para o déficit, que é o tolerado pela União e na França o rombo atinge os 8% do PIB. Como as finanças européias chegaram a esta situação?
Com a crise, na tentativa de evitar a quebradeira das empresas afetadas, os governos injetaram bilhões de euros na economia, além de reduzirem impostos e criarem sistemas de apoio social aos desempregados. Para isto, endividaram-se. Não podendo emitir moeda para financiar suas dívidas, diante do rígido controle supranacional da emissão da moeda euro, os países foram obrigados a emitirem bônus e títulos os mais diversos. Os bilhões que haviam sido entregues ao sistema financeiro e que novamente e que encheram os cofres das instituições, possibilitaram que estas se voltassem ávidas aos mercados em busca de novas fontes de especulação. Diante da total falta de confiança no setor privado, em crise, os títulos públicos passaram a ser os novos alvos. E a chamada ciranda financeira recomeçou. É por isso que o nervosismo se espalha pelas bolsas, no conhecido sobe-desce diário que deverá continuar nos próximos tempos. Das bolsas, a especulação passa às commodities cujos preços também tendem a variar com tendência para a queda, diante do temor ao estouro da Grécia. É o que se chama de aversão ao risco.
O sistema euro entrou então em pânico. Sucedem-se as reuniões, convocadas as pressas, para tentar conter a débâcle grega, com receio do efeito arrastamento. Após uma reunião de 16 países, o Presidente da União Européia Herman Van Rompuy declarou solenemente: “Reafirmamos nosso compromisso em garantir a estabilidade da área do euro.” Um novo pacote denominado “Mecanismo de Estabilização da União Européia” foi anunciado. Um acordo entre a UE e o Fundo Monetário Internacional (FMI), garantiu já a liberação de 110 bilhões de euros para ajuda à Grécia, dos quais 80 bilhões viriam da própria União.
Mas, a ajuda tem seu preço. Junto com o dinheiro vêm os compromissos de aperto geral com corte de salários e aumento de impostos. O governo grego deverá submeter-se a uma dura restrição de despesas que já foi aprovada pelo parlamento e vem provocando greves e violentos protestos com mortes por todo o país. A situação social tende a agravar-se e não se pode prever até onde poderá chegar.
Este é o quadro em que está inserida e economia brasileira que atravessa um período de recuperação. Os dados continuam a serem divulgados a cada dia. Em março, em relação a fevereiro, a produção industrial cresceu 2,8%. A alta na produção de insumos para a construção civil foi de 5,6%, no mesmo período. Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, o consumo de gás da indústria, no primeiro trimestre deste ano, cresceu de 33,8%. No mês de abril, a balança comercial também mostrou forte recuperação apresentando um superávit de US$ 1,238 bilhão. Estamos, porém diante de duas ameaças. A crescente ameaça externa do tsunami, que certamente chegará até as costas do país, e o furacão Henrique Meirelles, que, no interior das fronteiras nacionais, toma novo impulso brandindo novamente a elevação das taxas de juros, diante de uma hipotética inflação.

Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do Progeb-Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
Email: progeb@ccsa.ufpb.br
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