quinta-feira, 25 de outubro de 2012
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Efeito ressaca do IPI
Semana de 15 a 21 de outubro de 2012
Eric Gil Dantas [i]
A economia capitalista funciona em ciclos. Esta afirmação poderia ser bastante polêmica se fosse colocada há décadas atrás. No entanto, hoje, ninguém pode esconder esta tendência, já que estamos vivendo em meio a uma grande crise econômica mundial. Há altos e baixos, e nenhum governo mudará isto.
Em artigos anteriores, já falamos que as isenções do IPI dadas pelo governo a diversos setores da economia não seriam suficientes para salvar o Brasil da crise. Agora chegou o momento de verificarmos isto na prática.
No mês de setembro, a venda de carros caiu 31,5% em relação ao mês anterior. Para Fabio Ramos, da Quest Investimentos, os estímulos concedidos pelo governo à economia “vão cobrar seu preço” neste quarto trimestre. Ele explica que “a expansão será menor, não porque o governo vai remover o IPI, mas sim porque, quando os preços foram reduzidos com um prazo determinado, a demanda foi ‘empurrada’ para o terceiro trimestre”. Este movimento está sendo chamado de “efeito ressaca” do IPI. A queda nas vendas é preocupante para a economia em geral, pois o setor automobilístico representa, diretamente, cerca de 30% das vendas no varejo e 13% da produção industrial do país.
Além da queda na produção e nas vendas, o “efeito ressaca” inclui o aumento do endividamento das famílias. Estimuladas pela redução dos impostos, também para outros bens duráveis, elas correram para aproveitar a ocasião, agravando a situação.
Mas, há outros setores sofrendo com a crise. O de mineração, por exemplo. Este ano, a Vale já planeja reduzir a remuneração dos seus acionistas a 66% do ano anterior e, em 2013, provavelmente será pior. Isto decorre da queda nos preços dos minérios. Para se ter uma ideia, em 2011, o minério de ferro foi vendido em média por U$136 a tonelada. Em 2012, a média deverá ser em torno de U$75. Em relação ao aço, a Vale interrompeu a produção em três das dez usinas de pelotização. Philip Hopwood, líder para o setor de mineração da Deloitte, disse que as mineradoras já estão sofrendo com margens pequenas e, por isso, buscam redução de custos.
A China é apontada como a grande responsável pelos problemas do setor. Com a queda da sua demanda, o volume de minério de ferro exportado para lá caiu 1,68%. A queda da demanda chinesa pelo petróleo foi ainda pior: atingiu 15,37%.
Mesmo com esta retração da demanda, os economistas conservadores, supostamente preocupados com uma possível inflação, intensificam as suas críticas ao corte da taxa básica de juros pelo Banco Central do Brasil. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, já declarou, no editorial de sua revista “Conjuntura Econômica”, que, em pouco tempo, as taxas de juros deverão subir para conter a inflação. Já o Armínio Fraga, ex-presidente do BC e agora principal acionista da Gávea Investimentos, em entrevista à Folha de São Paulo, endossou o discurso, dizendo que “mais um corte neste momento requer uma explicação do Banco Central”.
No Velho Continente, as coisas ainda continuam complicadas. Portugal já anunciou fortes aumentos de impostos e cortes de gastos no orçamento de 2013, o que fará a população sofrer ainda mais para garantir as condições impostas para o resgate de €78 bilhões. A situação chegou ao ponto do megainvestidor George Soros, presidente da Soros Fund Management, dizer que a solução da crise europeia era a Alemanha deixar a Zona do Euro.
A curiosidade da semana ficou para o Prêmio Nobel de Economia. Este nada teve a ver com o tema da grande crise econômica mundial, com os inúmeros protestos diários de massas, os suicídios em locais públicos, as taxas de desemprego que chegam a 25%. O Nobel (para variar) dado aos estadunidenses Alvin Roth e Lloyd Shapley foi atribuído por um trabalho que serviu de base teórica para eventos que visam facilitar a escolha de um par amoroso, ou para a distribuição de vagas em escolas de ensino médio. Além disto, para vergonha dos economistas, Shapley declarou-se surpreso: “Eu me considero um matemático, e o prêmio é de economia. [...] Nunca, nunca na minha vida fiz um curso de economia.”
[i] Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
“Risco alarmante” de recessão mundial
Semana de 08 a 14 de outubro de 2012
Nelson Rosas Ribeiro[i]
A afirmação é do Fundo Monetário Internacional (FMI), que divulgou o seu relatório “Panorama Econômico Mundial”. Neste relatório o FMI alerta para o “risco crescente e alarmante de uma desaceleração mais forte da atividade global” e passa a revisar para baixo as estimativas das taxas de crescimento da economia mundial, de 3,9%, para 3,6%. Para o Brasil, esta revisão foi, de 2,5%, para 1,5%. Além disso, o Fundo teme que os países da União Europeia (UE) não consigam superar o que chama de “abismo fiscal”.
O Banco Mundial (BM) também divulgou sua visão igualmente pessimista. Para a Ásia e Pacífico, as taxas de crescimento do PIB para este ano foram reduzidas, de 7,6%, para 7,2%. Para a China, de 8,2%, para 7,7%. O BM confirma a desaceleração das economias da área e teme uma “freada mais profunda da China”.
A terceira organização internacional a divulgar suas estimativas para os 34 países membros foi a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), através de seu Índice de indicadores antecedentes. Entre julho e agosto, o índice, para todos os países, caiu, de 100,2, para 100,1 e, para a zona do euro, de 99,5, para 99,4.
Mas, não apenas as grandes instituições internacionais divulgaram perspectivas negativas. O índice de acompanhamento Brookings Institution-Financial Times mostrou uma séria ameaça de recaída em recessão global. O índice Tiger (Traking Indices for the Global Economic Recovery) mostrou uma queda no ritmo da economia global. Segundo o Professor Eswar Prasad, do Brookings Institution, “a economia mundial pode em breve ir à lona”.
Neste clima, ocorreu, no fim de semana passada, em Tóquio, a reunião anual do FMI e do BM, sem a presença dos representantes das instituições financeiras da China. A ausência foi um protesto dos chineses por causa da disputa territorial que envolve os dois países. Aliás, este boicote já atingiu as importações do Japão, o que causou grandes prejuízos às empresas montadoras japoneses. Em outubro, comparado a setembro, as vendas despencaram em 48,9% na Toyota, 35,3% na Nissan, 63% na Mitsubishi e 36% na Mazda. O JP Morgan calcula que, entre outubro e dezembro, as exportações japonesas para a China cairão 70%. O FMI já demonstra preocupação com as consequências para o comércio mundial e alertou os dois países da necessidade urgente de encontrar uma solução para o conflito.
Mas, há quem continue a apostar na deterioração geral das economias: o “Mercado financeiro”. Agora a moda é tratar a especulação com uma linguagem gourmet. Fala-se no banquete, no apetite para degustar iguarias com mais ou menos pimenta e temperos e no apetite por títulos de alto risco, mas que prometem altos rendimentos ou “high yields”, como fica mais elegante dizer. Excitados com o apetite do mercado, instituições como o BB Securities, Bradesco BBI, SBTG Pactual, Deustche Bank, HSBC e Itaú BBA afiam as garras para intermediar o lançamento dos títulos de alto risco que a construtora brasileira OAS pretende fazer (US$ 300 a US$ 500 milhões) e que oferecem rendimentos de 9% ao ano. Estima-se que os lançamentos deste tipo, na América Latina, já atingem os US$ 3,34 bilhões. Esquecidos dos estouros dos últimos anos ou convencidos que, nos casos negativos, os solícitos BCs vêm imediatamente em socorro dos acidentados, os “investidores” atiram-se vorazmente também aos títulos das dívidas soberanas dos países falidos, seguindo os mesmos critérios. E ficam na torcida que uma agência de classificação de riscos qualquer baixe as classificações dos países como é o caso atual da Espanha, que foi rebaixada pela Standard & Poor’s, de BBB+ para BBB-, o último degrau antes do nível “junk” (lixo). O resultado é que, enquanto a Alemanha paga por seus títulos um yield de 0,61%, os espanhóis terão de pagar 5,81% de yield, ganhando dos italianos, que pagam 5,10% por papeis semelhantes.
Enquanto isso, por cá, o BC continua a luta para impedir a valorização do real, intervindo no mercado de câmbio e baixando a taxa Selic, de 7,5%, para 7,25%. A recuperação da indústria se arrasta, e o volume das contratações não aumenta. E o pior de tudo é que, além disso, é preciso controlar a inflação e forçar a retomada do crescimento.
[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Recuperação?
Semana de 01 a 07 de outubro de 2012
Rosângela Palhano Ramalho[i]
Caro leitor, é de conhecimento comum que a crise econômica produz vencedores e perdedores. Enquanto a grande maioria da população torce para que a saída da crise aconteça o mais rápido possível, “investidores” do mundo inteiro torcem pelo afundamento da economia espanhola. O possível rebaixamento pela Moody´s dos papéis da Espanha para o conceito junk, que os classificaria como de alto risco e, por isso, de alto rendimento, gera grande expectativa no “mercado”. Todos (os que ganham com a desgraça alheia) estão torcendo para que o “mercado”, que movimenta € 250 bilhões na Europa, seja impulsionando e se torne semelhante ao dos Estados Unidos, que gira US$ 1,2 trilhão.
Por outro lado, economistas e governos continuam na expectativa de como e quando se dará a recuperação econômica. Será em U, V, W, L? O fato é que alarmes falsos soam a todo o momento. Os EUA já anunciaram várias vezes a sua recuperação considerando a melhora das estatísticas e várias vezes tiveram que desmenti-la.
Aqui no Brasil, desde a semana passada, chovem informações afirmando que a nossa recuperação começou. Esta, pelo menos, é a visão da maioria, inclusive a do governo. O avanço de 1,5% da produção industrial, de julho para agosto, é o melhor resultado, desde maio do ano passado, segundo o IBGE. Vinte dos vinte e sete segmentos industriais pesquisados aumentaram suas atividades no período. Conforme André Luiz Macedo, gerente da coordenação da indústria do IBGE, há setores com estoques elevados, outros com exportações em queda e com dificuldades diante da competição com os importados.
Outro fato deve ser levado em consideração: a melhor performance aconteceu no setor automotivo que cresceu 3,3%, com a perspectiva do fim da redução do IPI, em agosto. Mas a informação mais atual que temos do setor dá conta de que as vendas de carros despencaram, em setembro, caindo 31,5%, comparadas a agosto. As vendas de caminhões, segundo a Fenabrave, continuaram caindo. Na comparação com agosto, a queda foi de 25,5%. Já as vendas de ônibus, caíram 36,8%, na mesma comparação.
Outro dado (já de setembro), que não reforça o cenário de recuperação propagado por muitos, vem da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo o órgão, o nível de estoques da indústria, em setembro, ficou praticamente estável, em relação a agosto, ou seja, o nível de estoques permanece alto. Mesmo assim, os empresários estão mais “confiantes”. O Índice de Confiança da Indústria, também apurado pela FGV, cresceu 0,9%, entre agosto e setembro.
Mas, para nós, a informação mais relevante vem do setor de bens de capital que cresceu apenas 0,3%, em agosto. Este é um sinal de que os investimentos não estão se recuperando. De fato, a produção de máquinas e equipamentos encolheu 2,6% no período. Mesmo assim, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, acredita na “recuperação gradual”. Segundo ele, “Deixamos para trás o período de crescimento fraco, agora o crescimento começa a acelerar e vai nessa direção até o fim do ano.” O ministro também afirmou que os analistas que esperavam um crescimento maior, entre 1,6% e 2,6%, projetaram “mal”.
Sinalizando insegurança em relação às estatísticas publicadas, o governo planeja aumentar a taxa de investimento da economia em 10%, no próximo ano, o que elevaria o estoque para próximo de 20% do PIB. A taxa de investimento real vem caindo, desde o segundo trimestre de 2010. Até o início de 2013, novas medidas serão anunciadas, para a redução dos custos de produção através da unificação da Cofins e do PIS e da unificação, em 4%, da alíquota interestadual do ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços As desonerações de impostos continuarão e se tornarão permanentes para o setor de bens de capital. A depreciação acelerada desses bens poderá ser estendida até 2013.
Como vimos, a passagem da crise para a fase de recuperação não é tão simples assim. Muito se comemora, mas o crescimento de apenas 0,2% e 0,4%, no primeiro e segundo trimestre deste ano, nos pede cautela. E mais cautela ainda quando olhamos para a queda da indústria, de 2,5%, no segundo trimestre. É óbvio que, como economistas e brasileiros que somos, torcemos por uma recuperação rápida e breve. Mas o 1,5% do crescimento industrial de agosto não permite que afirmemos que já estamos na fase de reanimação do ciclo econômico. Por esta razão termino esta análise com uma dúvida.
Recuperação?
[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
O chamado “capital fictício”
Semana de 24 a 30 de setembro de 2012
Lucas Milanez de Lima Almeida[i]
Para entender melhor a crise, vamos recorrer a um conceito criado por um autor que, até 2007, foi considerado ultrapassado, mas, com a crise econômica, se tornou atual. Segundo Karl Marx, capital é “o valor em progressão”, aquele que tem como “objetivo de vida” a sua auto expansão. Isto é possível graças ao trabalhador, que, numa jornada de trabalho, produz mais riqueza do que aquela que foi gasta com ele, como salário. Esta é a mais-valia, que é extraída dos trabalhadores no processo de produção. Porém, para crescer, o capital, além da forma produtiva, tem que assumir as formas dinheiro, para a compra da fábrica e a contratação dos trabalhadores, e a forma mercadoria, que é resultado da produção e deve ser vendida para a obtenção de lucro. Esta é a base da valorização do capital.
O problema é que, junto com esta forma de crescer, surgiram outras que pouco, ou nada, têm a ver com a criação de riqueza. Em 1894, numa nota de página no Livro 3 de O Capital, Engels já alertara para as “sociedades financeiras” que operavam na Bolsa de Londres, ao afirmar que o capital das empresas havia se multiplicado duas ou três vezes, apenas com a especulação de títulos.
Segundo o dicionário financeiro, títulos “são papéis vendidos pelos governos ou empresas ao mercado financeiro para obter recursos financeiros. Um título é como se fosse um contrato de empréstimo no qual o tomador do recurso faz uma promessa de pagamento, à ordem da importância emprestada, acrescida de juros convencionais (estipulados no contrato), caso este título seja prefixado, e dos juros mais correção monetária, caso seja pós-fixado”. As empresas emitem vários tipos de títulos (com as mais diferentes nomenclaturas) para arrecadar recursos que serão destinados à ampliação da produção. Neste caso, o título representa capital. Porém, nada obriga o portador a permanecer com ele. Pelo contrário, existem vários tipos de mercados secundários, onde os papéis são negociados com terceiros, quartos, quintos, etc. antes do pagamento dos juros combinados, e por um valor diferente do inicial. Nestes casos, por pura especulação, quando o valor recebido pelo título é superior ao valor pago inicialmente, ou seja, quando o valor se expande na compra e venda de papéis, e não pelo recebimento de parte da mais-valia (juros), surge o capital fictício.
Se, com o título de uma empresa, há motivos para desconfiar desta valorização fictícia, o que pensar dos papéis emitidos pelos Estados? Os títulos públicos, em sua maioria, não são emitidos para captação de recursos para produção de excedente. Estes, a partida, são capitais fictícios, que pagam juros aos seus proprietários, com os tributos da nação.
Mas, o que faria os agentes econômicos cometerem tais loucuras? Por incrível que pareça, esta é uma resposta gastronômica: o “apetite por risco” do mercado. Quando o mercado perde o apetite, há aversão ao risco, diminui a especulação e há uma corrida para os ativos mais seguros, como ocorreu com as commodities em 2010, quando os EUA fizeram o segundo afrouxamento monetário. Quando o apetite cresce, aumenta a especulação. Um grupo de investidores está com água na boca, à espera do rebaixamento dos títulos espanhóis ao status de “junk”, que tem alto risco de calote, mas, alto rendimento.
Que delícia!
O dinheiro destinado a esta atividade vem de várias fontes: das reservas das empresas, do setor bancário, das pessoas físicas, dos fundos de investimento, dos fundos de pensão, etc. Por exemplo, a Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) tem um patrimônio de R$ 153,5 bi, sendo sua carteira de ações de R$ 90 bi. As políticas monetárias expansionistas também têm contribuído com trilhões de dólares para alimentar esta especulação.
Aqui no Brasil, o “mercado” anda reclamando, pois o governo não está dando sinais claros sobre a condução das políticas econômicas, e isto pode se tornar um problema. Referindo-se às medidas de estímulo econômico, Nogueira Batista, do IBGC, disse que “O governo e as agências reguladoras precisam aprender a se comportar”, pois, “Tudo o que o governo fala tem poder direto sobre as ações, gerando ou destruindo valor”. Veja-se, por exemplo, as perdas superiores a 40% no Ibovespa, de algumas empresas energéticas, após declarações do governo. É aquela história, “a notícia é tão ruim que perdi até a fome”.
Se os “investidores” soubessem tudo o que o governo irá fazer no futuro, eles não teriam surpresa e poderiam aplicar seu dinheiro onde fosse mais vantajoso para eles: títulos públicos ou especulação.
Coitados dos “investidores”! Apesar de destinar 43% do orçamento ao pagamento de juros e amortização da dívida pública, o governo é muito mau com eles.
[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
“Guerra cambial”, o retorno
Semana de 17 a 23 de setembro de 2012
Eric Gil Dantas [i]
Em 2010, assistimos o primeiro capítulo da saga da “guerra cambial”, quando o Federal Reserve (FED), banco central estadunidense, injetou US$1,725 trilhão na economia dos EUA. Agora, no retorno desta guerra, o FED não está sozinho.Na artilharia de frente temos o reforço da terceira maior economia do mundo. O Banco do Japão (BoJ) se tornou o mais recente BC a afrouxar a política monetária, com um programa de compra de ativos que deverá adquirir 80 trilhões de ienes (US$1 trilhão), para ajudar a moribunda economia nipônica.
Além destes dois BCs, outros dois são aguardados para compor a frente de combate: o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra. O BCE disse, no início do mês, estar preparado para comprar títulos dos países da zona do euro que precisem de ajuda para controlar seus custos de captação. O anuncio das medidas de estímulo a serem tomadas pelo BC britânico é também aguardado para breve.
Aqui, o contra-ataque já foi armado. O governo brasileiro tomou medidas para evitar que as possíveis ondas resultantes do afrouxamento do FED contribuam com a valorização do real, promovendo os chamados swaps cambiais reversos. Além disto, Mantega já voltou a atacar o QE3 em entrevista ao Financial Times. No Peru, já foram acionadas estratégias para também desvalorizar sua moeda, o sol peruano. Já a Turquia anunciou corte maior do que o esperado, nos juros.
Este novo capítulo demonstra que a crise global ainda está forte. O economista estadunidense Joseph Stiglitz, prêmio Nobel em 2001, declarou em entrevista que a crise está longe de acabar. Ele lembrou que parte da população americana ainda tem dificuldades para encontrar emprego em tempo integral, ocupando-se apenas com empregos periódicos, o que esconde uma situação ainda pior do que os 8% de taxa oficial de desemprego. A isto somamos a queda da produção mensal na indústria dos EUA de 1,2% em agosto, a maior queda desde março de 2009, e a queda de 1% na utilização da capacidade instalada da indústria.
Na zona do euro, o Índice dos Gerentes de Compras (PMI) Composto – que agrega dados do setor industrial e de serviços – caiu para 45,9 em setembro, ante os 46,3 pontos de agosto, segundo a Markit Economics, indicando contração (por ser menos que 50 pontos). É o ritmo mais acelerado de declínio desde junho de 2009.
A China e o Japão também mostraram enfraquecimento. O indicador antecedente da atividade industrial do HSBC sugere que o setor deve se contrair, aumentando os sinais de que a economia chinesa está desacelerando pelo sétimo trimestre consecutivo. No Japão, as vendas externas recuaram 5,8%, o terceiro declínio seguido, o que fez o país ter mais um déficit comercial. Além disto, os embarques para a Europa caíram mais de 20% e para a China cederam quase 10%.
No Brasil, as incontáveis desonerações feitas pelo governo parecem aliviar um pouco os estoques da indústria, fazendo-os recuar 0,5% em agosto, ante julho. Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, já prevê alta entre 1,5% e 2% para a indústria em agosto. Esta declaração encorpa as projeções do Ministério da Fazenda, que já estima uma aceleração do PIB nos dois últimos trimestres de 2012, com o crescimento de 1% e 1,3% no terceiro e quarto trimestres, respectivamente, o que faria o PIB de 2012 fechar com um crescimento de 2%.
Mas, o que ocorrerá quando se esgotarem os estoques que estavam empilhados em seus armazéns? Com esta conjuntura internacional adversa, será que os capitalistas irão investir? Em uma economia globalizada, como a do século XXI, nenhum país sairá da crise isoladamente sem a companhia dos demais.
O único efeito que talvez seja permanente, com esta política de isenções fiscais, seja a precarização, ainda maior, da Previdência Social. A partir de 2013, cerca de 40 setores deixarão de pagar contribuição previdenciária de 20% sobre a folha de pagamento.
Agora é só esperar o discurso de que o aposentado é o problema do Brasil.
[i] Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Ministro conta piada e cai do cavalo
Semana de 10 a 16 de setembro de 2012
Nelson Rosas Ribeiro[i]
A piora da situação internacional, finalmente, está provocando a ação drástica das autoridades responsáveis pelas políticas monetárias e fiscais dos governos de todo o mundo.
Nos EUA, o Federal Reserve (Fed), banco central americano, decidiu intervir novamente, no mercado, sob a forma de um novo “afrouxamento monetário” (quantitative easing), o QE3. Isto significa que vão imprimir mais dólares para “aumentar a liquidez do mercado”. O Fed pretende retomar a compra de títulos podres até um montante de US$ 40 bilhões, por mês, sem prazo definido para terminar, ou melhor, até que o “mercado” se recupere.
E não ficou só. O Banco Central Europeu (BCE), vencendo a resistência dos conservadores alemães, também passará a intervir no mercado comprando títulos das dívidas soberanas dos países mais necessitados, os pigs, em primeiro lugar. Com isto pretende dar credibilidade aos títulos e assim reduzir os juros pagos pelo financiamento dessas dívidas, no “mercado”, é claro. O grande empurrão para isto foi a decisão da Corte Constitucional da Alemanha, que aprovou a criação do European Stability Mechanism (ESM), fundo de emergência temporário destinado ao socorro aos mais necessitados. Este fundo disporá de €$ 500 bilhões para cumprir sua missão. Mas o problema europeu não está resolvido com isto. Comenta-se que, destes 500, €$100 bilhões estão comprometidos com o socorro aos espanhóis, restando apenas €$400 bilhões para todo o resto, incluindo a Itália. A pior notícia, porém, vem das previsões sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), feitas pelo BCE. Segundo estas, o “crescimento”, para 2012, será negativo, entre 0,2% e 0,3%. Para 2013, o BCE prevê entre, 0,3 negativos e 1,4% positivos. Os leitores sabem que o “crescimento negativo”, para os economistas, é mesmo DECRESCIMENTO. O desespero atinge todos os BCs do mundo e o lamento é geral: os manuais de economia não estão fornecendo as respostas para superar a crise. Apesar de não haver declaração explícita, nas entrelinhas, torna-se evidente que todos admitem que ela é de superprodução, e o que se pretende é provocar o aumento da demanda, quer das empresas, dos governos ou das famílias. Já há quem defenda que, para obter este resultado, todas as soluções são válidas, mesmo as mais radicais simbolizadas no “jogar dinheiro de helicóptero”.
Apesar dos esforços do governo Dilma, esta situação está tendo fortes repercussões, no Brasil. Mesmo aparentando haver certa tranqüilidade, no mercado de trabalho, a produção industrial está estagnada, alguns setores demitem, o crédito é limitado, etc. As preocupações do governo cresceram ao ponto de conduzir o teimoso ministro Mantega a rever as suas previsões para o crescimento do PIB, deste ano. No final do ano passado, o ministro afirmava que o crescimento deveria chegar perto dos 5%. Já em janeiro, quando o mercado calculava em 2,9%, Mantega reduziu suas previsões para algo entre 4,0% e 4,5%. A partir de junho, o BC já calculava o número em 2,5%, sob as críticas do ministro de que os cálculos estavam mal feitos e ele acreditava que superaríamos os 2,7%, de 2010. E quando o Banco Credit Suisse estimou em 1,5% a taxa, Mantega considerou-a “uma piada”. Logo depois o ministro passou a fixar seu número mágico em 3%. Finalmente Mantega caiu do cavalo, ou melhor, caiu na real. Reduziu sua previsão, de 3%, para 2%, quando o mercado já as estima rigorosamente em 1,62%. Onde está a piada?
A solução, agora, é correr contra o prejuízo. Está justificado assim, o pacote de bondades com que o governo presenteia o setor empresarial: prorrogação das reduções de impostos, desoneração das folhas de pagamento, mesmo a custa do “rombo da previdência”, (que ninguém fala), redução dos juros, liberação de linhas de financiamento, redução das tarifas de eletricidade, etc. Justifica-se a irritação da presidente Dilma, com as críticas do “mercado” e de algumas empresas do setor elétrico, que reagiram mal ao novo plano de redução das tarifas que, convenhamos, beneficia a todos.
Haja ingratidão!
[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).



