quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A espera de um milagre

Semana de 03 a 09 de agosto de 2015

Raphael Correia Lima Alves de Sena[i]

Com a avaliação de que a presidente Dilma Rousseff perde as condições para governar o país, Michel Temer, vice-presidente, passa a ser, na visão de líderes políticos, a última garantia de governabilidade. A transição negociada já é a principal solução encontrada para abreviar a saída do governo eleito no ano passado. A tônica dos protestos marcados para o dia 16 de agosto continuará sendo o processo de impeachment e o movimento por novas eleições que tem sido encabeçado, principalmente, por aliados do senador Aécio Neves (PSDB). O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), continua com seus atritos como o poder Executivo. Além da briga com Rodrigo Janot, procurador-geral da República, o novo alvo do peemedebista é o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams.
            Nos últimos dias, os resultados econômicos vêm perdendo espaço para a crise política e o possível afastamento da presidente Dilma. Até mesmo jornais especializados em economia têm dado mais atenção ao desenrolar das discussões em Brasília. Mesmo assim, alguns resultados, nada animadores, foram divulgados. O Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,62% em julho, maior taxa para o mês, desde 2004. No ano, o acumulado é de 6,83%, enquanto que nos últimos doze meses a inflação brasileira avançou 9,56%. Já a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) do IBGE voltou a recuar em junho e caiu 6,3% no semestre. O índice mostrou redução de 0,3% frente a maio e de 3,2% na comparação com o mesmo mês do ano passado. As montadoras de veículos tiveram queda de 14,9% na produção, em julho. A Marcopolo, fabricante de carrocerias, manterá a redução de jornada por mais três meses. A Volkswagen renegociou acordo de reajuste salarial e congelou os salários dos operários, em Taubaté. O índice de inadimplência da indústria de componentes automotivos cresceu 32,6%, em comparação a igual período do ano passado.
            Não faltam críticas ao ajuste fiscal proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e endossado pela presidente Dilma. Para o economista da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos, o governo “não tem como fazer o ajuste que eles haviam imaginado. Os cortes que eles fizeram e continuam fazendo já são maiores do que era previsto e não houve reversão. Ajuste fiscal em meio à desaceleração é contraproducente. O que eles fizeram foi um desajuste fiscal.” e complementa, dizendo que “se a dívida pública for aumentar, é melhor que aumente por um programa de gastos que tire a economia da recessão, do que por um programa de corte de gastos que produza uma recessão”.
            No que concerne à política monetária, a expectativa era a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom). A questão central era a utilização ou não do termo “vigilante”, o principal protagonista da decisão. As apostas do mercado financeiro se concentravam na sua aparição, pois indicaria uma política monetária mais dura. Não demorou a tardar e “vigilância” apareceu, o que na linguagem “bancocentralez” é traduzido como a existência de uma possibilidade de nova elevação da Selic. Na visão de analistas do mercado financeiro, o BC apontou o fim de alta do juro, mas continua “vigilante” (obviamente) e preparado para responder a qualquer percalço apresentado pela taxa de inflação.
                        Para concluir, vale a pena apresentar alguns contrassensos do atual momento político brasileiro. Dos 27 senadores que compõem a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, que irão votar a recondução do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, 13 deles possuem inquérito aberto pelo próprio procurador. O relator da CPI do BNDES na Câmara, José Rocha (PR), teve 69% de todo o dinheiro utilizado em sua campanha doado por quatro empresas que deveriam ser investigadas. José Dirceu, um dos principais nomes do PT foi preso, mais uma vez, com a suspeita de ter continuado recebendo dinheiro ilegal enquanto já cumpria pena por ter sido condenado no escândalo do Mensalão.
            E, por fim, sai Lula, entra João Santana. O marqueteiro do PT é, atualmente, a principal esperança do Partido. Sua grande missão no momento é convencer a todos que as coisas vão melhorar.
            Na falta de ações concretas pelos líderes do partido, vale apelar para todos os possíveis salvadores e continuar a “espera de um milagre”.



[i]Advogado e Pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mais uma dose amarga

Semana de 26 de julho a 02 de agosto de 2015

Rosângela Palhano Ramalho[i]

Caro leitor. A semana foi coroada por mais um ato insano do Copom (Comitê de Política Monetária). Pela sétima vez consecutiva, o Comitê aumentou a taxa básica de juros que passou de 13,75% para 14,25%. De presente, o consumidor brasileiro deve continuar pagando 48,4% ao ano pelo crédito pessoal e aproximadamente 372% ao ano de juros para financiar o cartão de crédito. Os juros anuais do cheque especial chegam a 241,3%. Estes números foram divulgados pelo próprio Banco Central. Uma verdadeira extorsão. Os bancos agradecem. As projeções dão conta de que os lucros bancários no segundo trimestre serão recordes. Que o diga o Bradesco, primeiro a divulgar os resultados. Com lucro líquido de R$ 4,47 bilhões no trimestre, 18,4% a mais que no segundo trimestre de 2014, o banco comemora, via aumento dos spreads, a má fase da economia brasileira.
O esforço do governo segue no sentido de domar uma inflação indomável. A teoria econômica dominante continua a afirmar que a inflação é de demanda, mas a realidade insiste em não se encaixar no padrão definido nos escritórios dos economistas. Levantamento feito pelo professor Ernesto Lozardo da Fundação Getúlio Vargas e divulgado no jornal Valor Econômico, mostra que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial da inflação brasileira, é composto por dois grandes grupos: preços livres e administrados. Os primeiros representam 76% do IPCA e os últimos, os 24% restantes. Segundo o autor, de janeiro a maio de 2015, o IPCA subiu 5,23% em virtude da alta de 3,36% dos preços livres e de 11,21% dos administrados. Só a energia elétrica residencial subiu, neste período, 37,6%.
Mesmo com todos os indícios, a equipe econômica insiste em continuar receitando o mesmo purgante para uma doença que ela própria ajuda a propagar. Desde o início do ano já aconteceram cinco reuniões do Copom e a decisão foi a mesma: precisamos de mais juros pois a inflação é “resiliente”. A taxa passou de 11,75%, em janeiro, para os 14,25% atuais.
A decisão foi recebida com indignação pela Abimaq (Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos) que se apressou em afirmar que “... a alta dos juros significa uma verdadeira catástrofe para o já combalido setor produtivo...”. Pois bem. O faturamento líquido da indústria brasileira de máquinas e equipamentos caiu 13,5% em junho comparado a junho de 2014 e 2,9% comparado a maio do ano atual. A utilização da capacidade instalada do setor, segundo a Abimaq, foi 65,3% em junho, 10,4% menor que o verificado em junho do ano anterior e o número de trabalhadores empregados recuou 8,4%.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) acaba de divulgar que o nível da atividade da indústria paulista caiu 1,3% comparado a maio. Dos 20 setores pesquisados, 14 apresentaram queda. Para o segundo semestre, a instituição afirma que o cenário tende a piorar. As vendas de veículos continuam definhando e fecharão julho com queda de 22%. Já a Associação Brasileira do Papelão Ondulado, afirmou que as vendas de papelão cairão 2,5%, em 2015, o que significa produção menor de caixas, acessórios e chapas, essenciais para a produção de embalagens.
A contração da atividade, segundo o Boletim Focus do Banco Central, será de 1,76% e não para de piorar. O Banco Fibra já rebaixou sua projeção de queda de 1,7% para 3,1%. Alheia à realidade, a equipe econômica continua a perseguir seus objetivos por mais incompatíveis que sejam. Enquanto ajuda a minar a atividade produtiva, turbina sua dívida com juros altos e tenta levar adiante o ajuste fiscal. Porém, a queda na arrecadação e o aumento nas despesas geraram déficit primário nas contas do Governo Central de 0,06% do PIB, no primeiro semestre do ano. O compromisso com a nova meta de 0,15% do PIB, para o superávit primário, parece cada vez mais distante. Mas, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, continua na torcida. Com fé, ele afirma que a recuperação começará no último trimestre.
É fé demais!

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br
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quarta-feira, 29 de julho de 2015

O que o governo está fazendo para tirar o país do buraco?

Semana de 20 a 26 de julho de 2015

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

A política econômica adotada no segundo governo Dilma está cada vez mais alinhada à direita. Quem parece ser o maior responsável por isso é o atual Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A culpa, porém, não é só dele e, segundo pesquisa do instituto MDA, o povo já sabe disso: 84,6% dos entrevistados afirmam que “a presidente não está sabendo lidar com a crise econômica”.
Também, não era de se esperar o contrário. Graças, principalmente, aos preços administrados represados no ano passado, como da energia e combustíveis, e de questões climáticas e sazonais, que afetaram alguns produtos agropecuários, a inflação está próxima de atingir os dois dígitos este ano. Isto se reflete no poder aquisitivo da população: o reajuste real do salário das categorias que têm data base no primeiro semestre foi de apenas 0,8%, enquanto no ano passado havia sido de 1,54%. Já o governo prevê uma redução real de 6,39% na massa salarial dos brasileiros em 2015. Além da inflação elevada, a atividade fraca é outro fator que reduz o poder de barganha dos trabalhadores e leva a esta previsão.
Falando em atividade fraca, nos últimos doze meses fechados em junho de 2015, o saldo líquido de empregos registrados pelo Caged foi de queda de 601,9 mil postos, sendo 345,4 mil apenas no presente ano. Em junho, a indústria apresentou uma demissão líquida de 64,2 mil, os serviços de 39,1 mil e a construção civil de 24,1 mil. Apenas a agropecuária teve um saldo positivo, de 44 mil admitidos a mais do que os demitidos.
Este é um dos motivos apresentados pelo governo para a criação do Programa de Proteção ao Emprego, que prevê a redução de até 30% da jornada de trabalho nas empresas em dificuldade financeira. Como contrapartida, porém, o trabalhador terá uma redução de até 15% em seu salário nominal (a redução para a empresa será de até 30%, sendo que até 15% da remuneração será coberta pelo FAT), o que deve agravar ainda mais a já combalida demanda por bens e serviços finais.
Pra não me alongar no relato da triste realidade brasileira, cito apenas estes outros fatos: 1) o uso da capacidade instalada, medida pela CNI, chegou ao menor patamar desde que a instituição iniciou o registro em janeiro de 2011, com 65% de uso; 2) a ociosidade na indústria de veículos comerciais pesados, segundo a fabricante do setor MAN, está em 70%; 3) a venda de eletrodomésticos caiu 11%, na comparação do primeiro semestre de 2015 com o mesmo período de 2014; e 4) diante da queda na lucratividade (de 7% para 1,5%) e na venda de aço (menos 18,6% comparando os primeiros semestres de 2015 e 2014), o setor distribuidor de aço reduziu em 11% seu quadro de trabalhadores.
Dito isto, podemos retornar ao que iniciou a presente análise: a condução da política econômica. O que o governo está fazendo para tirar o país do buraco? Luiz Fernando de Paula, professor da UERJ, chamou a política atual de “contração fiscal expansionista”. A adoção desta agenda, ou seja, a elevação do contingenciamento dos gastos do governo de R$ 69,9 bilhões para R$79,4 bi, feita no dia 22 do mês corrente, e a obtenção de um superávit primário de R$ 8,7 bi (dinheiro não gasto, mas destinado ao pagamento dos juros), ambos previstos para o orçamento de 2015, levaria automaticamente a um crescimento econômico futuro. O governo não percebe que tais medidas de política fiscal, irão comprometer imediatamente toda a economia, pois a redução na demanda do governo atinge todos os demais setores, seja direta ou indiretamente.
Pelo lado da política monetária, o que se vê é mais contração. Esta não tem nenhum interesse em ser expansionista, pois, segundo a fé dos diretores do Banco Central, a “resiliente” inflação brasileira deve ser combatida com o de sempre, a elevação dos juros. Este cegueira ideológica não permite ver que a contrapartida para a economia é o encarecimento dos custos dos financiamentos privado e público. Isto se reflete na dívida pública e no pagamento dos juros, os mesmos problemas que o governo pretende resolver por meio da política fiscal contracionista. O contraditório, como mostra Paulo Feldman, da FEA/USP, é que, se a taxa de juros fosse de 9%, a redução do custo da dívida, em 2015, seria de R$ 100 bi, valor superior ao contingenciamento e superávit somados.
E olhe que nem falamos dos efeitos deletérios de longo prazo que a retirada de recursos pode trazer à educação, saúde, infraestrutura, etc.
Parece que se pretende sair do buraco cavando um maior ainda. Quem sabe querem chegar à China!

[i] Doutorando do PPGE/UFBA, Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

À beira da ruptura

Semana de 13 a 19 de julho de 2015

Nelson Rosas Ribeiro[i]

O Banco Central (BC) continua a divulgar os dados que mostram a desaceleração da economia. Em março, a retração foi de 1,53%, em abril, de 0,88%, e em maio a economia cresceu 0,03%. Nos cinco primeiros meses a desaceleração foi de 2,64%. O volume das vendas caiu 0,9%, em maio, em relação a abril, e a confiança dos industriais acompanhou o pessimismo geral. Em julho, o índice caiu 1,7% em relação a junho.
As grandes montadoras do país tiveram uma perda de R$ 13,3 bilhões no faturamento até junho e a indústria de autopeças caiu 15%. A queda nas vendas de caminhões arrastou o setor de implementos para estes veículos que teve uma redução de 40,4% nas vendas.
Segundo os dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a mesma situação pode ser observada nos níveis de desemprego. Em junho, a indústria paulista demitiu 27,5 mil empregados fazendo o nível de emprego cair de 1%, em relação a maio. No ano, o setor industrial fechou 62,5 mil vagas, com uma queda de 2,4%, em relação ao mesmo período de 2014. A Fiesp estima que, em 2015, serão fechados 150 mil empregos na indústria de transformação. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra que apenas em junho, foram encerradas 102,6 mil vagas no país e para o ano são estimadas um milhão de demissões.
As micro e pequenas empresas também estão sendo afetadas. Em São Paulo, uma pesquisa Datafolha mostra que 13% delas correm o risco de falência em 90 dias, ou seja, 28 mil delas.
Do exterior também não chegam boas notícias. O governo dos EUA reduziu a previsão de crescimento do PIB, em 2015, de 3% para 2% e a produção industrial da zona do euro caiu 0,4%, em maio, e da União Europeia, 0,3%. Sabendo-se que a China graças à intensa intervenção reduzindo a taxa de juros pela quarta vez e liberando o compulsório pensa conseguir chegar aos 7% de crescimento este ano.
É evidente que, com a recessão, a receita do governo cairia. Só a equipe econômica não sabia e agora está entalada com a verificação que, no primeiro semestre, o superávit no orçamento é próximo à zero. O ministro Levy não sabe o que fazer para economizar os R$ 55 bilhões prometidos (1,1% do PIB) para o superávit primário, o que é considerado praticamente impossível. A Receita Federal já estima que a arrecadação no ano perderá R$ 38 bilhões, atingindo apenas R$ 810 bilhões e o PIB terá uma retração de 1,5%. Impossibilitado de aumentar a receita parece que restará ao “homem da tesoura”, o ministro Levy, a alternativa de aumentar o tamanho da tesoura elevando o contingenciamento das despesas e correndo o risco de paralisar o país.
Apesar de todo este sufoco há uma coisa que não pode ser tocada: a taxa de juros. Continuamos como campeões do mundo jogando em um time em parceria com a Moldávia, Namíbia, Bielorrússia e Quirguistão. O nosso BC, baseando-se na velha e desmoralizada doutrina ideológica dos Chicago boys, continua acreditando, apesar de todas as evidências, que nossa inflação é de demanda e para contê-la aumenta sucessivamente a taxa de referência, a Selic. O BC juntamente com a austeridade fiscal são os grandes responsáveis pela desaceleração da economia.
O agravamento da crise econômica intensifica os conflitos sociais e políticos e as denúncias e apuração das falcatruas investigadas na “operação lava jato”, e outras em andamento, têm acrescentado a esta mistura explosiva perigosos elementos que empurram o país para um impasse próximo à ruptura. As investigações encaminharam-se em direção a dirigentes do PMDB e particularmente aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. Também o senador Fernando Collor entrou na lista dos denunciados. E desta vez Lula não escapou. A Procuradoria da República no Distrito Federal abriu uma investigação criminal contra ele por tráfico de influência em favor da Odebrecht.
Do jeito que vai, “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Corda bamba

Semana de 06 a 12 de julho de 2015

Raphael Correia Lima Alves de Sena[i]

Mais vulnerável do que nunca, a Presidente Dilma Rousseff busca de todas as formas possíveis a restauração de sua governabilidade e a sua manutenção no cargo. A tese de impeachment/cassação, que ficou um breve período afastada dos holofotes, voltou à tona e em três frentes distintas. A primeira delas se desenrola no Tribunal de Contas da União (TCU), onde é esperada uma rejeição unânime das contas do governo. O órgão não tem poder para abrir um processo de impeachment, mas fornece uma bela base jurídica para que isso ocorra. Em outra frente prosseguem duas ações de investigação judicial eleitoral, nas quais o PSDB alega abuso de poder político e econômico na campanha eleitoral. Nesse caso, se a demanda dos tucanos for julgada procedente, pode ocorrer a cassação da diplomação da chapa, e o consequente afastamento da Presidente. E, a última frente, refere-se a outra ação do PSDB na qual se pede a cassação de Dilma em uma ação de impugnação de mandato eletivo.
Na economia, a crise segue sem sinal de reversão. O IPCA de junho atingiu 0,79%, totalizando 8,89% no acumulado de doze meses. Mesmo com a maior alta em doze meses, desde 2003, o resultado do mês foi abaixo do previsto por analistas. Mas, não há muito que comemorar. A previsão para o final do presente ano é de algo acima de 9%. O setor automotivo continua em queda, e o balanço divulgado pela Anfavea, entidade que representa o setor, mostra que o primeiro semestre do ano apresentou uma redução de 18,5% no número de veículos que saíram da linha de montagem, em comparação a igual período do ano passado. Um dado interessante do IPCA foi que, pela primeira vez no ano, houve deflação no preço do carro novo, recuo de 0,31%.
Diante da situação do setor automobilístico, a Presidente editou a MP 680 que cria o Programa de Proteção ao Emprego (PPE). Com o programa, as empresas podem decidir, juntamente com os sindicatos, a redução dos salários dos trabalhadores em até 30% e parte desse valor será compensado pelo governo. A medida visa evitar demissões e é umbilicalmente ligada ao setor automotivo. Embora a medida encontre posições divergentes entre centrais sindicais e sindicatos, a primeira vista, ela não difere muito do atual “layoff” que já teve 16,6 mil requisições até junho deste ano. Economistas esperam que o novo programa tenha impacto sobre até 50 mil trabalhadores, ou seja, 0,13% do total da mão-de-obra do país.
E se é que há alguma boa notícia econômica, ela vem das expectativas dos analistas da proximidade de encerramento do aperto monetário. Houve um crescimento nas apostas de que os aumentos da taxa Selic estão perto do fim. Essa possibilidade surge por conta da revisão, para baixo, da previsão da inflação, no próximo ano, o que leva à “crença” de que as “expectativas inflacionárias estão ancoradas”, ou seja, o remédio já foi dado na dosagem adequada e pode ser relaxado. De qualquer forma, o setor produtivo deve estar ansioso para que isso se materialize.
A China voltou a chamar a atenção do mundo, mas dessa vez por conta de expressivas perdas nas suas bolsas de valores. Nas últimas semanas, houve uma queda de cerca três trilhões de dólares no valor das ações chinesas. Como consequência, os metais atingiram o menor preço desde 2008. A preocupação com o gigante do oriente é maior do que com a Grécia, em virtude do papel de demandante global de commodities e o contágio que isso pode provocar em diversos países. Entretanto, especialistas veem poucas chances de que essa turbulência prejudique a economia chinesa. Já a Grécia continua a luta para conseguir um acordo com a Troika.
Por aqui no Brasil, alguns deputados da base governista estão de fato acompanhando as notícias econômicas em tempo real. O deputado Romero Jucá (PMDB-RR) e o deputado Nilto Tatto (PT-SP) costuraram uma emenda ao projeto de lei que altera a LDO 2015, mesmo contra a vontade do próprio governo, e propuseram uma redução na meta de superávit primário para 0,4% do PIB. Algo mais crível, mas que não teve o endosso no ministro Joaquim Levy. A esperança é que não ocorra a surpresa de outra alteração aos 45 do segundo tempo, como houve no ano passado.
E no meio de tudo isso, Dilma balança para lá e balança para cá. Tá difícil manter o equilíbrio, e o poder.

[i]Advogado e Pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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terça-feira, 14 de julho de 2015

Entrevista com o Prof. Nelson Rosas.


Participação do Prof. Nelson Rosas no programa JPB 1° edição, da TV Cabo Branco, onde comenta sobre o uso do crédito consignado. Confira aqui.




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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Recuperação no segundo semestre: o grande mito

Semana de 29 de junho a 05 de julho de 2015

Rosângela Palhano Ramalho[i]

A situação da presidente Dilma é delicada. Pesquisa divulgada pela CNI-Ibope apurou que o percentual de pessoas que considera o governo ótimo ou bom caiu de 12%, em março, para atuais 9%. A rejeição foi de 68%. É a pior avaliação de um governo registrada nos últimos 29 anos. O resultado gerou pressão de todos os lados. A oposição pede a renúncia da presidente e a base do governo espera que o ajuste fiscal mostre resultados. Mas quando?
O ministro da Fazenda Joaquim Levy, tardiamente, admitiu a desaceleração econômica. Cinicamente, assim como o ex-ministro Guido Mantega, Levy dá declarações, faz previsões baseadas em crenças e depois finge que nada disse. Sua primeira informação, assim que assumiu o cargo, foi a de que o ajuste seria necessário e promoveria o crescimento. Mas logo se apressou em minimizar a queda de 0,2% do PIB no primeiro trimestre, argumentando: “Pode ter tido uma ‘escorregadinha’, mas a realidade se aflora”. E continua a defender a crença de que a recuperação virá no segundo semestre. Se “... tomarmos as providências necessárias com rapidez, nós temos bastante chance de ver um segundo semestre, (...), favorável para a economia”.
Convido o leitor a olhar a realidade, os fatos. Estamos em julho, primeiro mês do segundo semestre. E logo em maio, o tão sonhado superávit primário do otimista ministro Levy degringolou. A conta de juros, obviamente, não para de crescer e chegou a R$ 408,762 bilhões. A dívida bruta do governo fechará 2015 em 62,7% do PIB, alta de 3,8% em relação a dezembro de 2014. A meta do superávit de 1,1% transita agora entre 0,6% e 0,8%. Temos ainda “inflação de demanda” (!?) combatida ferozmente com juros de 13,75% e taxa de juros de longo prazo, que subiu de 6% para 6,5%. Segundo a Fecomercio-SP a contração da demanda se estenderá por mais tempo em virtude da alta do desemprego, da inflação e dos juros.
Pelo lado da oferta, as montadoras pedem socorro às matrizes no exterior. As filiais brasileiras já receberam, segundo o Banco Central, US$ 2,36 bilhões, desde o início do ano. E o mercado de veículos novos, finalizou o primeiro semestre com queda de 20,6%. Sob a ameaça de 400 demissões, os trabalhadores da Mitsubishi em Goiás sinalizam uma greve. A empresa dará férias coletivas por dez dias. Em férias coletivas nas duas primeiras semanas de julho, está também parte dos funcionários da Fiat, da Hyundai, da Nissan, da Honda e da Scania. Já a Mercedes-Benz sugeriu reduzir em 10% o salário dos trabalhadores no ABC paulista e cortar 20% da jornada de trabalho no intuito de manter, por mais um ano, os empregos. No ABC, a Volkswagen suspenderá os contratos de 2.357 trabalhadores, ao desativar o terceiro turno do parque industrial. No Rio de Janeiro, a fabricante de caminhões MAN vai colocar 600 operários em layoff ao desativar o segundo turno de produção. A Volvo, em Curitiba, também afastará entre 400 e 600 metalúrgicos.
A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE detectou que, entre novembro de 2014 e maio deste ano, a massa salarial real, sem o décimo terceiro salário, caiu 10%. A queda acontece após oito meses de desaceleração do mercado de trabalho e sua magnitude é maior do que a registrada em 2009. Ainda segundo o IBGE a taxa de desocupação no país, em maio, foi de 6,7%. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) vem registrando quedas nas vagas de trabalho com carteira assinada. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), até maio, foram perdidos 593,4 mil empregos formais. Sabiamente, o professor do Instituto de Economia da UFRJ, João Sabóia afirma que o ajuste é “...a melhor receita para uma recessão...”. Assim como Levy, o Banco Centra discorda. Segundo Alexandre Tombini, a “...recuperação do consumo deverá ocorrer a um ritmo moderado e sustentável.” E o diretor de política monetária Luiz Awazu Pereira declarou que o ajuste constrói “...uma sólida base para um novo ciclo de crescimento sustentável”.
Se este é o caminho sólido para o crescimento, melhor pegar um atalho!



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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