quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Pra onde vamos?

Semana de 17 a 23 de agosto de 2015

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

A conjuntura brasileira está um verdadeiro caos. Seja na política ou na economia, os acontecimentos não têm sido nada favoráveis à maior parte dos brasileiros e nem à popularidade do governo.
Quase um mês depois do vice-presidente da República, Michel Temer, ter utilizado frases que irritaram o Planalto, tais como “Crise desagradável” e “É preciso que alguém tenha capacidade de reunificar a todos”, ele próprio abdicou do papel de articulador político. O motivo apontado seria a pouca receptividade de algumas de suas ações, pelas duas maiores figuras do governo: a presidente Dilma, por exemplo, não o teria convidado para a avaliação das manifestações pró-impeachment de 16 de agosto, e o ministro Joaquim Levy, que tem sido intransigente com as demandas advindas do Legislativo.
No dia 20 de agosto, ocorreram, em 25 estados, as manifestações convocadas por algumas centrais sindicais, partidos e entidades civis. Nelas o governo recebeu o apoio de 190 mil pessoas, segundo os organizadores, ou 73 mil, segundo a PM. Nos cartazes eram vistas palavras em defesa da democracia, manutenção da presidente, agradecimento por políticas de inclusão, etc. Mas nem tudo foram flores. Muitos dos “manifestantes pró-Dilma” (entre aspas, pois, para alguns, a manifestação não era a favor da presidente), embora por razões distintas, expuseram dois temas que têm dado força ao movimento pró-impeachment: a Petrobrás e a política econômica.
Quanto à Petrobrás, mesmo que os manifestantes pró-Dilma (sem aspas) tenham levantado a velha bandeira do “petróleo é nosso”, não se pode deixar de mencionar a Operação Lava-Jato. Segundo a investigação, a corrupção (maior bandeira dos pró-impeachment) foi tamanha que a estimativa das multas para as empresas envolvidas pode chegar a R$ 13 bilhões. A Camargo Corrêa, participante do cartel nas licitações da petroleira, resolveu colaborar com as investigações ao fechar novo acordo para pagar R$ 101,6 milhões e entregar provas que enriquecem o inquérito. Segundo as investigações, existia um “clube VIP” que fraudava as licitações das obras da Petrobrás, composto por Odebrecht, OAS, UTC, Galvão Engenharia, Andrade Gutierrez e a própria Camargo. Posteriormente, este cartel cresceu para um total de 23 participantes.
Em relação à economia, as notícias da semana são pouco animadoras. Eis algumas manchetes: “Setor de serviços no Brasil tem pior primeiro semestre desde 2012”, “Emprego na indústria tem 45ª queda seguida e registra o pior semestre da série histórica”, “Intenção de consumo recua nas cinco regiões e atinge nível mais baixo desde janeiro de 2010”, “Indicador da FGV cai pelo 9º mês e não aponta para o fim da recessão”, “‘Prévia’ indica que PIB caiu mais de 1% no 2º trimestre”, “Mercado projeta primeiro biênio de recessão em 85 anos” e “Total de desempregados cresce 56% em um ano”.
Mas a questão que provoca divergências entre os dois movimentos, pró e contra Dilma, é a política econômica, ou seja, o que o governo faz para melhorar a economia. Para os pró-impeachment, basta que se tenha menos Estado e mais mercado, a velha bandeira neoliberal. Para os “pró-Dilma”, o problema é o Ajuste Fiscal, que, além de diminuir os gastos do governo e elevar os impostos, tem reduzido os direitos trabalhistas e derrubado os investimentos públicos em infraestrutura e moradia. E por falar nisso, o “Partido dos Trabalhadores” vem mostrando novos sinais de “tucanização” (ou simplesmente neoliberalização): o governo pretende arrecadar US$ 6 bilhões, só este ano, caso deem certo as operações de abertura de capital da Caixa Seguridade, BR Distribuidora e IRB Brasil (esta última seria a venda da participação da União no capital da empresa). Além destas, estão na mira do mercado a Caixa Econômica Federal, a Infraero e as lotéricas.
Para piorar a situação dos trabalhadores, um dia antes de suas manifestações, a Ordem dos Advogados do Brasil e as Confederações Nacionais da Indústria, da Saúde e do Transporte haviam emitido a Carta à Nação, segundo a qual “O Brasil se encontra numa crise ética, política e econômica que demanda ações [...] Independentemente de posições partidárias”. Afirmando ainda que “Deve-se [...] reduzir imediatamente o tamanho do Estado”, o texto dá um claro sinal de que, para os patrões, com ou sem impeachment, o importante é que se busque “implementar [...] medidas para melhorar o ambiente de negócios no país”.
Eis o que nos espera...

[i] Doutorando do PPGE/UFBA, Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)
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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Seminário Permanente

O PROGEB e o Observatório Econômico convida a todos para assistirem o Seminário a ser realizado na próxima quinta feira, às 15h, na UFPB. Participem!


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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Das crises aos protestos

Semana de 10 a 16 de agosto de 2015

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Continuamos sem boas notícias para os nossos leitores, o que não é surpresa. A crise continua e se desenvolverá durante todo o ano de 2015 e 2016. O que nos revolta é a ingenuidade ou má fé das entidades oficiais quando se surpreendem e são obrigadas a admitir o que para nós é obvio. Agora é o Boletim Focus do Banco Central (BC) que já prevê uma queda de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de -0,5% no próximo. Os dados que mostram a desaceleração são abundantes. A indústria paulista fecha 30,5 mil vagas, em julho, das quais 6.661 foram da responsabilidade da indústria de veículos. No acumulado de janeiro a julho foram 92,5 mil postos de trabalho a menos. A Fiat de Betim, pela quarta vez, dará férias coletivas à parte dos trabalhadores. A Iveco, em Sete Lagoas (MG), deu férias coletivas em junho e agora pretende adotar o “layoff” por 5 meses. Até a linha de montagem do blindado Guarani pode ser paralisada por falta de encomendas do exército. O setor amarga a queda de 43,1% das vendas e 45,4% da produção, neste ano. A Mercedes-Benz comunicou ao sindicato dos metalúrgicos que demitirá a partir de 1 de setembro, cerca de 2.000 trabalhadores. A General Motors também iniciou demissões em sua fábrica de São José dos Campos e os demitidos já ultrapassam os 500, o que já corresponde a 10% do total empregado.
Esta situação reflete-se no comércio varejista que, em maio, havia reduzido de 0,9% seu volume de vendas, em relação a abril e agora, em junho, reduziu 0,3%, em relação a maio. Por outro lado o índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) recuou pelo 8º mês consecutivo caindo agora 3,9%.
Resumindo a situação, as estimativas das consultas do Boletim Focus apontam para uma retração do PIB, ao longo de 8 trimestres, até o primeiro trimestre de 2016. O ano atual pode apresentar a maior queda do PIB nos últimos 35 anos.
É claro que, com tal ambiente dos negócios, a arrecadação dos impostos teria de cair tornando quase inútil todo o esforço fiscal que se vem tentando realizar. No período de janeiro a agosto o governo já registra um déficit de R$ 18 bilhões o que torna difícil atingir a meta de superávit de R$5,8 bilhões até dezembro.
Só os bancos continuam como os grandes beneficiários. Os quatro maiores, Santander, Banco do Brasil, Itaú Unibanco e Bradesco terminaram o segundo trimestre com um lucro líquido de R$15,1 bilhões, 17% maior que o do mesmo período de 2014. Só o Banco do Brasil lucrou R$ 3,01 bilhões, resultado 6,3% maior que o do ano anterior.
Avaliando a situação a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota do país de BAA2 para BAA3. É a segunda agência a fazer este rebaixamento sendo antecedida pela Standard & Poor’s. Esta nota é a última antes da perda do tal “grau de investimento” que representa o atestado de bom pagador concedido pelas agências internacionais.
No terreno político a semana ferveu com reuniões e conchavos acontecendo na tentativa de garantir a governabilidade da presidente Dilma. Sucederam-se encontros entre Renan, Levy e um grupo de senadores, entre Lula e Temer, entre Lula e vários ministros, etc. Destes encontros resultou um “acordão” que envolve (segundo as notícias) decisões do TSE, do TC e do STF bem como uma plataforma de propostas a serem votadas no congresso. Entretanto, prosseguem as investigações da lava-jato ameaçando a todos e avançando agora em direção ao ministério do planejamento e às obras das usinas de Belo Monte e Angra 3.
Este foi o combustível para as manifestações “espontâneas” convocadas pelos “movimentos independentes” que dependem de financiamentos da Fiesp, Febraban e de associações de médicos (caso da organização Vem pra Rua). No entanto as palavras de ordem centrais foram a corrupção e o “fora Dilma e o PT”. Apesar do resultado ter ficado aquém do esperado o petismo sente-se encurralado e incapaz de encontrar uma explicação para a corrupção. E é por isso que as denúncias são tão arrasadoras e comprometem a credibilidade da organização e do governo Dilma.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A espera de um milagre

Semana de 03 a 09 de agosto de 2015

Raphael Correia Lima Alves de Sena[i]

Com a avaliação de que a presidente Dilma Rousseff perde as condições para governar o país, Michel Temer, vice-presidente, passa a ser, na visão de líderes políticos, a última garantia de governabilidade. A transição negociada já é a principal solução encontrada para abreviar a saída do governo eleito no ano passado. A tônica dos protestos marcados para o dia 16 de agosto continuará sendo o processo de impeachment e o movimento por novas eleições que tem sido encabeçado, principalmente, por aliados do senador Aécio Neves (PSDB). O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), continua com seus atritos como o poder Executivo. Além da briga com Rodrigo Janot, procurador-geral da República, o novo alvo do peemedebista é o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams.
            Nos últimos dias, os resultados econômicos vêm perdendo espaço para a crise política e o possível afastamento da presidente Dilma. Até mesmo jornais especializados em economia têm dado mais atenção ao desenrolar das discussões em Brasília. Mesmo assim, alguns resultados, nada animadores, foram divulgados. O Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,62% em julho, maior taxa para o mês, desde 2004. No ano, o acumulado é de 6,83%, enquanto que nos últimos doze meses a inflação brasileira avançou 9,56%. Já a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF) do IBGE voltou a recuar em junho e caiu 6,3% no semestre. O índice mostrou redução de 0,3% frente a maio e de 3,2% na comparação com o mesmo mês do ano passado. As montadoras de veículos tiveram queda de 14,9% na produção, em julho. A Marcopolo, fabricante de carrocerias, manterá a redução de jornada por mais três meses. A Volkswagen renegociou acordo de reajuste salarial e congelou os salários dos operários, em Taubaté. O índice de inadimplência da indústria de componentes automotivos cresceu 32,6%, em comparação a igual período do ano passado.
            Não faltam críticas ao ajuste fiscal proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e endossado pela presidente Dilma. Para o economista da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos, o governo “não tem como fazer o ajuste que eles haviam imaginado. Os cortes que eles fizeram e continuam fazendo já são maiores do que era previsto e não houve reversão. Ajuste fiscal em meio à desaceleração é contraproducente. O que eles fizeram foi um desajuste fiscal.” e complementa, dizendo que “se a dívida pública for aumentar, é melhor que aumente por um programa de gastos que tire a economia da recessão, do que por um programa de corte de gastos que produza uma recessão”.
            No que concerne à política monetária, a expectativa era a divulgação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom). A questão central era a utilização ou não do termo “vigilante”, o principal protagonista da decisão. As apostas do mercado financeiro se concentravam na sua aparição, pois indicaria uma política monetária mais dura. Não demorou a tardar e “vigilância” apareceu, o que na linguagem “bancocentralez” é traduzido como a existência de uma possibilidade de nova elevação da Selic. Na visão de analistas do mercado financeiro, o BC apontou o fim de alta do juro, mas continua “vigilante” (obviamente) e preparado para responder a qualquer percalço apresentado pela taxa de inflação.
                        Para concluir, vale a pena apresentar alguns contrassensos do atual momento político brasileiro. Dos 27 senadores que compõem a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, que irão votar a recondução do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, 13 deles possuem inquérito aberto pelo próprio procurador. O relator da CPI do BNDES na Câmara, José Rocha (PR), teve 69% de todo o dinheiro utilizado em sua campanha doado por quatro empresas que deveriam ser investigadas. José Dirceu, um dos principais nomes do PT foi preso, mais uma vez, com a suspeita de ter continuado recebendo dinheiro ilegal enquanto já cumpria pena por ter sido condenado no escândalo do Mensalão.
            E, por fim, sai Lula, entra João Santana. O marqueteiro do PT é, atualmente, a principal esperança do Partido. Sua grande missão no momento é convencer a todos que as coisas vão melhorar.
            Na falta de ações concretas pelos líderes do partido, vale apelar para todos os possíveis salvadores e continuar a “espera de um milagre”.



[i]Advogado e Pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mais uma dose amarga

Semana de 26 de julho a 02 de agosto de 2015

Rosângela Palhano Ramalho[i]

Caro leitor. A semana foi coroada por mais um ato insano do Copom (Comitê de Política Monetária). Pela sétima vez consecutiva, o Comitê aumentou a taxa básica de juros que passou de 13,75% para 14,25%. De presente, o consumidor brasileiro deve continuar pagando 48,4% ao ano pelo crédito pessoal e aproximadamente 372% ao ano de juros para financiar o cartão de crédito. Os juros anuais do cheque especial chegam a 241,3%. Estes números foram divulgados pelo próprio Banco Central. Uma verdadeira extorsão. Os bancos agradecem. As projeções dão conta de que os lucros bancários no segundo trimestre serão recordes. Que o diga o Bradesco, primeiro a divulgar os resultados. Com lucro líquido de R$ 4,47 bilhões no trimestre, 18,4% a mais que no segundo trimestre de 2014, o banco comemora, via aumento dos spreads, a má fase da economia brasileira.
O esforço do governo segue no sentido de domar uma inflação indomável. A teoria econômica dominante continua a afirmar que a inflação é de demanda, mas a realidade insiste em não se encaixar no padrão definido nos escritórios dos economistas. Levantamento feito pelo professor Ernesto Lozardo da Fundação Getúlio Vargas e divulgado no jornal Valor Econômico, mostra que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), indicador oficial da inflação brasileira, é composto por dois grandes grupos: preços livres e administrados. Os primeiros representam 76% do IPCA e os últimos, os 24% restantes. Segundo o autor, de janeiro a maio de 2015, o IPCA subiu 5,23% em virtude da alta de 3,36% dos preços livres e de 11,21% dos administrados. Só a energia elétrica residencial subiu, neste período, 37,6%.
Mesmo com todos os indícios, a equipe econômica insiste em continuar receitando o mesmo purgante para uma doença que ela própria ajuda a propagar. Desde o início do ano já aconteceram cinco reuniões do Copom e a decisão foi a mesma: precisamos de mais juros pois a inflação é “resiliente”. A taxa passou de 11,75%, em janeiro, para os 14,25% atuais.
A decisão foi recebida com indignação pela Abimaq (Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos) que se apressou em afirmar que “... a alta dos juros significa uma verdadeira catástrofe para o já combalido setor produtivo...”. Pois bem. O faturamento líquido da indústria brasileira de máquinas e equipamentos caiu 13,5% em junho comparado a junho de 2014 e 2,9% comparado a maio do ano atual. A utilização da capacidade instalada do setor, segundo a Abimaq, foi 65,3% em junho, 10,4% menor que o verificado em junho do ano anterior e o número de trabalhadores empregados recuou 8,4%.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) acaba de divulgar que o nível da atividade da indústria paulista caiu 1,3% comparado a maio. Dos 20 setores pesquisados, 14 apresentaram queda. Para o segundo semestre, a instituição afirma que o cenário tende a piorar. As vendas de veículos continuam definhando e fecharão julho com queda de 22%. Já a Associação Brasileira do Papelão Ondulado, afirmou que as vendas de papelão cairão 2,5%, em 2015, o que significa produção menor de caixas, acessórios e chapas, essenciais para a produção de embalagens.
A contração da atividade, segundo o Boletim Focus do Banco Central, será de 1,76% e não para de piorar. O Banco Fibra já rebaixou sua projeção de queda de 1,7% para 3,1%. Alheia à realidade, a equipe econômica continua a perseguir seus objetivos por mais incompatíveis que sejam. Enquanto ajuda a minar a atividade produtiva, turbina sua dívida com juros altos e tenta levar adiante o ajuste fiscal. Porém, a queda na arrecadação e o aumento nas despesas geraram déficit primário nas contas do Governo Central de 0,06% do PIB, no primeiro semestre do ano. O compromisso com a nova meta de 0,15% do PIB, para o superávit primário, parece cada vez mais distante. Mas, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, continua na torcida. Com fé, ele afirma que a recuperação começará no último trimestre.
É fé demais!

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br
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quarta-feira, 29 de julho de 2015

O que o governo está fazendo para tirar o país do buraco?

Semana de 20 a 26 de julho de 2015

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

A política econômica adotada no segundo governo Dilma está cada vez mais alinhada à direita. Quem parece ser o maior responsável por isso é o atual Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A culpa, porém, não é só dele e, segundo pesquisa do instituto MDA, o povo já sabe disso: 84,6% dos entrevistados afirmam que “a presidente não está sabendo lidar com a crise econômica”.
Também, não era de se esperar o contrário. Graças, principalmente, aos preços administrados represados no ano passado, como da energia e combustíveis, e de questões climáticas e sazonais, que afetaram alguns produtos agropecuários, a inflação está próxima de atingir os dois dígitos este ano. Isto se reflete no poder aquisitivo da população: o reajuste real do salário das categorias que têm data base no primeiro semestre foi de apenas 0,8%, enquanto no ano passado havia sido de 1,54%. Já o governo prevê uma redução real de 6,39% na massa salarial dos brasileiros em 2015. Além da inflação elevada, a atividade fraca é outro fator que reduz o poder de barganha dos trabalhadores e leva a esta previsão.
Falando em atividade fraca, nos últimos doze meses fechados em junho de 2015, o saldo líquido de empregos registrados pelo Caged foi de queda de 601,9 mil postos, sendo 345,4 mil apenas no presente ano. Em junho, a indústria apresentou uma demissão líquida de 64,2 mil, os serviços de 39,1 mil e a construção civil de 24,1 mil. Apenas a agropecuária teve um saldo positivo, de 44 mil admitidos a mais do que os demitidos.
Este é um dos motivos apresentados pelo governo para a criação do Programa de Proteção ao Emprego, que prevê a redução de até 30% da jornada de trabalho nas empresas em dificuldade financeira. Como contrapartida, porém, o trabalhador terá uma redução de até 15% em seu salário nominal (a redução para a empresa será de até 30%, sendo que até 15% da remuneração será coberta pelo FAT), o que deve agravar ainda mais a já combalida demanda por bens e serviços finais.
Pra não me alongar no relato da triste realidade brasileira, cito apenas estes outros fatos: 1) o uso da capacidade instalada, medida pela CNI, chegou ao menor patamar desde que a instituição iniciou o registro em janeiro de 2011, com 65% de uso; 2) a ociosidade na indústria de veículos comerciais pesados, segundo a fabricante do setor MAN, está em 70%; 3) a venda de eletrodomésticos caiu 11%, na comparação do primeiro semestre de 2015 com o mesmo período de 2014; e 4) diante da queda na lucratividade (de 7% para 1,5%) e na venda de aço (menos 18,6% comparando os primeiros semestres de 2015 e 2014), o setor distribuidor de aço reduziu em 11% seu quadro de trabalhadores.
Dito isto, podemos retornar ao que iniciou a presente análise: a condução da política econômica. O que o governo está fazendo para tirar o país do buraco? Luiz Fernando de Paula, professor da UERJ, chamou a política atual de “contração fiscal expansionista”. A adoção desta agenda, ou seja, a elevação do contingenciamento dos gastos do governo de R$ 69,9 bilhões para R$79,4 bi, feita no dia 22 do mês corrente, e a obtenção de um superávit primário de R$ 8,7 bi (dinheiro não gasto, mas destinado ao pagamento dos juros), ambos previstos para o orçamento de 2015, levaria automaticamente a um crescimento econômico futuro. O governo não percebe que tais medidas de política fiscal, irão comprometer imediatamente toda a economia, pois a redução na demanda do governo atinge todos os demais setores, seja direta ou indiretamente.
Pelo lado da política monetária, o que se vê é mais contração. Esta não tem nenhum interesse em ser expansionista, pois, segundo a fé dos diretores do Banco Central, a “resiliente” inflação brasileira deve ser combatida com o de sempre, a elevação dos juros. Este cegueira ideológica não permite ver que a contrapartida para a economia é o encarecimento dos custos dos financiamentos privado e público. Isto se reflete na dívida pública e no pagamento dos juros, os mesmos problemas que o governo pretende resolver por meio da política fiscal contracionista. O contraditório, como mostra Paulo Feldman, da FEA/USP, é que, se a taxa de juros fosse de 9%, a redução do custo da dívida, em 2015, seria de R$ 100 bi, valor superior ao contingenciamento e superávit somados.
E olhe que nem falamos dos efeitos deletérios de longo prazo que a retirada de recursos pode trazer à educação, saúde, infraestrutura, etc.
Parece que se pretende sair do buraco cavando um maior ainda. Quem sabe querem chegar à China!

[i] Doutorando do PPGE/UFBA, Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

À beira da ruptura

Semana de 13 a 19 de julho de 2015

Nelson Rosas Ribeiro[i]

O Banco Central (BC) continua a divulgar os dados que mostram a desaceleração da economia. Em março, a retração foi de 1,53%, em abril, de 0,88%, e em maio a economia cresceu 0,03%. Nos cinco primeiros meses a desaceleração foi de 2,64%. O volume das vendas caiu 0,9%, em maio, em relação a abril, e a confiança dos industriais acompanhou o pessimismo geral. Em julho, o índice caiu 1,7% em relação a junho.
As grandes montadoras do país tiveram uma perda de R$ 13,3 bilhões no faturamento até junho e a indústria de autopeças caiu 15%. A queda nas vendas de caminhões arrastou o setor de implementos para estes veículos que teve uma redução de 40,4% nas vendas.
Segundo os dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a mesma situação pode ser observada nos níveis de desemprego. Em junho, a indústria paulista demitiu 27,5 mil empregados fazendo o nível de emprego cair de 1%, em relação a maio. No ano, o setor industrial fechou 62,5 mil vagas, com uma queda de 2,4%, em relação ao mesmo período de 2014. A Fiesp estima que, em 2015, serão fechados 150 mil empregos na indústria de transformação. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra que apenas em junho, foram encerradas 102,6 mil vagas no país e para o ano são estimadas um milhão de demissões.
As micro e pequenas empresas também estão sendo afetadas. Em São Paulo, uma pesquisa Datafolha mostra que 13% delas correm o risco de falência em 90 dias, ou seja, 28 mil delas.
Do exterior também não chegam boas notícias. O governo dos EUA reduziu a previsão de crescimento do PIB, em 2015, de 3% para 2% e a produção industrial da zona do euro caiu 0,4%, em maio, e da União Europeia, 0,3%. Sabendo-se que a China graças à intensa intervenção reduzindo a taxa de juros pela quarta vez e liberando o compulsório pensa conseguir chegar aos 7% de crescimento este ano.
É evidente que, com a recessão, a receita do governo cairia. Só a equipe econômica não sabia e agora está entalada com a verificação que, no primeiro semestre, o superávit no orçamento é próximo à zero. O ministro Levy não sabe o que fazer para economizar os R$ 55 bilhões prometidos (1,1% do PIB) para o superávit primário, o que é considerado praticamente impossível. A Receita Federal já estima que a arrecadação no ano perderá R$ 38 bilhões, atingindo apenas R$ 810 bilhões e o PIB terá uma retração de 1,5%. Impossibilitado de aumentar a receita parece que restará ao “homem da tesoura”, o ministro Levy, a alternativa de aumentar o tamanho da tesoura elevando o contingenciamento das despesas e correndo o risco de paralisar o país.
Apesar de todo este sufoco há uma coisa que não pode ser tocada: a taxa de juros. Continuamos como campeões do mundo jogando em um time em parceria com a Moldávia, Namíbia, Bielorrússia e Quirguistão. O nosso BC, baseando-se na velha e desmoralizada doutrina ideológica dos Chicago boys, continua acreditando, apesar de todas as evidências, que nossa inflação é de demanda e para contê-la aumenta sucessivamente a taxa de referência, a Selic. O BC juntamente com a austeridade fiscal são os grandes responsáveis pela desaceleração da economia.
O agravamento da crise econômica intensifica os conflitos sociais e políticos e as denúncias e apuração das falcatruas investigadas na “operação lava jato”, e outras em andamento, têm acrescentado a esta mistura explosiva perigosos elementos que empurram o país para um impasse próximo à ruptura. As investigações encaminharam-se em direção a dirigentes do PMDB e particularmente aos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. Também o senador Fernando Collor entrou na lista dos denunciados. E desta vez Lula não escapou. A Procuradoria da República no Distrito Federal abriu uma investigação criminal contra ele por tráfico de influência em favor da Odebrecht.
Do jeito que vai, “se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.

[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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