quinta-feira, 11 de março de 2010

Economia planetária na rampa de lançamento

Semana de 25 a 31 de Janeiro de 2010

O acontecimento mais marcante da semana em análise foi o Fórum de Davos, que, ao completar 40 anos, procurou disfarçar a sua postura liberal ortodoxa. A nova postura de Davos é decorrência da preocupação com a necessidade de fortalecer a “governança global”, criando um modelo de gestão dos riscos sistêmicos de efeitos generalizados sobre todos os países. O fórum tenta apontar ao mundo as saídas para a crise, que, segundo os dados e a opinião dos especialistas, se encontra numa fase ainda preocupante e muito distante da estabilidade.
Com uma unanimidade nunca vista desde a Conferência de Bretton Woods (1944), duas grandes novidades se destacaram lá: a identificação do sistema financeiro mundial como o vilão da “odisséia” econômica contemporânea e o reconhecimento inequívoco de que os países emergentes passaram, de Estados susceptíveis a colapsos, a países que poderão salvar o mundo.
Com relação à primeira, as lideranças do mundo concluíram em conjunto que é necessário reforçar o sistema financeiro global. Quanto à segunda, serve de exemplo a declaração do presidente do Deutsche Bank, Joseph Ackermann: "Não subestimem os emergentes! Pois lá vivenciaremos um intenso desenvolvimento, que muito ajudará aos países industrializados".
As mesmas preocupações manifestaram-se nos pronunciamentos das instituições financeiras internacionais.
O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, acredita que serão os países emergentes que tirarão o mundo da crise. Com efeito, o FMI prevê que, em 2010, a China crescerá 10%, a Índia, 8%,  quanto a Alemanha ficará abaixo dos 2%. É de salientar que se espera um crescimento de até dois terços do fluxo de capital privado para os mercados emergentes, principalmente para o Brasil e a  China. Segundo informação do Instituto Internacional de Finanças (IIF), associação que reúne os maiores bancos do mundo, estes dois países se encontram na dianteira da recuperação global. A perspectiva do IIF é de que, nesse ano, a entrada de capitais estrangeiros nos mercados emergentes atinja US$ 722 bilhões, valor muito superior, conforme dito anteriormente, aos US$ 435 bilhões estimados para o ano de 2009. Na análise do IIF, após um recuo de 2,5% em 2009, a economia global deverá crescer 3,2% em 2010, sendo que as economias maduras devem avançar até 2,4%, enquanto os mercados emergentes crescerão 6,1%.
Peter Sands, um dos principais executivos do banco britânico Standard Chartered Bank, afirmou que “essa crise econômica pôde rapidamente deslocar o poder econômico no mundo (...) do Ocidente para o Oriente". Segundo ele, o poder econômico afasta-se dos que "consomem e se endividam, para se aproximar daqueles que poupam e produzem". Ele se referia diretamente à mudança da liderança, dos endividados EUA, para a Índia e a China.
Outra questão em destaque foi a vantagem que o intervencionismo, momentaneamente, vem obtendo contra o “liberalismo.
Nesta semana, o Presidente do Conselho de Estabilidade Financeira, Mario Draghi, anunciou a existência de reguladores globais que estão trabalhando em favor de propostas para a criação de uma agência central, para gerir as falências de bancos. Ele revelou que as autoridades estão avaliando ideias sobre uma sobretaxação de capital ou de capital especulativo, para instituições consideradas grandes demais para entrarem em colapso. O ministro de Finanças da Grã-Bretanha, Alistair Darling, disse à Reuters: "Primeiramente concordamos que o que quer que façamos precisa ser universal". Já o banco Central da China estabeleceu como meta assegurar que o crescimento de empréstimos não superaqueça a economia, como disse à Reuters o seu vice-presidente, Zhu Min: "Estamos muito cuidadosos ao gerir o crescimento dos empréstimos neste ano para reduzir o ritmo do avanço do crédito e garantir que o investimento esteja num nível equilibrado a ponto de evitar um super aquecimento (...) Guiaremos (não queremos utilizar a palavra controle, porque eles, os bancos, são entidades comerciais) o mercado e gostaríamos de ver um crescimento suave do crédito e da economia".
De uma maneira generalizada, os bancos centrais discordam sobre como agir depois da crise. As principais divergência encontram-se na escolha do momento para aumentar o juro e em quanto elevá-lo. Além disso, os políticos, principalmente europeus, temem que os gastos governamentais, aliados ao dinheiro fácil que os bancos centrais injetaram no sistema bancário, principalmente o de taxas de juros próximas de zero, entre outros, possam criar as condições para uma nova crise.
Enquanto estas questões são debatidas, a perspectiva da maioria das opiniões é de que a recuperação da economia mundial, ainda esse ano, deverá acontecer de forma irregular e multifacetada, a custa do abandono da prática ditada pela ortodoxia liberal e mantendo elevadas a taxa de desemprego e a inflação.
As notícias confirmam estas opiniões.
Nos Estados Unidos, a atenção volta-se para a política econômica do Governo, com Obama tentando cortar gastos e agradar os eleitores ao mesmo tempo. No dia 28, ele fez um discurso sobre o estado da união perante o Congresso, onde, no Orçamento para 2011, apresentou a diminuição das despesas do governo. Paul Krugman, personagem que aglutina os liberais insatisfeitos com o atual presidente norte-americano, considerou que isso equivalia a uma traição aos objetivos pelos quais os seguidores de Obama estiveram a trabalhar. Os dados, de 2009 da economia estadunidense, por sua vez, não melhoram o quadro geral. O deficit público esse ano deverá atingir 9,2% do PIB, a dívida pública deve subir para 67% do PIB e o pagamento de juros vai disparar para 3,2% do PIB. Obama pretende um congelamento de gastos que afetará todos os gastos discricionários das agências federais, excluindo defesa, assuntos internacionais, segurança interna e veteranos de guerra. Espera-se que, com essa medida, seja gerada uma economia de US$ 250 bilhões nos próximos dez anos. Ao mesmo tempo, o presidente americano anuncia um pacote para ajudar a classe média. No pacote, estão: a duplicação de incentivo fiscal de assistência a crianças de famílias com renda inferior a US$ 85 mil ao ano, um aumento de fundos federais para programas de atendimento infantil, um programa que limita os financiamentos de estudantes em 10% da renda acima da “renda básica de subsistência” e incentivos às famílias que cuidam de parentes idosos e aos trabalhadores que fazem poupanças para aposentadoria autônoma.
Nesse contexto, Ben Bernanke foi reconduzido, com apoio do Senado dos EUA, para o seu segundo mandato a frente do Federal Reserve – FED. A aprovação na votação do senado foi obtida com 70 votos contra 30. O democrata Sheldon Whitehouse comentou: “Se você é juiz do jogo de nossa recuperação, parece que o placar pode ser resumido na frase: Bancos venceram”.
Na Rússia, no quarto trimestre de 2009, dos US$ 42 bilhões de capitais privados previstos pelo Banco Central para entrarem no país, ingressaram apenas US$11,6 bilhões. No entanto, no terceiro trimestre, saíram US$ 33,4 bilhões. Em 2009, o PIB contraiu-se 8,5% em relação ao ano anterior, mas nos últimos dois trimestres consecutivos a economia vem se expandindo e estima-se, para este ano, um crescimento de, pelo menos, 3%. Nos bancos, a carteira de empréstimos considerados irrecuperáveis continua elevada, atingindo 20% para todo o setor. Contudo, o anúncio do governo de um deficit orçamentário de 5,9% foi bem inferior aos 7,7% que estavam projetados. Comenta-se que essa mudança, ou inflexão, deveu-se aos preços do petróleo.
Na China, o principal destaque da semana foi o corte de crédito bancário, que tem sido um dos motores do crescimento acelerado do país. Não se conhece, no entanto, a extensão dessa medida. O presidente da Comissão Reguladora do Setor Bancário disse na semana passada que o órgão espera que a soma dos novos empréstimos situar-se-á em torno de 7,5 trilhões de yuan neste ano. Comparados com os 9,59 trilhões de yuan em 2009, representam uma queda, mas, comparando-se com 2008, é mais do que o dobro.
No Brasil, o otimismo continua a prevalecer, empurrado pelas ações e propaganda do governo. Embora as receitas tenham aumentado em apenas 4,8%, as despesas primárias do governo federal cresceram 15%, em 2009, em valores nominais, a um ritmo mais acelerado do que no ano anterior. Diante do descompasso entre a arrecadação e as despesas, o superavit primário caiu substancialmente, se comparado a 2008, passando de R$ 71,438 bilhões para R$ 39,215 bilhões. Em percentagem do PIB caiu, de 2,38%, para 1,25%.
Tal como o Federal Reserve, FED, o Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil, BCB, manteve, nesse caso por unanimidade, a taxa básica de juro, Selic, em 8,75% ao ano, pelo menos até 17 de março, quando ocorrerá uma nova reunião. Os especialistas, porém, acreditam que, no final de 2010, ela atingirá os 11,25%.
A dívida bruta do governo brasileiro geral, que inclui os débitos da União, dos Estados e dos municípios, atingiu 64,1% do PIB em novembro de 2009, registrando um aumento acumulado de 7,8%, se comparado ao ano anterior. Considera-se que esse crescimento acentuado foi causado pelo aumento das operações de crédito do Tesouro a bancos estatais. No ano passado, foram concedidos, ao BNDES, R$ 100 bilhões, e já estão comprometidos R$ 80 bilhões para esse ano.
Nessa mesma semana, publicaram-se alguns índices que nos permitem fazer uma avaliação, ainda que superficial, do que os agentes económicos esperam da economia do país. O Índice de Confiança do Empresário Industrial relativo a Janeiro atingiu os 68,7%, o maior resultado em toda a série histórica, que teve início em 1999. Os resultados que se situam acima dos 50% indicam otimismo. Se comparado com o resultado obtido em outubro de 2009, o índice cresceu 2,8% e acumula um crescimento de 21,3% pontos desde janeiro do ano passado. Por sua vez, o Índice de Confiança do Consumidor cresceu 0,6%, entre dezembro e janeiro, passando, de 112,3, para 113 pontos. O Indicador Serasa Experian de Atividade Econômica, diz-nos que a economia do país cresceu 4,5% em novembro do ano passado, se comparado com igual período de 2008. Nesse mesmo tempo, o mercado voltou a projetar uma taxa de inflação acima da meta para 2010, de acordo com o Boletim Focus do Banco Central.
Em síntese: a economia planetária, o Brasil incluído, está na rampa de lançamento, através de medidas intervencionistas tímidas. Afinal, nem tanto ao mar nem tanto a terra. A dúvida que fica é saber se o impulsionador vai funcionar na medida necessária.

Texto escrito por:
Elivan Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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