quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Freio de arrumação

Semana de 16 a 22 de fevereiro de 2015

Nelson Rosas Ribeiro[i]

O nosso Chicago boy, conhecido como o “homem da tesoura”, agora candidata-se a um novo posto: o de homem da banha da cobra. Esta folclórica figura caminhava pelas feiras livres oferecendo um óleo capaz de curar todos os males do corpo e do espírito: era a famosa banha da cobra. O ministro Levy e seus parceiros (Nelson Barbosa e Alexandre Tombini), que, por acaso, constituem o pomposo Conselho Monetário Nacional (CMN), andam por aí em reuniões, conferências, entrevistas, jantares, a vender sua receita universal para todos os males da economia: ajuste fiscal e aperto monetário. Como consequência da política de austeridade proposta objetiva-se estabilizar a dívida pública e garantir o pagamento dos juros a fim de acalmar “o mercado” e restaurar a credibilidade do governo.
Em sua mais recente aventura, uma palestra para “investidores” em Nova York, o ministro desmanchou-se em promessas. Desculpou o governo Dilma por não ter feito o superávit primário em 2014 (estima-se um déficit primário de 0,6% do Produto Interno Bruto – PIB) afirmando que isto foi um pequeno “deslizamento” (slippage, em inglês, claro) que será corrigido com um pequeno freio de arrumação. Prometeu manter a meta de 1,2% do PIB para este ano, sem recorrer a cortes draconianos nem criar novos impostos. Falou na redução de alguns gastos como consequência de mudanças no seguro-desemprego, abono-salarial e pensão por morte, ressalvando que elas “não vão atingir a vida dos trabalhadores e famílias” (Muito bondoso, o senhor!). Não satisfeito ainda apresentou como argumento para sua austeridade os casos de dois grandes parceiros comerciais do Brasil, EUA e China, que estão também praticando políticas de restrição fiscais.
Parece que mentir virou um atributo dos nossos ministros da Fazenda. O Mantega irritou a todos com as suas e o Levy, mal começou, e já caminha na mesma direção. Primeiro, porque ele esqueceu de dizer que os EUA estimam um crescimento do seu PIB de 2,4%, em 2014, e a China, acima de 7%, enquanto o nosso ficará em torno de zero. Segundo, porque não é verdade que os dois países estão adotando políticas de austeridade. Nos EUA, por exemplo, o Federal Reserve (Fed), seu banco central, avisou que manterá as taxas de juros próximas à zero, ainda por um longo período e a China liberou alguns trilhões de Yuans para estimular sua economia, não satisfeita com os seus 7% de crescimento previstos.
 Qualquer economista sabe que quando uma economia entra em desaceleração restrições fiscais e monetárias empurram-na para o fundo do poço. É exatamente isto que o ministro Levy está fazendo e é revoltante o seu cinismo quando afirma “Todos nós lamentamos que o crescimento desacelerou”.
Onde está a lógica que justifica tais posições? Ficaram todos loucos?
O que inspira esta política econômica é a ideologia econômica dos Chicago boys. Esta foi a teoria que eles aprenderam e, como fanáticos talibãs, a aplicam por todo o mundo. Infelizmente esta é a ideologia dominante nos cursos de economia das universidades brasileiras, fiéis seguidoras das americanas.
Sem nenhuma comprovação empírica eles acreditam que, equilibrando as contas, garantindo ao capital financeiro o pagamento dos seus juros, cria-se a “credibilidade” no governo e, espontaneamente, os “investidores” começam a investir e o país volta a crescer. Só esquecem-se de dizer em que lugar do mundo isto ocorreu. Está aí a Grécia para provar o contrário. Após três anos de austeridade os gregos perderam a paciência e estão virando a mesa revoltados com o desemprego e a estagnação.
O freio de arrumação da política que estão executando agora não atingirá apenas os assalariados. Desta vez, a tesoura também vai atingir o setor produtivo, pois o alfaiate Levy já avisou: acabou o repasse dos recursos do Tesouro para o BNDES e os bancos públicos.
Mais uma vez alertamos nossos leitores. O ambiente internacional continua hostil e internamente aumenta o enceramento de empresas, o desemprego e a desaceleração da atividade econômica com todas as suas consequências.



[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Afinal, quem ganhou as eleições?

Semana de 09 a 15 de fevereiro de 2015

Raphael Correia Lima Alves de Sena[i]

O clima festivo do carnaval trouxe ao governo um pouco de sossego. Pelo menos por alguns dias as atenções encontram-se voltadas para a folia, enquanto que os resultados econômicos do ano passado ainda trazem uma melancólica atmosfera de fim de festa. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que atua como sinalizador do Produto Interno Bruto (PIB), encerrou o ano de 2014 com queda de 0,15%, em comparação com 2013. Na indústria, os indicadores de emprego mostram o ano passado como o pior desde 2009. A ocupação cedeu 3,2%, as horas pagas caíram 3,9% e a folha de pagamento real recuou 1,1%.
            Para o presente ano, as estimativas dos analistas estão se deteriorando rapidamente. O boletim Focus, do Banco Central, que previa, no fim de dezembro, uma alta de 0,76% do PIB para 2015, atualmente, aponta estagnação da economia. A previsão de inflação saltou de 6,5% para 7,15%. O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, descreve o corrente ano como o da “trindade impossível”. Para ele, o ajuste fiscal deverá ser mais expansivo do que o antecipado, o Executivo precisa ter apoio político para realizar os ajustes necessários na política fiscal e trazer a inflação para o centro da meta.
            Para o economista Caio Megale, o governo precisa que todas as medidas sejam aprovadas pelo Congresso sem que sofram alteração, e ainda serão necessários outros impostos. Pelos cálculos do Itaú, os ajustes feitos garantem um superávit primário de apenas 1%. Não é por acaso que um novo pacote para economizar mais R$ 10 bilhões virá até março. De acordo com o ministro do Trabalho, Manoel Dias, serão tomadas medidas na fiscalização nas empresas, redução do gasto com a saúde do trabalho e a formalização de 500 mil trabalhadores.
            Vale ressaltar a visão do professor de economia da PUC-SP, Ladislau Dowbor, que, em entrevista à revista Carta Capital, evidenciou o seguinte: “a visão geral que os desequilíbrios e os entraves ao crescimento se devem a excessivos gastos públicos constitui postura ideológica sem base técnica coerente”. O professor continua afirmando que “o desafio está na redução dos juros, que travam tanto a demanda como os investimentos”. Pelo menos um país, aparentemente, já se rebelou contra programa de austeridade fiscal que lhe foi imposto.
            O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, reafirmou ao Parlamento suas promessas: fim do programa econômico da Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), refeições e eletricidade de graça para os que não puderem pagar, recontratação de funcionários demitidos e aumento gradual do salário mínimo. Essa postura é apoiada por 67% dos gregos. No entanto, a Alemanha continua feroz opositora. Juntam-se ao coro, os governos português, espanhol e irlandês, temendo que seus eleitores possam ser encorajados a copiar o exemplo helênico.
            No campo político, a cada dia, novos depoimentos dos envolvidos na operação Lava-Jato complicam ainda mais a situação do Partido dos Trabalhadores (PT) e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, impõe derrotas sucessivas ao governo. Entretanto, pelo menos até agora, o impacto não foi realmente sentido pelo Planalto. A aprovação do orçamento impositivo, obrigação que o governo execute as emendas individuais de senadores e deputados ao Orçamento da União, pode sair sem custo extra para os cofres públicos. Na prática, os valores acrescentados não devem superar a média histórica de execução orçamentária.
            A despeito do péssimo momento econômico que o país atravessa, o lucro dos cinco maiores bancos brasileiros – Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander – cresceu 20%, em 2014. Não há reclamação alguma advinda do setor que navega em águas calmas. Quanto à Caixa, a ex-ministra do Planejamento, Miriam Belchior, assume a presidência, com a missão de avaliar a abertura de capital da empresa.
            Vale lembrar que, durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff fez um discurso de “defesa” e “fortalecimento” dos bancos públicos. Para os eleitores do PT, fica no ar aquela sensação de quem ganhou, mas não levou.



[i]Advogado e Pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Ajuste fiscal sem “recessão e retrocessos”?

Semana de 02 a 08 de fevereiro de 2015

Rosângela Palhano Ramalho[i]

Caro leitor. Enquanto assistimos o desmonte da Petrobras, através da escalada de novas denúncias, delações premiadas e finalmente, o afastamento da presidente da empresa, Graça Foster e de toda a sua diretoria, os rumos da economia continuam nebulosos.
A Grécia provocou nova onda de dissidências pela Europa, desta vez, por eleger um primeiro ministro de esquerda que se recusa a continuar implantando as medidas da troika e que prometeu ao povo tratar as “feridas” da austeridade. Mas, o Banco Central Europeu não aceita a proposta de Alexis Tsipras. Ele propôs um acordo com os credores europeus através de um programa de transição até junho, período em que poderia negociar os termos e as condições do pagamento que não comprometam a soberania nacional. Alemanha e Espanha recusam-se veementemente a renegociar. Tal fato não impediu que o premier grego corresse a Europa em busca de apoio. Desde 2010, a Grécia adota medidas de austeridade, mas a economia continua débil apresentando, nos quatro trimestres de 2014, taxas de crescimento do PIB de -3,1%, -0,4%, 0,9% e 1,9%. A situação econômica grega e a instabilidade entre Rússia e Ucrânia, têm tirado o sono dos que comandam a zona de euro, que ainda não mostra sinais de recuperação. Nos Estados Unidos, a recuperação continua cada vez mais incerta. O Institute for Supply Management, que reúne gerentes de compras, informou queda do índice que detecta o termômetro das encomendas, produção e contratação de mão de obra, pela terceira vez seguida. O índice caiu de 55,1 para 53,1, o que ainda representa uma expansão, embora em menor grau.
Em terras brasileiras, só os bancos comemoram. Juntos, Itaú-Unibanco, Bradesco e Santander lucraram R$ 37,5 bilhões, em 2014, cifra 25,8% maior que a apresentada em 2013. O Banco Safra fechou o ano com lucro líquido de R$ 1,55 bilhão, 13,9% mais que em 2013.
Fora isto, a situação continua preta. Somada ao escândalo sem precedentes na Petrobras, que arrasta para o caos dezenas de empresas, o racionamento de água e energia, é cada vez mais provável. O Boletim Focus já aferia um crescimento de apenas 0,03% para o PIB, mas o Credit Suisse estima que se houver racionamento de energia o PIB poderá cair em até 1,5%. A Consultoria GO Associados, ao considerar o racionamento, apura queda de 1,3%.
A atividade econômica segue lenta. Levantamentos mostram que a indústria pode ter finalizado o ano com o pior desempenho desde 2009, com queda de aproximadamente 3,1%. A indústria automobilística, que fechou o ano com queda de 7,1% nas vendas, continua a se arrastar. Em janeiro a queda foi de 18,8%, se comparada a janeiro de 2013, e em relação a dezembro foi de 31,4%. A Volkswagen vai fechar o terceiro turno na fábrica de Taubaté, em São Paulo, que segundo a empresa encontra-se com alta capacidade ociosa e ainda dará 20 dias de férias coletivas a partir de 23 de fevereiro. A GM abriu um Programa de Demissão Voluntária em São Caetano do Sul e São José dos Campos. A Ford, a Scania e a GM irão parar durante o carnaval. Até a Whirlpool, fabricante de produtos da linha branca, aderiu às férias coletivas em fábricas de São Paulo e Santa Catarina.
Embora o cenário interno se apresente nebuloso, Joaquim Levy, atual ministro da Fazenda, continua empenhado nas atribuições para as quais foi designado. Juntou-se à sua equipe o novo secretário de política econômica. Afonso de Mello Franco, engenheiro civil e doutor em Economia pela Universidade de Chicago, foi muito bem recebido. Segundo o seu amigo José Roberto Afonso, economista pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, ele é “o cara certo no lugar certo”, já que fez um “ajuste fiscal” no prédio onde morava, enquanto atuou como síndico. Pode?
Enquanto isso, Dilma discursa ao Congresso Nacional reafirmando descaradamente que, apesar do reequilíbrio fiscal ser necessário, não promoverá “recessão e retrocessos”. Economistas heterodoxos vinculados à Unicamp lançaram um texto intitulado “Política social e desenvolvimento” em que fazem críticas à nova política econômica. Segundo aqueles que antes apoiaram a reeleição de Dilma, a presidente cedeu aos apelos do mercado e à “fadinha da credibilidade” que promete, em meio à demanda cadente, reacender o espírito animal dos empresários. A quem a digníssima presidente quer enganar?
O purgante e os seus efeitos colaterais já são amplamente conhecidos. A Grécia que o diga.



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Teoria e Realidade

Semana de 26 de janeiro a 01 de fevereiro de 2015


Nelson Rosas Ribeiro[i]

Durante todo o ano de 2014, nas nossas análises, acompanhamos a evolução da economia mundial e nacional e identificamos a fase do ciclo econômico atual como a passagem da fase de crise para a fase de depressão. Agora, mais uma vez explicitamos que o instrumental teórico que nos serve de base é a teoria dos ciclos econômicos ou das crises cíclicas de superprodução. Lembramos que esta teoria nos ensina que a economia capitalista se desenvolve em ciclos e que estes ciclos são compostos de quatro fases: crise, depressão, reanimação e auge. Há uma abundante literatura sobre o assunto que, infelizmente, deixou de ser estudada nos cursos de economia por razões puramente ideológicas. Como consequência, os economistas perderam a capacidade de entender os fenômenos econômicos atuais e estão mais perdidos do que cego em tiroteio. A economia renuncia ao seu caráter de ciência e se transforma no mais puro charlatanismo ideológico sem qualquer utilidade a não ser defender o sistema atual.
Neste início de ano, os dados que vão sendo divulgados confirmam as análises que fizemos e que nos permitiu identificar a atual fase do ciclo como de depressão. Este quadro continua a caracterizar 2015, para desespero dos governos e das autoridades responsáveis pela política econômica.
Com exceção dos EUA, onde se observa uma lenta e duvidosa recuperação, o resto do mundo continua em convulsão. Embora o nosso ministro Levy não saiba, os maiores Bancos Centrais (BCs) do mundo, com exceção do Federal Reserve (Fed), Banco Central dos EUA, mantêm políticas expansionistas. Servem de exemplos o Q.E. (Quantitative Easing) do Banco Central Europeu (BCE), do Banco do Japão (Boj), do Banco da Suíça, do Banco da China, etc., bem como a redução dos juros da maioria esmagadora dos países (são exceções a Rússia, Venezuela e Brasil).
Por mais que desagrade ao “homem da tesoura” (o ministro Levy), a sua austeridade, está caminhando na contra mão, pois o mundo desenvolvido continua dependente de gigantescos estímulos monetários.
A equipe econômica anterior lutou desesperadamente contra essa situação de crise e utilizou as clássicas políticas keynesianas recomendadas. O ano eleitoral criou dificuldades excepcionais e, para ganhar as eleições, o governo exagerou na dosagem. Foi difícil agradar os banqueiros (juros altos), os empresários (redução de impostos, desonerações) e os trabalhadores (salários, distribuição de renda, criação de empregos) ao mesmo tempo. O caminho escolhido foi usar o Estado, o que levou ao comprometimento do equilíbrio orçamentário e ao endividamento. Era evidente que isto estava ocorrendo. O grande erro foi tentar enganar a todos e não assumir publicamente a opção pela não criação do superávit primário. Como resultado manteve-se o emprego e a renda, os bancos nadaram na abundância e os empresários, a duras penas, sobreviveram, mas o Estado chegou à beira da ruptura.
Para complicar, caíram sobre todos, as fúrias do destino, com a crise das chuvas (e da energia), a ganância da corrupção (com o caso “petrolão”) e o prolongamento da crise mundial.
Neste início de 2015 a situação da economia global continua no impasse, a crise da Petrobras deve agravar-se e atingir empresas em cadeia (setor siderúrgico, construção naval, empreiteiras, etc.), a crise hídrica e do setor elétrico mantém-se e a nova equipe econômica, possuída pela sua ideologia liberal fanática imposta pelo chicago boy Levy, empurra a economia para o fundo do poço.
Não temos qualquer dúvida e alertamos os leitores para o agravamento da situação da economia nacional, neste 2015. Haverá desaceleração da indústria, com possibilidade de fechamento de empresas, desemprego, redução de salários, elevação de juros e queda no consumo. O Banco Central (BC) continuará com sua estúpida elevação da taxa de juros Selic que não vai conter a inflação que estourará o teto da meta, pois os juros altos não fazem chover nem afetam os preços administrados pelo governo.
O cinismo com que o governo Dilma e o PT tentam enganar o povo, escondendo as consequências da política que pretendem implementar, poderá levá-los à desmoralização e a um fim melancólico.
É isto que nos espera nos próximos meses. Preparemo-nos todos!



[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A corda sempre estoura do lado mais fraco

Semana de 19 a 25 de janeiro de 2015

Raphael Correia Lima Alves de Sena[i]

Apesar das desculpas do governo e de dirigentes do PT o aperto continua a todo vapor. Dessa vez foram os tributos que entraram em cena: equiparação do IPI sobre cosméticos, aumento de PIS/Cofins sobre importação, aumento do IOF – Pessoa física, retorno do PIS/Cofins e Cide sobre combustíveis, IPI sobre bebidas frias e recomposição da alíquota de IPI para automóveis. O impacto esperado de todas essas medidas é uma economia de, aproximadamente, R$ 25 bilhões para os cofres do governo, em 2015. Todo esse esforço tem como objetivo atingir o superávit primário estabelecido para esse ano de 1,2% do PIB, ou seja, R$ 66 bilhões.
            As medidas anunciadas têm endosso do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de parte dos economistas brasileiros, principalmente da corrente ortodoxa. O diretor para o Hemisfério Ocidental do FMI, Alejandro Werner, disse que as medidas sobre pensão por morte, seguro-desemprego e impostos são passos acertados. No entanto, algo passa despercebido. Em um estudo desenvolvido pelo economista Amir Khair e denominado de “Imposto sobre grandes fortunas” (IGF), publicado em 2003, uma taxa de 1% sobre riqueza declarada à Receita Federal por pessoas jurídicas e físicas nesse ano proporcionaria uma receita fiscal de 1,89% do PIB, no mínimo. Assim, a instituição desse imposto, previsto na Constituição Federal de 1988, deveria ser, pelo menos, debatido pelos economistas e pelo governo. No entanto, ele passa despercebido, e, como a corda sempre estoura para o lado mais fraco, a conta vai para as classes menos favorecidas.
            O tema do IGF não é nem levantado pela mídia e nem pelos realizadores das políticas econômicas, mesmo depois do economista francês Thomas Piketty, autor da obra econômica mais discutida no ano passado, indicar tal imposto como uma forma de se alcançar uma melhor distribuição de renda. Estudos realizados por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e pela professora Lena Lavinas, da UFRJ, apontam na mesma direção. Entretanto, a discussão não aparece em nenhum programa econômico, nem mesmo por aquele desenvolvido pelo Partido dos Trabalhadores (PT), é isso mesmo, “Trabalhadores” (Nem parece!).
            A Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, já se mobiliza, juntamente como outras centrais, para realizar um protesto no Congresso Nacional. O presidente da central, Vagner Freitas (PT) declarou que “o governo tem que dizer claramente o que quer. Estamos preocupados com essa política recessiva junto com mudanças no seguro-desemprego”. Enquanto tudo isso ocorre por aqui no Brasil, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que tem respaldo da Executiva do partido da presidente, encontra-se em Davos “tentando melhorar a imagem desgastada do Brasil”. De lá, o ministro declarou que “pode haver um trimestre de recessão” e que o crescimento desse ano deverá ser próximo de zero.
Por aqui, o recente apagão que envolveu 10 estados brasileiros trouxe à tona a real possibilidade de racionamento de energia. Juntando isto com a crise hídrica que aflige o sudeste, o risco de recessão cresce, havendo previsões de que, nesse cenário, a atividade econômica encolha até 1,5% neste ano, segundo estimativas. Ainda assim, o Banco Central elevou a taxa Selic de 11,75% para 12,25%, utilizando-se do famoso antídoto para combater a inflação, que corre o real risco de superar 7%, em 2015. Novos aumentos na taxa básica de juros estão por vir nas próximas reuniões do Copom.
No resto do mundo, as atenções foram voltadas para o programa de estímulos de Banco Central Europeu (BCE) que injetará € 1,14 trilhões para tentar reaquecer a cambaleante economia europeia. O FMI reduziu a projeção para o crescimento da economia global, de 3,8% para 3,5%, neste ano. O Banco Central japonês estendeu seu programa de estímulos, enquanto que a china injetou US$ 8 bilhões no sistema financeiro do país.
“Ficou claro que vem remédio amargo pela frente”, declarou um empresário ao falar sobre o Brasil, em um almoço com Levy. Nesse mesmo evento, o ministro reiterou o compromisso com a manutenção dos avanços sociais conquistados nos últimos anos.
Será que Seguro-desemprego não é avanço social, Levy?



[i]Advogado e Pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O pau vai quebrar! (2)

Semana de 12 a 18 de janeiro de 2015

Rosângela Palhano Ramalho[i]

Em junho de 2011, divulgamos neste espaço uma análise com o título acima. Àquela época fazíamos referência às exigências de austeridade impostas a algumas economias europeias. A insatisfação social com o purgante econômico era crescente e o pau quebrava na Grécia. Medidas restritivas espalharam-se pela Europa. Reduções salariais atingiram a Alemanha, Espanha, Portugal, Irlanda, Romênia, Letônia. Trabalhadores também foram punidos na França, Itália, Bulgária, Polônia e Eslovênia. Embora bastante justificada, a austeridade econômica associada aos efeitos da crise, produziu milhões de desempregados (segundo a Eurostat, em 2014 serão 24,5 milhões de pessoas desempregadas na União Europeia) e baixíssimo crescimento. Para 2014, a Comissão Europeia rebaixou as previsões do PIB dos 18 países da zona do euro de 1,2% para 0,8%. A situação segundo o órgão, não melhorará significativamente: o crescimento de 2015 será de 1,1% e em 2016 de 1,7%. Sem perspectivas, há alguns dias, a Europa cogita implantar seu “quantitative easing”, apesar da insatisfação alemã. O advogado-geral do Tribunal de Justiça Europeu forneceu mais um argumento que favorece a ação. Segundo ele, a adoção de um novo programa de compras de bônus na zona do euro é compatível com o mandato do Banco Central Europeu, que pretende substituir a austeridade por estímulos monetários.
Mas, na contramão do mundo e também da “troika” (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu), o Brasil envereda pelos mesmos caminhos da austeridade, que embora não tenha produzido os efeitos prometidos na Europa, perdura como a única via de salvação apontada pela maioria dos economistas.
Além das medidas já anunciadas (aumento da taxa do cheque especial de 6% para 6,7% e do custo da linha de crédito consignado do INSS de 1,83% para 1,99% ao mês), a Caixa Econômica Federal, acabou de elevar as taxas do crédito imobiliário. A partir de 19 de janeiro de 2015, as linhas do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), para imóveis de até R$ 750 mil, e do Sistema Financeiro Imobiliário (SFI) acima deste limite, estarão mais caras.
Enquanto os purgantes são divulgados, a realidade econômica se apresenta cada vez mais adversa. As vendas do comércio varejista crescem 0,9% em novembro em relação a outubro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas, segundo os analistas os dados não indicam uma recuperação e sim uma antecipação das compras de dezembro, em virtude dos preços mais comportados. As lojas de eletrodomésticos e eletrônicos já confirmaram vendas fracas em dezembro. Segundo a Fecomercio, em São Paulo, o recuo será de 21,4% nas vendas na comparação com o mesmo mês de 2013.
O Boletim Focus do Banco Central que previa crescimento de 2,28% rebaixou a taxa para 0,15% em 2014. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial também revisou a sua previsão de crescimento do PIB, de 1,5% para 0,1%.
Para 2015, as previsões não ultrapassam 1,5%. E o cenário é cada vez pior. Na esteira do escândalo da Petrobras, está a previsão de milhares de trabalhadores na rua. Empresas em dificuldades, contratos encerrados, obras paradas. Some a isso a divulgação do IPCA. Nosso índice oficial de inflação fechou 2014 com alta de 6,41%. O resultado muito mais perto do teto do que do centro da meta, reforça os pedidos por mais juros. Mais juros, mais desemprego e austeridade! É o que se desenha para 2015.
Enquanto isso, a presidente Dilma, não toca no nome do ministro da Fazenda em seus discursos e emudece à medida que ele toma as decisões. Segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos 1.443 economistas que assinaram durante as eleições um manifesto a favor da presidente, Dilma “capitulou” diante dos mercados. Ajuste fiscal é “desatino” e os “espíritos animais” jamais despertarão diante de um ajuste fiscal. A Europa que o diga.
As principais centrais sindicais já organizam mobilizações nacionais no intuito de manter os empregos e benefícios e os movimentos sociais também. Tentando se antecipar às pressões, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, convocou as centrais para uma reunião no dia 29 de janeiro, para apresentar os impactos das medidas. O ministro já adiantou, vai apenas ouvir, mas não pretende mudar as decisões.
Como quem avisa amigo é, preparem-se: o pau vai quebrar! Mas, desta vez, será por aqui mesmo.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Crise e austeridade

Semana de 05 a 11 de janeiro de 2014
Nelson Rosas Ribeiro[i]

A situação da economia mundial continua a agravar-se. Apenas nos EUA se anuncia uma débil recuperação, insuficiente para que o Federal Reserve (Fed), banco central americano, decida aumentar as taxas de juros atualmente próximas a zero. Aliás, a presidente da instituição, Janet Yellen, já avisou que só após abril o assunto seria considerado, acalmando os “mercados”. Nos demais países as medidas de intervenção continuam sendo aplicadas desmentindo o ministro Levy que, em uma entrevista, declarou que “os estímulos fiscais e monetários saíram de cena”. Parece que ele se esqueceu de combinar com os presidentes dos BCs dos outros países.
Com efeito, o agravamento da situação na Alemanha, França e Itália, os três grandes da União Europeia (UE), e a ameaça de deflação tornam iminente a deflagração do Quantitative Easing (Q.E.) do Banco Central Europeu (BCE). O Japão já vem atuando neste sentido há algum tempo e agora é a vez da China que decidiu investir US$ 1,1 trilhão em projetos para impedir a queda do Produto Interno Bruto (PIB) abaixo dos 7%.
A situação é mais grave nos países mais fracos. Na Ucrânia, com a guerra, a desaceleração do PIB faz crescer o risco de calote. Na Grécia, o perigo de abandono da zona do euro vem aumentando, o governo caiu e as próximas eleições trazem a possibilidade de vitória para o partido da esquerda. A situação da Espanha também torna iminente a vitória de um novo partido de esquerda que altera o panorama eleitoral do país. Na Rússia, o perigo é a recessão.
Por mais que desagrade o “homem da tesoura” (o ministro Levy), a sua austeridade, está caminhando na contra mão, pois o mundo desenvolvido continua dependente de gigantescos estímulos monetários.
Este quadro adverso em nada contribui para aliviar a situação interna. A indústria continua desacelerando e as demissões aumentando. Os trabalhadores reagem e já há greves em São Paulo contra os despedimentos na Volkswagen e Mercedes Benz. A Fenabrave, entidade que representa as montadoras, já prevê que em 2015, as vendas cairão 0,5%. Em 2014, na comparação com 2013, o número de veículos licenciados caiu 7,1%.
Enquanto isso, o escândalo de Petrobrás ainda não atingiu o ponto máximo e já apresenta desdobramentos. A empresa será obrigada a fazer correções nos seus balanços para expurgar as propinas pagas e contabilizadas. Por seu lado, o Ministério Público prepara ações contra as empreiteiras como Camargo Corrêa, OAS, Mendes Junior, UTC, Galvão Engenharia, Engevix e seus diretores. Como estas empreiteiras tem outros contratos com o governo isto poderá provocar paralisação de obras o que ameaça a sobrevivência dessas empresas. Isto já está acontecendo com a OAS, que ficou oficialmente inadimplente ao não pagar uma dívida de R$ 100 milhões. A Engevix procura vender parte de seu portfólio para não cair na mesma situação.
O ministério Público ainda pretende convocar cindo grandes bancos (Bradesco, Itaú-Unibanco, HSBC e Santander) para explicarem a não comunicação ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão do Ministério da Fazenda, um conjunto de operações irregulares, ligadas à operação Lava-Jato, pois há suspeitas de conivência de funcionários e gerentes com as fraudes.
Se, do ponto de vista econômico, a situação do país é adversa, do ponto de vista político é ainda pior. Os ministérios de Dilma são um verdadeiro saco de gatos. Além da traição às promessas de campanha (a equipe econômica), há os feudos partidários (PT, PMDB, PDT, PSD, PC do B, etc.) que devem “garantir a governabilidade”, além da acomodação dos contrários Katia x Patrus.
Em plena desaceleração o programa de austeridade deverá agravar em muito o quadro. As medidas prometidas incluem restabelecimento e elevação de impostos, aumento de juros, contenção de despesas, restrição do crédito, aumento de preços administrados, etc. As consequências inevitáveis serão aumento do desemprego, queda dos salários e redução do consumo.
Imaginem quem primeiro pagará por isso?



[i] Professor Emérito da UFPB e Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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