sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As contradições das três faces do Estado Brasileiro

Semana de 16 a 22 de janeiro de 2012

Tatiana Losano de Abreu [i]

Até a otimista Organização das Nações Unidas (ONU) já reduziu a projeção da economia global para 2012. A estimativa, na melhor das hipóteses, é de crescimento de apenas 2,6%. O problema está na persistência do desemprego elevado, na crise da dívida na zona do euro e na adoção prematura de medidas de austeridade fiscal. Apesar deste diagnóstico, as medidas continuam. Espanha, França e Itália, seguindo a sugestão de Portugal, apostam na flexibilização do mercado de trabalho, na esperança de que a taxa de desemprego diminua, mesmo que seja através de contratações temporárias e da redução dos direitos trabalhistas.

Em nossas análises, insistimos em mostrar as tentativas dos governos de garantir os interesses do capital industrial e, principalmente, do capital financeiro em detrimento da classe trabalhadora. Esta realidade não existe apenas em momentos de crise, mas se torna evidente diante da necessidade de salvar os bancos e manter a lucratividade do mercado financeiro e das empresas. Ao comparar as políticas dos países europeus, ou até dos Estados Unidos, com a política econômica brasileira, o leitor poderá perceber grandes diferenças.

Estas diferenças vão além da conjuntura atual e encontram fundamento no diferente modelo de política econômica colocado em prática inicialmente pelo Governo Lula e mantido pelo governo Dilma: o projeto neodesenvolvimentista ou pós-consenso de Washington. Este modelo é diferente do nacional-desenvolvimentismo de Getúlio Vargas, da industrialização atrelada ao capital internacional colocada em prática por Jucelino Kubitscheck e do projeto neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Agora, o Estado é o indutor do crescimento econômico baseado no fortalecimento do capital privado e caracterizado por três vertentes: o Estado financiador, que utiliza o BNDES para fortalecer grupos privados; o Estado investidor, que financia obras de infra-estrutura, garantindo o emprego em setores estratégicos como a construção-civil; e o Estado Social, provedor de políticas sociais de mitigação da pobreza.

O fato de o Estado acumular tantas funções gera contradições, principalmente porque o governo é fortemente influenciado pelo mercado financeiro, por elites tradicionais e pela ortodoxia econômica. Foi diante desta pressão que Lula, no início do seu mandato, divulgou a ‘Carta ao povo brasileiro’, se comprometendo a honrar o pagamento dos credores e, deste modo, garantindo a manutenção da política macroeconômica do governo anterior, baseada na manutenção das altas taxas de juros, na política do superávit primário e nos cortes no orçamento.

A sucessora de Lula, Dilma Rousseff, deparou-se com o grande desafio de garantir a tri-face do Estado, conciliando os interesses do capital financeiro internacional e da elite do agronegócio, ao mesmo tempo em que ainda precisa evitar o acirramento da crise econômica no país e manter o prestígio diante da “inchada” classe C. Por isso, não é de se espantar que o agronegócio se fortaleça com o ‘reformulado’ código florestal; que a usina de Belo Monte seja construída mesmo sem aprovação do IBAMA e às custas do povo indígena da região; e que o BNDES financie grandes fusões e a privatização dos aeroportos, ao mesmo tempo que garante liquidez ao sistema financeiro e crédito barato ao pequeno empreendedor. Também não nos choquemos ao ver que, apesar da criação do Plano Nacional de Educação (PNE), prevendo o investimento de 7% do PIB no setor até 2020, a expansão dos gastos perdeu ritmo em 2011. Também foi vetada parte dos recursos que seriam investidos na saúde pública, agravando uma realidade que poderia levar a privatização do SUS. Já o superávit primário foi garantido pelo governo, com a arrecadação de R$93 bilhões em 2011. O povo brasileiro não reclamou, já que, no ano passado, foram gastos mais de 16 bilhões de reais para atender cerca de 320 mil famílias pobres. Além disso, a presidente presenteou o povo brasileiro com o aumento do salario mínimo que passou para R$ 622,00 no primeiro dia do ano e pretende diminuir o custo do empréstimo para pessoa física através da redução do IOF.

Seriam essas medidas suficientes para comprar o silêncio?



[i] Economista, Professora substituta do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A maldição do triplo A

Semana de 09 a 15 de janeiro de 2012

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor. Como anunciado nesta coluna na primeira semana de janeiro, o ano é novo, mas a realidade é velha. Infelizmente ainda não somos portadores nem de novas e, muito menos, de boas notícias.

Antes de fazer o comentário central desta análise semanal, trago informações da economia real: segundo o Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha, a produção industrial daquele país caiu 7% em novembro, em relação ao mesmo mês do ano passado. A crise está abatendo até mesmo o país mais forte da União Europeia: a economia alemã. Embora tenha crescido, no ano passado, 3%, ela encolheu 0,25%, no último trimestre de 2011. O número de desempregados da zona do euro chegou a 16 milhões de pessoas, e a taxa de crescimento prevista para a região, este ano, é de 1%. Os Estados Unidos, que vêm apresentando uma recuperação ainda tímida, divulgaram a criação de 200 mil empregos em dezembro, o que provocou a queda da taxa de desemprego, de 8,7%, para 8,5%. O índice de confiança do consumidor americano aumentou 9,3%, e as encomendas de bens duráveis também subiram. O país, que projeta um crescimento de 2,5% em 2012, teme agora sofrer contágio da crise européia.

Para driblar a crise, Nicolas Sarkozy, presidente da França, está negociando com a Alemanha a introdução de uma taxa sobre transações financeiras em toda a União Européia. Segundo levantamento francês, as transações financeiras diárias alcançam a cifra de US$ 4,6 trilhões. O objetivo seria taxar em 0,1% as ações e bônus e em 0,001% os outros produtos financeiros. Só isto renderia, à União Européia, uma receita anual superior a € 50 bilhões. Apesar de a iniciativa ser apoiada também pela Itália, David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, já se pronunciou contra. E os banqueiros franceses logo lembraram que a crise foi iniciada nos Estados Unidos, de forma que seria justo que a cobrança fosse universal. Se não houver acordo, a França anunciou que adotará sozinha a taxação a partir deste ano.

Em contrapartida, os “investidores” não sabem mais de onde sugar. O simples rumor de que a França poderia ter sua avaliação de risco rebaixada, o que indica um risco maior da sua capacidade de honrar o pagamento de suas dívidas, provocou uma correria para os Estados Unidos. O Tesouro dos Estados Unidos vendeu US$ 21 bilhões em títulos com vencimento em 10 anos e com o menor rendimento já registrado (1,9%).

No dia seguinte, o governo francês confirmou o rebaixamento da sua nota, pela Standard & Poor’s. A agência de classificação de risco reduziu a nota de crédito do país, que era a máxima, de AAA, para AA+. Além da França, a Áustria também perdeu o triplo A. Luxemburgo, Holanda, Finlândia e Alemanha são os únicos a conservarem a nota máxima.

O ministro das Finanças, François Baroin, minimizou a polêmica dizendo que a notícia não era boa, mas não era uma catástrofe e que, no pior dos cenários, a França ficou com a mesma classificação obtida pelos Estados Unidos. Finalizando sabiamente, o ministro declarou: “Não são as agências que decidem a política da França.” Temos que concordar. De fato, estas agências não decidem política alguma de país algum.

Prezado leitor. Se após esta enxurrada de informações, lhe fosse perguntado do que se ocupa então a Economia, não seria surpresa o surgimento de terríveis dúvidas. Afinal, somos bombardeados a todo o momento por diferentes tipos de informação, que nos levam a concluir que, para entender de Economia, basta saber como funcionam as Bolsas de Valores e como aplicar, ganhando dinheiro fácil, nas infinidades de produtos financeiros que estão à nossa disposição.

Aprendemos nos Manuais de Economia que a Ciência Econômica é uma ciência social que deve se preocupar com três questões básicas: O que e quanto produzir, como produzir e para quem produzir. Mas, hoje, no universo da economia, a instituição de maior importância é o “mercado”. Não o real, mas o financeiro. Além disso, especuladores ganharam status de investidores e agências de classificação de risco sobrepõem-se a tudo e a todos e ditam a solvência dos governos.

O leitor não deve se preocupar, afinal ele não está só. Estudantes de Economia e renomados economistas também já perderam o foco e acham natural que o sistema financeiro, que não gera nenhuma riqueza, se sobreponha a atividade produtiva e dite as regras de praticamente todas as economias do mundo.

E ai de quem não obtiver um triplo A!



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e crise na economia brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O que é globalização?

Semana de 02 a 08 de janeiro de 2012

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

No censo comum, a palavra globalização está impregnada por uma mítica ideia de progresso e desenvolvimento das relações sociais, advinda dos avanços do mundo moderno, os quais permitem a internacionalização do conhecimento e dos mais variados meios de satisfazer as necessidades humanas. Um olhar mais atento, que ultrapasse o senso comum, nos mostraria que a globalização é um movimento “natural” causado pelas necessidades das empresas.

Diante da concorrência, os empresários buscam expandir e, com isso, fortalecer seu capital, fazendo com que, cada vez mais, se produzam maiores lucro. Por outro lado, várias limitações se impõem às empresas nacionais: disponibilidade de recursos para novos investimentos (próprios ou financiados), infra-estrutura, número de concorrentes, limites do mercado consumidor local, abundância de mão de obra disponível e de matéria-prima, etc. O capital que for capaz de superar estes desafios, será o mais forte e vai dominar determinado setor, seja bancário, produtivo, comercial ou os três ao mesmo tempo. Mas, ao chegar a tal ponto, as empresas se deparam com outro problema: se o mercado nacional está ganho, para onde expandir agora? A resposta é simples: ir para os lugares onde os capitais tenham as menores dificuldades para crescer. Para obter lucro “não importa a cor nem o sabor”. O capital não tem e nem precisa ter nacionalidade. Basta ter lucratividade.

A ocupação das empresas começou com o estabelecimento do próprio sistema, quando as companhias de comércio deram sua contribuição para a acumulação inicial do capital. Nos dias atuais, a essência da internacionalização é a mesma, mas sob uma nova roupagem. Ao invés de caravelas, o capitalismo se utiliza de pressões políticas por meio de órgãos internacionais. A violência militar só é utilizada em última instância. Além disso, com as regulamentações da economia, por parte do Estado, os próprios governos podem facilitar, ou mesmo dificultar, o trabalho dos empresários.

Um caso que esta semana virou manchete, mas que não é o único, foi o do Japão. A terceira maior economia do mundo viu a parcela da população envolvida na produção de objetos físicos cair, de 27% no ano de 1970, para 17% em 2011. A causa disto foi a migração das empresas nacionais para outros países, ou seja, a transnacionalização dos capitais. Outro dado é alarmante: além do Japão, a Alemanha, a Itália, o Reino Unido e os EUA têm menos de 25% do PIB advindos da produção industrial.

Nos anos 2000, a saída líquida de capitais do Japão para investimento direto era de US$ 40 bi, enquanto que, em 2008, este número foi de US$ 130 bi. Para se ter uma ideia, os carros produzidos pela Toyota no território japonês correspondem a cerca de 50% da produção total da empresa. Já no caso da Nissan, este número é de apenas 25%. Segundo o presidente da Toyota, Akio Toyoda, “não faz sentido produzir no Japão”.

Mas por quê? O problema é que os custos oriundos de políticas fiscais desfavoráveis e leis trabalhistas rígidas aumentam o custo da produção. Soma-se a isso o câmbio desfavorável, que se valorizou 40% em relação ao dólar desde 2007. O resultado final é a redução da percentagem do PIB japonês no PIB mundial, que caiu, de 14% na década de 1990, para menos de 9% atualmente.

E para onde estão indo as empresas? Para os países onde o custo da produção seja menor. O queridinho dentre os países, atualmente, é a China, que tem o maior mercado mundial, mão de obra barata e grande quantidade de matérias-primas, além de dar incentivos fiscais e financeiros às empresas. Outro atrativo do país é o câmbio artificialmente desvalorizado, que, apenas com a conversão em outras moedas, permite a obtenção de uma grande vantagem no preço dos produtos. Mas, a coisa já começa a mudar por lá. Os trabalhadores estão se organizando em sindicatos e reivindicando melhores condições de trabalho. Empresas de calçados e artigos desportivos já se deslocaram para tigres vizinhos, como Vietnã e Malásia, que ainda não têm grandes movimentos sindicais organizados.

São estes atrativos que criam a integração, a nível mundial, das cadeias de produção, distribuição e consumo de mercadorias. Não é um movimento consciente e intencional comandado pelos homens, mas uma ação impulsionada pela racionalidade do capital. O consumo do fastfood pelo vietnamita acontece não porque o americano quer mal nutrir este cidadão, mas porque a produção e o consumo, no Vietnã, darão lucro à empresa americana.



[i] Mestre em Economia, professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.).

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ano Novo... Vida Velha

Semana de 26 de dezembro de 2011 a 01 de janeiro de 2012

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Já estamos em 2012, após a tradicional contagem regressiva e a entrada triunfal com direito a bebidas, comidas especiais, salvas de fogos, música, festas, etc.

Costuma-se dizer: Ano Novo... Vida Nova. Lamentavelmente, não é assim que podemos saudar o início de um novo movimento de rotação deste sofrido planeta que a inconsciência e a ganância teimam em destruir.

Do ponto de vista da economia, 2012 começa arrastando as mazelas herdadas do ano que terminou. Se 2011 foi mau, corremos o risco de ter um 2012 ainda pior. O pessimismo se espalha por todos os lados, e os analistas fazem previsões de estagnação na zona do euro, de crescimento do PIB dos EUA abaixo de 1,8%, que é o esperado para 2011, paralisação do Japão, queda no dinamismo dos emergentes, inclusive da China, onde a indústria apresentou uma contração em novembro passado.

Além da desaceleração, a economia chinesa vem enfrentando violentos movimentos grevistas onde os operários reivindicam maiores salários e melhores condições de trabalho. Por seu lado, o governo começa a tomar medidas restritivas ao capital estrangeiro reduzindo as vantagens até agora concedidas como, por exemplo, os baixos impostos e bons financiamentos.

Os países da zona do euro continuam a comandar a crise e, enquanto são tomadas medidas para salvar a moeda única, o sistema financeiro, silenciosamente, continua a construir cenários alternativos. Enquanto isso, a situação social se agrava, particularmente nos países mais vulneráveis, como Portugal, onde a desigualdade aumenta juntamente com o desemprego, diante das medidas de austeridade adotadas pelo novo governo, e na Espanha, onde o governo conservador recém-eleito já anunciou que não vai cumprir a meta do déficit fiscal prometida (4,4% do PIB em 2012).

Os grandes vilões do ano que passou continuam a ter sua sede em Wall Street e a amargar os prejuízos contabilizados. As maiores perdas ficaram com os bancos americanos. Só as ações do Bank of America tiveram uma queda de 58,3%. Mas não foram apenas os bancos americanos que perderam. Só três dos maiores bancos europeus, BNP Paribas, Société Générale e Crédit Agricole perderam US$ 67,268 bilhões em valor de mercado. E tudo isto apesar do apoio que têm recebido do Banco Central Europeu (BCE) que, na semana passada, fez uma mega operação de empréstimo que quase atingiu 500 bilhões de euros, com juros de 1%. O curioso é que boa parte deste dinheiro retornou a origem, pois a desconfiança nos mercados levou os mesmos bancos a depositá-los de volta no BCE em vez de realizarem operações de empréstimos.

Ao mesmo tempo em que despeja dinheiro facilmente nos bancos privados, o BCE resiste em comprar os títulos das dívidas soberanas dos países mais endividados, os PIIGS, fazendo as maiores exigências e impondo as mais duras restrições fiscais.

Como consequência desta situação, reduz-se o comércio mundial e os preços das commodities continuam em baixa, particularmente produtos como soja, milho, trigo, algodão e café, o que vem trazendo consequências para a balança comercial brasileira.

Por cá, o nacional patriotismo bateu palmas com a notícia de que o Brasil superou o Reino Unido roubando-lhe o posto de 6ª maior economia do mundo, tomando-se como critério o volume do Produto Interno Bruto (PIB). Na primeira linha dos entusiastas, como era de se esperar, estava o exagerado ministro Mantega, que acrescentou que, em 20 ou 30 anos, o país atingirá os níveis de desenvolvimento europeus. Na mesma Inglaterra, o Centro de Pesquisa para Economia e Negócios (CBER) também previu que a taxa de crescimento do PIB do Brasil, em 2012, ficará em torno de 2,5%, bem abaixo dos 4% do nosso ministro, enquanto a da Índia crescerá 6% e a da China, 7,6%.

Criticando a euforia, o comentarista Celso Ming comparou o PIB a uma caneca. Não interessa o tamanho da caneca, mas sim o que está dentro dela. Quanto ao conteúdo, basta verificar que o PIB per capta da Inglaterra é 3 vezes maior que o do Brasil. Isto para não falar na qualidade da educação, saúde, distribuição de renda, etc.



[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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sábado, 31 de dezembro de 2011

O velho barbudo

Semana de 19 a 25 de dezembro de 2011


Lucas Milanez de Lima Almeida*



Fim de ano. Para alguns, este é o tempo de celebrar o nascimento do filho de Deus, sua imagem e semelhança, nobre representante das vontades do Pai: Jesus Cristo, um barbudo, porém jovem, operador de milagres, curador de mazelas e pregador da justiça divina.
Por outro lado, para outras pessoas, é tempo de celebrar a vinda do bom e barbudo velhinho, Papai Noel, recompensador do bom comportamento e defensor da materialização dos sentimentos por meio de presentes.
Onisciente, onipotente e onipresente: por estar na cabeça de todas as pessoas, quando estas tomam suas “decisões”, por ser o fiel da balança nas “escolhas” dos homens e por ser o criador de tudo que está a nossa volta, podemos afirmar que o Capital, infelizmente, domina grande parte da ação humana. Além disso, ao buscar a realização dos seus objetivos, ele causa tragédias para a humanidade. Quem pode negar a existência da desigualdade entre os homens? E a cobiça pelo vil metal?
Mas todo senhor tem um inimigo. Diante das calamidades advindas da busca incessante pelo lucro, deveria haver, inevitavelmente, a insurgência de um salvador. Por isso, para enfrentar o Capital, surgiu, do proletariado, uma esperança: outro velho barbudo que também veste uma camisa vermelha e foi um dos principais fundadores do socialismo científico, a saber, Karl Marx.
Muito mais do que um crítico do capitalismo, ele foi o cientista que melhor expôs as leis que o regem este sistema e, principalmente, as consequências gerais que ele pode provocar.
Em pleno século XIX, Marx já falava sobre a concentração da riqueza e a eliminação de pequenos e médios produtores, seja por fusão e/ou aquisição por parte dos capitais maiores, o que continua ocorrendo. Por exemplo, aqui no Brasil, a 3ª maior rede de farmácias do país, Pague Menos, com faturamento estimado de R$ 2,8 bilhões, só este ano, negocia a compra da Ultrafarma, que deve faturar R$ 400 milhões em 2011. Se juntarmos as quatro maiores redes de farmácias, veremos que elas controlam 28,5% do mercado nacional. Outro exemplo: esta semana foi anunciado em Portugal a aquisição, por parte da chinesa Three Gorges, de 21,35% da empresa estatal Energias de Portugal. Esta operação faz parte dos planos de reestruturação e austeridade do governo lusitano.
Por outro lado, ao falar sobre o progresso técnico, Marx demonstrou que, em busca de maior lucratividade individual, ao renovar o parque fabril, o capitalista emprega relativamente mais máquinas em detrimento do emprego de força de trabalho. Mas o problema não seria o avanço em si, mas sim sua utilização capitalista. Como dissemos aqui há um mês, as novas formas de trabalho escondem os velhos dilemas da classe trabalhadora.
Exemplificando novamente: a JBS, umas das líderes do mercado global de carnes, pretende fazer uma “mudança” em suas fábricas, que vai representar o corte de 1,5 mil postos de trabalho. Dentre os cargos eliminados estão os chamados sobrepostos, aqueles que são executados por duas ou mais pessoas, mas podem ser executados apenas por uma. Isto quer dizer que haverá o acúmulo de funções e aumento da intensidade do trabalho sem, necessariamente, a correspondente elevação dos salários. No fim das contas, serão economizados US$ 500 milhões.
Para falar mais do desemprego, podemos mencionar o fechamento de aproximadamente 20 mil vagas no setor têxtil brasileiro só este ano. Mas, a causa deste seria outra: a concorrência desleal com os produtos chineses, produzidos com mão de obra barata e em condições precárias.
E continuando a falar da teoria de Marx, devemos mencionar também a lei do ciclo econômico, segundo a qual as economias capitalistas passam por períodos de maior e menor crescimento (ou até decrescimento) da produção. Mas, como esta lei está se manifestando com força agora, bem diante dos nossos olhos, não precisamos falar dela.
Acho até melhor pararmos por aqui. A análise começou tratando de um tema bem melhor do que este.
O ideal seria falarmos apenas do velho barbudo de vermelho, aquele da Coca-Cola, que faz a realidade parecer mais agradável, com neve, lareira, renas, etc., e desejar a todos os leitores muitas felicidades no ano de 2012 que promete ser muito difícil.


* Mestre em Economia, professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.).
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sábado, 24 de dezembro de 2011

Homem primata! Capitalismo selvagem!

Semana de 12 a 18 de dezembro de 2011


Rosângela Palhano Ramalho¹




Desde 1825, um fenômeno econômico mundial se repete de forma periódica. Clement Juglar registrou a repetição, a partir de 1862. Segundo ele, as crises econômicas se repetem num período que varia entre 7 e 11 anos. Embora estudos comprovem a sua existência, no pós-segunda guerra mundial, os economistas acabaram com o problema chamando o capitalismo de “pós-cíclico”. As “flutuações econômicas”, termo que passou a designar as crises, eram então “acidentes” do capitalismo que facilmente poderiam ser resolvidos.
A partir de 2008, tivemos que conviver com mais este doloroso “acidente”, retomado em 2011. Uns relutam em admitir que a crise esteja aí, outros lançam probabilidades de ocorrência e alguns já admitem: estamos no fundo do poço. A OCDE detectou, em outubro, a oitava queda consecutiva da atividade econômica mundial. O Bank of America, projetou uma “desaceleração significativa” em 2012 com risco de 40% de recessão mundial. Já Paul Krugman bradou a frase que ninguém quer ouvir: “Estamos em uma depressão mundial”.
A Europa, de forma desesperada, tenta salvar a economia e o euro. Sob o comando do casal Merkozy, foi costurado um acordo de austeridade fiscal, sem a participação do Reino Unido. A idéia é fazer cumprir as metas de austeridade fiscal fixadas há mais de uma década e desrespeitada por todos, inclusive pela Alemanha e França. Países que permanecerem com déficit acima de 3% do PIB sofrerão sanções impostas pelo Tribunal Europeu de Justiça.
A saída está longe da “proposta modesta” lançada ainda em 2010, por estudiosos da Grécia e Portugal. Na ocasião, foram sugeridas as trocas de títulos da dívida pública por papeis do Banco Central Europeu, a conversão simultânea destes papéis pela autoridade monetária e a utilização dos fluxos de recursos obtidos no financiamento da recuperação
Embora tenha relutado bastante, a premier da Alemanha admitiu a ampliação do fundo de socorro aos bancos, de € 360 bilhões, para € 480 bilhões e a ajuda governamental caso os bancos não consigam captar no setor privado.
Portugal já tinha posto o plano de salvamento bancário em prática, vendendo ativos no valor de € 78 bilhões. Mas, o valor de mercado dos três maiores bancos portugueses caiu 68%, o que equivale a uma perda de €6,3 bilhões e o país já cogita nacionalizar parte do seu setor bancário. Em 2012, a economia portuguesa encolherá 3%, segundo a Comissão Européia, e o rendimento dos bônus de dez anos de Portugal quase duplicaram, nos últimos meses, chegando a 13%.
A situação também não melhorou na Itália. Mario Monti teme o risco de retorno do terrorismo político. Pichações do tipo “Abaixo os banqueiros ladrões!” surgem nas cidades e, organizados ou não, os protestos no país são cada vez mais comuns.
No Reino Unido, o número de desempregados, no terceiro trimestre, alcançou 2,64 milhões e a taxa de desemprego subiu a 8,3%.
Enquanto a produção industrial da zona do euro caiu 0,1%, o Programa Eurotast divulgava que 79 milhões de europeus vivem abaixo da linha da pobreza. Destes, 43 milhões encontram-se numa situação de risco alimentar e sem dinheiro para adquirir alimentos. Estima-se que a população pobre da Europa esteja em torno de 41,5% da população total.
Por outro lado, a Conferência do Clima, em Durban na África do Sul, promovida pela ONU, trouxe como resultados apenas mensagens políticas: a continuidade do Protocolo de Kyoto e compromisso de elaboração de outro documento que inclua todos os países. Tal documento só ficará pronto em 2015 com estimativa para entrar em vigor em 2020.
Mas, quem se importa?
Selvagemente, o “mercado” ainda espera ansioso uma “solução satisfatória” para a crise. E as agências de risco, assim como abutres que cercam a sua presa, ameaçam rebaixar a classificação de crédito dos europeus, o que trará mais um ingrediente negativo para o “mercado”.
Enquanto isso, dados sobre a desigualdade são divulgados. Cálculos realizados pelo Financial Times mostram que só 58% da renda americana equivale a salários. No pós-guerra esta participação era de 63%. Ou seja, a classe trabalhadora americana perdeu o equivalente a US$ 740 bilhões de dólares só este ano. Nunca a remuneração do capital foi tão alta
No Brasil, o departamento de gestão de grandes fortunas do Credit Suisse estima que, em 2016, os recursos dos milionários atingirão R$ 1 trilhão. Quase 500 mil novos milionários entrarão no mercado. O número passará de 319 mil para 815 mil, aumentando 155%.
Notícias boas só para os banqueiros. Segundo a Febraban, o lucro conjunto de 134 instituições bancárias, no terceiro trimestre, apresentou queda de 1,4% em relação ao trimestre anterior, mas lucro de 41% em relação ao mesmo período do ano passado! Este ano o setor bancário brasileiro é de longe o mais lucrativo. Em contrapartida a inadimplência das pessoas físicas subiu. Até novembro, este índice alcançou 22,4%.
É bom aprender. A vida é cruel... Homem primata! Capitalismo selvagem!

¹ Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e crise na economia brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

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