quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A carroça grega passa sobre o povo grego

Semana de 22 a 25 de fevereiro de 2012

Tatiana Losano de Abreu [i]

Não é de espantar que a Grécia continue a ser tema recorrente em Análise & Conjuntura, já que a economia grega é uma bomba relógio prestes a explodir sobre toda a zona do euro. Como já era esperado, após 12 horas de negociações entre os ministros de finanças da região, foi aprovado mais um “auxílio” para o país que hoje acumula uma dívida soberana equivalente a 164% do PIB.

O termo “troika” é uma palavra russa que significa três cavalos alinhados lado a lado, reunindo esforços para puxar uma carroça. Este termo é recorrentemente utilizado para designar a aliança entre os três cavalos – Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e União Européia (UE) – para mudar a rota da carroça grega que vai em direção ao calote inaceitável, principalmente pela Alemanha. Desta vez, um pacote de 130 bilhões de euros foi aprovado após o comprometimento do governo grego em dobrar a dose de sacrifício exigida do povo grego. Medida semelhante foi tomada no primeiro semestre de 2010, quando foram disponibilizados 110 bilhões de euros ao país. A partir dessa data, o governo grego se dedicou a colocar em prática medidas de austeridade fiscal impostas pela equipe da “troika” na garantia da “ajuda financeira”. O povo grego sentiu o sacrifício na pele através da redução dos salários, dos direitos trabalhistas e da alta taxa de desemprego.

No entanto, os líderes europeus consideram que o governo grego não tem feito a sua parte e o acordo não está sendo cumprido. Desta vez, o segundo pacote financeiro só foi aprovado à custa da soberania do país e será disponibilizado aos poucos, de acordo com as necessidades e a execução do programa de austeridade. A Grécia foi obrigada a submeter os rendimentos do Estado ao pagamento da dívida contraída junto à “troika” e aos credores privados antes de qualquer outra despesa, como o pagamento de salários e aposentadorias. Uma equipe de representantes da “troika” permanecerá na Grécia para assegurar o cumprimento dos termos e condições do pacote. Os anos de austeridade foram ampliados. Lucas Papademos, primeiro ministro grego, prevê desempregar 198 mil funcionários públicos, além de cortar 25% das receitas do orçamento em 2012. Os dois principais partidos políticos, que irão disputar eleições em abril, o Pasok, socialista, e a Nova democracia, de direita, tiveram que se responsabilizar em não mudar os planos, após as eleições. Mesmo com a pressão institucional sobre o governo grego, a “troika” admite a possibilidade de o país chegar a 2020 com uma dívida que ainda representará 160% do PIB. De fato, a austeridade sobre a economia local só irá agravar o cenário recessivo que o país apresenta há cinco anos, empobrecendo a região e diminuindo a receita do Estado, além de agravar a raiva acumulada de inúmeros setores da sociedade que estão nas ruas expressando o descontentamento com a aprovação do acordo que foi baseado nas últimas estimativas da Comissão Europeia. Segundo estas estimativas, o PIB grego encolherá apenas 4,3% este ano, depois da queda acumulada de 6,8% em 2011, e estagnará em 2013. Outra opinião têm as agências de consultoria locais. Para elas, o PIB cairá 8% em 2012 e 7% em 2013.

No que se refere ao cenário internacional, a Comissão Européia mostrou-se menos otimista. Em relação à economia italiana, a previsão é de uma contração de 1,3%, em 2012, depois de uma ligeira recuperação nos dois últimos anos. A Alemanha, depois de apresentar um crescimento de 3,0% em 2011 e 3,7% em 2010, deverá crescer apenas 0,6% em 2012. A economia irlandesa vai crescer apenas 0,5% em 2012, metade do que foi previsto anteriormente.

Para evitar que a instabilidade da Zona do Euro se propague, o Fundo Monetário Internacional precisa de US$600 bilhões. Por enquanto, o fundo possui apenas US$240 bilhões, vindos dos próprios europeus. Brasil, China e Índia já demonstraram a disposição de participar com recursos adicionais, mas cobram que os europeus deixem de bater o pé sobre algumas exigências: a ratificação da reforma de 2010 que ampliou o poder de voto dos emergentes no FMI e a revisão da forma de cálculo para nova redistribuição de cotas, ou seja, a mudança do poder de decisão no Fundo. Mais da metade dos países da UE resiste em aceitar a perda de diretorias executivas do FMI, mas o prazo está se esgotando.

Alguém vai ter que largar o osso.

Enquanto isso, a carroça continuará a esmagar o povo grego, a menos que...



[i] Economista, Professora substituta do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Inimigo sem nome e sem rosto

Semana de 13 a 19 de fevereiro de 2012

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Depois de ter declarado que “Meu inimigo é o sistema financeiro”, François Holande, candidato pelo partido socialista ao governo da França, e um dos favoritos nas pesquisas, definiu-o como “inimigo sem nome e sem rosto”. Curiosamente o atual presidente Sarkozy (aquele que faz parelha com Angela Merkel da Alemanha, formando o casal Merkozy) ataca igualmente o sistema financeiro e os bancos prometendo medidas de controle. O clamor do tipo “ocupa Wall Street” espalha-se pelo mundo e preocupa os políticos que têm de enfrentar eleições em tempos próximos. Imerso neste ambiente hostil, os bancos afogam-se em suas próprias dificuldades, fruto das ações especulativas em que se envolveram. Só a situação da Grécia provocou baixas contábeis de 5,4 bilhões de euros, nos quatro maiores bancos franceses, BNP Paribas, Société Génerérale, Crédit Agricole e Groupe BPCE. E, desta vez, o governo francês tem dificuldades de ajudá-los, pois já carrega o compromisso de suas próprias dívidas que atingem 1,69 trilhões de euros, 85% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Não é só a França que está em dificuldades. Segundo dados da Eurostat (agência de estatísticas européia), o PIB do bloco encolheu 0,3%, no quarto trimestre de 2011, em relação ao terceiro trimestre, sendo a primeira contração observada desde 2009. Há a esperança de que se consiga evitar a chamada “recessão técnica”, mas, para alguns analistas, ela já começou.

Nos 17 países da zona do euro, a produção industrial caiu 1,1%, em dezembro, terceira queda em quatro meses e, no quarto trimestre, a produção caiu 1,8%. Alguns países tiveram, nesse trimestre, quedas acentuadas, como a Grécia (7%) e Portugal (2,7%). Mesmo para a Alemanha, carro chefe do bloco, a OCDE espera um crescimento de apenas 0,5%. A comissão européia aponta que dentro do grupo, 12 países estão vulneráveis entre os quais estão incluídos Itália, França, Finlândia, Suécia, Reino Unido, Dinamarca, etc.

Como vemos a conjuntura de crise se mantém e mesmo um caso menor, como o grego, não encontra solução. Apesar de todos os protestos e pancadaria nas ruas do país, o parlamento grego aprovou um pacote de austeridade com um corte de 3,3 bilhões de euros. Mas, isto parece insuficiente, pois se teme que o partido que vença as eleições próximas, não respeite os acordos que condicionam a “ajuda”.

Todos sabem que as medidas restritivas dificultam a recuperação de qualquer economia. Apesar disso, as soluções propostas vão nesta direção. Sempre se recomendam demissões de funcionários públicos, redução nos salários, corte nas pensões, subsídios e programas sociais, aumento das idades para aposentadorias, corte nos gastos públicos e no crédito, ou seja, os trabalhadores devem pagar as contas da ganância dos bancos, das irresponsabilidades dos governos e do luxo dos empresários. A Alemanha é citada como exemplo pela seriedade de seus governantes e pela disciplina de seus trabalhadores que aceitaram salários mais baixos, jornadas de trabalho mais longas, etc. Afirma-se que o padrão de vida dos trabalhadores europeus ficou caro demais para ser mantido. É preciso nivelar por baixo para ser competitivo. Que os trabalhadores se prepararem para duros combates e muitos sofrimentos.

E enquanto economistas, políticos e outros intelectuais divertem-se com discussões bizantinas sobre a relação entre Estado e Mercado, os capitalistas utilizam-se dos dois quando lhes é conveniente. Quando se ganha dinheiro, viva o mercado. Quando se perde dinheiro, que venha o Estado ressarcir os prejuízos e encher os cofres.

Nestas águas revoltas, a duras penas, a economia brasileira ainda continua navegando, se bem que tendo de refazer suas contas. Os 5% de crescimento do PIB previstos pelo ministro Guido Mantega, para 2011, foram reduzidos para 4% e 3,5%. Mas o BC admite agora que ficará apenas em parcos 2,72%. Para 2012 o Ministério da Fazenda já se apressou em corrigir sua previsão anterior de 5% para 4,5%.

Em ano de eleições, em uma conjuntura internacional hostil, o governo Dilma enfrentará grandes dificuldades.

Vamos aguardar as medidas que serão tomadas.



[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A insustentável dívida grega

Semana de 06 a 12 de fevereiro de 2012

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Prezado leitor.

Não há como falar na crise atual sem nos referirmos à situação na Grécia. Enquanto os Estados Unidos comemoram a criação, em janeiro, de 243 mil novos empregos, maior alta desde abril de 2011, e também a queda da taxa de desemprego para 8,3%, o que pode indicar um possível descolamento da economia americana, da crise européia, a Grécia rouba a cena novamente.

Lucas Papademos, primeiro-ministro grego, negocia com a União Européia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu, um segundo pacote de ajuda no valor de € 130 bilhões. A Grécia precisa rolar a sua dívida em março, ou seja, pagar os juros no valor de € 14,4 bilhões, e, sem o novo pacote, tal rolagem não acontecerá. Ao mendigar este montante, o governo comprometeu-se com medidas de austeridade adicionais e agora pretende impingir ao povo grego, que deverá pagar a conta. Estas medidas envolvem o corte de 22% no salário mínimo, a demissão de 15 mil servidores públicos, cortes de pensões pagas aos aposentados e uma maior flexibilização do emprego. O objetivo é garantir a redução do déficit público, de 9,5%, para 4,7% do PIB.

Os credores querem garantias de que a Grécia cumprirá o novo acordo. A primeira-ministra alemã recusa-se a aceitar a falência do país. Temendo que o sucessor de Papademos, que será eleito em abril, não cumpra os critérios estabelecidos pelo acordo, o casal Merkozy (Merkel e Sarkozy) está propondo que os pagamentos dos juros sobre a dívida grega sejam depositados em uma conta bloqueada, o que garantiria o serviço da dívida. Como cães bem treinados, as autoridades gregas limitam-se a obedecer. A novidade caiu como uma bomba, e os protestos no país, cada vez mais violentos, paralisaram o transporte público, fecharam bancos, escolas e hospitais.

Será que as autoridades gregas não percebem que estão atirando no próprio pé? O PIB da Grécia caiu 6% em 2011 e a taxa de desemprego é de 20,9%. Como reerguer uma economia completamente destruída se as medidas tomadas provocarão mais desemprego e queda da atividade econômica?

Há mais de dois anos que o problema grego persiste simplesmente porque as medidas tomadas são paliativas e provocam mais retração. Não precisa ser especialista para perceber que as novas medidas de austeridade impostas à Grécia, esta semana, provocarão apenas um alívio momentâneo nos compromissos financeiros do país visando acalmar os credores. Mas, o problema ressurgirá novamente.

Qual seria então a solução?

Um documentário lançado em 2011 intitulado “Dividocracia” e produzido por jornalistas gregos procura entender as causas da crise da dívida soberana. Segundo o levantamento, a dívida grega pode ser atribuída, em grande parte, à forma como foi estipulada a tributação no país e a tomada desenfreada de empréstimos ao longo do tempo. Tal endividamento se acentuou com a entrada da Grécia na União Européia, pois sendo um país periférico, sua economia sofre com a competitividade dos grandes países do bloco, em especial da Alemanha.

A idéia defendida no filme é a de que, se a democracia pressupõe a participação dos cidadãos, a gestão e as decisões relacionadas à dívida soberana deveriam considerar também a participação social. Daí o termo “Dividocracia”. Portanto, se o governo contraiu uma dívida, mas não a discutiu e sequer utilizou-a em favor da sociedade, é injusto que este encargo seja pago pelos cidadãos. A dívida então é uma dívida perversa e ilegítima. É o conceito de “dívida odiosa”. Foi o procedimento que Rafael Correa, presidente do Equador, adotou para não pagar a dívida com o Banco Mundial, FMI e outras organizações financeiras internacionais. A dívida odiosa foi apurada através de uma auditoria.

É sem dúvida uma argumentação interessante e polêmica (polêmica porque vai de encontro à postura dominante). É muito mais cômodo aceitar como verdadeiras as soluções propostas pelas instituições financeiras internacionais.

Até quando a sociedade será subserviente ao capital financeiro?

Até quando o clamor da população grega será abafado?

Em que lei está especificada que aquela população deve pagar, com seus salários, o custo da insustentável dívida grega?



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e crise na economia brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Economia de mercado

ANÁLISE DE CONJUNTURA ECONÔMICA
(Semana de 30 de janeiro a 05 de fevereiro de 2012)

Lucas Milanez de Lima Almeida(*)

Atualmente, vivemos na chamada economia de mercado, que se caracteriza, dentre outras coisas, pela distribuição da riqueza por meio da troca. Isto quer dizer que, para obter alguns dos produtos necessários a sua sobrevivência, as pessoas precisam trocar o que elas possuem com outras. Se todos tivessem livre acesso aos instrumentos e meios de trabalho, cada um poderia criar seus produtos e, quando necessário, trocá-los, seja por dinheiro ou por outras mercadorias. O problema é que estes objetos necessários à produção, na nossa economia de mercado, são de propriedade de uma pequena parte da população e isto impe-de o livre acesso da grande maioria a eles. O resultado é que temos uma parcela da socie-dade que não pode produzir e, consequentemente, não tem nenhum produto a oferecer. E agora?! Agora, só nos resta recorrer à outra característica desse tipo de economia: a liber-dade do cidadão sobre si mesmo, liberdade de fazer suas próprias escolhas.

Sendo donos do seu destino, os homens podem oferecer às outras pessoas sua capa-cidade de trabalhar. E quem teria tamanha bondade para salvar a vida destes pobres infeli-zes e aceitar esta oferta? Os únicos que podem fazer isto são os empresários, que detêm os meios de produção. E o fazem pagando aos trabalhadores uma quantia em dinheiro sufici-ente para sua sobrevivência: o salário. Mas, sabendo que as coisas se movimentam pela troca, qual seria a recompensa para o bom empresário?

A compensação é a apropriação de tudo aquilo que o trabalhador cria durante a pro-dução. Todas as mercadorias vão para as mãos do empresário, que as vende por um preço maior do que aquele pago pelos meios de produção e pela força de trabalho. É aí que se apresenta o lucro, elemento tido como recompensa do espírito empreendedor do ser huma-no. Existe outro tipo de agente econômico que também tem esse espírito: o banqueiro.

Para ajudar os trabalhadores e lhes dar o que comer, é necessário que se tenha di-nheiro, não apenas para os salários, mas também para as máquinas, equipamentos, aluguéis, etc. Mas, se o empresário passar por um momento de dificuldade e porventura não dispuser de todo o capital, o que deve fazer? Ele pode recorrer ao banco e pegar um empréstimo. Porém, como em toda economia de mercado, esta transação deverá gerar uma recompensa: do lucro que o empresário vai receber, deve-se deduzir uma parte e entregar ao banqueiro como pagamento do capital adiantado, sob a forma de juros.

Mas, se o banco entrar em dificuldade, quem ajudará a mais bondosa de todas as instituições, provedora de fundos para a manutenção da humanidade? Como na Grécia, Itália e Espanha, quem pode ajudar os bancos são os governos democraticamente eleitos.

E, mesmo falando em democracia, vivemos numa economia de mercado. Tudo fun-ciona pelo toma lá da cá. Não é novidade para o nosso leitor a situação atual da economia global e brasileira. Só quem não admite ainda é o ministro Mantega, que está tão ultrapas-sado que suas previsões ganharam uma fórmula: “Se ele disser que vai crescer (o PIB) 4%, cresce 3%. Se disser que vai crescer 3%, dá 2%”. Esta afirmação foi feita por uma fonte que participa da viabilização de um novo pacto pelo crescimento econômico, formado pelo governo e um conjunto dos maiores empresários do país, dentre banqueiros e empresários industriais. O desespero é grande, pois, além de tudo, é ano de eleições municipais.

Mas, por que o governo quer garantir o crescimento e salvar os empresários? Já vi-mos que são eles os bons cidadãos que empregam os pobres trabalhadores. Por outro lado, será que não existe mais algum motivo para este desespero? A resposta pode estar na pres-tação de contas do PT em 2010: dos R$ 212 milhões recebidos, 82% foram doações de pes-soas jurídicas, dentre as quais, empresas públicas e privadas. Só o Itaú Unibanco doou R$ 4 milhões, o Banco BankPar S/A doou R$ 3,2 milhões e as construtoras Queiroz Galvão, Odebrecht e Andrade Gutierrez, pelo menos R$ 1 milhão cada uma.

Diante da generosidade dos empresários, ficou difícil agradar a todos. Como maio-res doadores, os bancos tiveram o maior retorno: em 2011, o Brasil pagou R$ 236,7 bilhões em juros e encargos da dívida pública, o que representou 5,72% do PIB. Imaginem como ficaram os industriais: deixaram de pensar na desindustrialização que o Brasil está sofrendo para imaginar o que poderiam fazer com esta quantia. E os trabalhadores, que desejavam ter um aumento de pelo menos R$ 360 no grandioso salário mínimo.

Fazer o que? É o mercado! Recebe quem tiver mais para oferecer.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A zona do euro aos trancos e barrancos

Semana de 23 a 29 de janeiro de 2012

Nelson Rosas Ribeiro[i]

O medo da recessão continua a rondar a União Européia (UE) e particularmente a zona do euro. Os dias passam, medidas tímidas são tomadas, e a crise se mantém e se alastra. O caso grego não está, nem de longe, contornado, e agora Portugal segue o mesmo caminho. O Reino Unido acena com a chamada recessão técnica, que está à vista (crescimento negativo durante 3 meses). No quarto trimestre do ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) decresceu 0,2%, e espera-se decrescimento no primeiro trimestre deste ano. Em 2011, o crescimento do PIB foi de apenas 0,9%. A situação econômica mostra um quadro clássico de crise: consumo fraco, empresários desconfiados, falta de crédito, desemprego, salários baixos, etc.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), no relatório Panorama Econômico Mundial, rebaixou suas previsões de crescimento para o PIB mundial estimando um decrescimento de 0,5% para a Zona do Euro e reduzindo, de 4%, para 3.3%, o crescimento mundial. Prevê também decrescimento para a Espanha (-1,7%) e para a Itália (-2,2%). O economista chefe da entidade, Olivier Blanchard, afirmou que “o mundo poderá ser esmagado por outra recessão”. Paradoxalmente, o FMI recomenda moderação nas medidas de austeridade e a disponibilização de mais recursos nos fundos de socorro europeus. Até as previsões para os países emergentes foram rebaixadas, de 6.1%, para 5,4%.

A situação também se agrava nos países asiáticos. O Japão anunciou o seu primeiro déficit na balança comercial desde 1980. A crise no país, a crise mundial, a catástrofe natural do tsunami, o crescimento dos emergentes e o deslocamento de empresas japonesas para o exterior são apontados com os principais fatores.

O socorro, que se esperava vir do BCE, arrasta-se nas discussões e oposição do governo Alemão, que só concorda em aumentar a ajuda se for aumentado o controle sobre os orçamentos dos países, o que significa ainda mais perda da soberania nacional.

No entanto, para ajudar os bancos, o BCE abre rapidamente os cofres. Em dezembro, ele emprestou, a cerca de 500 bancos, 489 bilhões de euros, a juros de 1% ao ano, por um prazo de 3 anos. Parte deste dinheiro está voltando aos governos com a compra de títulos dos países que pagam juros superiores a 4% e que atingem até dois dígitos. E o BCE já está preparando um novo pacote para inundar o “mercado” de “liquidez”.

O problema que se coloca cada vez mais é como enfrentar a crise, que é de superprodução, com medidas de austeridades que reduzem o emprego, os salários, o consumo público e privado, os investimentos, etc.

No que se refere aos juros, os Bancos Centrais têm reduzido as suas taxas de referência. O BCE reduziu sua taxa para 1%, e o Fed (BC americano) manteve a sua no intervalo de 0 a 0,25%. É claro que os especuladores aproveitam-se disto e já efetuam as operações de “carry trade” com as duas moedas. Pedem empréstimos nestas moedas para convertê-las em moedas da Austrália, Brasil, México, África do Sul, Coréia do Sul e etc. para aplicações especulativas nestes países.

No Brasil, sob o comando da presidente Dilma, o BC mudou o comportamento e também voltou a reduzir os juros em 0,5%, atingindo agora 10,5% ao ano. Avisou também que continuará a reduzi-los e que, em 2012, eles chegarão a apenas um dígito.

No nosso caso há certo nervosismo que se instala, mas por razões eleitorais. Em ano de eleições é preciso mostrar serviço. O governo luta contra os escândalos das quedas de ministros e de funcionários do segundo escalão, que continuam, e contra um medíocre crescimento do PIB em 2011. As medidas de austeridade tomadas com medo da inflação contribuíram para a desaceleração da economia A sondagem Industrial de dezembro, feita pela Confederação Nacional da Indústria, mostrou um quadro preocupante. O processo de desindustrialização se agrava, e os empresários protestam. O governo joga suas cartas com desespero. Devemos esperar aumento das despesas, do crédito, das contratações. Está a caminho uma situação semelhante a 2010.

Já veremos.



[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

As contradições das três faces do Estado Brasileiro

Semana de 16 a 22 de janeiro de 2012

Tatiana Losano de Abreu [i]

Até a otimista Organização das Nações Unidas (ONU) já reduziu a projeção da economia global para 2012. A estimativa, na melhor das hipóteses, é de crescimento de apenas 2,6%. O problema está na persistência do desemprego elevado, na crise da dívida na zona do euro e na adoção prematura de medidas de austeridade fiscal. Apesar deste diagnóstico, as medidas continuam. Espanha, França e Itália, seguindo a sugestão de Portugal, apostam na flexibilização do mercado de trabalho, na esperança de que a taxa de desemprego diminua, mesmo que seja através de contratações temporárias e da redução dos direitos trabalhistas.

Em nossas análises, insistimos em mostrar as tentativas dos governos de garantir os interesses do capital industrial e, principalmente, do capital financeiro em detrimento da classe trabalhadora. Esta realidade não existe apenas em momentos de crise, mas se torna evidente diante da necessidade de salvar os bancos e manter a lucratividade do mercado financeiro e das empresas. Ao comparar as políticas dos países europeus, ou até dos Estados Unidos, com a política econômica brasileira, o leitor poderá perceber grandes diferenças.

Estas diferenças vão além da conjuntura atual e encontram fundamento no diferente modelo de política econômica colocado em prática inicialmente pelo Governo Lula e mantido pelo governo Dilma: o projeto neodesenvolvimentista ou pós-consenso de Washington. Este modelo é diferente do nacional-desenvolvimentismo de Getúlio Vargas, da industrialização atrelada ao capital internacional colocada em prática por Jucelino Kubitscheck e do projeto neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Agora, o Estado é o indutor do crescimento econômico baseado no fortalecimento do capital privado e caracterizado por três vertentes: o Estado financiador, que utiliza o BNDES para fortalecer grupos privados; o Estado investidor, que financia obras de infra-estrutura, garantindo o emprego em setores estratégicos como a construção-civil; e o Estado Social, provedor de políticas sociais de mitigação da pobreza.

O fato de o Estado acumular tantas funções gera contradições, principalmente porque o governo é fortemente influenciado pelo mercado financeiro, por elites tradicionais e pela ortodoxia econômica. Foi diante desta pressão que Lula, no início do seu mandato, divulgou a ‘Carta ao povo brasileiro’, se comprometendo a honrar o pagamento dos credores e, deste modo, garantindo a manutenção da política macroeconômica do governo anterior, baseada na manutenção das altas taxas de juros, na política do superávit primário e nos cortes no orçamento.

A sucessora de Lula, Dilma Rousseff, deparou-se com o grande desafio de garantir a tri-face do Estado, conciliando os interesses do capital financeiro internacional e da elite do agronegócio, ao mesmo tempo em que ainda precisa evitar o acirramento da crise econômica no país e manter o prestígio diante da “inchada” classe C. Por isso, não é de se espantar que o agronegócio se fortaleça com o ‘reformulado’ código florestal; que a usina de Belo Monte seja construída mesmo sem aprovação do IBAMA e às custas do povo indígena da região; e que o BNDES financie grandes fusões e a privatização dos aeroportos, ao mesmo tempo que garante liquidez ao sistema financeiro e crédito barato ao pequeno empreendedor. Também não nos choquemos ao ver que, apesar da criação do Plano Nacional de Educação (PNE), prevendo o investimento de 7% do PIB no setor até 2020, a expansão dos gastos perdeu ritmo em 2011. Também foi vetada parte dos recursos que seriam investidos na saúde pública, agravando uma realidade que poderia levar a privatização do SUS. Já o superávit primário foi garantido pelo governo, com a arrecadação de R$93 bilhões em 2011. O povo brasileiro não reclamou, já que, no ano passado, foram gastos mais de 16 bilhões de reais para atender cerca de 320 mil famílias pobres. Além disso, a presidente presenteou o povo brasileiro com o aumento do salario mínimo que passou para R$ 622,00 no primeiro dia do ano e pretende diminuir o custo do empréstimo para pessoa física através da redução do IOF.

Seriam essas medidas suficientes para comprar o silêncio?



[i] Economista, Professora substituta do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A maldição do triplo A

Semana de 09 a 15 de janeiro de 2012

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor. Como anunciado nesta coluna na primeira semana de janeiro, o ano é novo, mas a realidade é velha. Infelizmente ainda não somos portadores nem de novas e, muito menos, de boas notícias.

Antes de fazer o comentário central desta análise semanal, trago informações da economia real: segundo o Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha, a produção industrial daquele país caiu 7% em novembro, em relação ao mesmo mês do ano passado. A crise está abatendo até mesmo o país mais forte da União Europeia: a economia alemã. Embora tenha crescido, no ano passado, 3%, ela encolheu 0,25%, no último trimestre de 2011. O número de desempregados da zona do euro chegou a 16 milhões de pessoas, e a taxa de crescimento prevista para a região, este ano, é de 1%. Os Estados Unidos, que vêm apresentando uma recuperação ainda tímida, divulgaram a criação de 200 mil empregos em dezembro, o que provocou a queda da taxa de desemprego, de 8,7%, para 8,5%. O índice de confiança do consumidor americano aumentou 9,3%, e as encomendas de bens duráveis também subiram. O país, que projeta um crescimento de 2,5% em 2012, teme agora sofrer contágio da crise européia.

Para driblar a crise, Nicolas Sarkozy, presidente da França, está negociando com a Alemanha a introdução de uma taxa sobre transações financeiras em toda a União Européia. Segundo levantamento francês, as transações financeiras diárias alcançam a cifra de US$ 4,6 trilhões. O objetivo seria taxar em 0,1% as ações e bônus e em 0,001% os outros produtos financeiros. Só isto renderia, à União Européia, uma receita anual superior a € 50 bilhões. Apesar de a iniciativa ser apoiada também pela Itália, David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, já se pronunciou contra. E os banqueiros franceses logo lembraram que a crise foi iniciada nos Estados Unidos, de forma que seria justo que a cobrança fosse universal. Se não houver acordo, a França anunciou que adotará sozinha a taxação a partir deste ano.

Em contrapartida, os “investidores” não sabem mais de onde sugar. O simples rumor de que a França poderia ter sua avaliação de risco rebaixada, o que indica um risco maior da sua capacidade de honrar o pagamento de suas dívidas, provocou uma correria para os Estados Unidos. O Tesouro dos Estados Unidos vendeu US$ 21 bilhões em títulos com vencimento em 10 anos e com o menor rendimento já registrado (1,9%).

No dia seguinte, o governo francês confirmou o rebaixamento da sua nota, pela Standard & Poor’s. A agência de classificação de risco reduziu a nota de crédito do país, que era a máxima, de AAA, para AA+. Além da França, a Áustria também perdeu o triplo A. Luxemburgo, Holanda, Finlândia e Alemanha são os únicos a conservarem a nota máxima.

O ministro das Finanças, François Baroin, minimizou a polêmica dizendo que a notícia não era boa, mas não era uma catástrofe e que, no pior dos cenários, a França ficou com a mesma classificação obtida pelos Estados Unidos. Finalizando sabiamente, o ministro declarou: “Não são as agências que decidem a política da França.” Temos que concordar. De fato, estas agências não decidem política alguma de país algum.

Prezado leitor. Se após esta enxurrada de informações, lhe fosse perguntado do que se ocupa então a Economia, não seria surpresa o surgimento de terríveis dúvidas. Afinal, somos bombardeados a todo o momento por diferentes tipos de informação, que nos levam a concluir que, para entender de Economia, basta saber como funcionam as Bolsas de Valores e como aplicar, ganhando dinheiro fácil, nas infinidades de produtos financeiros que estão à nossa disposição.

Aprendemos nos Manuais de Economia que a Ciência Econômica é uma ciência social que deve se preocupar com três questões básicas: O que e quanto produzir, como produzir e para quem produzir. Mas, hoje, no universo da economia, a instituição de maior importância é o “mercado”. Não o real, mas o financeiro. Além disso, especuladores ganharam status de investidores e agências de classificação de risco sobrepõem-se a tudo e a todos e ditam a solvência dos governos.

O leitor não deve se preocupar, afinal ele não está só. Estudantes de Economia e renomados economistas também já perderam o foco e acham natural que o sistema financeiro, que não gera nenhuma riqueza, se sobreponha a atividade produtiva e dite as regras de praticamente todas as economias do mundo.

E ai de quem não obtiver um triplo A!



[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e crise na economia brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

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