quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Economia paralisada e luta pelo crescimento


Semana de 23 a 29 de agosto de 2012


Nelson Rosas Ribeiro[i]


                                                                                   

Entra dia, sai dia; entra semana, sai semana e tudo continua na mesma. Isto é o espelho da economia mundial. Nada temos a mudar nas nossas análises. Apenas acrescentar fatos. Para não aborrecer os leitores, referiremos apenas as manchetes.
A Grécia piora e pede mais prazos e redução da penitência que lhe foi imposta: o país afunda na recessão. A Espanha, com o sistema financeiro abalado e problemas sociais insolúveis, adia o pedido formal de ajuda que implicaria em mais restrições. A Itália aumenta o coro dos endividados que apelam ao Banco Central Europeu (BCE). O PIB da zona do euro, que já havia caído 0,2% entre abril e junho, ameaça continuar em queda no terceiro trimestre, configurando uma recessão. O PIB alemão cresceu apenas 0,3% no segundo trimestre, e o Banco Central (BC) do país espera uma piora na situação no segundo semestre. Apesar disso, diante do pânico geral, a Alemanha conseguiu vender €4,083 bilhões em títulos com juros zero. A busca pela segurança empurra os especuladores desesperados a aceitarem esta remuneração. Os EUA continuam indefinidos. A única coisa que continua a crescer entre os analistas é a preocupação com a desaceleração da China. Já se fala na possibilidade de um “pouso forçado” de sua economia e, para complicar, o déficit da previdência social do país contribui para ampliar as tensões sociais.
Algumas esperanças, porém, surgem no horizonte com as promessas do BCE de comprar os títulos dos países europeus endividados e os rumores de mais um “afrouxamento monetário” do Federal Reserve (Fed), banco central estadunidense. Isto foi o bastante para os mega especuladores afiarem suas garras. Fala-se na existência de €60 bilhões de euros já disponíveis para “aplicação” em créditos podres. A roda da ciranda financeira não pode parar. Se algo sair errado, recorre-se aos BCs amigos.
A situação mundial tem repercussões no panorama nacional. A economia rasteja no lamaçal das dificuldades. No entanto, as eleições se aproximam, e urge mostrar ao eleitorado um quadro econômico positivo, uma vez que a onda de greves dos servidores públicos ameaça o prestígio do governo e o ambiente político está tumultuado pelo julgamento do mensalão e pelas mancadas do ex-presidente Lula, que deu para ameaçar ministros dos tribunais superiores de justiça e interferir nas eleições locais do PT (veja-se São Paulo com o caso do Haddad).
A pretendida recuperação da economia encontra dificuldades e os sinais de recuperação são tímidos, apesar dos esforços da equipe econômica do governo. A luta pela redução dos juros continua enfrentando a sabotagem dos bancos. A batalha pela estabilização do câmbio está sendo renhida, mas tem conseguido manter o dólar dentro da faixa de variação desejada ($R1,90 a $R2,10 reais). Novas desonerações fiscais estão sendo preparadas e prometidas, juntamente com outras medidas de estímulo.
Para variar, algumas nuvens negras da inflação pairam no horizonte, o que se reflete no movimento dos especuladores, que tentam se livrar dos títulos indexados à Selic e preferem papéis indexados à inflação. 
Na semana, o governo obteve duas grandes vitórias. A sua política econômica recebeu aplausos quase unânimes dos empresários reunidos na cerimônia promovida pelo Valor Econômico, para o lançamento do anuário “Valor 1000” em São Paulo. Boa parte deles prometeu manter seus programas de novos investimentos para 2013, confiantes nos resultados do governo Dilma.
A segunda veio do apoio dos economistas reunidos na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no 5º Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), em São Paulo. Várias vozes se levantaram elogiando as políticas de contenção dos juros e controle do câmbio praticadas pelo governo e alertando para o meio envolvente mundial hostil ao projeto brasileiro de crescimento.
            E a realidade tem comprovado esta situação. No mundo globalizado, todas as economias estão interligadas e não haverá saída isolada para ninguém. Estamos todos no mesmo barco. Ou nos salvamos juntos ou seremos solidários no naufrágio.


[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os PACs do PAC: as prioridades do governo Dilma


Semana de 13 a 19 de agosto de 2012


Rosângela Palhano Ramalho[i]





            Esta semana o governo brasileiro lançou o PAC das Concessões. O Plano de Aceleração do Crescimento, em sua idéia original, buscava cumprir uma promessa de campanha de Lula, denominada por ele de “espetáculo do crescimento”. Lançado em 2007, a previsão inicial de investimentos era de R$ 656,5 bilhões até 2010, com prioridade na infraestrutura. Três anos depois, os levantamentos realizados pelo site “Contas Abertas” revelaram que, de um total de 12.163, só 1.378 projetos foram concluídos nos eixos da infraestrutura, logística, energética e social-urbana. Isto representava 11,3% do previsto. Mas, o governo, no último balanço de 2010, insistiu que 46,1% das ações do programa, previstas para o período de 2007 a 2010, foram concluídas.
            Mesmo diante do notório fracasso, para eleger Dilma, o governo relançou o programa sob a denominação de PAC 2. A previsão de investimento de R$ 1,59 trilhão entre 2011 e 2014 tem o mesmo foco: logística, energia e núcleo social-urbano. Após um ano e meio do início do “novo” programa, o Ministério do Planejamento informou que só 29,8% das ações previstas foram concluídas. Não satisfeito, o governo Dilma passou a fatiar o PAC. Em julho, foi lançado o PAC Mobilidade Médias Cidades. Essa versão, que obviamente está dentro do PAC 2, terá R$ 7 bilhões em financiamentos para projetos de metrô, veículos leves sobre trilhos e corredores de ônibus.
            A novidade do momento é o PAC das Concessões dirigido às rodovias e ferrovias. Mesmo sendo chamado de PAC, distorce totalmente a idéia original, pois todos os investimentos serão realizados pelo setor privado. Eles serão da ordem de R$ 133 bilhões nos próximos 25 anos. Serão transferidos, para a iniciativa privada, 7,5 mil quilômetros de rodovias e 10 mil quilômetros de linhas ferroviárias construídas ou modernizadas.
            A agenda liberalizante foi divulgada, em cerimônia no Palácio do Planalto, para dez governadores e uma multidão de grandes empresários. Dilma afirmou que não está desfazendo o patrimônio público “... para acumular caixa ou reduzir dívida. Estamos fazendo parceria para ampliar a infraestrutura do país...”. A seleção da empresa vencedora dos leilões, no caso das rodovias, dar-se-á pela menor tarifa de pedágio. E fiquemos felizes, pois só vamos começar a pagar esta conta quando 10% das obras tiverem sido executadas. Mas, qual a garantia de que as obras serão efetivamente executadas? Exemplos não faltam. A OHL, empresa espanhola vencedora de cinco dos sete lotes de rodovias concedidas em 2007, que incluem a Fernão Dias e a Régis Bittencourt, até hoje, não tirou suas obra do papel. O Ferroanel de São Paulo está previsto desde o PAC original e jamais foi concluído. No novo modelo, o governo deverá comprar toda a capacidade de transporte das ferrovias prontas, remunerando as empresas privadas que farão a manutenção, e ficará com o encargo de vender o serviço.
            O BNDES financiará as rodovias com juros TJLP mais 1,5% ao ano. Para as ferrovias, a previsão é de TJLP mais 1% ao ano. E mais: cinco anos de carência e até 25 anos de amortização. Nos dois casos, o total financiado pelo BNDES é de até 65% do investimento. A taxa de remuneração já garantida será de 6% a 6,5% ao ano em termos reais.
            Enquanto isso, um levantamento da PUC-Rio mostra que o salário real do professor, este ano, é 8,7% inferior ao que se ganhava em 1998. Não é demais relembrar um discurso da nossa presidente em debate pré-eleições, em 2010: “... Não se pode, (...), estabelecer com o professor uma relação de atrito quando o professor pede melhores salários. Recebê-los com cassetetes ou interromper o diálogo. O dialogo é fundamental no respeito a esta profissão. E o Brasil só irá sair de uma situação de país emergente pra uma situação de país desenvolvido se a gente assegurar qualidade de educação pra os nossos filhos...”.
            Resumindo a argumentação aos limites orçamentários e ignorando os pedidos de reestruturação da carreira docente e melhores condições de trabalho, o governo encerrou as negociações com os professores e fechou acordo com uma entidade que representa apenas 6 das 59 universidades federais em greve. Neste momento crítico, em que vários setores estão em greve, o governo elegeu suas prioridades: faz de conta que não vê, encerra o diálogo e continua a privatizar os projetos públicos através da renovação das concessões da energia elétrica e das novas concessões às malhas rodoviária e ferroviária.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um ano da “nova” política econômica


Semana de 06 a 12 de agosto de 2012


Eric Gil Dantas [i]




O mês de agosto deve ser lembrado como o aniversário das políticas de estímulo ao crescimento do governo Dilma. Há um ano, as duas principais políticas anticíclicas começaram a ser adotadas: o Plano Brasil Maior e a redução na taxa básica de juros, a SELIC.
A primeira parece não ter tido o efeito esperado, pelo menos até agora. A renúncia fiscal deveria ficar em torno de R$25 bilhões, mas cada vez mais setores reivindicaram a extensão das benesses para si. Além das isenções de IPI, desonerações nas folhas de pagamento e incontáveis afagos ao empresariado, nas próximas semanas, o governo deverá anunciar a ampliação das ações, com a simplificação do PIS/Cofins, a redução dos custos da energia elétrica (com a extinção de,pelo menos, três encargos federais) e a ampla concessão de projetos de infraestrutura à iniciativa privada. Esta última contará com o maior pacote, já visto pelo nosso país, de privatizações de rodovias federais, num total de 5,7 mil km.
Mas, para o aniversário do Brasil Maior, não temos muito que comemorar. A indústria chegou até a metade de 2012 com uma queda na utilização da capacidade instalada, que recuou para 80,2% em junho, uma queda de quase 2%, se comparada a igual período do ano passado. Um exemplo é a do setor de motocicletas, setor altamente dependente da renda e do crédito da população em geral. A produção caiu 52,7% em sua comparação anual. Já as vendas tiveram uma queda de 46,2%, também comparado a 2011.
Em relação ao outro aniversariante, a taxa SELIC, referência para as taxas de juros do país, vimos, em artigos anteriores, que a batalha de Dilma para a sua redução não tem tido grandes consequências. Não podemos esperar que esta ação seja realmente efetiva. Lembremos alguns números apresentados em análises anteriores. Três meses de pressão do governo tiveram como resultado a queda do spread bancário, de 11%, para 10,9% no Bradesco e, de 13,5%, para 13,4% no Itaú, mostrando a permanência dos juros altos. O efeito sobre a dívida pública também não foi sentido. Simultaneamente à queda da SELIC, o governo reduziu a quantidade relativa de títulos indexados a ela, ao nível de 1999, ao mesmo tempo em que aumentou o volume de outros títulos públicos que pagam mais.
Do lado da situação internacional, a coisa não está para brincadeira e impede qualquer otimismo sobre a economia brasileira. A França, segunda maior economia da zona do euro, poderá entrar em recessão oficial neste terceiro trimestre. O seu Banco Central já aponta para uma contração de 0,1%.
A Itália também continua a afundar. O setor de estatísticas do governo estimou que o PIB declinou 0,7% no segundo trimestre e foi 2,5% inferior ao do mesmo período do ano passado. Além da Itália, Espanha e Bélgica também anunciaram contrações para o segundo trimestre de 0,4% e 0,6% respectivamente.
Nem a Alemanha, a maior economia do Euro, demonstrou forças para salvar esta zona. A queda da sua produção industrial foi de 0,9%, como consequência da perda de dinamismo da região. Em junho, as exportações alemãs caíram 1,5%, após alta de 4,1% em maio.
Aos pífios números europeus se junta a desaceleração na China. A expansão da produção industrial do país desacelerou no mês passado, tendo o pior ritmo dos últimos três anos. Já a inflação caiu pelo quarto mês seguido, mostrando o desaquecimento interno.
Bem, mas para tudo existe o lado positivo. Toda esta crise na Europa e nos EUA está beneficiando a nossa produção interna, ao menos das Havaianas! A explicação é que as sandálias de borracha se adéquam ao atual orçamento enxuto dos europeus e estadunidenses. No segundo trimestre de 2012, houve um aumento de 53% nas vendas internacionais da empresa, relativo ao mesmo período do ano passado.
            Isto nos faz lembrar aquela velha frase: “Na crise, uns choram, outros vendem lenços”.


[i] Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Na crise, todos sofrem


Semana de 30 de julho a 05 de agosto de 2012


Nelson Rosas Ribeiro[i]




A União Europeia (UE) continua rachando pelas costuras, com os trabalhadores pagando a maior parte da fatura. Nos 17 países da zona do euro, em junho, o desemprego atingiu novo recorde, com 17,8 milhões de desempregados, o que corresponde a 11,2% da população ativa. Os países mais afetados foram Espanha (24,8%),Grécia (22,5%), Portugal (15,4%) e Irlanda (14,8%). A Alemanha, apesar da sua pequena taxa de 5,4%, teve um crescimento do desemprego pelo quarto mês consecutivo. Na França, um em cada quatro jovens de 18 a 25 anos está sem trabalho. Entre os com mais de 55 anos, 45% dos ativos também não encontram emprego. Além da tendência para a redução da renda real das famílias, muitos governos não estão conseguindo conter seus déficits orçamentários, principalmente a Grécia e a Itália.
O ambiente de pessimismo se agravou. O Índice de Confiança Econômica (ESI), divulgado pela Comissão Européia (CE), recuou, de 89,9, para 87,9 pontos, quarta queda mensal consecutiva, ficando abaixo da média de 100 pontos, observada desde 1990. O uso da capacidade instalada nas fábricas caiu, de 79,7% em abril, para 77,8% em julho, muito abaixo da média de 81,4% observada desde 1990.
A situação pressiona as empresas, que deflagraram uma guerra de preços para garantir o escoamento de suas produções. Algumas montadoras chegam a oferecer descontos de até 35%. Apesar disso, as vendas caíram 6,8% no primeiro semestre.
Até os bancos lamentam suas perdas ao verem os seus lucros reduzidos. O BBVA, segundo maior banco da Espanha, teve uma redução de 58% nos seus lucros após absorver as perdas do setor imobiliário. O alemão Deutsche Bank, no segundo trimestre, sofreu uma redução de 48% em relação ao ano anterior. Também em relação ao mesmo período de 2011, o UBS, maior banco suíço, teve uma queda de 58% no lucro líquido. E o HSBC, maior banco da Europa, perdeu 3% de seu lucro, sendo obrigado a fazer provisões de US$ 2 bilhões para indenizar clientes lesados no Reino Unido e de US$ 700 milhões para pagar multas nos EUA.
Os especuladores fogem apavorados dos mercados mais instáveis. Entre janeiro e junho, a saída líquida de capitais da Espanha, por exemplo, atingiu €257 bilhões.
Neste sufoco, todos voltam suas mãos e suas preces para a troikamilagreira: Banco Central Europeu (BCE), Federal Reserve (Fed) e FMI. Por enquanto, nada adiantou, pois o FMI permanece mudo, O Fed apenas manteve os juros e anunciou que poderá tomar medidas extras sem explicar quais, e o presidente do BCE, Mário Draghi, manteve a taxa básica de juros em 0,75% a.a., mas não concretizou as medidas que adotaria para materializar suas promessas de salvar o euro em quaisquer circunstâncias.
O resultado não podia ser outro: as bolsas desabaram por todo o mundo.
Nessa situação adversa, a economia do Brasil enfrenta sérias dificuldades, que podem ser sentidas mesmo com os holofotes voltados para o mensalão, a CPI do Cachoeira, os jogos olímpicos e as eleições.
Comemoramos o melhor julho da história na venda de carros, o que reduziu os estoques das montadoras. Comemoramos também a compra de 20 jatos da Embraer pela Venezuela. Mas, choramos a derrubada dos lucros da Petrobrás no segundo trimestre. Lamentamos também a possibilidade de ter o menor saldo comercial dos últimos 10 anos e a bandalheira nas obras da transposição do rio São Francisco, com a constatação, pelo TCU, de superfaturamento, não cumprimento de prazos, etc. Além disso, o “Programa de Revitalização do Rio São Francisco” não gastou nem 6% do orçamento autorizado, isto é, ficou no papel. Tudo com a conivência do exército, encarregado das obras, do Ministério do Meio Ambiente e das demais autoridades envolvidas. Isto era precisamente o que estava previsto!
Para piorar, estudos feitos na Inglaterra e em outros países estão mostrando que os grandes eventos mundiais como copas e olimpíadas não contribuem para aumentar o turismo, mas para prejudicá-lo reduzindo as receitas.
Era só o que faltava!


[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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terça-feira, 31 de julho de 2012

E o governo continua tentando...


Semana de 23 a 29 de julho de 2012


Rosângela Palhano Ramalho[i]



            Discutir a conjuntura econômica atual é como chover no molhado. A situação econômica européia piorou na última semana. A Espanha teve sua “saúde financeira” agravada, e os “investidores” ficaram um pouco mais felizes diante do aumento da remuneração dos títulos do país, de 7%, para 7,57%. Cidadãos espanhóis bateram panelas em frente à sede do Partido Popular em protesto contra os novos aumentos de impostos e cortes de gastos públicos. E os mesmos cidadãos só agora perceberam que os papéis adquiridos, com nomes bastante atrativos, como as “participaciones preferentes”, as “clausulas suelo” e o “swap hipotecario”, rendem coisa nenhuma, já que não podem ser resgatados ou remunerados com as taxas prometidas pelas instituições.
            A Grécia, que rolou sua dívida até agosto, como era mais do que óbvio, será incapaz de honrar os compromissos e precisará receber a segunda parcela do pacote de ajuda internacional já em setembro. A economia da China provavelmente pousará no terceiro trimestre do ano com queda da taxa de crescimento do PIB para 7,4%. Os EUA, por sua vez, estão em recessão segundo alguns analistas, e não há perspectiva para sua recuperação.
            As estatísticas só comprovam a imensa dificuldade da economia internacional em avançar para a nova fase do ciclo econômico. A intervenção econômica provocou um soluço e animou a economia por um curto período de tempo. Agora, endividados, os países não são capazes de injetar mais recursos, e já se fala em um arrastamento, por anos, de um ritmo lento de atividade econômica, o que caracterizaria uma saída da crise em formato de L.
            O Brasil continua a ser afetado pela situação mundial. Um estudo da Associação de Comércio Exterior do Brasil mostrou que, em 2012, o saldo comercial será de US$ 8 bilhões, o que representa uma queda de 76% em relação aos resultados de 2011. O minério de ferro, principal produto da pauta de exportação, apresentará queda de 22% no preço e de 5% na quantidade exportada. Sem grandes novidades, o estudo aponta que nove dos 10 produtos mais exportados pelo Brasil são commodities. E, de uma lista dos 20 produtos, elas são 18. O nosso principal produto “manufaturado” exportado é o óleo combustível, que não deixa de ser uma commodity. Estamos completamente conectados à crise internacional via comércio.
            Mas, é tarefa do governo tentar minimizar os efeitos da crise, inclusive com discursos na mídia. Afinal, o mercado deveria reagir aos bons discursos. Otimista, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, declarou que a economia brasileira já começa a dar sinais de reanimação e que, até o fim do ano, o crescimento será acelerado. A taxa anualizada será de 4%, e a taxa de inflação convergirá para a meta.
            Bem, a realidade está um pouco distante do otimismo de Tombini. A redução do IPI para o setor automobilístico, por exemplo, provocou um aumento nas vendas, mas, apesar da queda dos estoques gerais por conta deste aumento, a CNI já declarou que o primeiro semestre do ano está perdido. O desconto no imposto só vigorará até 31 de agosto, e os fabricantes já pedem a prorrogação da medida. Enquanto o governo cogitava a prorrogação em mais dois meses, surgiram rumores de que a GM planeja demitir 1,5 mil trabalhadores da unidade de São José dos Campos. A presidente Dilma Roussef, ao saber da notícia, disse que os incentivos fiscais concedidos deveriam garantir a manutenção do emprego dos brasileiros, o que, aliás, foi um compromisso assumido pelas empresas. O Ministério do Planejamento convocou a Anfavea e exigiu explicações, dizendo que os empregos devem ser mantidos não nesta ou naquela fábrica, mas que, no geral, eles devem ser mantidos. Quem será que ganhará esta queda de braço?
            O Caged (Cadastro geral de Empregados e Desempregados) detectou uma desaceleração no mercado de trabalho. No primeiro trimestre deste ano, o número de empregos criados caiu 24% em relação ao mesmo período do ano passado. No semestre, a queda foi de 25,9%. Pelo visto, esta briga está perdida.
            Outra briga perdida parece ser a da redução dos spreads bancários. Três meses após o governo anunciar a redução dos juros, uma simples observação dos balanços bancários permite detectar a farsa. No Bradesco, de março para junho, o spread caiu, de 11%, para 10,9% e, no Itaú, no mesmo período, a redução foi, de 13,5%, para 13,4%. Queda bastante significativa em três meses, não?
            Sem alternativa, o governo continua tentando. A dúvida é quanto aos resultados.


[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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terça-feira, 24 de julho de 2012

Onde estão os lobistas dos trabalhadores?


Semana de 16 a 22 de julho de 2012


Eric Gil Dantas [i]




            Há pouco mais de um século e meio, um polêmico pensador alemão, afirmara que “o poder político do Estado moderno nada mais é do que um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa”. Até parece que ele estava na Câmara dos Deputados, semana passada.
            Com a votação das medidas provisórias do Plano Brasil Maior na Câmara, o que não faltou foram lobistas. A MP 563, que já tinha chegado com 54 artigos, saiu da casa com 78. Os impostos que afetam vários setores serão reduzidos, podendo chegar a 0%. Os benefícios atingirão setores como os de hotelaria, de transporte rodoviário coletivo de passageiros, de manutenção e reparo de aeronaves, motores e componentes, de transporte aéreo de carga, de navegação, etc. Isto representará uma renúncia de R$ 1 bilhão nas receitas do estado.
            Mas, o lobismo vai mais longe. Em nosso banco de investimento público, os lobbies das grandes empresas atuam há bastante tempo. Quem não se lembra de quando o BNDES quase financiou a fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour no ano passado, a qual criaria um grande monopólio varejista? Agora temos um novo exemplo no setor frigorífico. O Valor Data constatou que, se o BNDESPar vendesse, hoje, as ações de sua participação na JBS, Marfrig e BRF-Brasil Foods, a perda seria de R$ 2,56 bilhões, equivalente a 27% do que o banco desembolsou ao financiá-las.
            Já em relação aos bancos (maiores detentores dos títulos da dívida pública), mesmo com a queda da taxa básica de juros, os laços com o governo ainda parecem estar sólidos. Isto se dá, em certa medida, pela grande notícia (para os bancos) de a fatia dos títulos vinculados a taxas flutuantes, como a SELIC, ter atingido o nível mais baixo desde 1997. A participação desses papéis caiu, de 26,77% em maio, para 23,98% em junho. Quem pensou que a queda da taxa básica de juros reduziria a dívida pública se precipitou. O BC “sabiamente” lançou outros papéis com remuneração mais elevada que já estão pagando até 24,08% ao ano (comparável a SELIC paga em 2003)!
            E para a classe trabalhadora? Onde estão os lobistas?
            Na GM, continua a pressão para extinguir a fábrica em São José dos Campos. Mesmo com a redução do IPI dos carros, que, de maio a julho, deve representar uma renúncia de R$ 2,1 bilhões para os cofres públicos, a GM ainda permanece ameaçando a transferência da produção de alguns modelos para outras regiões. Na verdade, já há novos modelos fabricados em São Caetano do Sul e Gravataí, no RS. A GM critica o sindicato, o qual reclama da falta de diálogo nas relações trabalhistas. O resultado poderá ser a demissão de 1,5 mil operários que trabalham diretamente na GM, além de 500 funcionários, em áreas relacionadas à linha, que estariam ameaçados.
            A tendência para os próximos meses é que a situação continue a piorar, pois a crise se aprofunda na indústria. Ilustremos com dois exemplos. Primeiro, os pedidos de falência cresceram mais do que em 2009, auge da crise, quando o Brasil teve uma retração em seu PIB. Conforme a Boa Vista Serviços, de janeiro a junho de 2012, foram feitos 959 requerimentos de falência, 16,5% a mais do que no mesmo período de 2011. Para se ter uma idéia, em 2009, o avanço de pedidos de falência foi de apenas 3,3%. No ramo da indústria, concentrou-se 39% destes pedidos, 2,0% acima de 2011, demonstrando que é o setor mais atingido pela atual crise. Segundo, temos o exemplo do pífio desempenho do crescimento da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços no estado de São Paulo, que foi de 1,5%, de janeiro a maio, em termos reais. Pior foi a arrecadação na indústria, que teve uma redução real de 0,3%, no mesmo período. Se compararmos com 2011, a receita total, referente à indústria, havia crescido 4,5%.
            Por fim, os trabalhadores com necessidades urgentes de contratar lobistas são os funcionários públicos. Além dos professores e servidores das instituições de ensino superior, dentre várias outras categorias em greve, funcionários de dez agências reguladoras e eletricitários de 14 empresas do grupo Eletrobrás também estão paralisando suas atividades parcialmente ou integralmente. Vamos ver se a presidente Dilma negociará desta vez.


[i] Economista e pesquisador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Qual o tamanho do Brasil?


Semana de 09 a 15 de julho de 2012


Lucas Milanez de Lima Almeida[i]




            Inspirada pela 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, a presidente Dilma soltou a infeliz frase: “Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz com as suas crianças e adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto, é a capacidade do país, do governo e da sociedade de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e adolescentes. Nós temos de ter um país com jovens, adultos e crianças com grande nível de escolaridade porque nós vamos disputar o que é a economia moderna, que é a economia do conhecimento”.
            Poderíamos aqui dizer que o tamanho do Brasil, segundo o critério da presidente, está tão comprometido quanto os bicheiros e mensaleiros de Brasília: quem é que ainda não ouviu falar da greve dos professores federais? Greve esta que precisou de 57 dias para ser notada pelo governo. Apenas no dia 13 de julho foi apresentada uma proposta arbitrária de aumento nominal dos salários (que varia, de 24,4%, a 45%), deixando de lado todas as outras reivindicações da pauta dos professores. Além disto, quem não ouviu falar do veto presidencial à proposta do Congresso Nacional, que obrigaria a presidência, nos próximos 10 anos, a destinar o equivalente a 10% do PIB para a educação?
            Poderíamos falar disto, mas não vamos. Diante das palavras de Dilma, vamos explicar o porquê deste novo discurso.
            A mudança veio para demonstrar que a queda de braço do governo com a realidade econômica foi perdida, apesar do Ministério da Fazenda manter em 4% a previsão oficial da taxa de crescimento do PIB brasileiro para 2012. Fontes do próprio executivo dão conta de que os 2,7% do ano passado já não podem ser alcançados. Por sua vez, o Banco Central e o FMI estimam um crescimento de 2,5%, enquanto a CNI prevê um valor de 2,1% e o “mercado” já fala em 1,9%.
            A produção brasileira perdeu o fôlego já no início do ano: comparando os quatro primeiros meses do ano de 2012 com o mesmo período de 2011; apenas os setores da agropecuária e do comércio e serviços aumentaram seus empréstimos frente ao BNDES, enquanto os setores da infraestrutura e, principalmente, da indústria recuaram. Na série livre de efeitos sazonais, a utilização da capacidade instalada na indústria vem caindo, mês a mês, desde janeiro de 2012, atingindo seu menor patamar desde outubro de 2009.
            Não é para menos. Os indicadores da atividade econômica estão cada vez piores. As vendas do comércio varejista, por exemplo, recuaram 0,8%, de maio para abril deste ano.
Por outro lado, o déficit da balança comercial da indústria cresceu 20% até maio, chegando a US$ 30,4 bilhões. Já o emprego na indústria nos dá um quadro pior: entre janeiro e maio de 2012, das 14 regiões pesquisadas, nove registraram saldo negativo na criação de vagas. No Brasil, a quantidade de empregos já é 1,1% menor do que no início do ano. A Fiesp estima que, em 2012, a indústria de transformação paulista irá perder 100 mil postos de trabalho.
            Segundo Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco, “a crise na indústria é absolutamente global e generalizada, marcada pela sobre oferta de produtos manufaturados”, o que é verdade. O FMI e a OCDE já admitem uma retração maior do que a anteriormente prevista na atividade mundial. A China, por sua vez, terá que enfrentar seu “pibinho” de, no máximo, 7,5%. Este será o menor patamar desde 2008, quando estourou a Bolha do Subprime. O Reino Unido, por sua vez, apresentou sua terceira queda consecutiva no PIB trimestral, que caiu 0,2% em relação ao primeiro trimestre de 2012.
            Não bastassem os 28 milhões de empregos eliminados, os US$ 4 trilhões perdidos na produção desde a quebra do Lehman Brothers e os 48 milhões de desempregados nos países ricos em maio deste ano, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, se os governos mantiverem suas políticas de austeridade, 4,5 milhões de empregos serão perdidos na Zona do Euro.
            Diante de um cenário devastador, tanto interno como externo, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), que é um indicador mensal calculado pelo governo para o PIB, teve uma retração, entre abril e maio, de 0,02%. Isto nos mostra que, seja pelo tamanho do PIB, seja pelo tamanho do comprometimento do governo com a “economia do conhecimento”, o tamanho do Brasil continua caminhando para um patamar insignificante.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)
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