quinta-feira, 25 de março de 2010

Alta tensão na zona do Euro

Semana de 15 a 21 de fevereiro de 2010

O sistema financeiro mundial continua fortemente instável, e os mercados mundiais se encontram em alerta diante do perigo de eclosão de uma nova crise econômica e financeira, antes mesmo das consequências da última crise terem cessado.
No dia 19 passado, as autoridades americanas anunciaram a falência de mais quatro bancos nos Estados Unidos, aumentando para 20 o total de instituições que faliram somente este ano.
No início do mês, aumentou também a preocupação dos investidores com a enxurrada de notícias sobre o forte endividamento dos países europeus. Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha estão entre os que possuem as maiores dívidas. No caso da Itália, a dívida já representa mais de 100% do seu Produto Interno Bruto (PIB).
A situação na Europa ficou ainda mais complicada com as denúncias de que alguns países, como a Grécia, para aderir à zona do euro, ocultaram bilhões de dólares em dívidas com a ajuda de grandes bancos internacionais, o que já está sendo chamado de “subprime europeu”. Uma estratégia parecida com aquela que impulsionou o crescimento das hipotecas de alto risco nos Estados Unidos.
Instituições financeiras como o JPMorgan Chase e o Goldman Sachs desenvolveram instrumentos que possibilitaram aos governos da Grécia e da Itália mascararem empréstimos, forjando suas contas para criar a aparência de uma boa administração. A proposta apresentada pelo Goldman Sachs à Grécia esteve baseada num instrumento financeiro que prolongou sua dívida, empurrando-a para o futuro. Foi uma manobra semelhante à de uma pessoa que faz uma segunda hipoteca para pagar suas dívidas da hipoteca anterior. Em vários acordos dessa natureza, bancos adiantaram dinheiro a países europeus em troca de pagamentos futuros que não eram registrados como empréstimos contraídos, o que acabou por encobrir a real dívida dessas nações. Novamente, a Grécia serve de exemplo. Ela concedeu direitos sobre tarifas aeroportuárias e proventos de loterias como formas de pagamento.
Com as denúncias de fraudes nas contas públicas desses países, aumentou a tensão na zona do euro. A dívida de importantes economias européias, portanto, é bem maior do que aquilo que se pensava, e o grande problema debatido no velho continente agora é como a falência de países como a Grécia, cujo déficit orçamentário, em 2009, alcançou a marca de 12,7% do PIB, pode repercutir de maneira desastrosa na economia global. Alguns temem que esta falência traga consequências ainda piores, para o sistema bancário, que a quebra do Lehman Brothers, ocorrida em setembro de 2008. Já o colapso da Espanha colocaria em risco também a Alemanha, uma vez que os bancos alemães são detentores de grande parte dos títulos da dívida espanhola.
Os efeitos negativos dessa forte integração econômica e da livre mobilidade de capitais levaram economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) a modificarem a visão da entidade sobre o controle destes capitais. O FMI passou a sugerir que os países devem usar impostos e regulamentação para moderar a euforia dos capitais, responsáveis pelo surgimento das bolhas especulativas. Dessa maneira, o FMI altera o velho dogma sagrado do livre mercado, que sempre defendeu, chamando a atenção para o risco de formação de novas bolhas especulativas em países emergentes, como a China, onde os temores com a especulação imobiliária e a aceleração da inflação não param de crescer.
Se ao nível financeiro as tensões aumentam, no mundo do trabalho, as relações entre empregadores e empregados continuam muito instáveis. Em janeiro, trabalhadores da AB InBev, maior companhia de cerveja do mundo, bloquearam as entradas de fábricas da empresa na Bélgica durante duas semanas, exigindo o abandono do plano de eliminar 10% dos seus atuais 8 mil empregados na Europa Ocidental. A companhia, que detém 25% do volume mundial de vendas de cerveja, chegou a acorrentar os portões da fábrica na cidade de Leuven, para não permitir a entrada dos trabalhadores e forçar a demissão coletiva de 300 deles. Os custos das demissões e a pressão política das autoridades do Governo Belga, que avisaram que não arcariam com o seguro-desemprego, levaram a cervejaria a abandonar temporariamente o plano de demissões.
Nos Estados Unidos, as demissões em massa tornaram-se frequentes durante a crise, assim como as falências, os planos de reestruturação e corte de custos. Este fato, segundo o jornalista C. Sardenberg, vem proporcionando uma recuperação mais rápida em relação às demais economias que operam com amplas redes de proteção social, como a Alemanha, onde o governo pagou para que as empresas não demitissem, estimulando-as a contratarem em tempo parcial, pagando aos trabalhadores as horas não trabalhadas. Nos Estados Unidos, as empresas simplesmente demitem, fecham as fábricas e cortam custos, de tal maneira que o ajuste econômico é mais rápido, embora o custo social seja bem mais elevado. Mas a destruição e a violência das leis econômicas fazem mesmo parte do capitalismo, e a ação do Estado para reduzir tais efeitos constitui apenas uma tentativa de intervir na dinâmica de funcionamento desse sistema.
Enquanto isto, no Brasil, em ano de eleições, o afrouxamento fiscal que envolve a elevação de gastos da máquina administrativa preocupa os mais ortodoxos, entre os quais se encontram os principais quadros do Banco Central. Por isso, a expectativa é de elevação da taxa básica de juros, a Selic. De acordo com o Instituto Internacional de Finanças (IIF), órgão que representa as maiores instituições financeiras do mundo, a Selic deve saltar, dos atuais 8,75%, para 12,25% até o final de 2010. Caso isto ocorra, o Brasil encerrará o ano bem mais perto da posição que ocupava até pouco tempo, de país com a maior taxa de juros do planeta. Algo bastante coerente com a política econômica brasileira dos últimos anos, que, apesar dos programas de assistência social de caráter paliativo, sempre obedeceu à risca os mandamentos da cartilha econômica canônica do FMI. Como lembra Delfim Netto, ela esteve baseada na perseguição incansável pelas metas de inflação, na formação de superávits primários para o pagamento da dívida e na flutuação cambial acompanhada de grande mobilidade de capitais, mobilidade que se pretende ampliar.
Com efeito, se discute um projeto que pretende transformar São Paulo em centro financeiro da América Latina, através de medidas que visam ampliar a liberdade de entrada e saída de capitais, como a eliminação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), cobrado dos investidores (especuladores) externos. O projeto começou a ser pensado, acerca de um ano, pela iniciativa privada e tem a participação do governo. Ou seja, mais uma vez o Brasil chega atrasado à festa, no momento em que a farra financeira está demonstrando sinais de extrema fragilidade e que os demais países tentam criar mecanismos adicionais de controle de capitais.
Parece que, novamente, o Brasil se encontra na contramão da economia mundial.

Texto escrito por:
Diego Mendes Lyra: Mestrando em economia, Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto globalização e crise na economia brasileira

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quinta-feira, 18 de março de 2010

A Globalização e a Recuperação da Economia Brasileira

Semana de 08 a 14 de fevereiro de 2010

A globalização vem se desenvolvendo ao longo dos tempos através das várias expansões do comércio internacional e de suas seguidas transformações. Grosseiramente, poderíamos defini-la como uma progressiva integração das esferas de produção, distribuição e consumo dos países do globo. O que preocupa em momentos de crise, entretanto, é que esta união, assim como o matrimônio, é válida na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e todos sabem disto.
Não foi sem razão que o “espectro do nervosismo” rondou a Europa esta semana e espalhou-se pelo resto do mundo, refletindo-se nas bolsas de valores. A ansiedade dos especuladores, que tinha como fonte a situação da dívida pública grega, só diminuiu após o anúncio, nesta quinta-feira, de que, caso o país precisasse, seria socorrido pelos seus parceiros de bloco econômico. Embora tais especuladores não saibam ao certo o porquê, sua preocupação realmente tem fundamento.
A função do dinheiro como Meio de Pagamento consiste em viabilizar o ciclo das mercadorias apenas por intermédio de dinheiro ideal, ou seja, sem a presença física do dinheiro. Durante a crise, esta função do dinheiro foi demasiadamente utilizada na tentativa de minimizar a destruição de capitais e trazer rapidamente de volta o crescimento econômico mundial. O fato que não é do conhecimento da maioria dos “policy-makers” (elaboradores de políticas econômicas) é que a recuperação econômica não depende de suas vontades, mas sim das “vontades” do Modo de Produção Capitalista.
Assim como esta função do dinheiro pode servir para “driblar” momentos ruins, ela também é uma das formas de manifestação das crises. Diante disto, se a destruição de capitais não se completou devido a sua utilização, em virtude dela, a crise voltará. E, ao que tudo indica, é o que está para acontecer.
Não só a Grécia, mas também Portugal, Irlanda e Espanha estão com as contas públicas em situação de risco. A semelhança da situação de tais países foi reconhecida pelos agentes econômicos através da criação da sigla Pigs para fazer referência a eles. Juntos, os Pigs têm uma dívida com bancos europeus que atinge a cifra de US$2 trilhões. Só a Grécia possui US$330 bilhões desta dívida. Assim, caso o país decretasse moratória, deixando de honrar com seus compromissos, esta situação crítica facilmente espalhar-se-ia pelo bloco europeu via sistema financeiro.
A tão glorificada economia chinesa não deixa por menos. Segundo o advogado especialista em falências Niel McDonald, já há “trilhões e trilhões de yuans em empréstimos de difícil recuperação na China, e ninguém está fazendo nada a esse respeito”. Em virtude deste acúmulo de “créditos podres” no país, o advogado não hesitou em afirmar: “Em algum momento deverá haver algum ajuste de contas para isso”.
Mas, isto não é tudo. A situação pode ainda tomar proporções maiores do que se imagina. Isto porque, segundo a consultoria McKinsey, a dívida das dez economias mais desenvolvidas do mundo aumentou 60% desde 2000 e hoje alcança a casa dos 40 trilhões. O fato é que este montante representa 330% do PIB destes países, ou seja, é cerca de três vezes maior do que a riqueza que eles produzem.
Neste caso, portanto, não só é possível, como também é bastante provável que as barreiras que impedem o consumo, conteúdo das Crises Cíclicas de Superprodução, se manifestem através de outra forma e tragam de volta o cenário de crise econômica. Resta-nos saber, contudo, se veremos apenas o desenrolar de uma crise complementar ou de uma catástrofe.
No Brasil, a situação é bem diferente da européia. Em janeiro deste ano, na comparação com janeiro de 2009, a inadimplência da economia caiu 3,14% e houve um aumento de 3,12% nos pedidos de cancelamento de registros no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Em virtude disto, constatou-se, no mesmo período, um aumento de 7,11% nas vendas a prazo no varejo. Devido a estes e outros estímulos, ocorreu um aumento de 0,54% no emprego na comparação do mês passado a dezembro de 2009. Este aumento representa uma criação de 12 mil postos de trabalho. Por sua vez, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada do mês de dezembro, que subiu, de 81,3% em novembro, para 81,7%, já apontava nesta direção.
Todavia, embora se verifique claramente o surgimento das condições para a retomada do crescimento na economia brasileira, esta situação pode ser revertida. Por melhor que esteja a situação da nossa economia frente ao resto do mundo, caso um novo mergulho seja deflagrado pela Grécia, a situação de crise espalhar-se-á não só pela União Européia. Em um segundo momento, ela irá espalhar-se por todo o mundo. A globalização não só é válida para países que integram um mesmo bloco econômico, mas também para as demais economias do globo, pois todas elas estão, de algum modo, ligadas economicamente.
Portanto, em virtude das contradições geradas pelo fenômeno globalização, somos obrigados a anunciar que a recuperação da economia brasileira, se não for revertida, será, pelo menos, deformada pela presença de taxas de crescimento menores que o esperado. E isto ocorrerá com qualquer economia que esteja integrada ao movimento cíclico mundial do capitalismo, pois é assim que são as tão faladas Crises Cíclicas de Superprodução.

Texto escrito por:
Antonio Carneiro de Almeida Júnior: Economista, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da UFPR, PPGDE/UFPR, e pesquisador do PROGEB - Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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Varre, varre vassourinha... As conseqüências da crise

Semana de 01 a 07 de fevereiro de 2010

Caro leitor, o carnaval passou. As festividades desta época contagiam todos os foliões em todas as partes do Brasil. Marchinhas de frevo e samba são entoadas pelos quatro cantos. Trios elétricos arrastam multidões embriagadas de felicidade. Todos os anos surgem hits que fazem o maior sucesso nos blocos carnavalescos. Por que este ano seria diferente?
No ano passado as rodas de choro cantavam tsunamis e marolas. Hoje se exalta o swing e o balacobaco brasileiro. Isto porque, segundo a notícia reportada em 01/02/10 no jornal Valor Econômico, "o país transformou-se em exemplo de sucesso, não só no desempenho econômico, como na regulação bancária, no uso de combustíveis renováveis, na conciliação de crescimento com distribuição de renda e até na aplicação de regras de proteção à saúde e ao ambiente dentro da OMC". Este reconhecimento foi feito no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
Porém este canto pode desafinar e destoar das inspirações reais.
Em análises passadas já vimos que alguns números soam tão bem aos ouvidos que são declamados o tempo todo como se fossem um refrão. Tanto que, diante da expectativa de crescimento para 2010, o Comitê de Política Monetária do Banco Central sinalizou, na última ata, que começará um ciclo de arrocho monetário, o qual pode ter início com um aumento da Selic, já na próxima reunião do dia 17 de março. No entendimento do Copom há uma pressão da demanda doméstica sobre o mercado de fatores, o que aumentaria a pressão inflacionária.
Mas nem todas as estrofes de uma música são refrãos. Existem aquelas que são apenas balbuciadas, como se os cantores não soubessem da letra. Mas quem cantaria sobre a expectativa de esfriamento da economia, após o fim da redução do IPI? Os versos se tornariam lamúrias, já que as indústrias de bens de consumo duráveis e da construção civil são diretamente beneficiadas pela política fiscal. Elas estimulam outros setores, como, por exemplo, o do aço, o têxtil e o calçadista, os quais prevêem uma aceleração, no começo de 2010, estimulada pela demanda interna. Outro reflexo do estímulo fiscal é visto na elevação de 18%, do consumo interno de máquinas (somatório das vendas das máquinas nacionais e importadas), do 3°, para o 4° trimestre de 2009. A incidência dos benefícios governamentais (redução do IPI, PAC, bolsa celular, etc.) é, justamente, sobre os setores mais afetados pela crise, em termos de fechamento de postos de trabalho. Só no setor de materiais elétricos e de equipamentos de comunicação foram fechados 11,7 mil postos.
Como numa apuração do desfile das escolas de samba, a economia apresenta números referentes ao desempenho de cada ala. Para o crescimento da produção industrial brasileira, em 2009 (comparado com 2008), temos as seguintes cifras: bens de capital -17,4%; bens intermediários -8,8%; bens de consumo - 2,7%; bens de consumo duráveis -6,4%; semi e não-duráveis -1,6%; insumos para a construção civil - 6,7%; indústria extrativa -8,8%; e indústria de transformação -7,3%. Tudo isso gera um saldo de redução
da produção industrial total de 7,4%.
Indicadores da produção industrial por categorias de uso - Brasil - dez. 09(*)

(*) Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem

Indicadores da produção industrial por categorias de uso
Índice trimestral (Base: igual trimestre do ano anterior)(*)
(*) Para melhor visualização do gráfico clique sobre a imagem

No mundo, outros temas poderiam se tornar versos tristes, como a cifra de 4,6 milhões de pessoas que estão recebendo o seguro-desemprego, nos Estados Unidos. Ou os 4,048 milhões de trabalhadores da ativa que estão desempregados na Espanha, perfazendo um total de 18,83% da população economicamente ativa. E o que dizer da Rússia, que teve uma retração de 7,9% do PIB, diante da retração de 8,1%, no consumo e 18,2%, nos investimentos?
Existem ainda aquelas canções que são tão repetitivas que se tornam ladainhas (típicas do compositor Meirelles), como é o caso das fusões, formação de trustes e cartéis e a oligopolização da economia, ao longo do desenvolvimento do capitalismo. Isto se dá de forma mais intensa nos períodos em que o ciclo econômico atinge as fases de crise e depressão (fundo do poço). Nestes períodos, as empresas estão mais fragilizadas e vulneráveis à falência. Por este meio os capitais individuais mais poderosos se fortalecem. No início da reanimação este fenômeno também ocorre como forma de reestruturação do capital nos diversos setores da economia.
É o atual caso do Brasil, por exemplo. Assistimos a Companhia Siderúrgica Nacional pretendendo tornar-se sócia majoritária da CIMPOR (cimenteira portuguesa), numa transação que pode chegar a € 3,86 bilhões. A WEG, em processo de expansão, por sua vez, irá contratar até 600 dos 1.138 funcionários despedidos pelo plano de demissão voluntária (PDV) da empresa de ônibus Busscar. A união da Shell e da Cosan vai criar uma empresa com 29,2% do mercado brasileiro de distribuição de etanol. Sem falar no caso da Brasken, que iniciou um processo de internacionalização, apoiado pelo governo (através da Petrobrás e do BNDES).
Enquanto isso, as empresas mais fracas caminham para a falência. Entre 2008 e 2009, o Serasa registrou um crescimento de 18,8% na inadimplência das empresas.
Na Europa, a Unilever, a segunda maior empresa de bens de consumo do planeta, é investigada por órgãos antitruste, na Bélgica, República Tcheca, Alemanha, Holanda, França, e Itália. No ano de 2008, ela já foi multada em € 37 milhões, na Alemanha, por fixação conjunta de preços de alguns produtos. Outra gigante que chama a atenção no momento é a Wal-Mart, que demonstra interesse em adquirir operações do Carrefour, aqui no Brasil.
Mas, como o carnaval só dura alguns dias, deixemos esta cantiga de lado. Continuemos nossa tarefa de prosear sobre as diversas faces e fases do modo de produção capitalista, expondo aquilo que por algum motivo se quer esconder e fazer calar.

Texto escrito por:
Lucas Milanez de Lima Almeida: Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB, Mestrando em Economia pelo CME-UFPB e membro do Progeb.

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quinta-feira, 11 de março de 2010

Economia planetária na rampa de lançamento

Semana de 25 a 31 de Janeiro de 2010

O acontecimento mais marcante da semana em análise foi o Fórum de Davos, que, ao completar 40 anos, procurou disfarçar a sua postura liberal ortodoxa. A nova postura de Davos é decorrência da preocupação com a necessidade de fortalecer a “governança global”, criando um modelo de gestão dos riscos sistêmicos de efeitos generalizados sobre todos os países. O fórum tenta apontar ao mundo as saídas para a crise, que, segundo os dados e a opinião dos especialistas, se encontra numa fase ainda preocupante e muito distante da estabilidade.
Com uma unanimidade nunca vista desde a Conferência de Bretton Woods (1944), duas grandes novidades se destacaram lá: a identificação do sistema financeiro mundial como o vilão da “odisséia” econômica contemporânea e o reconhecimento inequívoco de que os países emergentes passaram, de Estados susceptíveis a colapsos, a países que poderão salvar o mundo.
Com relação à primeira, as lideranças do mundo concluíram em conjunto que é necessário reforçar o sistema financeiro global. Quanto à segunda, serve de exemplo a declaração do presidente do Deutsche Bank, Joseph Ackermann: "Não subestimem os emergentes! Pois lá vivenciaremos um intenso desenvolvimento, que muito ajudará aos países industrializados".
As mesmas preocupações manifestaram-se nos pronunciamentos das instituições financeiras internacionais.
O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, acredita que serão os países emergentes que tirarão o mundo da crise. Com efeito, o FMI prevê que, em 2010, a China crescerá 10%, a Índia, 8%,  quanto a Alemanha ficará abaixo dos 2%. É de salientar que se espera um crescimento de até dois terços do fluxo de capital privado para os mercados emergentes, principalmente para o Brasil e a  China. Segundo informação do Instituto Internacional de Finanças (IIF), associação que reúne os maiores bancos do mundo, estes dois países se encontram na dianteira da recuperação global. A perspectiva do IIF é de que, nesse ano, a entrada de capitais estrangeiros nos mercados emergentes atinja US$ 722 bilhões, valor muito superior, conforme dito anteriormente, aos US$ 435 bilhões estimados para o ano de 2009. Na análise do IIF, após um recuo de 2,5% em 2009, a economia global deverá crescer 3,2% em 2010, sendo que as economias maduras devem avançar até 2,4%, enquanto os mercados emergentes crescerão 6,1%.
Peter Sands, um dos principais executivos do banco britânico Standard Chartered Bank, afirmou que “essa crise econômica pôde rapidamente deslocar o poder econômico no mundo (...) do Ocidente para o Oriente". Segundo ele, o poder econômico afasta-se dos que "consomem e se endividam, para se aproximar daqueles que poupam e produzem". Ele se referia diretamente à mudança da liderança, dos endividados EUA, para a Índia e a China.
Outra questão em destaque foi a vantagem que o intervencionismo, momentaneamente, vem obtendo contra o “liberalismo.
Nesta semana, o Presidente do Conselho de Estabilidade Financeira, Mario Draghi, anunciou a existência de reguladores globais que estão trabalhando em favor de propostas para a criação de uma agência central, para gerir as falências de bancos. Ele revelou que as autoridades estão avaliando ideias sobre uma sobretaxação de capital ou de capital especulativo, para instituições consideradas grandes demais para entrarem em colapso. O ministro de Finanças da Grã-Bretanha, Alistair Darling, disse à Reuters: "Primeiramente concordamos que o que quer que façamos precisa ser universal". Já o banco Central da China estabeleceu como meta assegurar que o crescimento de empréstimos não superaqueça a economia, como disse à Reuters o seu vice-presidente, Zhu Min: "Estamos muito cuidadosos ao gerir o crescimento dos empréstimos neste ano para reduzir o ritmo do avanço do crédito e garantir que o investimento esteja num nível equilibrado a ponto de evitar um super aquecimento (...) Guiaremos (não queremos utilizar a palavra controle, porque eles, os bancos, são entidades comerciais) o mercado e gostaríamos de ver um crescimento suave do crédito e da economia".
De uma maneira generalizada, os bancos centrais discordam sobre como agir depois da crise. As principais divergência encontram-se na escolha do momento para aumentar o juro e em quanto elevá-lo. Além disso, os políticos, principalmente europeus, temem que os gastos governamentais, aliados ao dinheiro fácil que os bancos centrais injetaram no sistema bancário, principalmente o de taxas de juros próximas de zero, entre outros, possam criar as condições para uma nova crise.
Enquanto estas questões são debatidas, a perspectiva da maioria das opiniões é de que a recuperação da economia mundial, ainda esse ano, deverá acontecer de forma irregular e multifacetada, a custa do abandono da prática ditada pela ortodoxia liberal e mantendo elevadas a taxa de desemprego e a inflação.
As notícias confirmam estas opiniões.
Nos Estados Unidos, a atenção volta-se para a política econômica do Governo, com Obama tentando cortar gastos e agradar os eleitores ao mesmo tempo. No dia 28, ele fez um discurso sobre o estado da união perante o Congresso, onde, no Orçamento para 2011, apresentou a diminuição das despesas do governo. Paul Krugman, personagem que aglutina os liberais insatisfeitos com o atual presidente norte-americano, considerou que isso equivalia a uma traição aos objetivos pelos quais os seguidores de Obama estiveram a trabalhar. Os dados, de 2009 da economia estadunidense, por sua vez, não melhoram o quadro geral. O deficit público esse ano deverá atingir 9,2% do PIB, a dívida pública deve subir para 67% do PIB e o pagamento de juros vai disparar para 3,2% do PIB. Obama pretende um congelamento de gastos que afetará todos os gastos discricionários das agências federais, excluindo defesa, assuntos internacionais, segurança interna e veteranos de guerra. Espera-se que, com essa medida, seja gerada uma economia de US$ 250 bilhões nos próximos dez anos. Ao mesmo tempo, o presidente americano anuncia um pacote para ajudar a classe média. No pacote, estão: a duplicação de incentivo fiscal de assistência a crianças de famílias com renda inferior a US$ 85 mil ao ano, um aumento de fundos federais para programas de atendimento infantil, um programa que limita os financiamentos de estudantes em 10% da renda acima da “renda básica de subsistência” e incentivos às famílias que cuidam de parentes idosos e aos trabalhadores que fazem poupanças para aposentadoria autônoma.
Nesse contexto, Ben Bernanke foi reconduzido, com apoio do Senado dos EUA, para o seu segundo mandato a frente do Federal Reserve – FED. A aprovação na votação do senado foi obtida com 70 votos contra 30. O democrata Sheldon Whitehouse comentou: “Se você é juiz do jogo de nossa recuperação, parece que o placar pode ser resumido na frase: Bancos venceram”.
Na Rússia, no quarto trimestre de 2009, dos US$ 42 bilhões de capitais privados previstos pelo Banco Central para entrarem no país, ingressaram apenas US$11,6 bilhões. No entanto, no terceiro trimestre, saíram US$ 33,4 bilhões. Em 2009, o PIB contraiu-se 8,5% em relação ao ano anterior, mas nos últimos dois trimestres consecutivos a economia vem se expandindo e estima-se, para este ano, um crescimento de, pelo menos, 3%. Nos bancos, a carteira de empréstimos considerados irrecuperáveis continua elevada, atingindo 20% para todo o setor. Contudo, o anúncio do governo de um deficit orçamentário de 5,9% foi bem inferior aos 7,7% que estavam projetados. Comenta-se que essa mudança, ou inflexão, deveu-se aos preços do petróleo.
Na China, o principal destaque da semana foi o corte de crédito bancário, que tem sido um dos motores do crescimento acelerado do país. Não se conhece, no entanto, a extensão dessa medida. O presidente da Comissão Reguladora do Setor Bancário disse na semana passada que o órgão espera que a soma dos novos empréstimos situar-se-á em torno de 7,5 trilhões de yuan neste ano. Comparados com os 9,59 trilhões de yuan em 2009, representam uma queda, mas, comparando-se com 2008, é mais do que o dobro.
No Brasil, o otimismo continua a prevalecer, empurrado pelas ações e propaganda do governo. Embora as receitas tenham aumentado em apenas 4,8%, as despesas primárias do governo federal cresceram 15%, em 2009, em valores nominais, a um ritmo mais acelerado do que no ano anterior. Diante do descompasso entre a arrecadação e as despesas, o superavit primário caiu substancialmente, se comparado a 2008, passando de R$ 71,438 bilhões para R$ 39,215 bilhões. Em percentagem do PIB caiu, de 2,38%, para 1,25%.
Tal como o Federal Reserve, FED, o Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil, BCB, manteve, nesse caso por unanimidade, a taxa básica de juro, Selic, em 8,75% ao ano, pelo menos até 17 de março, quando ocorrerá uma nova reunião. Os especialistas, porém, acreditam que, no final de 2010, ela atingirá os 11,25%.
A dívida bruta do governo brasileiro geral, que inclui os débitos da União, dos Estados e dos municípios, atingiu 64,1% do PIB em novembro de 2009, registrando um aumento acumulado de 7,8%, se comparado ao ano anterior. Considera-se que esse crescimento acentuado foi causado pelo aumento das operações de crédito do Tesouro a bancos estatais. No ano passado, foram concedidos, ao BNDES, R$ 100 bilhões, e já estão comprometidos R$ 80 bilhões para esse ano.
Nessa mesma semana, publicaram-se alguns índices que nos permitem fazer uma avaliação, ainda que superficial, do que os agentes económicos esperam da economia do país. O Índice de Confiança do Empresário Industrial relativo a Janeiro atingiu os 68,7%, o maior resultado em toda a série histórica, que teve início em 1999. Os resultados que se situam acima dos 50% indicam otimismo. Se comparado com o resultado obtido em outubro de 2009, o índice cresceu 2,8% e acumula um crescimento de 21,3% pontos desde janeiro do ano passado. Por sua vez, o Índice de Confiança do Consumidor cresceu 0,6%, entre dezembro e janeiro, passando, de 112,3, para 113 pontos. O Indicador Serasa Experian de Atividade Econômica, diz-nos que a economia do país cresceu 4,5% em novembro do ano passado, se comparado com igual período de 2008. Nesse mesmo tempo, o mercado voltou a projetar uma taxa de inflação acima da meta para 2010, de acordo com o Boletim Focus do Banco Central.
Em síntese: a economia planetária, o Brasil incluído, está na rampa de lançamento, através de medidas intervencionistas tímidas. Afinal, nem tanto ao mar nem tanto a terra. A dúvida que fica é saber se o impulsionador vai funcionar na medida necessária.

Texto escrito por:
Elivan Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.

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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Recuperação ou duplo mergulho?

Semana de 18 a 24 de janeiro de 2010

A tendência que temos observado nas últimas cinco semanas continua a se manter. Não resta dúvida que estamos no processo de reanimação, terceira fase do ciclo econômico. A questão a discutir agora, e que levanta dúvidas aos comentaristas e às autoridades dos países do mundo, é o caráter desta recuperação. É difícil encontrar alguma voz otimista. Quase todos constatam que ela será lenta e difícil. Fala-se também sobre a possibilidade de um novo mergulho, tendo sido criado já o termo “duplo mergulho” ou saída em W. Em um documento intitulado “Situação e perspectivas econômicas globais para 2010”, divulgado no dia 20 de janeiro passado, o Departamento de Assuntos Sociais da Organização das Nações Unidas (UNDESA) alerta para este perigo. O documento reconhece que “a recuperação é fraca” e existe o risco de uma recessão secundária em 2011. Por esta razão os governos são conclamados a manterem seus programas de ajuda ao sistema financeiro e às empresas. A ONU estima que, em 2009, a produção mundial decrescerá 2,2% e que, em 2010, o crescimento será modesto, indo dos 2,1% previstos para os EUA, até 0,9%, para o Japão e 0,6%, para a União Européia. De fato, os dados mostram que, para a União Européia, em janeiro, o ritmo de crescimento ficou comprometido. Jurgen Stark, membro do conselho executivo do Banco Central Europeu (BCE), alertou que o crescimento do primeiro semestre de 2010 será mais fraco do que o do ano anterior. Chris Williamson, economista chefe do Instituto Markit, que elabora os “índices dos gerentes de compras”, afirmou que a recuperação ainda não saiu radicalmente dos trilhos, mas que a Alemanha, a maior economia da zona do euro, estagnou no último trimestre de 2009.
No dia 21 passado, foi a vez do Banco Mundial divulgar suas recomendações. Estimando modestos 2,7% de crescimento para a economia mundial em 2010, também alertou para o sombrio quadro de 2011: “Uma grande incerteza encobre as projeções sobre o segundo semestre de 2010 em diante.” O Banco Mundial conclamou os governos para “calibrarem” o fim dos pacotes de ajuda sob pena da volta da recessão em 2011.
Os humores do sistema financeiro também não estão muito bons. Jamie Dimon, executivo chefe do J.P.Morgan Chase, poderoso grupo financeiro dos EUA, embora reconhecendo a boa notícia de que o banco teve um lucro de US$ 3,3 bilhões no quarto trimestre do ano passado, afirmou: “Não sabemos quando a recuperação ocorrerá”, pois os consumidores continuam com dificuldades para pagarem suas hipotecas e as contas do cartão de crédito. Michael Cavanagh, diretor financeiro do mesmo grupo, espera que, nos próximos trimestres, este perderá cerca de US$ 2,5 bilhões por trimestre.
Já o Citigroup, outro grupo dos EUA, com 27% de suas ações nas mãos do governo, encerrou o último trimestre do ano com um prejuízo de US$ 7,6 bilhões. A devolução de US$ 20 bilhões aos cofres públicos em dezembro, parte da ajuda recebida do governo, contribuiu para o prejuízo. O banco ainda passará boa parte de 2010 pagando suas dívidas.
Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), considerando-se “prudente em relação ao futuro” declarou, na Conferência de Risco País realizada pela seguradora francesa Coface, em Paris, que a situação nos mercados de trabalho continuará a piorar em 2010 e 2011. Lamy lamentou que a situação de crise, em 2009, tenha provocado uma onda protecionista que continuará a se agravar em 2010.
A China, apesar de comemorar a taxa de crescimento do PIB de 8,7% em 2009, em relação a 2008, agora teme o estouro de uma bolha imobiliária, assim como ocorreu nos EUA.
Como se vê, há um grande número de informações e opiniões que expressam as dúvidas sobre o processo de recuperação da economia mundial, e crescem os temores sobre a possibilidade de que o famoso “duplo mergulho” venha a acontecer. O que não existe é uma explicação para tal acontecimento. Falta uma teoria para acender a luz no fundo do túnel, uma teoria capaz de explicar o fenômeno do ciclo econômico e o papel que a fase de crise representa em sua evolução.
A primeira questão que é omitida por quase todos os comentaristas é que a crise não é financeira, mas uma crise cíclica de superprodução. Em segundo lugar, esta superprodução é de capitais sob todas as suas formas: a forma dinheiro, a forma mercadoria, a forma produtiva e a forma mais importante no capitalismo atual, que é a forma “mercadoria capital”, que chamaremos MK. Isto quer dizer que foram produzidas mercadorias demais, foram construídas fábricas em excesso e, mais ainda, o mundo foi inundado pela tal Mercadoria Capital (MK), da qual faz parte o capital fictício. Isto não significa que todas as necessidades sociais tenham sido satisfeitas, mas, nas condições capitalistas de acumulação, o que foi produzido não pode mais ser consumido, pois barreiras econômicas impedem este consumo.
Nestas circunstâncias, a solução gerada pelo sistema é a destruição dos excedentes, papel desempenhado pela crise. Desculpem-nos os leitores, mas a recuperação só se dará quando a destruição for concluída, para infelicidade nossa que nada temos a ver com isto. Para mal de nossos pecados, a parte mais perniciosa e parasita do sistema, que é o capital financeiro, a grande fábrica da tal MK, continua quase intacta. A mais protegida pelas ajudas dos tesouros dos países mantêm-se produzindo um volume crescente de MK, que se atira com voracidade sobre as Bolsas de Valores em busca da especulação e dos rendimentos parasitas. E isto, ajudado pelas teorias econômicas oficiais, que a tudo justificam, chamando de “investimento” qualquer ato de pura especulação que não cria riquezas, mas se apropria da que é gerada pelos setores produtivos.
Até quando?
Mas, enquanto as dúvidas pairam sobre o mundo, o otimismo oficial se espalha sobre a economia nacional. A acreditar no presidente do Banco Central (BC), Henrique Meireles, “depois de décadas de baixo crescimento e vulnerabilidade macroeconômica a economia do Brasil está na posição macroeconômica mais forte já vista.” Esta declaração foi feita em uma teleconferência, no BC, em Brasília, para jornalistas estrangeiros e analistas do mercado.
Mais preocupado mostrou-se o prêmio Nobel da economia, Paul Krugman, no encerramento da ExpoManegement, em São Paulo: “Temos que evitar a Bolha Brasil, uma imensa onda de liquidez capaz de derrubar o câmbio, inflar o crédito e as bolsas....”
De fato, a euforia, os juros altos e a proteção ao capital financeiro, que tornam o Brasil o paraíso para tal tipo de capital, tem provocado o aumento no fluxo de entrada de dólares no país com a conseqüente valorização do real, o que vem trazendo complicações para o setor exportador. O déficit na balança comercial deste ano já atingiu US$ 967 milhões, diante da queda das exportações. O governo tenta conter o desastre através de sobretaxas de importação (principalmente para os produtos chineses) ou com medidas de favores fiscais.
Por outro lado, a entrada de divisas provenientes dos Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) vem caindo a nível mundial e no Brasil, em particular. De fato, no ranking dos recebedores de IDE o Brasil, em 2009, caiu três posições estando agora no 13º lugar, segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Como, apesar disso, o fluxo de dólares continua a se manter, conclui-se que estes recursos que estão chegando se destinam à pura especulação financeira.
Expressões como desindustrialização, doença holandesa ou especialização regressiva são cada vez mais usadas. Em um ambiente externo muito instável e na medida em que o desenvolvimento do país se direciona para o caminho de retorno a uma economia exportadora de produtos primários, a tarefa do governo Lula de ganhar as eleições, no bojo de uma grande onda de recuperação, torna-se muito difícil. Esta dificuldade aumenta diante do progressivo esgotamento da capacidade de despejar recursos do orçamento, que está comprometido, não só pelo lado das despesas, mas pelo das receitas. A arrecadação federal, em 2009, em relação a 2008, caiu 3%.
Sem a bandeira de uma acelerada recuperação, o presidente Lula estará diante de uma difícil tarefa para empurrar sua antipática candidata pela goela abaixo do povo brasileiro.

Texto escrito por:
Nelson Rosas Ribeiro: Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do Progeb-Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira

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A Recuperação Econômica em Xeque

Semana de 11 a 17 de janeiro de 2010

O processo de recuperação da atividade econômica mundial continua dando sinais de fragilidade e instabilidade, deixando dúvidas e gerando incerteza quanto à sua concretização ainda este ano. Dados dos países europeus mostram desaceleração no ritmo daquilo que muitos analistas já estavam considerando como uma retomada do crescimento. A Alemanha, uma das principais economias do continente Europeu, encerrou o ano de 2009 com uma contração de 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB), a maior retração desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Tal resultado decepcionou aqueles que apostavam que o país assumiria a liderança da recuperação no continente. Assim como a Alemanha, importantes economias também registraram contração. A França, por exemplo, apresentou um recuo de 2,2% do PIB, a Espanha, 3,7%, a Holanda, 4,5%, o Reino Unido, 4,6% e Itália, 4,7%.
A forte dependência das exportações está entre os principais fatores que contribuíram para esse resultado. Com a redução da demanda global, significativamente puxada pelos Estados Unidos, que também fechou 2009 com retração de 2,5%, o comércio internacional perdeu volume. Na Alemanha, as exportações caíram 14,7%, e, com o mercado mundial em baixa, os investimentos foram reduzidos em 20%, em relação ao ano anterior. O elevado nível de desemprego impede o crescimento do consumo na Espanha, onde a taxa de desemprego atingiu a casa dos 18%, a mais alta entre os países da zona do euro.
Os pacotes e medidas de estímulo à economia não foram suficientes para aumentar o investimento e o consumo. Em grande parte, isso está relacionado ao fato destas medidas, na maioria das vezes, estarem voltadas para o socorro às instituições financeiras em dificuldades. Os recursos foram injetados nos mercados para a aquisição de ativos financeiros “podres”, salvando assim capitais especulativos, mas deixando de lado maiores incentivos ao poder de compra da população, substancialmente enfraquecido pela crise econômica.  Em países como o Brasil, a criação de empregos permanece sendo puxada por setores como a Construção Civil, no qual os salários são relativamente mais baixos e o nível de qualificação exigida é menor. Em novembro do ano passado, o setor contratou 23,7 mil novos empregados.
No Brasil, comparando-se com o ano anterior, as exportações também diminuíram em 2009, apresentando queda de 29,38%, e a produção industrial do estado de São Paulo teve uma variação negativa de 0,1%. A apreciação da taxa de câmbio brasileira, além disso, continua comprometendo as vendas dos produtos nacionais no mercado externo. Segundo pesquisa da Bloomberg envolvendo 51 moedas, o real foi a moeda que mais se valorizou no ano passado. Estimativas do Banco Central (BC) indicam que a taxa de câmbio brasileira subiu mais de 40% desde dezembro de 2003, o que está fazendo com que a autoridade monetária continue comprando dólares no mercado de câmbio. Somente no início de janeiro, as compras somaram US$ 783 milhões. Com isso, as reservas internacionais alcançaram a cifra de US$ 240 bilhões.
O relatório Focus, publicado pelo Banco Central (BC), já prevê um déficit de mais de US$ 40 bilhões em transações correntes. Além disso, o BC espera um ingresso líquido de USS$ 45 bilhões correspondentes aos investimentos estrangeiros diretos. Caso o BC aumente a taxa de juros, como apostam os analistas, a entrada de capitais pode ser intensificada. Se essas expectativas estiverem corretas, isto pode dificultar a recuperação da economia brasileira. A cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), medida que foi tomada para conter a entrado de dólares no país, provocou apenas uma redução de 18% no volume de ações negociadas, segundo pesquisa do banco BNY Mellon.
Quanto à a inflação, apesar de todo o alarde que se tem feito, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2009 com uma variação positiva de 4,31%, abaixo, portanto, do centro da meta do governo, que é de 4,5%. Essa é a menor taxa desde 2006. Os alimentos estão entre os produtos que registraram menor aumento de preço. Já nos Estados Unidos, os gastos crescentes do governo para recuperar a economia fizeram o déficit orçamentário subir para US$ 91,9 bilhões. O país já acumula 15 meses consecutivos de déficits nas contas, nos quais se incluem todos os meses do atual ano fiscal, que se encerra em setembro. As contas devem ficar negativas em US$ 1 trilhão, e a atividade econômica ainda permanece em níveis baixos, como divulgou o Federal Reserve, banco central norte-americano, em seu relatório.
O processo de recuperação da economia e dos mercados globais, como já se esperava, está se mostrando bastante complexo e instável, desenrolando-se num ritmo lento e sendo influenciado por medidas que garantem apenas um ânimo momentâneo às economias, mas que não são suficientes para resolver, nem os problemas criados, nem os que foram aprofundados pela crise econômica, como é o caso de desemprego.


Texto escrito por:
Diego Mendes Lyra: Mestrando em economia, Professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb – Projeto globalização e crise na economia brasileira 

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

2010: a odisséia da recuperação

Semana de 04 a 10 de janeiro de 2010

As boas notícias quanto ao ritmo de recuperação da economia brasileira e da econômica mundial, parecem favorecer o argumento de que o pior da crise já passou. Sabemos que cada fase do ciclo econômico prepara as condições para a passagem à fase seguinte. Na depressão, os custos caem, os estoques são liquidados, ocorre a liquidação das dívidas, as taxas de juros baixam e diminui o número de falências. Com isto, as empresas sobreviventes reduzem o ritmo de atividade, abandonando as máquinas tecnologicamente mais atrasadas. É precisamente por isto que esta fase prepara as condições para o início da fase de reanimação.
Este “saneamento”, em resumo, consiste na remoção dos obstáculos para o início da próxima fase, a reanimação. À medida que aumentam as solicitações do mercado, a capacidade ociosa vai sendo utilizada, e os lucros das empresas começam a aumentar. A partir de certo grau de utilização da capacidade instalada, surge o estímulo para os novos investimentos.
No atual período de recuperação econômica, as empresas iniciam a reativação das máquinas que foram desativadas por causa da redução da demanda. Entretanto, não serão acionadas todas as máquinas, mas apenas as mais eficientes, ou seja, as máquinas tecnologicamente mais modernas. Isto, por sua vez, impacta negativamente na criação de novos postos de trabalho. Os capitalistas ao agirem dessa forma, necessitam de um número cada vez menor de trabalhadores no processo produtivo.
Estas modificações provocam alterações no processo de trabalho, com a conseqüente redução no tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de uma mercadoria. Em outras palavras, uma quantidade maior de mercadorias passa a ser produzida por uma quantidade menor de trabalhadores. Temos, portanto, um aumento na produtividade do trabalho, o que significa aumento da produção sem aumento no número de trabalhadores empregados É precisamente este o fenômeno que observamos na atual fase do ciclo econômico. O sistema capitalista apresenta um paradoxo: se, por um lado, o progresso técnico pode levar a um rápido crescimento, por outro lado, acaba por tornar supérflua uma massa crescente de trabalhadores produtivos.
Dessa maneira, não nos surpreende os comentários de Jorge Braga, coordenador de Sondagens Conjunturais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), quando diz: “O ritmo de contratações é mais vagaroso, porque o aumento da produtividade não depende de aumento no número de vagas”.
Apesar das taxas de emprego não mostrarem crescimento significativo, em novembro, os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram para um crescimento de 1,4%, em relação à dezembro, na Indústria de Transformação. No mesmo mês, no setor de Bens de Capital, a expansão foi ainda mais forte, chegando a 6,1%. Neste setor, a expansão acumulada entre setembro e novembro atingiu 16,9%. De acordo com Luiza Rodrigues, economista do banco Santander, como conseqüência desse aquecimento, os empresários “estão prevendo problemas de capacidade instalada em um futuro próximo, então, nada mais natural que comecem a ampliar a compra de máquinas”.
Entretanto, no geral, a indústria teve uma retração de 0,2% no referido mês. Esse resultado interrompeu uma seqüência de dez meses de crescimento. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, a indústria apresentou expansão de 5,1%.
Apesar destes dados, o Banco Central informou que o ingresso de dólares no Brasil foi o terceiro maior da história. Segundo ele, ingressaram no país US$ 28,7 bilhões. Dois terços desse volume foram atraídas pelas aplicações em ações, títulos de renda fixa e investimentos produtivos, totalizando US$ 18,8 bilhões.
Mas, enquanto isso, os dados referentes aos Estados Unidos mostram que a recuperação da economia carece de sustentação. Economistas como Paul Krugman, Tom Sargent e Kenneth Rogoff levantam suspeitas quanto à saúde do sistema bancário norte-americano. Sargent, economista da Universidade de Nova York, afirma que o setor bancário está mais vulnerável a crises. “Nossa resposta nos tornou vulneráveis a uma crise maior. É preocupante”. Rogoff, economista da Universidade Harvard, vai ainda mais longe quando diz: “se o governo americano pudesse dizer com credibilidade (aos bancos): nunca mais vamos socorrê-los, o sistema (bancário) entraria em colapso”. Para não ficar apenas no mundo acadêmico, o mega-inverstidor, Warren Buffett, disse que, muito embora não haja sinais de uma nova crise, o sistema bancário estaria mais vulnerável. Aparentemente, portanto, tanto entre economistas, quanto entre capitalistas, há um temor de nova recaída na economia dos Estados Unidos.
Na Zona do Euro, a situação também preocupa. Em outubro, segundo o escritório de estatísticas da União Européia, as encomendas à indústria registraram recuo de 2,2%. O resultado é ainda pior quando comparado com o mesmo mês de 2008, contabilizando um declínio de 14,5%. A taxa de desemprego na Alemanha, que era de 7,8% em 2008, subiu para 8,2 em 2009. Na Espanha, um dos países mais afetados pela atual crise econômica, a taxa de desemprego atingiu o patamar de 19,4%.
A situação favorável no Brasil, portanto, se apresenta comprometida pelos aspectos contraditórios da economia mundial, o que não permite prognósticos animadores para um futuro próximo. Em contrapartida, uma coisa é certa: a solução para o enigma da recuperação da economia ainda dará muita dor de cabeça a economistas e presidentes.

Texto escrito por:

Kaio Glauber Vital da Costa: Economista, pesquisador do Progeb-Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira.
Email: progeb@ccsa.ufpb.br

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