quarta-feira, 2 de março de 2011

A culpa é da inflação

Semana de 21 a 27 de fevereiro de 2011

O ex-presidente Lula deixou uma herança que o novo governo teve que engolir: a ameaça da inflação. A farra de gastos no período eleitoral, se bem que tenha dado uma importante contribuição para ganhar as eleições, significou o aumento das despesas do estado e da dívida pública. Assim, ao terminar o ano de 2010, não se havia cumprido a meta de superávit primário (diferença entre receita e despesas do estado antes do pagamento de juros).

Iniciado 2011, a ameaça se transformou em realidade. A inflação bate à porta e com força. Ora, começar um mandato tendo como objetivo maior o combate à inflação não é das coisas mais agradáveis, até porque as medidas que constam do receituário oficial são antipopulares. É consenso entre os analistas do governo que a inflação ficará bem acima do centro da meta de 4,5%. De acordo com o sistema adotado pelo Banco Central (BC), a faixa tolerada para a inflação vai de 2,5% a 6,5%, isto é, 2 pontos percentuais acima e abaixo de 4,5%, que é considerada a meta procurada. Para atingir esta meta, todos pensam que não basta apenas aumentar os juros, o aumento deve vir inevitavelmente acompanhado das tais medidas macroprudenciais.

Com os juros em alta, a farra financeira deve continuar para a felicidade dos agentes econômicos do sistema financeiro. O Itaú-Unibanco divulgou um lucro de R$ 13,32 bilhões em 2010, 32,3% superior ao mesmo período do ano anterior, enquanto o setor produtivo agoniza. A indústria brasileira de embalagens, termômetro da atividade econômica, por exemplo, depois de uma expansão de 10,13% em 2010, espera crescer apenas 2,2% este ano. É consensual a desaceleração da economia que vem sendo observada. As previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) vão sendo revistas para abaixo dia após dia, apesar das garantias dadas pelo ministro da Fazenda Guido Mantega de que não é objetivo do governo deprimir a atividade econômica, mas acomodá-la.

Para tecer comentários sobre a eficácia das medidas que vão sendo adotadas, a grande questão que se põe é saber a origem da aceleração inflacionária atual. Culpados são indicados por todos os lados: o reajuste de 16% no piso salarial dos docentes da rede pública, o aumento do salário mínimo, o excesso de gastos públicos, as pressões sazonais, o descompasso entre oferta e demanda, o aumento dos preços das commodities, a crise nos países produtores de petróleo do mundo árabe, a melhor distribuição de renda, etc.

Agora, mais um vilão é apontado: o setor de serviços, que apresentou alta no preço dos alugueis, transportes e mensalidades escolares, ou seja, a culpa é dos preços livres.

E os preços administrados (preços controlados pelo governo)? Parece que, propositadamente, eles são esquecidos. Do total do IPCA do ano passado, os preços administrados foram responsáveis por 3,13% e, segundo estimativas para 2011, a inflação destes preços deve corresponder a uma parcela de 4,5%. Como combater um monstro que o próprio governo está ajudando a criar?

Por outro lado, o Banco Central ainda tem que lidar com outro mal assombrado: a questão cambial. Mesmo com as intervenções diárias que a instituição tem feito no mercado, através da compra de divisas, tanto à vista como a termo, a taxa de câmbio não reage e o dólar teima em desvalorizar-se. Enquanto isso, a enxurrada de dólares continua vindo do exterior. Em janeiro, foram quase US$ 3 bilhões e, até 21 de fevereiro, este montante já ultrapassava os US$ 3,6 bilhões. Desesperado para impedir que o dólar se dissolva, o BC intervém no mercado. Para retirar os dólares que entram, o BC tem de comprá-los injetando dinheiro na economia. Este dinheiro ou vem de emissões de moeda ou da venda de títulos do tesouro que rendem algum tipo de remuneração cujo montante situa-se em torno da Selic (atualmente em 11,25%). Além de contribuir para a inflação e aumentar a dívida pública, o BC tem que arcar com o custo de manutenção das reservas, que, segundo a própria autoridade monetária, foi de R$ 26,6 bilhões em 2010.

Para combater os monstros que insistem em aparecer, opta-se então pelo caminho mais fácil: fazer cortes no orçamento e aumentar as taxas de juros, afinal esta é a receita de bolo que é aplicada em todas as economias. Como o fechamento desta coluna acontece na terça-feira e a reunião do Copom será realizada na quarta, o leitor já deverá ter conhecimento de mais uma alta da taxa de juros que, segundo as estimativas, deverá situar-se entre 0,5% e 0,7%. Será mesmo tudo culpa da inflação?

Texto escrito por:

Rosângela Palhano Ramalho: Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

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terça-feira, 1 de março de 2011

Desaceleração, remédio contra a inflação

Semana de 14 a 20 de fevereiro de 2011

Ainda continuamos vivendo sob o impacto dos bons ventos que sopraram em 2010, em boa parte estimulados pela política econômica do governo Lula, para ganhar a eleição. As estimativas continuam a ser divulgadas enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não apresenta os dados oficiais. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é estimado em 7,8% pelo Índice do Banco Central (BC), embora ele próprio trabalhe com uma taxa mais modesta de 7,3%. A maior parte dos analistas sugere taxas em torno dos 7,5%. Estes valores, considerados muito elevados quando comparados com o resto do mundo (excetuando-se Índia e China), são secundados por notícias sobre a redução da pobreza e do desemprego, sobre a elevação dos salários e melhoria na distribuição de renda.

Mas, conforme havíamos previsto, a fatura da orgia seria paga em 2011, o que já está acontecendo, ou seja, mais uma vez confirma-se a teoria do “ciclo político”. Aperto no início do governo e esbanjamento no final, para ganhar as eleições, confiando na ingenuidade e na fraqueza da memória do povão. A grande desculpa foi a necessidade de melhorar as condições de consumo das camadas mais desfavorecidas da população.

Ganhas as eleições e empossado o novo governo, a conversa mudou. A equipe econômica do governo Dilma desespera-se agora para reverter o quadro. É preciso conter o consumo, reduzir os gastos do governo, deter os investimentos, comprimir os salários, etc. As medidas recessivas se sucedem como sempre sob a batuta do BC, agora com o presidente Tombini ameaçando com a “trombada” dos juros, que já subiram para 11,25% ao ano. E isto, reforçado pelas medidas “macroprudenciais”: recolhimento compulsório (que já retirou R$ 65 bilhões do mercado), exigências de capital adicional para financiamentos com mais de 24 meses (que já fez as taxas de juros do crédito pessoal subirem, de 40,3% para 49,3% ao ano, na última semana de janeiro, provocando a queda de 19% na média diária dos novos financiamentos. No setor de automóveis, as taxas de juros subiram entre 4% a 5%, e a média diária de créditos concedidos caiu 45% para os bancos comerciais e 35% para os bancos das montadoras.

As notícias sobre a desaceleração da economia espalham-se por todo o lado. O próprio ministro da fazenda, Guido Mantega, sempre muito otimista, estima que a desaceleração fará a taxa de crescimento do PIB cair para 5%. Muitos analistas do mercado reduzem este número para 4,5% e, cada vez mais, os rumores afirmam que este valor terá de ser corrigido para baixo. Como já dissemos anteriormente, a saída da crise, no Brasil, está se configurando como uma saída em W.

Ainda não satisfeito com a situação, o governo resolveu dar mais uma contribuição ordenando um corte de R$ 50 bilhões no orçamento já aprovado. Como explicar tamanha incoerência? Tomam-se medidas para aumentar os níveis de consumo da população e agora se usam todos os meios para impedir este consumo. Quais seriam as razões para explicar tal insensatez? Por incrível que possa parecer a razão é uma só: o medo do fantasma da inflação. Na verdade, a inflação é um monstro que ninguém quer encontrar no seu caminho. Em relação a isto, há unanimidade. As divergências surgem quando tentamos caracterizar, descrever, explicar o fenômeno e desvendar as suas causas, passo necessário para que o combate tenha sucesso. É aí que o bicho pega. A equipe do governo, contaminada pela ideologia dominante na teoria econômica, transformou em lei absoluta e eterna a formulação primária de que a inflação é provocada pelo excesso de procura em relação à oferta. Tomando isto como verdade eterna, desencadeiam todos os mecanismos possíveis para conter, comprimir, esmagar o consumo, quer seja das pessoas, do estado ou das empresas. Esta aberração teórica está por traz da ação do governo Dilma e o inspira.

Preparemo-nos, pois o arrocho chegou. E com o agravante de ter que enfrentar simultaneamente a enxurrada dos dólares especulativos internacionais, com a consequente valorização do real que vem impossibilitando a indústria nacional de exportar e levando o país a um processo de desindustrialização acelerado que urge deter.

Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A ameaça da inflação

Semana de 07 a 13 de fevereiro de 2011

Nas últimas análises, destacamos a fé da equipe econômica do governo Dilma em sua “santíssima trindade”: aumentos sucessivos da taxa básica de juros (Selic), uso das “medidas macroprudenciais” (aumento dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central - BC e restrição do crédito) e redução dos gastos públicos.

A Selic continuará sua trajetória ascendente, em 2011. Espera-se que, até o final do primeiro semestre, ela suba para 12,25% ao ano. Em janeiro ultimo, a taxa foi elevada de 10,75% para 11,25% ao ano. O governo federal anunciou na semana passada um corte de R$ 50 bilhões nas despesas previstas no projeto da lei orçamentária de 2011. A presidente Dilma acredita que, com esse pacote de ações, se possa controlar a inflação e conseguir honrar os compromissos, como a economia de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) para o pagamento dos juros da dívida – o superávit primário. Isto, sem reduzir os recursos do PAC e sem a realização de manobras na contabilidade.

Mas, um novo componente surgiu para desafinar o coro dos crentes: a escalada inflacionária dos alimentos. O aumento dos preços das commodities é generalizado, e vem preocupando dirigentes políticos da Europa, Ásia e Américas. Por um lado, o processo inflacionário se deve à queda de produção das safras de bens, como açúcar, milho e trigo, em várias partes do mundo. A Rússia, por exemplo, sofre a pior seca em meio século, e a China passa a considerar a ampliação de importações de açúcar e milho, em decorrência de reflexos climáticos adversos às produções desses grãos. Por outro lado, está diretamente relacionado com a especulação dos mercados financeiros, o que tem levado o primeiro-ministro Sarkozy, na França, a defender a ideia de intervir nos preços das commodities por meio da criação de estoques reguladores.

No Brasil, em pronunciamento numa reunião da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o ministro da Agricultura, Wagner Rossi, atribuiu boa parte da alta dos preços à atividade especulativa realizada pelo capital financeiro. Analistas do mercado subscrevem o pensamento do ministro, já que há uma ampla procura pelos mercados futuros por parte dos investidores em busca de rentabilidade em meio a um ambiente de juro baixo na maioria dos países europeus e nos Estados Unidos. “Os preços das commodities são voláteis, mas sobem há vários anos. A percepção é que o mundo está vivendo um super ciclo de aumento de commodities. A inflação veio para ficar e é tema global”, avalia Marcelo Carvalho, analista-chefe do BNP Paribas para a América Latina.

Dados sobre os índices de inflação para o primeiro mês de 2011 indicaram aumento generalizado nos preços. No Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a subida não decorre apenas de sazonalidades, como despesas com mensalidade e material escolar, mas também do aumento das tarifas de ônibus, das bebidas e da alimentação. Este último grupo foi responsável por 32% da alta do IPCA. O índice sofreu a maior variação para o mês (0,83%), desde janeiro de 2003. Em 12 meses subiu 5,99%, já se afastando da meta central de inflação do governo, que é de 4,5%.

Já pelo Índice geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) as maiores altas foram dos produtos agropecuários no atacado, como o algodão (18%), milho em grão (6,59%), café em grão (8,12%). As cotações agropecuárias acumulam variação de 28,4% em 12 meses. Para o coordenador de analises econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, estes movimentos refletem a disparada das commodities no mercado internacional. É bastante provável que a alta dos preços produza impactos no varejo nos próximos meses, acabando a alegria gerada pelo aumento do salário mínimo a ser concedido pelo governo Dilma.

Apesar da santíssima trindade, com as medidas de contenção do consumo, persiste a escalada dos preços ameaçando comprometer o nível de vida do trabalhador.

Além de queda, coice! E agora, BC?


Texto escrito por:

Maria Carolina Costa Madeira: Analista do Ministério da Pesca e Aquicultura, mestre em economia pela UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Santíssima Trindade da Política Econômica Pós-Eleições

Semana de 31 de janeiro a 6 de fevereiro de 2011

Após a farra fiscal eleitoralista ocorrida no ano passado as palavras de ordem no controle da política econômica agora são, austeridade, prudência e cautela, termos que têm estado presentes nos discursos oficiais das principais autoridades econômicas do governo Dilma Rousseff, que, desde o início, tem transmitido ao mercado sinais de aperto fiscal e monetário.

Entre essas autoridades está o novo presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, que, juntamente com sua equipe, já apontam os instrumentos de política econômica necessários para manter a inflação próxima do centro da meta, que atualmente é de 4,5%. Tais instrumentos podem ser resumidos no que está sendo chamado de santíssima trindade da política econômica do início da era Dilma e que consiste basicamente em: 1) política de elevação da taxa básica de juros, a Selic, que este ano já subiu de 10,75% para 11,25%, após a primeira reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom; 2) utilização de medidas “macroprudenciais”, que são medidas cautelares e preventivas, como o aumento do depósito compulsório e 3) redução dos gastos, que deverão ficar bem abaixo do volume do ano passado, quando sob o apelo das necessidades eleitorais, as despesas do setor público cresceram. Este fato levou o superávit primário (economia de recursos para o pagamento dos juros da dívida), em 2010, a ficar abaixo da meta de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Mesmo com a utilização de subterfúgios contábeis, como a operação de capitalização da Petrobrás, o superávit primário foi de apenas 2,78% do PIB.

Mas, apesar do esforço do Banco Central e do apelo a essa espécie de santíssima trindade da política econômica ortodoxa, as expectativas de aumento da taxa de inflação continuam piorando. Segundo o Boletim Focus, do próprio BC, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) esperado para 2011 passou de 5,53%, para 5,64%. Além disso, os analistas de mercado não acreditam que o governo conseguirá atingir a meta para o superávit primário este ano, que é de 3% do PIB. Há ainda outro motivo de grande preocupação para os empresários, em particular os da indústria: é a continuidade da apreciação do real frente ao dólar, mesmo depois de todas as intervenções já realizadas pelo BC no mercado cambial, feitas por meio de leilões e contratos de compra de dólares. Estas intervenções não estão surtindo os efeitos esperados, diante da enxurrada de dólares na economia brasileira decorrente da elevada taxa de juros vigente no país. Somente em janeiro, foi registrado um fluxo de US$ 12,3 bilhões. Ademais, as intervenções do BC no mercado têm custado muito caro ao país, algo em torno de US$ 30 bilhões ao ano, segundo Márcio Garcia, professor da PUC-RJ.

O resultado dessa apreciação cambial foi o crescimento do volume de produtos importados a uma taxa quase quatro vezes superior ao volume produzido no país, em 2010. Nesse ano, de acordo com cálculos realizados pela LCA Consultores, enquanto a produção industrial cresceu 10,5%, em relação a 2009, o volume de produtos importados avançou a uma taxa de 37%, no mesmo período. Assim, em cada dez produtos industriais consumidos, dois passaram a ser importados. Este crescimento da participação dos produtos importados na economia brasileira tem sido apontado como uma das principais causas para o fraco desempenho da indústria, que vem apresentando uma desaceleração desde meados de 2010. Além disso, há ainda níveis elevados de estoques em alguns setores, que aproveitaram para elevar a produção durante o período de desoneração de tributos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que vigorou até março do ano passado. No mês de dezembro foi registrada uma queda de 0,7% na produção industrial do país, em relação a novembro.

Parece então, que para retomar o crescimento da produção na indústria, segurar a taxa de câmbio, manter a inflação sob controle e atingir todas as metas fiscais, para 2011, o governo Dilma terá que recorrer não apenas à santíssima trindade da política econômica venerada pelo Banco Central, mas também a todos os santos e anjos que possam ajudar o país a realizar mais um milagre.


Texto escrito por:

Diego Mendes Lyra: Mestre em economia e pesquisador do Progeb – Projeto globalização e crise na economia brasileira (progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Algumas Consequências da Política do Saci Macroeconômico

Semana de 24 a 30 de janeiro de 2010

Já faz algum tempo que estamos chamando a atenção para os perigos da política econômica do governo, a saber, a política do Saci Macroeconômico. Ao invés do tripé, câmbio flutuante, superávit primário e metas de inflação, a política econômica, desde o início do governo do PT, tem um único pé, como um saci: "sustentar" a inflação em um nível determinado.

A meta para a inflação de 2010 era de 4,5%. Porém, o índice oficial do governo para o cálculo da meta inflacionária, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), registrou, no ano passado, um aumento de 5,9%. Para 2011 a meta é a mesma, com a diferença de que este não é um ano de eleições, ou seja, o BC pode adotar políticas econômicas e medidas “macroprudenciais” bem mais restritivas.

O provável crescimento de 7,5% do PIB em 2010 causou, segundo o Comitê de Política Monetária (Copom), uma pressão inflacionária na economia brasileira, na medida em que a demanda aumentou e a oferta não a acompanhou. Por isso, desde dezembro, foram tomadas medidas de restrição do crédito, tais como o aumento do depósito compulsório e do requerimento de capital para realização de alguns empréstimos. Como consequência, ocorreu uma elevação de, em média, 0,2% nas taxas de juros. O resultado da última reunião do Copom, onde se decidiu elevar a Selic para 11,25%, vem somar-se a isso. O motivo para o aumento foi a elevação do IPCA entre 15 de dezembro de 2010 e 15 de janeiro de 2011, que atingiu 0,76%, ante 0,69% entre 15 de novembro e 15 de dezembro de 2010. Este é o "cenário inflacionário" que levou o BC a apostar em um novo aumento dos juros básicos nos próximos meses.

Ao elevar a taxa Selic, o Banco Central estimula a entrada de capital estrangeiro no país, pois lá fora há uma abundância de capitais e uma baixíssima remuneração (nos EUA, por exemplo, a taxa básica de juros está entre 0% e 0,25%). Como boa parte dos títulos brasileiros é cotada em real, para comprá-los, é necessário que se troquem os dólares pela moeda local, aumentando assim a oferta de moeda estrangeira e, consequentemente, reduzindo a taxa de câmbio, isto é, tornando o dólar mais barato. No ano passado, quando a Selic ficou entre 8,75% e 10,25%, o país registrou uma entrada líquida de US$ 24,354 bilhões, 15% menos que em 2009, quando os juros variaram entre 8,75% e 12,75%. Por outro lado, em 2010, o BC comprou US$ 41 bilhões para conter a apreciação do real.

Uma consequência direta disto é o chamado "carry trade", uma operação onde se capta dólar barato no exterior para vender ao BC e, com os reais obtidos, fazer aplicações com retornos maiores. Isto explica o crescimento do crédito externo ao Brasil que foi de 1.447% nos três primeiros trimestres de 2010 em comparação com o mesmo período de 2009. O total de crédito oferecido por instituições financeiras estrangeiras, inclusive em moeda local, chegou a US$ 447,7 bilhões. Das instituições financiadoras, em primeiro lugar estão as espanholas (US$ 168 bi), seguidas das norte-americanas (US$ 79 bi.) e britânicas (US$ 76 bi). As empresas brasileiras também captam diretamente recursos no mercado internacional e, este ano, o total já atingiu US$ 10,3 bilhões.

Mas, o BC parece não aguentar mais esta política. Este ano, até o dia 21 de janeiro, o Brasil apresentou um fluxo líquido positivo de US$ 9,205 bi, enquanto que o BC só comprou US$ 3,927 bi no mercado à vista. O motivo seria o elevado custo de manutenção das reservas cambiais, que estão atualmente em US$ 295,9 bi. Para o país, sai caro devido a diferença entre os juros internos e externos, e estima-se que este custo atualmente gire em torno de 1% do PIB. Se as reservas estiverem saturadas, e o BC não intervir mais no mercado como comprador, não há como "controlar" a taxa de câmbio, que tenderá a cair.

Com a valorização da moeda local surgem os problemas para a balança comercial.

Em termos de volume, o país importou, no ano passado, 13,9% mais do que em 2008, enquanto as exportações caíram 2,2% na mesma comparação. O saldo da balança comercial, porém, só não foi negativo porque o preço médio dos produtos importados caiu (ficaram 8% mais baratos), enquanto aumentou (4,4%) o preço médio dos produtos exportados (em sua maioria commodities).

Esta é a tendência do modelo Saci Macroeconômico. Como toda tendência, é fácil saber onde vai parar. O difícil é mudar sua trajetória.


Texto escrito por:
Lucas Milanez de Lima Almeida: Mestre em Economia, professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)

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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma China incomoda muita gente... Com guerra cambial incomoda muito mais...

Semana de 17 a 23 de janeiro de 2011

Em sua primeira reunião do ano e sob nova gestão, o Copom, como já era esperado, puniu o consumidor aumentando a taxa de juros Selic em 0,5%. Com uma taxa de 11,25%, fica cada vez mais claro o esforço que o novo governo está exercendo para desacelerar a economia. A inflação é de demanda, dizem eles. É necessário aumentar os juros! O que fazer, então, com a pressão inflacionária, que começa a ser observada pelo aumento dos preços das commodities, ou seja, por um choque de oferta? Não é necessário usar sua bola de cristal, caro leitor. Afinal, o mesmo remédio curará todos os males. Maravilhoso para os bancos, ruim para o povo, ruim para o setor produtivo, ruim para o governo. Os bancos recebem remunerações maiores (já planejam aumentar o spread), o povo paga mais pelo crédito, o setor produtivo cresce menos (a expansão da indústria de transformação cairá de 10,2% em 2010 para 5,4%, este ano) e o governo remunera a uma taxa maior que a Selic grande parte dos seus títulos, que atraem dólares para o país, que valoriza o real, que obriga o governo a comprar dólares, que aumenta a quantidade de moeda doméstica em circulação, que gera inflação, que é combatida com o aumento dos juros... Onde vamos parar?

Segundo alguns economistas, o Banco Central deveria ser mais “comedido” no seu ciclo de alta dos juros, pois, além da inflação, existe a questão cambial. Um estudo realizado para os emergentes, Brasil, China, Índia, México, Turquia, Coréia do Sul e África do Sul, constatou que o maior perdedor da guerra cambial foi o Brasil que apresentou a maior inflação, o maior juro e a maior apreciação cambial. Aliás, tanto interna quanto externamente, este assunto nunca foi tão discutido. A guerra do câmbio voltou à tona com a visita do presidente chinês aos Estados Unidos esta semana.

Nesse encontro, para aliviar a tensão entre os dois países, a China prometeu importar US$ 45 bilhões em produtos americanos. Segundo os EUA, os acordos com os chineses deverão criar internamente 235 mil empregos. Mas, em relação à questão cambial, não houve avanços. O governo chinês se mostrou pouco preocupado com a pressão norte-americana em relação à valorização do yuan. O presidente, Hu Jintao, declarou que um sistema monetário baseado no dólar é “produto do passado”. Nada o convence a valorizar sua moeda, nem mesmo o assombroso monstro da inflação, levantado pelos Estados Unidos.

A participação da China na economia norte-americana tem aumentado bastante nos últimos anos. Em 2010, as empresas chinesas gastaram, em projetos e aquisições, US$ 4,9 bilhões nos EUA, frente a US$ 2,2 bilhões em 2009. Além disso, o país é o maior detentor de títulos do Tesouro americano. Investindo também na agricultura desde 2002, os chineses entraram no cultivo de cítricos através do aumento da área cultivada e vêm incomodando os agricultores norte-americanos. A Flórida, principal estado produtor de laranjas do país, encomendou uma investigação de como os chineses planejam se tornar uma potência neste setor que é dominado atualmente pelo Brasil, com 55% do mercado, e pela Flórida, com 30%.

Mas, os sucessos da economia chinesa não a libertam dos problemas internos. O país elevou o depósito compulsório pela quarta vez consecutiva em apenas dois meses, para conter o aumento de novos empréstimos, e as reservas cambiais já somam US$ 2,85 trilhões. O governo já prometeu usar as reservas “politicamente”, comprando quantias indeterminadas de títulos europeus, mas, na verdade, o país não sabe o que fazer com este rio de dinheiro e já permitiu que parte da moeda estrangeira recebida pelos exportadores fique no exterior.

Apesar dos problemas internos, a economia chinesa está conseguindo superar a herança maldita de exportadora de produtos de baixo valor agregado e se transformando numa produtora e exportadora de produtos de alta tecnologia e, dependendo da metodologia adotada para o cálculo do PIB, já se pode dizer que a China alcançou o posto de maior potência mundial.

A agressividade chinesa, então, não se limita apenas a um país. A guerra cambial declarada acabou se tornando uma guerra comercial mundial. O nosso ministro da Fazenda, Guido Mantega, pretende propor à OMC que o problema do câmbio chinês seja tratado como um subsídio à exportação, tese que passa a ser defendida por alguns países.

Arraigada por tantas contradições, não se sabe qual o rumo que a economia chinesa tomará. O fato é que se a China incomoda muita gente, atrelada a uma política cambial perversa, incomoda, incomoda muito mais.


Texto escrito por:

Rosângela Palhano Ramalho: Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A herança maldita

Semana de 10 a 16 de janeiro de 2010

É difícil a situação de quem se reelege. A desculpa da “herança maldita” recebida do governo anterior não pode ser usada. Embora o atual caso presidencial não seja de reeleição, a sombra do Presidente Lula tem que defender seu criador a qualquer custo. Como agravante, temos a situação internacional, neste começo de mandato. A recuperação mundial tão esperada e desejada arrasta-se. Continua o impasse na economia americana apesar da tentativa do Federal Reserve (Fed), Banco Central dos EUA, e do presidente Obama de provocar a retomada da produção industrial interna mesmo tendo de recorrer às medidas protecionistas ou à desvalorização do dólar.

Na União Europeia (UE), o problema da dívida pública continua sem solução. Países como Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, Espanha e Bélgica tentam desesperadamente lançar títulos no mercado para financiar o rolamento de seus rombos orçamentários.

Índia, China e Japão impedem a valorização de suas moedas neutralizando as manobras do Fed. A guerra cambial transforma-se em uma guerra comercial. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista ao “Financial Times”, definiu assim o problema e ameaçou tomar medidas drásticas para evitar a valorização do real. Pretende ainda fazer uma denúncia na Organização Mundial do Comércio (OMC) e um pedido para que a manipulação cambial seja considerada subsídio à exportação.

Nesses mares revoltos deverá navegar a presidente Dilma de posse da seguinte herança.

O processo de desindustrialização continua em curso. Em 2010, 43,4% do valor total das exportações, ou seja, quase a metade, corresponderam às vendas de cinco commodities (produtos primários): ferro, petróleo, soja, açúcar e carnes. Estes produtos, em 2004, correspondiam a 27% do total. Só os minérios de ferro passaram de 5%, para 14%, neste período. Outro indicador do problema são os produtos industriais. A participação de produtos industriais importados no consumo doméstico passou de 12,6%, no quarto trimestre de 2005, para 21,4%, na média de setembro, outubro e novembro de 2010. Para o mesmo período, no setor têxtil, o salto foi, de 8,2%, para 21,5% e no setor de máquinas e equipamentos foi, de 22,1%, para 36,1%. De janeiro a novembro de 2010, a importação de material eletrônico e de comunicação aumentou 43% em comparação com o mesmo período de 2009, e a produção local cresceu 5,1%. O aumento do consumo das famílias tem sido atendido pela importação de produtos. Deste modo, a política de distribuição e crescimento de renda exporta seus efeitos aceleradores para o exterior. Entre dezembro de 2009 e novembro de 2010, as vendas no comércio cresceram 14,5%, o volume dos bens importados cresceu 28,2% e a indústria nacional apenas 4,1%.

Esta herança maldita, que já vem do governo FHC, foi agravada no governo Lula e é decorrente da política econômica implementada pelo primeiro e continuada pelo segundo. Tal política, a pretexto de conter a inflação, tem recorrido unicamente à elevação das taxas de juros, o que colocou o Brasil como campeão do mundo neste quesito. O anunciado “tripé macro econômico” foi assim reduzido a uma só perna, que nós temos apelidado de “saci macro econômico”. A elevação das taxas de juros tem sido o fator mais importante para provocar a enxurrada de dólares especulativos que tem invadido o país. E os atuais policymakers do governo continuam a bater na mesma tecla por não terem alternativa, já que a teoria keynesiana não tem nenhuma receita para a inflação. Ao lerem estas linhas, provavelmente, a taxa Selic já terá sido aumentada na reunião do Copom, em 0,5%, passando para 11,25%, atraindo mais dólares e agravando a dívida pública. Veremos novamente a ação desesperada do Banco Central (BC) para retirar os dólares de circulação e evitar a valorização. As outras medidas como o swap cambial reverso, o recolhimento compulsório sobre venda de dólares, etc., têm se mostrado meros paliativos para enxugar o derrame de reais. Eis outro aspecto da herança maldita que o governo Dilma, seguindo a mesma cartilha, tem que amargar.


Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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