quinta-feira, 26 de maio de 2022

Delenda Moscou

Semana de 16 a 22 de maio de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Nada mais apropriado para o momento do que a famosa frase do senador romano Marcio Porcio Catão que terminava seus discursos com a expressão “delenda est Cartago”. Cartago deve ser destruída. E efetivamente isto foi conseguido à custa de violência e traições. Não restou pedra sobre pedra. Entre os anos 264 e 146 antes de cristo as guerras púnicas tiveram este resultado. A cidade de Cartago foi totalmente destruída não restando pedra sobre pedra. Agora assistimos a uma histeria nunca vista a partir dos Estados Unidos, mobilizando todo ocidente para a santa cruzada contra a Rússia. É a luta do “mundo livre” contra a despótica Rússia (igualmente capitalista). Além de toda a mobilização feita na UE e na NATO o assunto foi levado para o Fórum de Davos na Suíça, e ocupa o centro dos debates. Já discursaram o ator Zelensky, representando o papel de presidente da Ucrânia e o diretor geral da OTAN, Jens Stoltenberg representando o militarismo ocidental. Estão presentes 300 chefes de estado e 1.250 empresários. Claro que não estão a Rússia, não convidada, e a China que se recusou a ir. Além da destruição da besta do apocalipse discute-se a crise mundial e o perigo da estagflação e da fome. Com sua fúria anti-russa os americanos esqueceram que seu verdadeiro inimigo é a China, como diz William Burns, diretor da Cia.

O Brasil está bem representado em Davos pelos sinistros Guedes da economia e Marcelo Queiroga da saúde. O presidente não se atreveu a ir. A posição do Brasil em relação à Rússia é delicada pois ela é o quinto maior exportador de produtos para o Brasil e responsável por 70% dos fertilizantes que consumimos. As exportações russas cresceram 89% de janeiro a abril.

Preocupado com seu isolamento os EUA fizeram várias tentativas para contornar esta situação. Uma delas foram as visitas feitas a vários países da Asia como Japão, Coreia do Sul e países da Asean. Aí ele tentou negociar acordos que infelizmente não agradaram os parceiros. Outra tentativa está sendo tentada para salvar a Cúpula das Américas, ameaçada de fracasso, com a ameaça de boicote do México, Peru e Bolívia, caso os americanos não revisem as restrições a Cuba e Venezuela e Nicarágua. A pressão já deu resultados pois já foram removidas algumas restrições à Venezuela e Cuba.

A ameaça de fome levou os países do G7 a preparar um plano de emergência. Foi constatado que 23 países já tomaram medidas restritivas para a exportações de produtos agrícolas, entre eles a Índia e o Egito com o trigo. Como os dois outros maiores produtores Rússia e Ucrânia que respondem por 27% do abastecimento estão impossibilitados, a situação torna-se muito grave. O Banco da Inglaterra (BoE) preocupa-se com os preços apocalípticos dos alimentos e começaram os apelos para que a Rússia abra corredores no mar Negro para escoamento do trigo da Ucrânia, já respondidos pelos russos: depois de retirarem as restrições dos ocidentais.

Este é o panorama mundial. Tudo caminha loucamente para a crise, a fome, a estagflação e a guerra. Escaparemos do apocalipse?

Desanimado e irritado com seu isolamento Bolsonaro resolve disputar as eleições mesmo continuando a preparar o golpe que não conta com grandes apoios internacionais. Mas, então vale tudo. Todos os métodos da velha política que ele tão bem praticou na sua passagem como deputado do baixo clero, até os métodos das velhas raposas do centrão agora aderentes aos seus planos. As perspectivas econômicas não são boas. PIB não terá crescimento de 2,1%, mas de 1,8%. O desemprego, em março, continua em 11,1%, e a inflação subiu de 4,7% para 6,5%. Para o ano a previsão é de 7,9% quando a meta é de 3,5%. No desespero o governo tenta de todos os modos conter a elevação dos preços. A Petrobras é apontada como culpada pelos combustíveis o que tem levado à demissão sucessiva dos presidentes e a Eletrobrás pela energia. Ninguém sabe como conter os preços são propostas soluções para empurrar com a barriga. É preciso deixar os aumento para depois das eleições. É o vale tudo. A bomba vai estourar nas mãos do ganhador. Mesmo com a possibilidade de ter uma bomba nas mãos é melhor. Ou? ...

Vamos ao golpe.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Ana Isadora Maneguetti, Mariana Araújo e Nertan Alves.

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sábado, 21 de maio de 2022

Os bancos e a Petrobrás vão bem, o resto, nem tanto

Semana de 09 a 15 de maio de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Como não poderia deixar de ser, o brasileiro tem reclamado bastante do preço dos combustíveis. Tem semana que sobe, tem semana que sobe mais ainda. Claro, isto afeta o bolso de todos nós, direta e indiretamente. Os atingidos diretamente são aqueles que têm algum automóvel e precisa adquirir o combustível para rodar. Os que são atingidos indiretamente são aqueles que veem o preço de outros produtos se elevarem, porque o custo com transporte tá mais caro (mas não só o frete, todos os derivados do petróleo).

Porém, outra coisa que chamou a atenção esta semana foi o lucro dos cinco maiores bancos do país: Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa. No Brasil, sempre houve uma reclamação generalizada sobre o quanto os bancos ganham a cada ano. Mesmo quando o PIB brasileiro caiu em mais de 3% por dois anos seguidos, em 2015 e 2016, esses cinco bancos lucraram R$ 70 bilhões e R$ 60 bilhões, respectivamente. Agora, nos três primeiros meses do ano de 2022, o lucro somado dessas instituições já chegou a R$ 27 bilhões. Apesar disso, o valor sequer chega perto do lucro da Petrobrás no mesmo período, que foi de R$ 45 bilhões. Sinal claro de que o descaramento do Governo Bolsonaro está maior do que o dos banqueiros.

Esses dados mostram valores obtidos pelas empresas nos três primeiros meses de 2022, período em que boa parte dos indicadores apontam, na melhor das projeções, um crescimento mísero, de 1,5%, no PIB brasileiro. Isto pode ser visto no Boletim Focus, uma publicação semanal do Banco Central, que reúne a previsão de algumas instituições sobre o futuro de variáveis econômicas selecionadas. Na mediana, é esperado um crescimento de 0,7% para a economia do Brasil em 2022.

O problema é que este mesmo Boletim Focus traz, pela 16º semana seguida, o aumento nas projeções da inflação brasileira para 2022. Segundo a última pesquisa divulgada pelo BC, a inflação medida pelo IPCA deve fechar o ano em 7,89%. No mercado de títulos, já estão apostando em inflação de 8,73%. Há quem fale em 9,5%.

Naturalmente, tudo isso são expectativas sobre o que pode, ou não, acontecer. Porém, quando se trata de um relatório divulgado pela autoridade monetária de um país, o Banco Central do Brasil, no caso, significa que essas expectativas do mercado irão interferir na política monetária do presente. Ou seja, o que essas instituições acham sobre o futuro irá influenciar o que o BC faz hoje, pensando nesse possível futuro. Dentre essas decisões, está a taxa de juros Selic, que já foi aumentada na última reunião e, espera-se, deve aumentar até o fim do ano.

Agora, voltamos à atividade econômica e ao PIB, que até apresenta recuperação, mas longe de um retorno pujante da geração de emprego e renda. Os serviços, em março, foram melhores do que se podia imaginar. Cresceram 1,7%. Com isso, de uma forma geral, os serviços já superaram o período pré-pandemia (7,2% acima) e estão quase tão bons quanto no começo de 2015 (que fechou com uma grave crise). Dentro dos serviços, só não se recuperaram dos prejuízos causados pela pandemia os Serviços Prestados às Famílias, que ainda estão com valores 12% abaixo do observado no início de 2020.

Por um lado, os serviços são importantes para o país e é bom que eles sejam retomados, pois correspondem a cerca de 70% do PIB brasileiro. Porém, é péssimo que uma economia como a brasileira dependa tanto do setor terciário. Não é de hoje que a literatura e a realidade econômica mostram a importância da existência de um setor industrial dinâmico, que seja capaz de gerar efeitos sobre si e sobre os demais setores da economia. Até para a qualidade dos serviços isto é fundamental, afinal, só é possível prestar serviços de qualidade e elevado nível de qualificação se o contratante necessitar deles.

Mantendo essa política econômica como está, nada vai mudar. Quem está satisfeito, se isente no pleito de 2022. Quem não, prepare-se!


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Maria Cecília Fernandes, Nertan Gonçalves e Alan Gomes.

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sexta-feira, 13 de maio de 2022

A hidra da estagflação

Semana de 02 a 08 de maio de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Desde os finais do século passado, particularmente a partir da década de 60, os economistas debatem o fenômeno da inflação, tão terrível que já foi associado à figura de um dragão. O dragão da inflação tem sido combatido, mas é considerado invencível. Ninguém se propõe a exterminá-lo, mas a domá-lo, controlá-lo. Terminada a guerra observa-se que o fenômeno se tornou inerente à economia capitalista. Depois dos anos 70, porém, este dragão sofreu uma mutação: transformou-se em uma hidra, a hidra da estagflação, muito mais terrível. O processo inflacionário se caracterizava pela elevação generalizada dos preços, mas acompanhada da expansão da economia. Havia o aumento da produção. Para isto, a duras penas, a ideologia econômica oficial encontrou um remédio: a taxa de juros. O manual diz que quando a inflação aumenta eleva-se a taxa de juros. Quando a inflação diminui, reduz-se a taxa de juros. Como eles acreditam que a inflação é causada por excesso de demanda em relação a oferta, a solução é comprimir a demanda. Com a elevação dos juros dificultam-se os investimentos e o financiamento ao consumo. Com a redução da demanda os preços caem. É simples assim.

A partir dos anos 70 esta lógica é subvertida. Surge um aumento de preços, mas acompanhado de uma queda na produção e no consumo por falta de consumidores. A demanda encontra-se deprimida. Com a economia em desaceleração, desemprego e baixos salários, acentua-se a queda da demanda, mas, para surpresa de todos, os preços continuam a subir. É inflação na desaceleração. É a hidra da estagflação. Como diz a diretora gerente do FMI Kristalina Georgieva, “o crescimento cai e a inflação aumenta”, “a renda das pessoas cai e as dificuldades aumentam”.

Com o seu fanatismo ideológico as autoridades dos bancos centrais aplicam a única receita que a bíblia indica: os juros. Foi isto que ocorreu na recente reunião do Copom, órgão do Banco Central do Brasil (BC) encarregado da gestão da moeda e controle dos preços. Decidiram elevar a taxa Selic, taxa de juros de referência do governo, para 12,75% ao ano. Lembremos que em agosto de 2020 ela era 2%. Curiosamente o próprio BC afirma que a inflação no país é decorrente da pandemia do covid-19, do consequente desequilíbrio entre oferta e procura, do surto de covid na China, com os lockdowns e da guerra na Europa com a invasão da Rússia, todos fatores externos. Perguntaria o desavisado: e como a taxa de juros elevada pode afetar estes acontecimentos? A China, o covid, a Rússia, todos tremem diante da autoridade do BC brandindo ameaçadoramente sua poderosa taxa Selic?

Nesta marcha, sob o comando do sinistro da economia Paulo Guedes, e sua equipe de “Chicago oldies”, a recuperação da economia que se esboçava, abortou. Quais os prognósticos então?   A economia vai continuar desacelerando, a inflação prosseguirá esmagando a capacidade de consumo das pessoas, a situação econômica do país vai piorar. Tudo isto agravará a avaliação do governo e influenciará o resultado nas urnas.

O ambiente internacional vai evoluir na mesma direção. Diante das proclamações e decisões da União Europeia e da NATO a guerra vai continuar até o último ucraniano. Como bem diz Martin Wolf, editor e principal analista de economia do Financial Times, “O objetivo da política econômica é apoiar o esforço de guerra”. “O desafio é defender a civilização liberal da Europa.” É nestes termos que a situação está sendo tratada na Europa que, praticamente já está em guerra para destruir a Rússia. Apenas algumas organizações internacionais continuam a alertar para o perigo que se aproxima. A Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) cortou suas previsões para o crescimento do PIB mundial de 3,6% para 2,6%. Chamou a atenção para o perigo do aumento da insolvência e da crise global, paralização do desenvolvimento, aumento da inflação e da fome e surgimento de conflitos e revoltas. É neste clima que caminhamos para as eleições seriamente ameaçadas. Sinceramente, não acreditamos que o monstro e sua matilha esperarão sentados a derrota e marcha para a prisão. Não é por acaso que já aparecem nos veículos com bandeirinha o cartaz “Recuar jamais”.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Ana Isadora Maneguetti, Mariana Araújo  e Nertan Alves.

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quinta-feira, 5 de maio de 2022

PNAD contínua vs Copom

Semana de 25 de abril a 01 de maio de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida[i]

           

De acordo com a PNAD contínua de abril, que traz os dados sobre janeiro, fevereiro e março de 2022, no Brasil havia 11,95 milhões de brasileiros desocupados, 8,35 milhões que se encontravam na chamada “força de trabalho potencial” (pessoas que desejavam trabalhar, mas, por algum motivo, estavam fora do mercado de trabalho) e outros 6,51 milhões de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas. No total, foram 26,81 milhões de brasileiros que poderiam estar contribuindo para a geração de riqueza no Brasil, mas que não puderam fazê-lo no primeiro trimestre de 2022.

Segundo a mesma PNAD contínua, a média do rendimento nominal das ocupações no Brasil foi de R$ 2.584, um valor inferior ao observado no mesmo período de 2021 (1º trimestre), quando o rendimento médio foi de R$ 2.789. A queda foi registrada em todas as categorias, desde o serviço público ao trabalhador doméstico com carteira assinada. A única elevação foi na remuneração mensal do trabalhador doméstico sem carteira assinada, que aumentou em R$ 14, chegando a um total de R$ 870. Olhando para as remunerações pela ótica da atividade econômica, apenas os ocupados na agropecuária e da construção civil tiveram aumento no rendimento médio mensal habitual: R$ 29 e R$ 113 a mais na comparação entre os primeiros trimestres de 2021 e 2022, respectivamente. As ocupações que perderam na remuneração mensal foram as da Administração Pública (-R$ 671), da Indústria (-R$ 198) e de alguns Serviços prestados às Empresas (-R$ 175).

Pois bem, esse é o contexto onde se dão os preparativos para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Nesta reunião, é dada como certa a elevação na taxa básica de juros brasileira, que deve chegar a 12,75% ao ano. Como já dito nesta coluna em ocasiões anteriores, o motivo da elevação da Selic é sempre o combate à inflação, que chegou a 12,03% nos 12 meses encerrados em abril desse ano (pelo IPCA-15). Como agravante, dos 367 itens pesquisados, 289 tiveram aumento no mês de abril, ou seja, há uma difusão no aumento dos preços.

Obviamente, a inflação é péssima para a população, ainda mais ela superando os dois dígitos. O motivo é que isto piora o consumo da classe trabalhadora em geral, mas mais ainda o das classes mais baixas (D e E), que já representam mais de 51% dos domicílios brasileiros. Segundo o boletim Salariômetro da FIPE, apenas 17,7% das negociações coletivas realizadas entre abril de 2021 e março de 2022 resultaram em aumento salarial superior à inflação medida pelo INPC. Enquanto isso, para 35,6% das negociações, os aumentos foram iguais à inflação e, para 46,7%, a inflação aumentou mais do que o salário.

Como desgraça pouca é bobagem, há a possibilidade de os gargalos nas cadeias globais piorarem, tanto por causa da guerra entre Rússia e Ucrânia, quanto pela política de covid zero e lockdowns da China. Além disso, os EUA estão aumentando seus juros básicos, o que leva os especuladores daqui pra lá e encarece o dólar. Isto deve piorar a “inflação importada”, aquela que é causada por motivos externos ao Brasil. Por sua vez, no cenário interno, o Índice de Preços ao Produtor cresceu 3,13% apenas em março de 2022. Dentre os “vilões” dessa fortíssima inflação de custos estão: os derivados do petróleo, os alimentos, a indústria extrativa e alguns produtos químicos. Tudo isso na esteira de uma elevação de preços ao consumidor que ainda não dá sinais de cessão. Muito pelo contrário. Segundo o jornal Valor, há uma tendência para manter o repasse da elevação dos custos, tanto pelas indústrias quanto pelas empresas do comércio varejista. A previsão é de aumentos desde o aço à geladeira, dos eletrônicos aos refrigerantes, de nacionais à multinacionais.

Voltando ao Copom, sabendo que a inflação atual não tem sua origem em um excesso de demanda, peço que o caro leitor reflita: para além de melhorar a vida dos rentistas, aumentar os juros vai ajudar em que o Brasil?


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Maria Cecília Fernandes, Eduardo Oliveira e Alan Gomes.

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quarta-feira, 27 de abril de 2022

Crise mundial e golpe dominam o cenário

Semana de 18 a 24 de abril de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A guerra Rússia x Ucrânia continua a ditar os caminhos da economia mundial. Enquanto as operações militares se expandem os países ocidentais ampliam as retaliações econômicas contra a Rússia. Para os EUA é mais fácil impor tais restrições. Em relação à Europa a situação é mais complexa. Os países europeus não podem prescindir do petróleo russo e muito menos do gás e estão sendo obrigados a pagá-los em rublo o que fez a moeda voltar a valorizar-se. Isto foi reconhecido pela própria secretária do tesouro dos EUA Janet Yellen que recomendou cautela em relação ao boicote, pois as consequências não serão significativas para os russos, mas catastróficas para os próprios europeus e para o mundo. Além da desorganização do sistema financeiro mundial, o agravamento da situação poderá trazer sérias consequências para os países emergentes com o aumento do endividamento e possibilidade de calotes. A dívida total do mundo que representava 28% do PIB já subiu para 256% atualmente.

No âmbito das operações militares os russos mudaram de tática e agora concentram suas ações no leste da Ucrânia tendo dominado boa parte da costa do mar Negro e conquistado a cidade de Mariupol onde o que resta de resistência é feita pelo batalhão Azov, mercenários neofascistas financiados e treinados pelos ocidentais. Lamentavelmente os ucranianos continuam a pagar o preço do belicismo da OTAN que age sob o comando dos americanos.

As consequências para a economia mundial têm sido desastrosas. A inflação disparou, o crescimento econômico abortou, criando-se o quadro da estagflação que se espalha por todo o mundo. Está em marcha um novo realinhamento político de países e blocos. As cadeias de suprimento são desorganizadas e vem se instalando grande volatilidade nos mercados financeiros.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu suas estimativas para o crescimento do PIB mundial. Para o mundo o rebaixamento foi de 4,4% para 3,6%. Para os EUA a previsão é de 3,7%. Para a China, de 4,4%, para a Europa da zona do euro, de 2,8%, para a Ucrânia -35%. O FMI reviu também as estimativas para a inflação: 5,7% para as economias ricas e 8,7% para os emergentes. As previsões estão no “Panorama Econômico Global” onde também se afirma que a guerra é a responsável. Destaca-se ainda a contribuição do lockdown na China que vem provocando a formação de gargalos nas cadeias de suprimentos globais e a elevação dos preços dos combustíveis e alimentos. Em outro documento do FMI, o “Global Relatório de Estabilidade Financeira” é feito um alerta para a ameaça à estabilidade financeira na economia global e o aumento da inflação que obrigará os Bancos Centrais (BCs) a uma elevação dos juros para o campo restritivo. É destacado o papel do Federal Reserve (Fed.) banco central americano e do aperto monetário por ele programado que provocará grandes fugas de capitais dos países emergentes. Que objetivos escusos a burguesia internacional pretende atingir a tal preço?

Para agravar a situação a epidemia do covid-19, que parecia ultrapassada, ressurge em nova onda na China provocando medidas severas de lockdown. Só em Xangai 25 milhões de pessoas foram afetadas. As consequências são sentidas no congestionamento dos portos e na movimentação de contêineres com repercussão no preço dos fretes.

A situação externa contribui para o agravamento dos problemas aqui dentro. O aumento da inflação vem provocando a elevação dos juros pelo Banco Central que promete novas elevações da Selic. A conjugação de juros e inflação provoca a queda na renda com o aumento da inadimplência de consumidores e empresas. A situação econômica do país se agrava. Acossado o presidente Bolsonaro arremete contra tudo e contra todos. Elegeu o STF como inimigo principal deflagrando dois conflitos: decretou a “graça” para anular a condenação do deputado Silveira e incitou o choque das forças armadas com o ministro Barroso por causa de declarações deste em um seminário na Alemanha. Há ainda outro atrito por causa das gravações do STM sobre as torturas no golpe de 64 que provocou novos pronunciamentos golpistas dos generais de pijama.

Com a derrota eleitoral no horizonte é duvidoso se chegaremos às eleições.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Ana Isadora e Roberto Lucas.

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quarta-feira, 20 de abril de 2022

É o fim da “Crise do Coronavírus”?

Semana de 11 a 17 de abril de 2022

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Como todos devem ter visto, o Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, decretou o fim da emergência em saúde pública causada pela covid-19. Para muitos, isto significa que está decretado o fim da Pandemia e, com isso, o fim dos problemas a ela associados: distanciamento social, uso de máscaras, vacina obrigatória etc. Nada mais errado do que isso, pois a Organização Mundial da Saúde já descartou a possibilidade de rebaixar a situação de Pandemia para Endemia, por enquanto. Para além disso, a crise que começou a se manifestar antes mesmo dos primeiros casos de Covid-19, mas que foi “perturbada” pela Pandemia e por isso ganhou seu nome, parece estar de volta.

Como já foi mencionado antes, as análises de conjuntura divulgadas pelo PROGEB em 2018 e 2019 já indicavam os sinais de que a atividade econômica mundial estava iniciando uma fase de desaceleração do seu crescimento. Ou seja, estavam sendo cridas as condições para a manifestação de uma crise econômica em escala global. Porém, em 2020, veio a Pandemia e aquilo que poderia ter sido um simples “pouso suave” se transformou numa grave crise econômica e sanitária. Por um lado, mais de 2 milhões de mortes pelo novo coronavírus. Por outro, queda de 3,6% no PIB mundial.

Em 2021, contudo, esses dois efeitos da Pandemia andaram em sentidos opostos.  Em 2021 as mortes aceleraram e o total de óbitos no mundo já somava quase 6 milhões (desde o início da Pandemia). Enquanto isso, a economia mundial cresceu 5,9% em relação à 2020. Ou seja, apesar da piora no quadro sanitário, a dinâmica econômica se aqueceu e se recuperou do tombo do ano anterior, levando o PIB mundial a superar os valores pré-pandemia. Um dos sinais da grande intensidade dessa expansão foram alguns desequilíbrios setoriais, como a falta de insumos e de navios de transporte no mercado mundial. Isso, naturalmente, impediu o crescimento de ser ainda maior.

O problema é que a economia mundial é regida por leis econômicas e estas, cedo ou tarde, se impõem sobre quaisquer elementos externos que venham a interferir no seu funcionamento (os choques exógenos, como se diz no economês). Obviamente, caso não seja um fenômeno de ordem terminal, como uma guerra nuclear, um cataclismo planetário, o impacto de um grande asteroide ou mesmo uma revolução social que acabe com a ordem econômica atual, todos os fatores que interferem na acumulação capitalista serão passageiros.

Como foi dito no início do texto, as leis econômicas que regem o ciclo econômico (a alternância entre maior e menor intensidade do crescimento) estão se impondo novamente. Tanto as crises quanto as fases de aquecimento da economia são necessárias, cada uma tem sua função. A aceleração abre espaço para a bonança e é o momento em que o capitalismo se esbalda, pois aumentam a produção, o emprego, a renda etc. Como balde de água fria e choque de realidade, vem a crise para excluir do mercado os menos eficientes, aqueles que não se adequam às condições médias da concorrência. Junto com isso, chegam o desemprego, a redução na renda, a ociosidade etc. Ocorre uma espécie de saneamento dos capitais mais fracos, para que, em seguida, venha nova fase de aquecimento e abertura de espaço para os sobreviventes e os novos concorrentes. Isso até que uma nova crise chegue e o processo se repita periodicamente.

É isto o que está se desenhando na economia mundial, capitaneada pelos EUA. Para além de consultorias privadas, até o principal assessor econômico da Casa Branca, Brian Deese, está pessimista com os rumos da economia dos EUA neste ano de 2022 e para 2023. Os motivos são muitos: desde a elevada inflação (maior dos últimos 40 anos) e o remédio para controlá-la (forte elevação dos juros) até a desaceleração da China (que ainda faz lockdown para garantir a política de Covid zero) e a guerra entre Rússia e Ucrânia (que contribui para faltar insumos e subir ainda mais os preços das commodities). Claro, com algumas especificidades, tudo isso também vale como gatilho para o estouro da crise em outros países.

Esta é a realidade que condena a maior parte da população mundial a viver em um sistema que alterna entre momentos de menor (fase de crescimento) e maior (fase de crise) penúria. Enquanto o capitalismo existir, a crise sempre virá como uma de suas leis.


[i] Professor do Departamento de Relações Internacionais da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Nertan Gonçalves e Carolina Nantua.

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quinta-feira, 14 de abril de 2022

A política e a economia: a guerra e as ameaças de golpe

Semana de 04 a 10 de abril de 2022

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

Há dois fenômenos que continuam a comandar a evolução da economia dentro e fora do país. E não são fenômenos econômicos. Lá fora a guerra Rússia-Ucrânia continua com mortes, migrações e destruição. As tropas russas continuam na ofensiva ocupando a região leste da Ucrânia enquanto o comediante alçado a presidente discursa para os políticos da OTAN e em lugar de paz ele pede mais armas, armas e armas. O povo vai pagando em vidas a fatura do belicismo europeu manipulado pelos EUA e gerenciado pelo fantoche. É espantoso como os europeus, a serviço dos americanos, se envolvem em uma guerra que não interessa nem aos seus países nem aos seus capitalistas,

O efeito bumerangue das sanções continua a ampliar-se. Aumenta a possibilidade de crise na União Europeia (EU) e nos EUA. As sanções aplicadas à Rússia voltam-se contra seus criadores. Como retaliação os russos decidiram vender gás, petróleo e carvão em rublos, obrigando todos a comprarem a moeda cuja cotação subiu no mercado. O rublo valorizou-se voltando ao valor anterior à guerra de 85 rublos por um dólar. Além disso Rússia e China começaram a criar um mercado independente do dólar atraindo o Japão, outros países asiáticos e árabes. O dólar começa a ter seu reinado mundial contestado. O sistema financeiro internacional está posto em xeque. O tiro ocidental está saído pela culatra e os EUA poderão pagar caro.

O comércio mundial vai se desarticulando junto com as cadeias de produção. Os países tendem para a reindustrialização e autossuficiência. Redefine-se a ordem econômica mundial. A globalização que já vinha sofrendo desgaste com a pandemia recebe mais um rude golpe e fica ainda mais enfraquecida. Há mesmo quem fale na desglobalização em marcha. A Organização Mundial do Comércio (OMC) reduziu as suas estimativas de crescimento do mercado mundial de 4,7% para 2,5% neste ano, prevendo uma disrupção imediata do comércio. A UE decidiu proibir a importação do carvão da Rússia, mas manteve o petróleo e o gás que representam 10% e 33% do consumo total do país, respectivamente. Ocorre que o carvão representa apenas 4 bilhões de euros enquanto as duas outras commodities representam 100 bilhões. Muito espertos!

Como era previsto a crise vem provocando a elevação dos preços das commodities e particularmente dos produtos alimentícios. A inflação corrói o poder aquisitivo dos salários provocando reações e protestos. O secretário geral da ONU António Guterres fala em “furação de fome” no mundo. Os governos têm recorrido a subsídios e transferência de renda comprometendo os orçamentos e aumentando a dívida pública.

Todos estes fenômenos adversos abalam a débil recuperação da nossa economia. As notícias não são boas. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI) o faturamento da indústria caiu 0,1% em janeiro e 0,2% em fevereiro. A utilização da capacidade instalada ficou em 81% e o rendimento médio caiu 0,1%.  A taxa de desemprego, que atingiu 13,2% em 2021, cairá para 11,9% em 2022, segundo estimativas do Boletim Macro, mas a taxa composta de subutilização da força de trabalho (que inclui os desalentados e indisponíveis) atingirá 23,5%. A inflação continua a ultrapassar os dois dígitos, as taxas de juros tendem a aumentar e o crescimento do PIB deverá ser muito pequeno.

Sem resultados econômicos o governo continua a sua campanha para a reeleição. Vários ministros afastam-se para concorrer a cargos eleitorais destacando-se o ministro da defesa, considerado o mais importante pelo presidente “com a tropa em suas mãos”. Em mais um discurso na cerimônia de promoção dos oficiais generais Bolsonaro voltou a falar nas forças armadas como “âncora do Brasil”, “na luta do bem contra o mal”, “em um país conturbado por questões ideológicas, mas lá atrás foi mais difícil e vencemos e agora venceremos novamente.” Em outra cerimônia, na filiação de dois ministros ao PL, ele já havia falado em “batalha espiritual”, “batalha do bem contra o mal” e que “embrulha o estômago cumprir a constituição”. A chantagem de golpe continua. Chegou a hora de dar um basta nesta pregação golpista antes que seja tarde.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Mariana Tavares, Roberto Lucas e Alan Henriques Gomes.

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