sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A necessária “Nova Indústria Brasil”: um prelúdio...

Semana de 15 a 21 de janeiro de 2024

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Esta semana, enquanto me preparava para escrever sobre as notícias econômicas da semana passada, o governo brasileiro veio e lançou uma política industrial chamada de “Nova Indústria Brasil” (NIB). Ela tem sido vista como uma bala de prata contra a desindustrialização brasileira. Mas, antes de entendermos o contexto dessa medida, vamos repercutir duas notícias da semana passada.

A primeira vem da Alemanha, país onde a economia diminuiu em 0,3%, puxada pela queda nas exportações, nas vendas internas e na produção industrial. Com isso, o país deve ser o de pior performance dentre os grandes em 2023. Além disso, como maior economia europeia, isso também puxou para baixo os dados da União Europeia, que em novembro chegou a três meses seguidos de queda na produção industrial.

A China foi um caso à parte, pois teve um crescimento de 5,2% em 2023. Esse dado é melhor que o esperado pelo governo do país, mas ainda abaixo da média histórica. Segundo os analistas ocidentais, o principal problema está no mercado imobiliário chinês, que está em recessão há três anos. Além disso, devido às sanções e à desaceleração da economia mundial, as exportações chinesas caíram pela primeira vez desde 2016.

Apesar dos indicativos de que a economia dos EUA não está tão mal, os dados internacionais confirmam que 2023 foi um ano de “pouso suave” e isso deve se repetir no começo de 2024. É justamente isto que torna a “Nova Indústria Brasil” necessária neste atual momento.

Não é de hoje que temos destacado a necessidade de o Brasil adotar uma política industrial ampla e contundente. Isso não acontece desde os anos 1980, quando se iniciou a Era da Globalização e a industrialização mundial passou por uma profunda transformação. Agora, mais de 40 anos depois, a organização da produção de mercadorias em escala internacional está sofrendo novas modificações. Isso se dá não apenas em relação ao aspecto geográfico (antes concentrado na Ásia), mas também em relação às tecnologias que guiam o desenvolvimento tecnológico (antes a informação e comunicação). Essa é uma janela de oportunidade que o Brasil deve aproveitar.

O momento é tão crítico que até a vertente da literatura econômica que via a política industrial com maus olhos passou a admiti-la, sob certas condições. Isso pode ser visto em alguns pouquíssimos artigos de jornais que circulam no Brasil, mas, principalmente, nos meios científicos internacionais. É tanto que até o Fundo Monetário Internacional publicou recentemente um texto de lançamento do “Novo Observatório de Política Industrial”, em que serão reunidos dados e documentos sobre o tema.

De acordo com o texto, as medidas adotadas por China, União Europeia e Estados Unidos corresponderam a 48% do total em 2023. As medidas mais adotadas foram os subsídios concedidos às empresas, mas também tiveram restrições às importações e às exportações. Já as motivações variaram entre questões estratégicas de competitividade, mudanças climáticas, segurança nacional e fatores geopolíticos.

O Brasil só agora entrou na disputa. Isto é sintomático, pois representa bem nosso atraso em relação aos países mais avançados, quando o assunto é economia e tecnologia. Reflete bem a nossa própria burguesia e nossos “liberais”, que em grande parte se opõem ferreamente à “intervenção” estatal na economia (o que pode ser visto pelas “opiniões” veiculadas nos maiores meios de comunicação). E isso pode ser um problema.

Como se viu, a Confederação Nacional da Indústria aprovou a “Nova Indústria Brasil”. Não é por menos, pois ela será a maior beneficiada pelas medidas e foi bastante ouvida na elaboração da proposta. A questão é que os industriais brasileiros há muito tempo não têm a mesma força política e, principalmente, econômica que já tiveram. Isso pode pôr em xeque a efetividade das medidas, pois a grandeza da proposta requer participação, também, do Estado e do setor bancário-financeiro. Se o objetivo é garantir o desenvolvimento industrial sob os moldes capitalistas no país, será necessária a participação ativa de todos nesse processo.

É esperar para ver até onde essa política vai na prática, porque na teoria ela parece muito boa. Em breve falaremos mais dela.


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima e Paola Arruda.

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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O “pouso suave” em ano de instabilidade e eleição

Semana 08 a 14 de janeiro de 2024

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

Somos forçados a começar esta análise ainda falando no fascista Milei. Ele faz questão de manter-se nas manchetes. Infelizmente ainda há pessoas e órgãos de imprensa dando palanque ao canalha, armado em salvador, enquanto ele manda o “Carajo” para o seu próprio povo. Para vergonha geral, o mundo foi obrigado a ouvir, no Fórum de Davos, os impropérios proferidos pelo marginal, que, apesar de economista, não é capaz de distinguir e caracterizar as diferentes correntes econômicas e iguala Keynes, comunismo, socialismo, social-democracia, democracia cristã etc., como se fossem a mesma teoria. Só o grande pensador Milei tem a verdade capaz de salvar a humanidade. E, claro, terminou o seu discurso com um sonoro “carajo”. Coitados dos argentinos que já começam a sentir o tamanho do “carajo” que lhes foi endereçado.

Mas, o Fórum de Davos abriu espaço para outro palhaço, fantoche do belicismo ocidental, o ator Zelensky. Embora de mãos vazias (não conseguiu verbas para continuar o massacre do seu próprio povo), foi cortejado e aplaudido. Apenas o Netanyahu ainda não conseguiu audiência, apesar de todos os crimes que os sionistas vêm cometendo, em Gaza, e das declarações que tem feito contra todas as decisões da ONU, sobre o território. A consequência disto é o agravamento da situação em toda a região, com a expansão do conflito aos países vizinhos. Israel já ameaça a invasão do Líbano, em resposta aos ataques de mísseis que tem recebido de grupos aliados ao Hamas. No mar Vermelho, os rebeldes no Iêmen têm atacado navios, ameaçando a circulação comercial na área, o que já provocou ataques dos ingleses e americanos a instalações no país. O próprio Irã lançou mísseis para os territórios do Iraque e da Síria, alegando atingir alvos militares inimigos. Todo este panorama ameaça as rotas comerciais, que circulam pelo mar Vermelho e Canal de Suez, obrigando a mudança de rotas comerciais para o contorno da África. Temos, portanto, mais uma perturbação para a economia mundial que, todas as organizações internacionais reconhecem que se encontra em situação crítica e preveem para ela um “pouso suave”. O Banco Mundial, por exemplo, em seu relatório Perspectivas Econômicas Globais, prevê que, neste ano, a economia mundial crescerá apenas 2,4%, continuando seu ritmo de desaceleração, pelo terceiro ano consecutivo. A ONU faz estimativas idênticas. O Banco Mundial reconhece que o período entre 2020 e 2024 é o pior em 30 anos.

Temos de levar em consideração este panorama internacional adverso para fazer considerações sobre a nossa economia. Podemos ser atingidos pelas perturbações provocadas pelas guerras e pelo afundamento da economia argentina. O pouso suave externo vai contribuir para o nosso próprio “pouso suave”, que também já teve seu início. Não é uma questão de opinião ou vontade, é uma questão de dados e fatos. O Banco Mundial, para o Brasil, prevê um crescimento de 1,5%, para este ano de 2024. Apesar do endividamento das famílias ter caído, pela primeira vez em 4 anos, a inadimplência bateu recorde, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Isto significa que o consumo das famílias não contribuirá para o crescimento. Por outro lado, os estímulos provocados pelo aumento do salário-mínimo e pelos auxílios, como o bolsa família, perderam seu efeito estimulador.

Outro acontecimento que terá de ser enfrentado pelo governo é a substituição do presidente do Banco Central Campos Neto que, com sua política monetária restritiva, tanto prejuízo nos causou. Espera-se que o governo substitua o sabotador.

Finalmente, há que lembrar que este ano é ano de eleições municipais. Muitas serão as negociações e é preciso consciência na hora de escolher os candidatos. Nada de votar no compadre, amigo ou vizinho. A votação tem de levar em consideração o partido político do candidato. Nenhum voto para qualquer partido de direita ou do centrão. É preciso tirar o apoio que sustenta o Congresso mais reacionário e corrupto da nossa história, para que o presidente Lula possa governar. Basta de chantagens. Agora estará nas mãos dos eleitores.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima, Maria Vitoria Freitas e Paola Arruda.

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Lá vem 2024: a esperança pode se renovar

 Semana de 1 a 7 de janeiro de 2024

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

          

Caro leitor, 2024 chegou e já começo o texto desejando feliz ano novo! No ano passado tivemos muitas dificuldades, mas também avanços. Tivemos até que sair do negativo e retornar à estaca zero, tendo em vista alguns retrocessos trazidos pelos governos anteriores. Tivemos também os projetos que afrontaram muitos eleitores de Lula, bem como aqueles que mantiveram os privilégios de classe. Dito isto, vale a pena mencionar três coisas que precisaremos enfrentar este ano.

Para começar, teremos eleições municipais. Pode não parecer, mas os prefeitos de cada uma das milhares de cidades brasileiras têm sua importância no cenário nacional. Para iniciar o raciocínio, pensemos naquilo que chamamos no Brasil de “curral eleitoral”. Essas “localidades” são lideradas por um ou outro grupo de indivíduos que conduzem a cena política. Por isso mesmo, eles têm uma conexão estreita (pelo menos de 2 em 2 anos) com os políticos que atuam em Brasília. Assim, de forma indireta, o pleito deste ano será um termômetro e um fiel da balança para o governo Lula.

A eleição de certos prefeitos e vereadores, mais alinhados ao campo progressista, pode servir para aliviar a pressão que as propostas do governo atual enfrentam no Congresso Nacional. Isto porque, ao compor a base eleitoral dos políticos de Brasília, os políticos locais podem atuar como correia de transmissão entre municípios e a capital do país. Assim, a cobrança feita pela população pode ser mais influente, bem como a prestação de contas. Um deputado federal já pensa duas vezes antes de aprovar um projeto que afete negativamente seus eleitores, sobretudo aqueles mais ligados às redes sociais. Pior será se em sua cidade ou região ganharem políticos que não se alinham a ele.

Um segundo problema que tem atuado para frear os projetos federais, em especial os da área econômica, é o Banco Central, liderado por Roberto Campos Neto. Como se sabe, atualmente o BC goza de autonomia na gestão da política monetária e tem sabotado fortemente a política econômica, ao manter os juros excessivamente elevados. A dita autonomia também inclui a independência dos mandatos do presidente do banco e do presidente do país. Cada um deles passa 4 anos no cargo, mas de forma não sincronizada. Campos Neto começou seu mandato em 2021 e pode sair do cargo em dezembro de 2024. Caberá à Lula retirá-lo, ou não.

A preço de hoje, a saída de Campos Neto é tida como certa. Porém, sabemos que Lula é o mestre da negociação e da conciliação. Ou seja, não me surpreenderia se Campos Neto fosse reconduzido, desde que tivesse mais flexibilidade. Entretanto, a motivação não estaria na figura do atual presidente do BC em si, mas nos acordos que Lula pode firmar com a fração bancária/financeira da burguesia. Seria algo como a “pacificação” dos militares neste começo de 2024, quando Lula retirou da pauta alguns debates que desagradam os milicos. A diferença é que com os militares o governo não ganhou nada, mas com os bancos, talvez.

O último problema abordado aqui é a fase do ciclo econômico mundial, que está em “pouso suave”. Segundo estudos da ONU, a economia mundial deve desacelerar seu crescimento em 2024, quando comparado com 2023. Apesar das expectativas apontarem para uma Europa menos ruim no ano que se inicia, estudos indicam desaceleração nos EUA e na China. Nesse caso, não temos o que fazer no curto prazo. O possível é preparar a estrutura produtiva para quando a economia mundial voltar a crescer com vigor. E isto só acontecerá se forem adotadas as políticas econômicas adequadas, que têm na “neoindustrialização” um grande norte.

O que 2024 já mostra é que agora devemos enfrentar os problemas mais imediatos e remediar os que não têm jeito. Enfim, o ano que se inicia não muda muito em relação aos anteriores, com a diferença de que não temos mais um fascistóide energúmeno na presidência. O problema é que restaram os fascistóides não tão energúmenos andando por aí como se fossem “cidadãos de bem”. Contra estes é que deve ser nossa luta.

Falando nisso, sabe aquele seu amigo, vizinho ou patrão que vai se candidatar a vereador? Antes de mais nada, procure saber qual o partido ou coligação do qual ele faz parte. Se for do centrão, que tal repensar o voto? Além disso, também está no rol de ações possíveis a tradicional campanha de boca a boca, “tal como faziam os fenícios...”.


[i] Professor do DRI/UFPB, do PPGCPRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpbwww.progeb.blogspot.com@almeidalmilanezlucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Gustavo Figueiredo, Letícia Rocha e Paola Arruda.

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sábado, 6 de janeiro de 2024

Tiramos a cabeça da lama e a Argentina enterra-se até os cabelos

 Semana 25 a 31 de dezembro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

O fascista Milei, caiu em campo para executar sua política neoliberal. Com dois projetos legislativos enviados ao congresso, começou a destruir a economia argentina, revogando dezenas de leis e regulamentações para “libertar a economia da tutela do Estado”.  Segundo ele, “são leis para abraçar a liberdade”. A primeira lei foi a DNU 70/2023, agora complementada pela “lei de bases e pontos de partida para a liberdade dos argentinos”. Ao discursar na apresentação desta lei, em êxtase, clamou “Viva la liberdad CARAJO”. Desta vez, não podemos acusá-lo de mentiroso. Ele próprio reconhece o tamanho do CARAJO que ele está endereçando ao povo argentino. O choro e o ranger de dentes já começam a ser ouvidos na casa de los Hermanos. Em breve, começaremos a conhecer o conceito de liberdade do ultra neoliberal Milei: a liberdade de baixar o cacete nos que discordam dele. Temos de desejar aos argentinos firmeza e tenacidade nas grandes lutas que terão de travar, e dar apenas mais um aviso: tomem cuidado com “el Carajo” do Milei, que tem um alvo certeiro. Mas, além de lamentar os sofrimentos que aguardam o povo argentino, é bom não esquecer que eles são o nosso segundo maior parceiro comercial e os maiores compradores da nossa produção industrial. A estabilidade no país vizinho é importante para a nossa economia.

Outro comentário internacional, que temos obrigação de fazer, é sobre as guerras. No caso da Ucrânia, não há muito a acrescentar. O impasse arrasta-se com os governos europeus, fantoches dos americanos, lutando para não aumentar os gastos com o apoio militar ao palhaço Zelensky, e os últimos recursos sendo enviados pelos americanos, enquanto os russos aumentam sua pressão.

O caso mais lamentável é o da faixa de Gaza. O massacre continua e parece que vai demorar. A fúria assassina da direita sionista do governo Netanyahu é insaciável. O movimento internacional sionista continua agindo fortemente, explorando o complexo pelo extermínio dos judeus durante a segunda guerra, e acusando de antissemitas todos os que denunciam o massacre. Embora as manifestações e protestos estejam se espalhando pelo mundo, ainda não atingiram o nível de clamor universal. Aumenta a possibilidade de ampliação do conflito com os ataques no Líbano, na Cisjordânia e os atentados terroristas ocorridos no Irã, agora assumidos pelo chamado “Estado islâmico”, onde vejo as digitais de Israel.  

Internamente, não podemos deixar de comemorar as grandes vitórias que conseguimos no ano de 2023 e que já relacionamos nas análises anteriores. Basta lembrar as previsões dos economistas de plantão, no início do mandato de Lula. Seria o fim do mundo, o caos geral, a fuga dos capitais, o isolamento do país, o caminho para nos tornarmos uma Argentina, ou uma Venezuela, a disparada da inflação etc. Tudo saiu ao contrário. O Brasil recuperou o respeito do mundo e passou a ser consultado e cortejado pelas grandes nações, e a participar das organizações internacionais, e dos organismos multilaterais. Contra todas as previsões catastróficas, a economia moveu-se e tivemos um crescimento acima dos 3%, com uma taxa de desemprego das mais baixas dos últimos tempos e uma inflação sob controle. Tudo isto, para não falar da vitória da coalizão, resultado da habilidade do presidente Lula, e do apoio que se tem conseguido, com grandes sacrifícios, no congresso.

Apesar de toda a sabotagem dos parlamentares, que só se movem sob propina, da falta de colaboração do Banco Central, que mantém a taxa básica Selic nos patamares mais elevados do mundo, da ação histérica dos bandos bolsonaristas, que continuam a disseminar fakes e promover todas as ações possíveis para impedir as atividades do governo, e da colaboração precária dos partidos que compõem o próprio governo, mas que só aí estão para obter vantagens, com vistas às próximas eleições municipais. Aliás, esta é possivelmente a questão mais importante do ano, que se inicia.

Prevendo as dificuldades, desejo a todos muita coragem e resiliência necessárias para as lutas deste 2024. Não podemos desperdiçar o capital que acumulamos.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Raquel Lima, Leticia Rocha, Aline Feitosa, e Paola Arruda.


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quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Retrospectiva 2023: tiramos só a cabeça da lama

Semana de 18 a 24 de dezembro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

          

Penúltima semana do ano e é bom fazermos uma retrospectiva. Nossas análises de dezembro já trouxeram alguns comentários do que faltou para o PIB brasileiro decolar. Baixo investimento, juros altos e, principalmente, a crise complementar para sanear uma economia (mundial) afetada pela pandemia são os grandes culpados. Porém, para ilustrar, vale a pena destacar alguns fatos ocorridos ao longo do ano. Tivemos de tudo, desde tentativa de Golpe de Estado a discurso aclamado de Lula na ONU.

Na economia, ano começou com as piores expectativas possíveis. O Boletim Focus, que reúne a opinião de um conjunto de “analistas” de mercado, dizia que nosso PIB cresceria apenas 0,79% em 2023. Por sua vez, o câmbio seria US$ 5,25; a inflação, 5,75%, e os juros, 12,5%. Não precisamos repetir que, com exceção da Selic (mas aí é culpa do Banco Central), todas essas previsões falharam miseravelmente. E nós havíamos previsto boa parte disso, ainda em dezembro de 2022 (link).

Falando em taxa de juros, todo o primeiro trimestre de 2023 foi pautado pelo embate entre Planalto e Banco Central. Enquanto Fernando Haddad se virou para organizar o orçamento aloprado deixado por Paulo Guedes, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, bateu o pé e manteve o Brasil com a maior taxa real de juros do mundo. Dentre outras coisas, a equipe de Lula recriou um conjunto de programas que tinham sido extintos ou desfigurados pela “gestão” Bolsonaro. Isto exigia dinheiro do orçamento e tinha como resultado a expansão do consumo. Na cabeça enviesada de Campos Neto, apesar das evidências indicarem que o aumento dos preços naquele momento tinha origem fora do país, isto causaria mais inflação.

O segundo trimestre de 2023 se iniciou com os debates sobre o famoso (e agora esquecido) arcabouço fiscal. Pela ótica do “tecnicismo”, esse foi o nome pomposo dado às novas regras que limitam as despesas do governo federal, em substituição ao teto dos gastos. Pela ótica da economia política, foi a sinalização de que o terceiro mandato de Lula garantiria uma gorda fatia do dinheiro público para atender os interesses da fração rentista das burguesias nacional e, principalmente, internacional.

Não que, na prática, seja um bom sinal, mas o resultado não poderia ser outro: com a entrada de dólares no país, a taxa de câmbio saiu de US$ 5,25 em março para US$ 4,74 em junho de 2023. Nesse mesmo período o índice Ibovespa entrou em trajetória de crescimento, saindo de 97,9 mil para 120,4 mil pontos. Além disso, nesse meio tempo começaram a sair os primeiros dados sobre a economia nacional, que apontavam um crescimento bem acima das expectativas iniciais. Foi o suficiente para governo e apoiadores tocarem as trombetas.

Porém, quando o terceiro trimestre de 2023 começou, os ares de bonança começaram a se esvair. Externamente, a economia mundial manteve-se em desaceleração, não apenas os EUA, mas, principalmente, Europa e China. Os bancos centrais pelo mundo reforçaram a política de elevação dos juros para conter a inflação, o que reverteu a queda no dólar. Isso levou o câmbio novamente a um patamar superior a US$ 5.

Internamente, alguns setores perderam força. Por conta disto, no terceiro trimestre se aprofundou o debate sobre políticas que estimulassem os investimentos pesados no país. Esse era (e é) nosso calcanhar de Aquiles e, diante das mudanças na globalização e nas cadeias produtivas mundiais, o Brasil precisava de uma “neoindustrialização”. Para enfrentar o problema, no começo de agosto foi lançado o Novo PAC, que prometeu um investimento total de R$ 1,7 trilhão até 2026. Na prática, não saiu do papel.

Além disso, o governo brasileiro se esforçou para iniciar a tramitação da reforma tributária, que promete simplificar a cobrança de tributos que incidem sobre o consumo. Será o fim do ICMS, ISS, PIS/COFINS, etc. É o sonho do empresariado brasileiro. Mas, ficou para depois o sonho dos que querem ver um Brasil mais justo: a reforma do imposto sobre a renda.

Neste quarto e último trimestre de 2023, tivemos o proveito dos ainda fracos, mas bons ventos que sopraram com a volta de Lula ao poder. Estamos numa situação infinitamente melhor que a dos últimos 4 anos, pois a esperança voltou. Porém, isso não quer dizer que está tudo bem. Muito pelo contrário. Dentre outros fatores, só para exemplificar, o Congresso Nacional ainda mantém o Poder Executivo numa relação tóxica.

Enfim, em 2023 houve o que comemorar, pois tiramos a cabeça da lama que foi o Brasil na última década. O problema é que, do pescoço pra baixo, ainda estamos submersos. É aquecer a esperança e reforçar a luta, até porque ano que vem tem eleições municipais. Esse é o nosso Feliz Ano Novo.


[i] Professor do DRI/UFPB, do PPGCPRI/UFPB e do PPGRI/UEPB; Coordenador do PROGEB. (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; @almeidalmilanez; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Gustavo Figueiredo, Letícia Rocha e Paola Arruda.

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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

2024 será um ano difícil

Semana 11 a 17 de dezembro de 2023

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

O governo do tresloucado fascista Milei, desdizendo o que prometeu, começou a tomar medidas capazes de destruir a economia argentina por muitos anos. É uma experiência ultra neoliberal exacerbada como ainda não se viu. Desvalorizou a moeda (1 dólar passou de 400 para 800 pesos), revogou subsídios aos transportes públicos e serviços, suspendeu a execução de todas as obras em andamento e a contratar, bem como todas as licitações, cancelou os contratos de publicidade etc. Depois de declarar, no comício de posse, aos berros, e com sua cabeleira cuidadosamente desgrenhada, que “o neoliberalismo não está morto”, identificou o déficit fiscal como inimigo fundamental e a causa de todos os males da Argentina, prometendo acabar com ele. Pediu o prazo de 18 a 24 meses de tolerância, quando a vida do povo vai piorar, prometendo a bonança e o bem-estar, depois disso. A sabuja imprensa argentina, mais realista do que o rei, começou a pedir sacrifícios a todos, sugerindo que as pessoas comprassem carros mais baratos, ou cancelassem as assinaturas de TV pagas, ou passassem a comer só uma vez ao dia, para fazer economia e ajudar o país a levantar-se. Prevendo possíveis descontentamentos e revoltas populares, os ministros prometeram “mão de ferro” com as manifestações e perturbações da ordem, bem como cortes de todos os benefícios sociais dos baderneiros.

Mais uma loucura neoliberal está em marcha, como se não bastasse o fracasso chileno, cuja população está mais perdida que cego em tiroteio, e de tal modo dividida, a ponto de preferir manter a já remendada e caduca constituição dos tempos de Pinochet. Nas duas consultas feitas, em plebiscito, as propostas alternativas foram seguidamente rejeitadas. Vamos agora, lamentavelmente, assistir mais esta trágica experiência dos Hermanos que, esperamos, sirva definitivamente de lição.

Ainda no plano internacional, as duas guerras em curso já se tornaram rotina. A guerra da Ucrânia deixou de ser falada, pois a parte ucraniana já está derrotada, e as ratazanas abandonam o navio. O palhaço do Zelensky rodou inutilmente o mundo, com uma sacola nas mãos, a pedir mais dólares para matar seu próprio povo. Recebeu negativas do congresso dos EUA e de vários países europeus, que começam a criar vergonha na cara. Em compensação tomaram a decisão de começar a discutir a adesão da Ucrânia à União Europeia, mas só depois do fim da guerra. Enquanto isso, em Gaza, continuam os massacres e o genocídio do povo palestino. Os americanos e europeus, cinicamente, seguem reafirmando o direito de Israel a defender-se e fazem ridículos apelos para que Israel poupe a população civil. A pedido dos países árabes, nova resolução será discutida no desmoralizado Conselho de Segurança da ONU, prevendo-se mais um veto dos americanos.

As nossas previsões sobre a marcha do ciclo econômico no Brasil e no mundo mantêm-se atuais. Os dados publicados apontam para a continuação da desaceleração das economias, embora todos afirmem que a possibilidade de uma recessão geral diminuiu, mas haverá “um pouso suave”. Os dados indicam que estamos vivendo uma crise complementar, já que a passada não cumpriu sua função saneadora, em boa parte por causa das perturbações causadas pelo COVID-19 e pelas guerras. O capitalismo reorganiza sua globalização e cria novos canais de comunicação, para retomar seu processo de acumulação. O FMI, o Banco Mundial e a OCDE preveem dificuldades. A OCDE é a mais pessimista e faz estimativas muito negativas para o Brasil, o que provocou protestos do presidente Lula. O Banco Mundial prevê, para 2004, crescimento de 1,3% e o Banco Central estima em 2,2%, apesar do corte da Selic, para 11,75% (ainda muito alta).

Quanto à inflação, a situação parece menos preocupante. A desaceleração da economia mundial e as políticas de aperto monetário dos Bancos Centrais do mundo, somados ao lançamento, no comércio internacional, dos estoques de produtos baratos chineses, encalhados devido à crise interna deste país, vêm provocando a queda dos preços internacionais.

Não prevendo boas notícias para 2024, desejamos, pelo menos, um bom Natal.


[i] Economista, Professor Emérito da UFPB e Vice Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Gustavo Figueiredo, Leticia Rocha, Aline Feitosa, e Paola Arruda.

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terça-feira, 12 de dezembro de 2023

As expectativas pessimistas falharam, mas o PIB vai muito mal...

Semana de 04 a 10 de dezembro de 2023

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Como comentamos nas duas últimas análises, o PIB brasileiro está indo mal. Na semana passada, o professor Nelson Rosas já trouxe os dados gerais do resultado oficial divulgado pelo IBGE. Agora, analisaremos um componente específico: a formação bruta de capital fixo (FBCF).

Como o nome sugere, a FBCF é o componente do PIB que registra os gastos com aumento da capacidade produtiva das empresas, ampliando o espaço físico e o número de bens de capital em funcionamento. Além disso, entra no cálculo a produção realizada pela construção civil. Ou seja, a FBCF é um indicador determinante para sabermos a força (ou fraqueza) do crescimento da economia, pois mostra como anda a indústria de base de um país. Explico o porquê.

Imaginemos a produção de algo, como uma máquina de ultrassom, um aparelho celular, um edifício ou mesmo um automóvel. Para montar esses produtos, são necessárias uma estrutura produtiva sólida e mão de obra adequada. Por sua vez, produzir os insumos que irão compor esses produtos requer uma estrutura produtiva ainda mais densa, pois serão processadas matérias primas mais ou menos sofisticadas. Por fim, produzir as máquinas que vão atuar na montagem dos componentes ou as máquinas que vão atuar na produção dos insumos requer um outro nível de estrutura, com densidade e complexidade em níveis máximos.

Atualmente, em muitos países é possível produzir os insumos mais básicos, como aço, vidros, químicos e petroquímicos. Em alguns outros, é possível montar equipamentos óticos, eletrônicos, informáticos, automóveis, etc. Um número menor de países detém as condições de produzir os componentes mais elaborados necessários à tecnologia atual (chips, eletrônicos, etc.). Porém, é um grupo muito mais seleto o dos países onde estão as máquinas (os bens de capital) que produzem as máquinas usadas na produção de outras máquinas, na produção de insumos ou na montagem do produto final.

Observando de trás pra frente... Na medida em que cresce o consumo de bens finais, cresce o consumo de insumos. Se esse crescimento se generaliza e se sustenta, as empresas de bens finais e de insumos buscam aumentar sua capacidade produtiva, sua FBCF. Com isso, são acionados os setores produtores de bens de capital. Estes, por sua vez, contratam mais trabalhadores e consomem mais insumos. Isso aumenta ainda mais a pressão sobre a produção, gerando um efeito retroalimentador. Ocorre um aquecimento generalizado, onde o crescimento de uma atividade econômica faz crescer, direta e indiretamente, a produção nela e nas demais atividades.

Infelizmente, o Brasil não faz parte do clube de países que lideram a produção global. E, graças à nossa desindustrialização, também não tem estrutura produtiva plenamente capaz de garantir a produção das máquinas produzidas por aqui. Isto, por si só, limita muito o potencial de crescimento brasileiro. Para piorar, o ciclo econômico mundial está em fase de desaceleração e o Banco Central do Brasil (Roberto Campos Neto) mantém a taxa Selic em níveis indecentes.

Isto é o que explica a queda acumulada de 1,1% na FBCF entre janeiro e setembro de 2023 (em relação ao mesmo período de 2022), mesmo com os crescimentos acumulados de 3,7% no Consumo das Famílias brasileiras e de 10,3% nas Exportações.

O Estado até tentou empurrar nossa economia de freio de mão puxado para o caminho do crescimento, com o aumento de 1% nas despesas entre janeiro e setembro de 2023. Mas o tipo do gasto ainda não é o correto. Aumentar o consumo final não será suficiente para a retomada. O Estado precisa, urgentemente, estimular a produção nos setores de bens de capital.

Mas, para isso, devido ao retrocesso da desindustrialização vivida desde os anos 1990, é preciso de um grande plano articulado de promoção das atividades ligadas aos mais modernos paradigmas tecnológicos. Certamente, a desglobalização e a disputa entre EUA e China são ótimas janelas de oportunidade. Agora, só falta combinar com os Russos, no caso: a burguesia brasileira, o Congresso Nacional, o Banco Central, o Fernando Haddad...


[i] Professor do DRI/UFPB, PPGCPRI/UFPB e PPGRI/UEPB. Coordenador do PROGEB (@progebufpb, www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Guilherme de Paula, Valentine de Moura, Helen Tomaz, Raquel Lima e Letícia Rocha.

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