quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Estatísticas de 2018 não garantem recuperação


Semana de 11 a 17 de fevereiro de 2019

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor. Enquanto a economia mundial segue rumando para uma nova crise, o cenário nacional rouba a cena pelas trapalhadas do novo governo que, passados dois meses e meio, ainda não se encontrou. De concreto, temos apenas a divulgação do “pacote” contra a violência do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que não foi poupado das mais diferentes críticas, inclusive a de que não irá reduzir a violência. Nem mesmo a Reforma da Previdência “decola”. Antes de ser divulgado, o texto “vazou” e recebeu críticas de todos os lados ao propor a mesma idade mínima de 65 anos para homens e mulheres. As críticas estimularam um recuo neste item e após uma semana da divulgação oficial do texto base, a nova proposta tornou-se um incômodo para os estados, pois prevê contribuição extraordinária dos servidores em caso de déficit previdenciário; obrigação de equacionamento do passivo e transformação da Previdência pública em fundo de pensão. O “superministro” Paulo Guedes já fala em “desidratar” a proposta para atender os governadores.
Não contente, o governo Bolsonaro poupa a oposição de exercer seu papel e autoproduz conflitos. Uma briga de comadres se instalou no governo quando um dos filhos do presidente, o Carlos Bolsonaro, chamou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno, de mentiroso diante da divulgação de existência de um esquema de candidatos laranjas montado no PSL (Partido Social Liberal) para as eleições do ano passado. Como o episódio certamente iria atingir o presidente, o filhinho do papai alimentou o disse-me-disse, digno de um circo de horrores, afirmando que Bebianno mentiu ao dizer que falou em apenas um dia, três vezes com o presidente. O grotesco espetáculo expôs o que há de pior no círculo íntimo do presidente, durou cinco dias com ameaças dos dois lados e culminou com a exoneração de Bebianno na segunda, 19/02.
Será que estamos sendo governados por amadores ou simplesmente por arrogantes desrespeitosos?
Pois bem, alheia ao circo de horrores, a conjuntura econômica segue sua trajetória a passos de tartaruga. O varejo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), encerrou 2018 com alta de 2,3% pouco acima dos 2,1% de 2017. Mas, o que chamou a atenção foi o péssimo desempenho das vendas em dezembro do ano passado, comparado a novembro. A queda de 2,2% foi decepcionante. No varejo ampliado (introduzindo veículos e material de construção) as vendas neste período caíram 1,7%, apesar do aumento do comércio interno de veículos.
Já a indústria cresceu apenas 1,1% em 2018. E no quarto trimestre, apresentou queda de 1,3% em relação ao trimestre anterior. A taxa de desemprego fechou em 11,6% no ano passado. Com desemprego alto e fraqueza na produção, as agências já se programam para reduzir suas estimativas de crescimento para 2019. As piores estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) já giram em torno de 2%.
Mas, o setor bancário vai bem, obrigado. Em 2018, o lucro ajustado do BB foi de R$ 13,5 bilhões, crescimento de 22,2% em relação a 2017. Mas, seu novo presidente está insatisfeito. Segundo Rubem Novaes se a instituição fosse privatizada seria mais eficiente. Em suas palavras: “O BB privatizado seria mais eficiente, ganhariam os funcionários, ganharia todo mundo.”
A única estatística positiva, não deveria nos orgulhar tanto. Segundo o IBGE, sete commodities concentraram em 2018, 50,2% das exportações totais do Brasil. As vendas do complexo soja, óleos brutos de petróleo, minério de ferro, carnes, celulose, açúcar e café totalizaram US$ 120,3 bilhões. Enquanto isso, a participação da nossa indústria no comércio internacional não ultrapassa o 1%. Por um lado, este dado vai reforçar os argumentos e a força da bancada ruralista; por outro, expõe o quão distante estamos do mundo, da produção de manufaturados que gera produtos de alto valor agregado.
Enfim, até agora nada garante a continuidade da nossa pífia recuperação.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O início de 2019...


Semana de 04 a 10 de fevereiro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Caro leitor, não sei se compartilhas da mesma sensação, mas parece que o início de 2019 está sendo muito difícil para o brasileiro. Não falo apenas dos fatos extraordinários ou da irresponsabilidade direta com a vida de trabalhadores ou de jovens atletas. A situação está crítica sob os mais variados aspectos.
O primeiro ponto a destacar é a tragédia que o ministro Paulo Guedes quer impor a milhões de jovens brasileiros com sua reforma trabalhista. A proposta é dar a um trabalhador sem qualquer experiência profissional o “direito” de “escolher” entre duas “opções”: 1) uma relação contratual onde sejam respeitados os atuais direitos legais e constitucionais; 2) uma relação contratual onde ele, individualmente, negocia com seu patrão os direitos aos quais terá acesso. A ideia é anexar esta mudança à reforma da previdência. Por mexer em direitos garantidos pela constituição, tanto a reforma trabalhista quanto a previdenciária precisam transitar como Proposta de Emenda Constitucional (PEC).
Se nossa sociedade fosse civilizada e capaz de proporcionar aos jovens que entram no mercado de trabalho uma digna opção profissional, talvez essa reforma fosse boa, ao menos na teoria. Na prática, será a negociação entre um cidadão com pouca ou nenhuma vivência profissional e um empresário que é seu extremo oposto: conhece todas as nuances da lei e tem poder econômico suficiente para impor seus interesses sobre os trabalhadores. O que garante isso? A existência de inúmeros trabalhadores jovens (e velhos) necessitados de aceitarem qualquer coisa para sobreviverem com um salário baixo e, a partir de então, sem muitos ou nenhum direito.
A própria reforma da Previdência tem seus “poréns” (muitos). Ela ainda não foi apresentada, mas tudo indica que será semelhante à do Chile. Criada na década de 1980, sob o regime ditatorial de direita de Augusto Pinochet, a reforma levou à migração da previdência pública para a privada. Um de seus resultados foi que quase 80% dos aposentados não recebem sequer o equivalente a um salário mínimo. Um total de 44% se encontra abaixo da linha da pobreza. Para as mulheres isso é ainda pior. Elas recebem o equivalente à 25% do salário médio da ativa. Lá o modelo é o da capitalização, onde cada indivíduo contribui com 10% da sua renda atual para sua aposentadoria futura. Patrões e Estado não contribuem. No Brasil a proposta básica é a mesma.
Outras tragédias sociais são defendidas pela ala mais desvairada do governo. Fazem parte desta os ministros (do Meio Ambiente, da Educação e da Família), a “Famiglia Bolsonazi” e o partido do presidente, o PSL. Dentre os devaneios, chegou-se a propor a proibição do “comércio, a propaganda, a distribuição ou a doação” de alguns anticoncepcionais no Brasil. Por sua vez, ao ser perguntado sobre Chico Mendes no programa Roda Viva, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, soltou a seguinte pérola (além de outros despautérios): “Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?” Outra notícia burlesca é a escolha de Eduardo Bolsonaro como o líder latino-americano d’O Movimento. Esse é um “organismo” nacionalista (mas, organizado em escala internacional...) que visa acabar com os marxistas culturais, os globalistas, os humanistas e os secularistas (seja lá o que isso signifique). O líder mundial é Steve Bannon, americano, criador do Movimento e o assessor da campanha de Trump responsável por disseminar notícias falsas (as famosas Fake News).
E olhe que nem falei sobre os incontáveis mortos e desaparecidos num mar de lama, tragédia cuja possibilidade era conhecida desde 2017 pela Vale. Nem das chuvas que atingiram grande parte da região sudeste do país, deixando mortos e desabrigados. Ou dos 10 jovens atletas que perderam a vida em um centro de treinamentos no RJ (Flamengo). Muito menos do acidente de helicóptero que calou uma das poucas vozes com tom progressista da grande mídia nacional, o competente jornalista Ricardo Boechat a quem prestamos a nossa homenagem.
Resta-nos torcer para que no restante do ano, apesar de tudo (e das prometidas reformas), nossas tragédias econômicas e sociais diminuam.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

“Terra brasilis”


Semana de 28 de janeiro a 03 de fevereiro de 2019

Jomar Andrade da Silva Filho [i]

Como um barco à deriva, ora levado pelos ventos sagrados do messias, ora guiado pelas previsões astrológicas do guru Olavo, se encerrou o primeiro mês da viagem rumo à retomada do crescimento sob o comando do capitão Jair Bolsonaro. Pouco se avançou em termos de execução das medidas concretas prometidas e as notícias que trago da terra brasilis não são animadoras.
A trajetória errática da economia nos mostra que o nosso capitão e seus auxiliares precisarão ir muito além das afirmações que endossaram a campanha presidencial. Dados divulgados pelo IBGE indicam que a produção industrial cresceu apenas 1,1% em 2018, muito aquém dos 2,5% de 2017. O mercado de trabalho fechou o ano mostrando uma queda tímida no desemprego (apenas 0,2% ante 2017). O número de desocupados atingiu 11,6% e com crescimento da informalidade. A sub ocupação bateu um recorde e chegou a 6,9 milhões). O número de desalentados (pessoas que desistiram de procurar um emprego) cresceu em ritmo acelerado em 2018, chegando a 4,7 milhões, em dezembro, contra 4,1 milhões, em março de 2017. Foi um crescimento de 14,3%, segundo a Pesquisa Nacional por amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Esse cenário revela que, essa leve recuperação do emprego se deu com a criação de trabalhos de pior qualificação e baixa remuneração, o que poderá comprometer a recuperação do consumo das famílias e restringir a capacidade de retomada da economia
Na política, o nosso comandante passou por sua primeira prova de fogo: a eleição dos presidentes das casas legislativas. Sem muita dificuldade, e com o apoio de 21 partidos (dentre eles o PSL), Rodrigo Maia voltou ao comando da Câmara dos Deputados com a missão de coordenar a aprovação da reforma da Previdência, que deve ser enviada ao Congresso ainda em fevereiro.
Já no Senado, a disputa se deu de maneira conturbada. Com uma taxa de renovação mais elevada, o discurso pela “nova política” tomou conta do púlpito da casa, sendo reservado ao algoz Renan Calheiros a pecha de representante da “velha política”. Sob a articulação do velho marujo Onyx e com a pressão do 01, como porta voz do capitão, o vencedor da disputa foi o desconhecido Davi Alcolumbre (DEM-AP). Ao que parece, se nenhum outro escândalo interno assolar o governo, o saldo dessa primeira disputa é no mínimo duvidoso para o planalto, pelo desgaste que sofreu.
Mas, na economia, os ventos já sopram mais fortes e alguns especialistas captam em seus radares a chegada de uma nova tempestade mundial. Dados mostram que a Zona do Euro desacelerou. A Itália, terceira maior economia do bloco, entrou em recessão técnica, após dois trimestres seguidos de contração. Há poucos dias, o governo alemão cortou sua previsão de crescimento no ano pela metade, para apenas 1%. Ademais, a desaceleração da economia chinesa já está afetando o desempenho de seus parceiros comerciais em todo o mundo. Para se ter uma ideia, a queda da demanda chinesa por produtos japoneses reduziu as exportações do país em 3,8%, só no mês de dezembro. Outro risco é o agravamento das tensões comercias China x EUA, que poderá prejudicar o desempenho da economia mundial.
O caminho rumo à retomada do crescimento é uma aventura e tanto, onde os ventos sopram para todos os lados, exigindo do nosso comandante a habilidade de navegar por mares desconhecidos e lidar com velhas criaturas mitológicas. Para essa jornada, o capitão Bolsonaro escalou um time peculiar de marujos. Ao seu fiel escudeiro, Paulo Guedes, foi reservado lugar de timoneiro, na proa da embarcação, mas ao que se diz, a falta de experiência do marujo o fez recorrer até aos escritos do velho comandante Ciro Gomes. No posto de imediato, para cuidar da disciplina, o escalado foi o marujo Moro, que ganhou o cargo como recompensa pelos bons favores prestados no passado, principalmente com a vitória na batalha presidencial, ao provocar o naufrágio do barco pilotado pelo “pirata” Lula.
Ao que tudo indica, depois de ingressar nessa jornada sem bússola e sem um mapa nas mãos, mas guiado pelas vozes do oráculo Olavo, ficaremos à deriva por mais algum tempo.

[i] Estudante de Economia da UFPB e pesquisador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; jomarandradefilho@gmail.com).

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Davos: a montanha pariu um rato


Semana de 21 a 27 de janeiro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]
        
Quatro cadeiras vazias com os nomes do presidente e de três de seus ministros mais importantes, entre os quais as duas grandes estrelas do governo: o Chicago oldie Paulo Guedes, com sua pregação liberal, e o ex-juiz Moro, o paladino da moralidade. Para vergonha de uma nação ninguém apareceu na conferência marcada sem que qualquer desculpa ou satisfação fosse dada aos organizadores do evento. O fato gerou “constrangimento e perplexidade” segundo a imprensa internacional.
Mas não foi a única decepção. O esperado discurso do presidente Bolsonaro, que devia durar 45 minutos, não passou dos 6, e vazios. Foi considerado “decepcionante”. Não foi além das afirmações genéricas do tipo: aumentar a segurança, combater a corrupção, reduzir o tamanho do estado, privatizar tudo, garantir os contratos, aumentar a abertura comercial, equilibrar as finanças, defender a família, a propriedade privada, os direitos humanos, etc. Não foi mais longe que isto. Um verdadeiro fiasco que só contribuiu para derrubar a bolsa de valores no Brasil. O IBOVESPA caiu 0,94%.
O que salvou a missão foram as importantes reuniões do presidente com o lixo da ultradireita europeia: o primeiro ministro da República Tcheca Andrej Babis e o presidente da Polônia Andrzej Duda, além do premier da Itália. Ainda teve tempo de aconselhar o candidato direitista à presidência do Uruguai, o magnata Juan Sartori. Outros importantes encontros anunciados foram os do ministro Guedes com ministros dos Países Baixos e de Isael.
Além da decepção Brasil, o Fórum Econômico Mundial em Davos na Suíça teve outras desilusões. Foi sentida a ausência de três grandes: os EUA, ocupados com o muro anti-mexicano e a briga Trump x congresso, o Reino Unido, desunido pelo Brexit e a França ameaçada pelos coletes amarelos.
Além desses contratempos, o Fórum sofreu o impacto do pessimismo com a possibilidade de uma nova grande crise que se aproxima. A Diretora Gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) Christine Lagarde, alertou os países que “... é preciso tratar as vulnerabilidades e estar pronto para quando uma séria desaceleração se materializar”. E não foi só ela. Os CEOs globais manifestaram seu pessimismo em uma pesquisa que envolveu 1.370 dirigentes empresariais em 91 países. Apenas 35% deles acreditam em ampliar seu faturamento nos próximos anos.
Como resultado deste pessimismo o fluxo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) para o Brasil, em 2018, teve uma queda de 12%, segundo a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
A redução o crescimento da China é outro agravante. Em 2018, o país cresceu apenas 6,6%, a menor taxa desde 1990. Tanto as vendas no varejo quanto a produção industrial sofreram um processo de desaceleração.
Na União Europeia (UE) a situação não é melhor. O Banco Central Europeu (BCE) veio dar a sua colaboração ao clima de pessimismo ao afirmar que “a persistência das incertezas” moveu as perspectivas de crescimento “para o lado negativo”. O BCE divulgou o seu Índice dos Gerentes de Compras (PMI) que indicou que a economia da zona do euro se aproxima da estagnação. O índice caiu de 51,1 para 50,7 (abaixo de 50 significa depressão). Foi o mais baixo em 66 meses. No terceiro trimestre do ano passado a economia cresceu 0,2%. Diante deste quadro o banco decidiu manter a taxa de juros de referência em zero e a de depósito compulsório dos bancos em -0,4%. A estimativa de expansão da economia para 2018 foi rebaixada para 1,9%.
Aqui no nosso continente a coisa não é muito diferente. Além da tensão com a Venezuela, que pode descambar para uma solução militar, a crise da Argentina afeta diretamente nossa produção industrial com a queda nas exportações.
Neste ambiente o governo é torpedeado com fogo amigo, com as brigas internas no PSL, o bate-boca entre o guru Olavo de Carvalho e os deputados, e com as denúncias de corrupção do filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro, para não falar da cirurgia.
Está ficando complicado. Além de queda, ... coice.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Queiroz, Flávio, Economia e Davos: tudo junto e misturado


Semana de 14 a 20 de janeiro de 2019

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Caro leitor, após leve alta de 0,02% em outubro, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), cresceu apenas 0,29%, em novembro. Este número fortalece a projeção de que o resultado do quarto trimestre será fraco, e ainda pôs em dúvida a projeção de 2,5% para o PIB de 2019. No mês, a produção industrial aumentou somente 0,1%, o setor de serviços ficou estável e as vendas no varejo cresceram 2,9%, influenciadas pela Black Friday.
Outros números preocupam. Os indicadores antecedentes de dezembro deram péssimos sinais. Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a LCA Consultores, a utilização da capacidade instalada da indústria diminuiu 0,8%, o tráfego de veículos pesados nas estradas caiu 1,4%, a expedição de papelão ondulado diminuiu 4,4% e a venda de veículos caiu 3,8%.
O desemprego, segundo apurou a PNAD (Pesquisa nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, caiu para 11,6%, no trimestre encerrado em novembro. Mas, o BTG Pactual levantou preocupações referentes ao mercado de trabalho, pois permanece o alto nível de informalidade, com salários reais estagnados e cresce a mão de obra subutilizada (desempregados somados àqueles que desejam trabalhar por mais tempo e trabalhadores que deixaram de procurar uma vaga).
Mesmo assim os analistas demonstram otimismo. A melhoria das condições financeiras, a possível aprovação das reformas, a inflação baixa com manutenção de juros também baixos, a recuperação do crédito e a melhora do mercado de trabalho são, segundo eles, indicadores potenciais da nossa recuperação. Mas, eles não consideram a evolução da situação mundial coisa que temos alertado em nossas últimas análises.
O Fórum Econômico Mundial começa diante da iminência de uma nova crise. Uma das ameaças vem da dívida global acumulada de 225% do PIB de todo o mundo, volume que está maior do que o de antes da crise de 2008. As demais ameaças vêm da desaceleração econômica dos países. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já constatou gradual desaceleração para os próximos anos. E as projeções de crescimento menor na China, de 6,6% em 2018, para 6,2% neste ano e 5,8% em 2022 são também alvos de preocupação. A Capital Economics declarou que a desaceleração global vai ser impulsionada pelos EUA, pelo aumento dos juros e pela exaustão dos estímulos fiscais promovidos por Donald Trump. A Itália e a Alemanha também estão à beira de uma recessão. Diante deste cenário, o Rabobank apontou até uma data para a eclosão do evento: a partir de maio de 2020.
Enquanto isso, assistimos, internamente, nada surpresos, a queda dos arautos da honestidade, retratada no episódio sem fim do Fabrício Queiroz que atingiu em cheio a “família tradicional” a partir do envolvimento de Flávio Bolsonaro.
Com a atenção voltada para estes escândalos a situação externa está passando despercebida. E como o superministro da Economia ainda está deslumbrado com a sua própria posse, não se deu conta do perigo iminente. Alheia à realidade, a comitiva presidencial partiu para Davos. Paulo Guedes desfilará como autoridade suprema que traz nas mãos o grande milagre econômico liberal. Sérgio Moro posará de caçador de corruptos e o presidente ganhou mais importância diante da ausência das autoridades dos Estados Unidos, França e Reino Unido.
Ao pisar em solo suíço, Bolsonaro deu o tom do seu discurso. Em entrevista, disse que seu maior objetivo é garantir que os negócios “voltem a florescer entre o Brasil e o mundo, sem o viés ideológico”.
Tais afirmações sem sentido refletem as ideias de uma equipe de governo formada com grupos de interesses diversos que vão desde as questões econômicas e de infraestrutura (os moderados) às questões dos costumes, lendas, conspirações e coisas afins (os alucinados) que defendem a luta contra a dominação comunista mundial (!) e o marxismo cultural.
 Por enquanto está ganhando o discurso alucinado. Começamos mal.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

O que esperar do “Resto do mundo” em 2019


Semana de 07 a 13 de janeiro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Em economia, como o próprio nome sugere, “Resto do mundo” é como classificamos todos os demais países que realizam algum tipo de transação com o nosso. Isto é importante, naturalmente, porque esta relação influencia a atividade produtiva de qualquer nação individualmente, seja na entrada seja na saída de recursos.
No caso do Brasil, segundo o IBGE, do PIB total produzido entre 2000 e 2017, 12,5% foram exportados para o “Resto do mundo”. Entre 2003 e 2008, quando passamos por um período de forte crescimento da demanda mundial por commodities (basicamente produtos primários e de baixo valor agregado), as exportações corresponderam a 14,5% do PIB. De lá pra cá (a partir de 2009), o percentual do PIB brasileiro que foi exportado caiu para 11,9%. De qualquer forma, esta cifra é significativamente superior ao visto na última metade da década de 1990 (década em que o país passou por uma “reestruturação produtiva”), quando o Brasil exportou apenas 7,6% do PIB.
As importações apresentaram cifras semelhantes, mas com menor oscilação ao longo do tempo. De acordo com os dados do IBGE, durante a última metade da década de 1990, as importações corresponderam a 9,8% do PIB brasileiro, ou seja, aquilo que foi necessário comprar do “Resto do mundo” correspondeu a quase um décimo do valor de tudo o que o país produziu entre 1995 e 1999. Isto fez parte da já falada reestruturação produtiva dos anos de 1990. Findo este processo, as importações como proporção do PIB passaram a apresentar um padrão nas décadas seguintes: 12,8% entre 2000 e 2017, sendo que entre 2003 e 2008 foi de 12,6% e entre 2009 e 2017 foi de 12,8%.
Assim, vemos que parte do comportamento da economia brasileira tem relação direta com os produtos vindos e vendidos ao “Resto do mundo”. Somando as importações e exportações, a corrente comercial do Brasil com os demais países do mundo correspondeu a 25,3% do PIB, entre 2000 e 2017.
Em análises anteriores, já foi dito que a economia nacional está saindo a passos curtos da sua pior crise. Contudo, também foi dito que a economia mundial está dando sinais de que entrará em fase de crise. Pois bem, os dados referentes ao fim de 2018 mostram que ela já pode ter chegado nesta fase.
O primeiro sinal vem da maior economia da Europa, a alemã, que, segundo estimativas preliminares de órgãos oficiais, cresceu apenas 1,5%, em 2018. Este é o menor valor dos últimos 5 anos. Esta taxa deve ter evitado uma recessão técnica (quando há decrescimento do PIB em dois trimestres consecutivos), na medida em que representa crescimento positivo no último trimestre de 2018, ante a queda de 0,2% no terceiro trimestre. De qualquer forma, isto sinaliza que as turbulências na economia do “velho continente” não foram superadas. Na União Europeia, segundo a Eurostat, entre novembro e outubro de 2018, a produção de bens de capital caiu 1,6%, bens intermediários 1,1%, bens de consumo duráveis 1,0%, bens de consumo não-duráveis 0,6% e energia 0,5%. Dentre as principais causas apontadas para isto está a redução da atividade chinesa.
Apesar de todo o ano de 2018 apresentar um crescimento significativo no comércio exterior (9,9% nas vendas e 15,8% nas compras em relação a 2017), em dezembro de 2018 as exportações da China reduziram-se em 4,4%, em relação ao mesmo mês de 2017, e as importações caíram 7,6% na mesma comparação. A desaceleração do país asiático ao longo de 2018 foi tal que o governo chinês está preparando um pacote de estímulos fiscais para reaquecer a demanda doméstica.
A partir dos dados oficiais a serem divulgados sobre a atividade produtiva internacional nos últimos meses de 2018 poderemos ter maiores informações do que está acontecendo (e já aconteceu) com o ciclo econômico mundial. Contudo, as informações disponíveis, as políticas econômicas (fiscais e monetárias) e as perspectivas de vários analistas nos dão fortes indícios de que a crise mundial já se manifesta.
Resta saber como nosso superministro irá enfrentá-la já que ele nem se dá conta de que ela vem aí.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A espera de um milagre


Semana de 01 a 06 de janeiro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
No campo da economia as perspectivas continuam inalteradas: crise mundial em marcha, recuperação interna lenta e instável. Os dados confirmam as mesmas tendências. No terreno político as novidades são inúmeras e diárias. Continuamos perplexos com os discursos de posse do presidente e de seus ministros e colaboradores.
A cada pronunciamento pensamos que ocorreu o pior e no momento seguinte algo maior acontece. Pelo que está sendo prometido e por alguns atos que são anunciados a situação promete ser desastrosa. Não são poucas as contradições entre os grupos que compõem o governo. O mais ridículo é formado pelos defensores da moral e da família. São os pupilos do astrólogo Olavo de Carvalho, guru do presidente, e que infelizmente controlam a educação, as relações exteriores e o meio ambiente. Entre outras coisas eles pretendem queimar o Professor Paulo Freire e acabar o comunismo. Defendem uma aliança com o grotesco Trump transferindo a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém a fim de contribuir para o apocalipse e o juízo final. Tal é o tamanho da ignorância que se aproxima da debilidade mental. Como se não bastasse, e para aumentar a nossa vergonha, a eles juntou-se a fanática ministra das mulheres, a tal que surpreendeu Jesus em cima de uma goiabeira e determinou que as meninas e os meninos devem usar roupas rosa e azuis.
Ainda não se sabe como este projeto moral será executado.
Na área da segurança o projeto de acabar com a violência e o crime organizado ainda não tomou forma e elas continuam aumentando. O grupo encarregado dessa área além de contar com o competente Sergio Moro, controla um aparato militar formidável comandado por uma elite de generais e outros oficiais. Há mais militares no governo do que na época da ditadura. Ainda não sabemos contra quem este aparato será utilizado: contra os bandidos ou contra os “vermelhos”, como prometeu o presidente.
Em relação à agricultura e o meio ambiente o caminho será único. Com o ministério da agricultura na mão dos ruralistas, adeus meio ambiente e preservação da natureza. Vão envenenar tudo e passar o trator em cima de florestas e pessoas (coitados dos índios). O Luiz Nabhan, produtor rural e secretário especial de assuntos fundiários do Ministério da Agricultura já avisou: não tem dinheiro para ONGs, não conversa com movimentos criminosos (MST, MTST) e qualquer invasão de terras será tratada como crime. O próprio presidente declarou que não demarcaria nem um centímetro de terra indígena. Conclusão: adeus Amazônia, índios, animais, preservação, etc.
No meio de tanta loucura, fanatismo e insensatez o grupo dos militares desponta como o mais equilibrado e pragmático. Afinal não é com Jesus em cima de goiabeiras que se ganham batalhas. Eles também sabem, graças aos estudos de história, que, com a queda do muro de Berlim, o comunismo acabou e os interesses nacionais são outros.
No terreno da economia a situação é previsível. Aí não há visões celestiais, mas crenças teóricas. A equipe monolítica dos “Chicago oldies” comandada pelo super sinistro Paulo Guedes sabe o que quer, já disse, está pondo em prática e vai continuar em uma só direção. Não haverá surpresas. Pretendem reduzir o tamanho do estado, privatizar tudo, fazer a reforma da previdência urgente, fazer o ajuste fiscal para equilibrar o orçamento a qualquer custo. Outra linha é a liberalização da economia e do mercado de trabalho. A legislação trabalhista deve ser liquidada e a carteira de trabalho verde amarela é um caminho para isto. Por um ato de fé, eles acreditam, creem, que com isto a confiança dos consumidores, empresas e investidores será restaurada e o milagre acontecerá: os consumidores vão consumir, os empresários vão investir, os empregos serão criados, o desemprego cai, as taxas de juros caem e a economia iniciará um processo de crescimento sustentado. O milagre estará feito, o liberalismo triunfará e o governo será consolidado por muitos anos.
 E se não houver o milagre?
Enquanto isso não ocorre nomeiam-se e protegem seus corruptos, parentes e afilhados. Tudo como dantes. E o bate cabeça continua nos mentidos e desmentidos das diferentes autoridades.
Eis o governo do ex-capitão. Tudo previsível, não reclamem.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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