quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A realidade econômica que só o Paulo Guedes vê


Semana de 07 a 13 de outubro de 2019

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Enquanto esta coluna estava sendo produzida, o segundo partido em representação no Congresso Nacional, o PSL, continuava a “administrar” a crise interna gerada pelo seu principal integrante, o presidente da República. Flagrado em vídeo em que subliminarmente acusa o presidente do partido, Luciano Bivar, Bolsonaro sussurra a um apoiador que o Bivar “está queimado pra caramba”.
As pautas não prioritárias são a prioridade deste governo. O presidente, sua prole, seu partido, se regozijam na grosseria, na mania de perseguição e na apologia ao ódio em tudo o que fazem. Enquanto a população se distrai com as picuinhas governamentais, a dura realidade econômica se impõe. Internamente, as vendas do varejo estagnaram em agosto e o resultado decepcionou. O varejo restrito cresceu apenas 0,1% entre julho e agosto e o varejo ampliado (que inclui as vendas de veículos e material de construção) ficou estável. Para piorar, o IBGE revisou de 1% para 0,5% o crescimento das vendas do varejo restrito em julho.
Já o indicador de inflação oficial, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,04% em setembro. Três dos nove grupos que compõem o IPCA tiveram deflação. Os setores de Alimentação e Bebidas (com queda de 0,43%) e artigos de Residência foram os responsáveis pela deflação de setembro. A deflação melhora o poder de compra da população, mas pode ser um indicador de desaceleração econômica.
O fato é que todos os dias os dados dão uma rasteira na “recuperação gradual”. O mercado de trabalho ainda não se recuperou. A taxa de desemprego continua alta (11,8%), atingindo 12,6 milhões de trabalhadores. A pequena melhora do mercado de trabalho se deu pela ocupação de trabalhadores em atividades precárias. Além disso, o endividamento doméstico subiu pelo 9º mês seguido, chegando a 65,1% do total das famílias, segundo a Confederação Nacional do Comércio.
Ora, como se consolidará a tal recuperação? A esperança vem da “possível” recuperação do mercado de trabalho e da liberação de recursos das contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do grupo Magazine Luiza, assegurou que o varejo já apresentou sinais de recuperação em setembro. Tendo como referência a sua rede, que vem apresentando desempenho acima da média do setor, ela vê “...uma luz no fim do túnel.”
Em nível mundial, a nova diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva em seu discurso inaugural, afirmou que a economia global está em uma desaceleração sincronizada. EUA, Japão, Zona do euro, Índia e Brasil, foram utilizados como exemplo. Mais de 90% dos países apresentam desaceleração este ano. O discurso serviu de alerta às autoridades globais para uma resposta caso a crise piore. Mas, a equipe econômica brasileira ainda não tomou conhecimento do fenômeno que se avizinha.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou, durante a abertura do Fórum de Investimentos Brasil 2019, que nossa economia, provavelmente, vai muito bem, obrigada. Em suas palavras: “Estamos com o crescimento subindo, a inflação descendo e retomando provavelmente agora um longo ciclo de crescimento. Num momento em que o mundo sincronizadamente desacelera, entrando em uma clínica de reabilitação após um período de excessos, o Brasil está saindo da clínica de reabilitação.”
Chamemos o Paulo Guedes à realidade. Primeiro, com os dados que temos até setembro, não dá para afirmar que estamos saindo da “reabilitação”.
Segundo, se a crise econômica global se concretizar, porque o ministro acha que a economia brasileira que está integrada ao mundo iria escapar de seus efeitos?
E por fim, Guedes elogia a política internacional do governo, dizendo que Bolsonaro “começou a revolução em relação ao que há de melhor no mundo ocidental”, já que “o presidente determinou desde o início uma aproximação com países que dão certo no mundo.” Como se não bastasse a crença de que tudo está/irá bem na economia, o ministro também confia que por osmose alcançaremos o desenvolvimento!

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Retomada?


Semana de 30 de setembro a 06 de outubro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

No dia 24 do mês passado o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) divulgou uma ata afirmando que a economia brasileira estaria em “recuperação”. Mas “essa retomada ocorrerá em ritmo gradual”. Foi suficiente para um bando de entusiastas da política estúpida do Paulo Guedes, incluindo o próprio, sair aos noticiários dizendo que a economia voltou a crescer.
De fato, nos últimos dois meses, alguns indicadores melhoraram. Contudo, essa melhora é pontual e está muito longe de significar uma real mudança na tendência de crescimento. Isto não é mera especulação. Os dados divulgados pelo IBGE no dia 01 de outubro de 2019 mostram que houve um crescimento de 0,8% na indústria brasileira, entre agosto e julho. Detalhando em termos regionais, o crescimento aconteceu em 11 dos 15 locais pesquisados: só não cresceu no RS, SC, ES e BA.
Analisando segundo os tipos de bens, a situação não é tão animadora. São eles: bens intermediários (essencialmente insumos e matérias-primas), bens de capital (máquinas e equipamentos), bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, automóveis, etc.) e bens de consumo semi e não-duráveis (vestuário, alimentos, etc.). Desses quatro, apenas os bens intermediários tiveram crescimento (1,4%). Todos os demais caíram. Isso significa que a indústria consumiu mais insumos em agosto quando comparado a julho. Contudo, isso não significa que os grandes investimentos voltaram à tona. São os gastos em bens de capital a principal locomotiva do crescimento.
É verdade que o setor cresceu nos últimos meses. Mas isto é resultado da profunda queda total de 10,1% ocorrida entre outubro de 2018 e janeiro de 2019. Entre janeiro e agosto de 2019 o índice da produção dessa indústria cresceu 8,5%. Mas, comparando agosto de 2018 com agosto de 2019, a produção de bens de capital ainda está 2,3% menor. Isto significa que ainda é pior do que no ano passado. Assim, por esses dados sazonalmente ajustados, a observação é válida para toda a indústria nacional.
Se a análise for feita segundo a atividade produtora das mercadorias, vê-se que 16 dos 26 ramos estudados tiveram queda na produção entre julho e agosto de 2019. Dentre os mais importantes estão: produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-4,9%); outros produtos químicos (-0,4%); informática, ópticos e eletrônicos (-0,5%); máquinas e equipamentos (-2,7%); veículos automotores (-3,0%).
Diante deste cenário interno, a esperança de crescimento mais robusto para o Brasil poderia vir de dois “atores”: ou do setor externo ou do governo. No caso do primeiro, não é novidade para o assíduo leitor do presente blog que a crise internacional já começou a se manifestar. E os sinais externos estão piorando. O setor de serviços é aquele que mais contribui para o PIB da maior parte das economias no mundo. Pois bem, ele está desaquecendo. EUA, Reino Unido e a Zona do Euro dão sinais de que a fraca produção industrial em seus territórios já “contamina” os demais setores da economia. A isso se soma a “Guerra Comercial” entre estadunidenses e chineses. Têm-se um prato cheio, que dizer, vazio para o setor externo não estimular o Brasil de forma contundente.
No caso do governo como estimulador da atividade interna, é risível a crença dos economistas mais ortodoxos de que o Estado não pode “atrapalhar” a iniciativa privada. E que seria suficiente criar um ambiente propício para os empresários que a economia voltaria a crescer por si só. Isso é uma verdadeira piada. Só quem nunca estudou a formação econômica e social do Brasil (ou de qualquer outro país, incluindo aí os EUA) pode acreditar que os empresários não precisam do Estado e do seu aparelho para realizar investimentos. Sobretudo em inovação. Claro que para o próprio Paulo Guedes isso tem a ver com os interesses pessoais dele (leia-se mercado financeiro). Precisa ter mais locais onde aplicar os recursos que controla. De toda forma, o governo não dá qualquer sinal de que usará suas forças para empurrar o país para fora do buraco.
Assim, seja pela dinâmica interna, pelo cenário externo ou pelo governo, a economia brasileira está longe de uma real retomada do crescimento.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O vergonhoso discurso do presidente


Semana de 23 a 29 de setembro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]

Surgiram algumas esperanças que a situação da economia melhore no terceiro trimestre do ano. Para o segundo trimestre as esperanças já estão perdidas. De acordo com alguns analistas, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) deverá divulgar a queda de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) deste período. Só em agosto, o varejo ampliado caiu 0,9% e os serviços 0,3%. Já o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) também crê que, com a reforma da Previdência, a redução da Selic e a liberação do FGTS, a situação seja revertida no período seguinte. Um dado alentador é o aumento da geração de 121,4 mil empregos com carteira assinada, em agosto, embora de má qualidade. O relatório de inflação do Banco Central (BC) de setembro alterou sua estimativa de crescimento do PIB para 2019, de 0,8 % para 0,9%. Este crescimento lento é muito favorável à manutenção da inflação em níveis baixos o que possibilita novas quedas da taxa Selic. Para 2020, o BC é mais pessimista que o mercado e estima o crescimento do PIB em 1,8%.
Apesar da redução da Selic os bancos não baixaram suas taxas de juros. Aproveitam para “engordar” suas margens aumentando os “spreads’ em 0,5 pontos.
Enquanto a economia se arrasta, o sinistro da Economia, Paulo Guedes, continua firme com o seu programa 3D: desindexar, desobrigar, desvincular o orçamento da União, além de privatizar tudo. A reforma da Previdência está praticamente aprovada com a ajuda de vários partidos, inclusive o PSDB.
As vitórias do governo nestes terrenos têm tido grande ajuda dos presidentes da Câmara e do Senado. O general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo tem mostrado sua competência na aplicação do sistema “toma-lá-dá-cá” ou “é dando que se recebe”. Além disso, tem a virtude de ser seletivo: exige fidelidade absoluta qualificada apenas naquilo que é considerado “pautas para o país” que são definidas pelo próprio general e envolvem as reformas estruturais como a da Previdência, a tributária, a da liberdade econômica, pacto federativo etc. As questões de interesse do presidente (religiosas, costumes, ideológicas, aborto) não interessam ao Brasil e não exigem fidelidade. Na pauta da “nação” a infidelidade acarreta retaliação.
Brilhante ação do general. Fica explicitado a base do apoio ao governo. Suportam-se os desmandos e a insensatez do monstro desde que ele garanta os interesses da conservadora e reacionária classe empresarial do país. Tudo é suportável: mamadeira de piroca, cristo na goiabeira, destruição do ensino, das universidades, da cultura, da ciência, das minorias, da ecologia, etc. Tudo é suportável desde que se garanta a destruição das conquistas dos trabalhadores e aumente-se o lucro dos capitalistas e banqueiros.
Diante da passividade geral, da falta de lideranças e partidos políticos eles estão passando o rolo compressor no país.
O discurso do presidente na ONU é um ótimo exemplo do governo que temos. Tudo foi dito às claras. A nossa vergonha está exposta. O Congresso, o poder judiciário, os militares, são todos coniventes com isto. Acabou a conciliação entre as classes sociais. Temos das burguesias mais reacionárias e conservadoras do mundo.
Como consequência passaremos a sofrer algumas ações de forças internacionais. Em primeiro lugar a crise mundial continua em marcha e, quando deflagrada, fará abortar a débil recuperação econômica do país. Segundo o Banco Central Europeu (BCE), a queda da economia será muito mais prolongada do que se previa. Em segundo lugar a opinião pública internacional que se manifesta através das organizações internacionais pode pressionar as autoridades e as relações econômicas via comércio exterior. As autoridades do país serão hostilizadas nos foros internacionais onde participarem.
Parece que Bolsonaro exagerou na dose. Além de seus seguidores fanáticos, apenas a Confederação Nacional da Agricultura aplaudiu. Que vergonha!


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A quem serve o governo brasileiro?


Semana de 16 a 22 de setembro de 2019

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Que a nossa economia vai mal, não é novidade. Que a economia do mundo ruma para o abismo, também não. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou que a produção mundial de bens e serviços crescerá 2,9% este ano, menor avanço desde 2009. Internamente, o Banco Central tentando dar algum ânimo à economia, reduziu a Selic de 6% para 5,5% ao ano, diante dos dados conjunturais divulgados diariamente que ratificam a debilidade econômica.
Segundo números apurados pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), 11 de 14 ramos de atividade industrial estão com demasiada capacidade ociosa. Em agosto, a utilização média da capacidade instalada da indústria de transformação fechou em 75,8%, número inferior a 80%, média histórica da série. Pior ainda é a situação do setor de máquinas e equipamentos com uso de apenas 66% da capacidade. Estes resultados dizem muito acerca da lentidão da recuperação brasileira. O setor de máquinas e equipamentos é o principal responsável pela Formação Bruta de Capital Fixo, indicador do investimento interno. Sem vislumbrar recuperação da demanda, a indústria tem adiado os investimentos, o que contribui para o aumento da ociosidade no setor e pior, para a obsolescência do parque industrial brasileiro o que certamente resultará em perda de competitividade.
Este elemento conjuntural pode levar ao agravamento de problemas estruturais e que ao longo dos anos jamais foram tratados pelos governos. O setor industrial está apinhado de exemplos. É sabido que a demanda por produtos industriais suscita demandas em outros setores industriais na forma de insumos, gerando um efeito multiplicador sobre o emprego e a renda de diversos setores. Mas, estudo realizado pela Escola de Administração de Empresas da FGV de São Paulo mostra que a indústria brasileira vem perdendo esta capacidade nas últimas décadas. Além de importarmos mais produtos manufaturados do que exportamos, o coeficiente de importação de insumos industriais tem crescido significativamente. O pior é que esta dependência por insumos se situa nos setores de maior conteúdo tecnológico, o que significa que não estamos criando internamente os efeitos de arrastamento necessários ao desenvolvimento. A política industrial foi relegada ao segundo plano nos últimos governos e no atual, ela foi liquidada com a extinção e fusão do Ministério da Indústria e Comércio Exterior ao da Economia.
Mas, o setor parece satisfeito com os “afagos” que lhe são fornecidos. O desmonte da legislação trabalhista e o engodo de que este trará os empregos de volta, ajudou a aprovar a Medida Provisória da Liberdade Econômica. Entre as medidas, estão o registro obrigatório dos horários de entrada e saída do trabalho somente para empresas com mais de 20 funcionários (antes o mínimo eram 10 empregados) e a emissão preferencial da carteira de trabalho pela via eletrônica. Os patrões terão prazo de até 5 dias úteis para fazer as anotações na Carteira de Trabalho (antes, eram 48 horas).
Mais uma vez, mostrando a quem serve, o governo estuda (mesmo pregando o arrocho fiscal) reabrir o Refis, no intuito de renegociar dívidas contraídas pelo setor de agronegócio com o Fundo de Assistência do Trabalhador Rural (Funrural), estimadas em torno de R$ 11 bilhões. Se aprovada a benesse, a partir de janeiro de 2020, parte deste débito estará anistiada.
As reformas seguem. A da Previdência será aprovada a qualquer momento. A tributária está sendo discutida. E as privatizações não saíram da pauta, mesmo diante da divulgação dos altos lucros das estatais. O “top 5”, grupo composto pelo Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Petrobras e Eletrobras, e que responde por 95% do total do resultado das empresas estatais federais, registrou, no primeiro semestre do ano, lucro líquido de R$ 60,7 bilhões, alta de 69% sobre igual período de 2018.
Enquanto Guedes faz o trabalho sujo, Bolsonaro segue soberbo cuidando do que acha que sabe. Gritou a seu grupelho no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), enaltecendo a si mesmo e combatendo inimigos imaginários como o globalismo e o socialismo.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Escola cívico-militar: quais valores importam?


Semana de 09 a 15 de setembro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

No dia 05 de setembro de 2019 o governo federal lançou um programa que promete criar 216 escolas no “modelo cívico-militar”. Segundo o MEC: “os militares atuarão na disciplina dos alunos, no fortalecimento de valores éticos e morais, e na área administrativa, no aprimoramento da infraestrutura e organização da escola e dos estudantes”. Em relação ao conteúdo dado pelos professores em sala, a promessa é manter o que vale para todas as escolas do país: a Lei de Diretrizes e Bases. Ou seja, o grande diferencial seria a formação dos alunos “fora da sala de aula”. A intenção é levar essas escolas para locais de vulnerabilidade social. O objetivo é contribuir para “a melhoria do ambiente escolar, redução da violência, da evasão e da repetência escolar”.
Por enquanto, será dada a opção aos estados e municípios brasileiros de aderir ou não ao modelo. Quem desejar ter essas escolas, que se pronuncie. Claro que, dos 26 estados e Distrito Federal e dos mais de 5.500 municípios, nem todos serão atendidos.
Diante do projeto uma dúvida paira no ar: as escolas podem influenciar na formação ideológica dos alunos? Ainda como candidato durante o único debate ao qual compareceu, Bolsonaro prometeu impor às escolas o fim da ideologização dos estudantes. Caberia exclusivamente à família a criação e a construção da ideologia dos filhos (como se isso fosse possível). Então, porque nas escolas cívico-militares os alunos terão que fortalecer valores éticos e morais escolhidos pelas Forças Armadas?
A resposta a essas questões é clara: as escolas não podem impor a ideologia contrária à do “capitão”. A educação tem que se adequar à lógica dele. Quem sabe assim os brasileiros não aprendam a fazer cocô dia sim dia não e ajudem a salvar o meio ambiente...
Obviamente, as famílias não são obrigadas a matricular seus filhos nessas escolas. Seria uma “opção”. Contudo, essa escolha é só retórica. Não é novidade para ninguém que em geral as escolas militares são melhor avaliadas do que as escolas públicas “normais”. O caro leitor poderia imaginar: “elas são melhores por conta dos valores éticos e morais”. De fato, são os valores que fazem dela melhor, mas não os éticos e morais.
A real fonte da “qualidade” desse tipo de escola é que elas recebem em média R$ 19 mil para gastar com cada aluno. As escolas regulares (que são as piores no ranking do ENEM) recebem em média R$ 6 mil. Além disso, essa “qualidade” é questionável. Das 10 melhores escolas públicas do país, apenas uma é militar. O restante é vinculado à Universidades e Institutos Federais (que custam em média R$ 16 mil por aluno).
Um elemento de extrema relevância é a situação de vulnerabilidade dos locais onde se prometeu criar as escolas cívico-militares. Quem disse que os problemas da educação brasileira estão apenas no ambiente escolar? Inúmeros estudos mostram que a educação é influenciada por diversos fatores: idade, cultura, escolaridade e renda dos responsáveis, higiene, nutrição, condições de saneamento e habitação, distância da escola, segurança, etc. Quase tudo isso está fora do ambiente e do controle escolar, seja regular ou cívico-militar. Assim, para além de um projeto para a educação, a real melhoria da população socialmente vulnerável passa por políticas sociais mais amplas e conjuntas.
Outro aspecto de destaque é quem entra nas escolas militares hoje. Por conta da grande quantidade de pessoas buscando as vagas, a entrada de estudantes nos colégios militares é limitada e normalmente feita por concurso. Isso significa que só entra lá os que já tem um nível mais elevado de educação. Ou seja, quem entra já são aqueles que se encontram em uma situação social e de renda favorável. Ou então se é “amigo do Rei” e faz como a Deputada Federal do partido do Presidente (PSL): usa sua influência e fura a fila para colocar seu próprio filho na escola militar por pura indicação.
De um modo geral, o propósito de melhorar a situação dos mais vulneráveis não parece ser a real intenção do projeto de Bolsonaro. Parece que o objetivo é ampliar sua influência ideológica sobre os estudantes de classe média e continuar a deixar as massas na mesma situação de pobreza e de falta de oportunidades.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O mundo não colabora


Semana de 02 a 08 de setembro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]
           
Parece que a conspiração contra o país se tornou internacional. Internamente, segundo o governo, e em particular o clã dominante, ela parte dos intelectuais, professores, universidades, artistas, cantores, compositores, entidades populares, indigenistas, ecologistas, pastorais, sindicatos, partidos políticos, todos classificados como comunistas ou simpatizantes do comunismo. Conspiram contra o país e denigrem a nossa imagem no exterior.
Parece que estas forças sabotadoras estão atingindo seus objetivos. Os investidores externos estão retirando seus capitais do país. No mês de agosto, foram retirados da bolsa de valores R$10,79 bilhões, a maior fuga de capitais registrada desde janeiro de 1996, começo da séria histórica. No acumulado de 2019 esta retirada atinge R$21,23 bilhões. A demanda por dólares em fuga tem consequências no câmbio e tem obrigado o Banco Central (BC) a intervir no mercado vendendo divisas da reserva. A intervenção tem conseguido frear, mas não conter, a subida do preço do dólar cuja cotação continua pressionada para cima.
Mas, o problema não é só este. Os investidores estrangeiros continuam a sabotar não enviando seus capitais. Estão cada vez mais resistentes em investir no país por causa do que chamam “retrocesso civilizatório”. Os comunistas ecologistas nacionais convenceram os capitalistas do mundo a criarem os critérios ESB (sigla em inglês que reúne critérios sociais, ambientais e de governança). Há muitos fundos internacionais que não aplicam seus recursos se as empresas não atenderem a estes critérios. A situação de aumento do desemprego, da pobreza e da forme no país não colabora. Acrescentando algumas fogueirinhas de São João na Amazônia e o assassinato de índios e quilombolas não conseguiremos ultrapassar a maldita barreira ESG.
No entanto, o presidente ainda não está satisfeito. Usa sua verve para atacar autoridades de países estrangeiros poderosos como França e Alemanha de forma grotesca não se contendo em envolver nas suas declarações parentes de seus alvos, além de fazer elogios rasgados à ditadores e torturadores.
Assim estamos mal.
Temos ainda o agravante da crise internacional. Agora foi a produção industrial dos EUA que começou a desacelerar acompanhando a França e a Inglaterra. O reflexo disto aparece no fluxo do comércio internacional que está diminuindo, o que tem repercutido em nossa balança comercial. Só em agosto as exportações brasileiras caíram 8,5% e as importações 13,3%. No total a corrente de comércio reduziu-se 10,8%. O pior é que em produtos manufaturados a queda nas exportações foi de 25,8%.
A desaceleração da economia interna é a responsável pela queda das importações. Caíram as compras de bens de capital (-35%), combustíveis e lubrificantes (-34%) bens de consumo (-7,0%) e bens intermediários (-2,0%).
As notícias não são muito animadoras. Depois do segundo trimestre positivo, o terceiro trimestre começou com queda de 0,3% na produção industrial. Segundo o Instituto para o desenvolvimento industrial (Iedi) a produção continuará caindo e no ano haverá estagnação. Depois de 3 anos negativos o crescimento foi de 2,5% em 2017, 1% em 2018 e agora tende para 0%. Muito otimista o secretário de Política Econômica (SPE) A. Sachsida declarou que “agosto foi o fundo do poço” e em setembro retorna o crescimento. Veremos.
A tal recuperação prometida com as reformas da legislação trabalhista e da previdência continua teimosamente lenta. Deve ser culpa dos sabotadores empresários que insistem em não investir e do povo perverso que se recusa a comprar (só por maldade). Mas o próprio governo, ansioso pela recuperação, graças à “equipe dos pesadelos” comandada pelo sinistro Guedes, aplicando sua ideologia econômica da política de austeridade, dá sua contribuição. Na contramão, tenta reduzir ao mínimo as despesas do Estado e os investimentos.
Sem investimentos do Estado e privado onde iremos?

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Uma “tempestade perfeita” se aproxima...


Semana de 26 de agosto a 01 de setembro de 2019

Rosângela Palhano Ramalho [i]

Há 10 semanas esta coluna alerta para a desaceleração mundial e o seu contínuo agravamento. Fazemos mais um registro da debilidade da economia mundial. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) registrou desaceleração generalizada nos resultados do segundo trimestre quando comparados aos do primeiro. Na Alemanha a atividade econômica foi de 0,4% para -0,1%, no Reino Unido, de 0,5% para -0,2%, nos Estados Unidos de 0,8% para 0,5% e no Japão, de 0,7% para 0,4%. O recuo trimestral isolado dos países provocou retração nos seguintes grupos: nos 35 países-membros da OCDE, foi de 0,6% para 0,5%; na Zona do Euro foi de 0,4% para 0,2% e no G-7 de 0,6% para 0,4%.
A OCDE também registrou queda no segundo trimestre dos montantes negociados no comércio internacional em virtude, principalmente, da guerra comercial entre Estados Unidos e China. No bloco que forma o G-20 a desaceleração foi de 1,9% no montante das exportações e de 0,9% nas importações.
Mas, a desaceleração mundial não tem chamado a atenção da equipe econômica brasileira, pois o empenho em fazer as reformas, tem tomado todo o tempo do Paulo Guedes e seus subordinados. Além disso, o PIB brasileiro avançou 0,4% no segundo trimestre. O resultado por setores foi o seguinte: a indústria teve alta de 0,7%, a agropecuária, queda de 0,4% e os serviços cresceram 0,3%. Foi um alento. O PIB da construção civil cresceu 1,9%, em relação ao primeiro trimestre, após 20 trimestres consecutivos em queda. Outro alento veio da melhoria das condições gerais de crédito em julho. Segundo o Banco Central, as concessões de empréstimos para pessoas físicas cresceram 1,77%, comparadas a junho, e o crédito a pessoas jurídicas cresceu 1,44%.
Logo após a divulgação do resultado do PIB do 2º trimestre, fomos convidados a respirar aliviados, pois a recessão (dois trimestres consecutivos de queda da atividade econômica) não foi decretada. E ainda: o decréscimo de 0,2% do PIB do primeiro trimestre foi revisado para -0,1%. Imediatamente, os analistas aumentaram a previsão de crescimento anual para 1% e o jornal Valor Econômico até intitulou seu editorial de 30 de agosto assim: “Recuperação se firma e ritmo lento deve prevalecer”. Mas não há o que comemorar. Que a economia apresenta ritmo lento é um fato, mas, um resultado negativo seguido de um positivo não é condição suficiente para garantir que a “recuperação se firmou”. Quem acompanha nossas análises sabe que a atividade econômica interna vem apresentando crescimento errático desde 2017. E um rápido olhar para o mercado de trabalho mostra que a recuperação não é solida.
De mais a mais, as nuvens negras avistadas no panorama internacional somam-se às nuvens negras produzidas pelos discursos e atitudes do presidente Jair Bolsonaro. A verborragia presidencial fez aumentar a desaprovação pessoal e do governo brasileiro. A nova pesquisa CNT/MDA apurou que a desaprovação do desempenho pessoal do presidente cresceu de 28,2% em fevereiro para 53,7% em agosto, enquanto sua aprovação caiu de 57,5% em fevereiro para 41%. A avaliação negativa da gestão também cresceu. Em fevereiro era de 19%. Em agosto registrou 39,5%. Já a avaliação positiva do governo caiu de 38,9% em fevereiro para 29,4% em agosto.
Na segunda, 02 de setembro, o Datafolha publicou a sua pesquisa. Os resultados reforçam aqueles apurados pela CNT/MDA.
O presidente continua a menosprezar as pesquisas. Nisto não há novidade, pois o mesmo abomina a ciência e de propósito escolheu a incivilidade como companheira de administração. Enquanto deputado era apenas uma gralha esbaforida a dizer despautérios. Agora como presidente leva a nação a reboque de suas sandices. Uma “combinação de circunstâncias” está se formando e no horizonte se vislumbra a “tempestade perfeita”: crise econômica mundial combinada com a austeridade fiscal de Paulo Guedes e associada à bestialidade bolsonarista.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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