terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Novamente o voo da galinha


Semana de 06 a 12 de janeiro de 2020

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
Começa o ano e aumenta o desespero da “equipe dos pesadelos” comandada pelo sinistro Paulo Guedes. Onde estão as promessas de crescimento econômico, controle da inflação e do câmbio, aumento do emprego e dos investimentos?
Destruíram a previdência social e a legislação trabalhista, criaram a carteira verde e amarela, esmagaram os sindicatos, privatizaram estatais, entregaram o petróleo e a base de Alcântara e os capitais estrangeiros teimam em não vir. Vai ver que a serviço do comunismo internacional e do globalismo esquerdista querem sabotar o governo.
O câmbio disparou com o dólar superando a barreira dos R$4,00 e obrigando o Banco Central (BC) a estourar US$36,9 bilhões das reservas amealhadas pelos governos comunistas do PT que agora ficaram reduzidas a US$356,9 bilhões. Foi preciso alimentar a fome do capital estrangeiro que não caiu no canto da sereia do Guedes e bateu em retirada. Foi a maior saída de capitais da história. Fugiram US$44,8 bilhões para o exterior. Deve ser mais uma ação coordenada do comunismo internacional.
O Produto Interno Bruto (PIB) teima em se arrastar na categoria de “pibinho”. As estimativas para o ano continuam em torno de 1% de crescimento. Os novos dados publicados para a produção industrial de novembro mostram uma queda de 1,1% em relação a outubro e para dezembro é também esperada nova queda. Em novembro, das 26 atividades analisadas 16 foram negativas. A queda na produção de alimentos foi de 3,3%, na de automóveis 4,4%, na de bens de consumo duráveis 2,4%, na de bens de capital 1,3% e mesmo na indústria extrativa foi de 1,7%. Para 2019 espera-se uma queda de 1,1% na produção industrial.
A situação das famílias também não é das mais animadoras. O percentual das famílias endividadas subiu de 65,1% para 65,6%, em dezembro, o maior nível desde janeiro de 2010, início da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cartão de crédito foi o vilão responsável por 79,8% dos endividamentos. Com esta situação não se pode esperar grande estímulo pelo lado da demanda.
Fazendo coro como o governo, as entidades empresariais procuram a todo custo criar um ambiente de otimismo com publicidade e manipulação de estatísticas. É preciso acalmar o descontentamento que cresce antes que surjam os protestos e manifestações de rua. A reacionária classe empresarial precisa defender seu governo que esmaga os direitos dos trabalhadores em benefício dos lucros mesmo que tenha de tolerar as mamadeiras de pirocas e outros vexames e sandices do presidente e de seus colaboradores, liderados por um astrólogo que beira a debilidade mental.
O coro é tão escandaloso que alguns analistas têm denunciado as manipulações. Durante a semana destacaram-se os comentários de Mônica de Bolle, da Globo, e Zeina Latif, da XP Investimentos. Elas mostraram que não há recuperação possível pois, pelo lado da demanda, há 27 milhões de desempregados e desalentados e outros milhões de subempregados, além se salários baixos e endividamento alto. Do ponto de vista dos investimentos, com as falências, pedidos de recuperação judicial, capacidade ociosa alta, consumo reprimido, saída de capitais do país, não haverá investimento privado. Com o aperto fiscal e a redução e contingenciamento das despesas, não haverá investimento público.
Sem investimentos e sem crescimento da demanda não há qualquer possibilidade de recuperação. E ainda temos pela frente a gestação de uma crise mundial e uma grande instabilidade política. O pronunciamento do governo colocando-se ao lado dos EUA no conflito com o Irã já teve seu primeiro resultado, o cancelamento da ida do presidente à reunião de Davos na Suíça por questões de segurança.
Como temos demonstrado em nossas análises, continuaremos com o voo da galinha. E veja lá se não será de uma galinha de aviário.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Involuir em pleno século 21: a arte da demência


Semana de 30 de dezembro de 2019 a 05 de janeiro de 2020

Rosângela Palhano Ramalho [i]

A semana que entremeia 2019 e 2020 terminaria melancólica, não fosse o ataque dos Estados Unidos que matou em Bagdá, o general Qassem Soleimani, chefe de uma unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã. Enquanto o mundo aguarda o desenrolar da tensão entre os países, o Brasil assiste a chegada do novo ano, após um “Natal de dúvidas” e sem registrar avanços na economia que crescerá, de novo, em torno de 1%.
Há um grande esforço por parte da imprensa, dos analistas econômicos, das consultorias em criar um clima favorável, como se isso tivesse o poder de mudar a realidade. Se o leitor busca otimismo, torcida a favor, euforia, oba-oba, não é aqui que vai encontrá-los. A análise fria da conjuntura econômica neste momento só nos permite tirar conclusões nada agradáveis para 2020. Olhemos para os fatos.
Ao longo de 2019, alguns “avanços” foram realizados. O Congresso aprovou a Reforma da Previdência e como alertamos ao longo do ano, a aprovação nem trouxe milagrosamente a recuperação, nem os investimentos estrangeiros. O milagre, dizem, não ocorreu porque esta reforma é condição necessária para o crescimento, mas não suficiente. Então o consolo está em esperar por mais reformas. Mas este engodo não convenceu os estrangeiros. A saída dos investidores estrangeiros da bolsa brasileira foi recorde em 2019. Os saques somaram R$ 43,5 bilhões, até 27 de dezembro, superando as retiradas de recursos de 2008, ano da crise financeira.
Há alguns bastante otimistas. O economista Armando Castelar Pinheiro é um deles. Segundo sua opinião, “...a retomada do crescimento calcada no avanço da demanda doméstica, vai gerar aumento de confiança e uma onda de otimismo que será o novo mantra nacional da economia.” Este é outro dado questionável. Mas não se pode afirmar que a retomada do crescimento se dará pela força da demanda interna. Segundo a Serasa Experian, 63,8 milhões de brasileiros estão inadimplentes. São 4,5 milhões a mais do que no início de 2018. Os executivos do setor de crédito concordam que é um número preocupante e para 75% deles, o país continua no meio de uma crise econômica. Some-se à equação 11,8 milhões de desempregados, que alimentam uma taxa de desemprego de 11,2%, conforme os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A indústria brasileira continua a padecer. A projeção de crescimento no início de 2019 era de 3% e o setor vai fechar o ano com retração em torno de 1%. Em 12 meses até outubro, a produção industrial caiu 1,3%, segundo o IBGE. Já sabemos também que o estímulo econômico não virá do setor público, pois Guedes, os mãos de tesoura, se encarrega de condenar qualquer iniciativa neste sentido.
Pode a salvação vir do exterior? Infelizmente não. O saldo comercial brasileiro em 2019 caiu 20%, o menor valor desde 2015. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, o Brasil vendeu menos para China e Argentina. As exportações somaram US$ 224 bilhões no ano, 7,5% a menos que em 2018 e as importações totalizaram US$ 177,3 bilhões, queda de 3,3%. O secretário de Comércio Exterior, disse que o saldo não é um dado tão importante, mas sim o aumento da corrente de comércio representado pela soma das exportações e das importações.
Que fique o alerta: o saldo importa sim. Principalmente se temos produtos como minério de ferro e petróleo sustentando praticamente todo o superávit comercial brasileiro. Em 2019, os produtos básicos responderam por 52,8% das exportações. Em 2018, eram 49,8%. Já os itens de maior valor agregado, registraram queda na participação de 36% para 34,6%. Na economia estamos involuindo. Voltamos a ser agroexportadores. São as tais vantagens comparativas. Enquanto isso, importamos tecnologia. Há quem se orgulhe disso.
Se na economia vamos mal, imagine em outras áreas. Educação, Direitos Humanos e Relações Exteriores e seu líder-mor, lideram o troféu vergonha alheia de 2019. Polêmicas ocas, negação do aquecimento global, teorias conspiratórias comunistas e terraplanismo (desmascarado há 500 anos!), marcaram os debates cheios de nada no ano que findou.
O que esperar de uma equipe governamental que usa tais argumentos? E embasa nestes, sua política, principalmente a internacional?
Preparemo-nos, pois 2020 promete... mais micos e cada vez menos mito.

[i] Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O que tivemos de bom na economia em 2019?


Semana de 23 a 29 de dezembro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

É fim de ano. 2019 passou mais rápido do que imaginei. Ainda bem! 25% daquilo que deve ser o pior quatriênio da República Nova se passou. Resta fazermos um balanço do que ocorreu no período. Imagina a quantidade de páginas que seria preciso para falarmos de Ricardo Salles, Abraham Weintraub, Damares Alves, Ernesto Araújo e Tereza Cristina. Talvez, os únicos feitos que coubessem nas linhas do presente texto fossem os do Ministro astronauta, Marcos Pontes. Também, né!? Por isso, trataremos só de alguns fatos econômicos. Aqueles que a grande mídia considera os principais.
Sem dúvidas, o maior feito da equipe de Paulo Guedes foi aprovar a reforma da previdência. Apesar de não ter sido a dos sonhos do ministro da Economia, foi considerada adequada. Como sempre, o sistema civil público de seguridade social pagou a conta. Para começar, os militares não tiveram sua carne cortada. Ficaram com seu filé da maneira como estava. Apenas os futuros ingressantes nas Forças Armadas é que vão encarar alguma mudança nas suas aposentadorias.
Como foi dito antes, a reforma não foi a ideal, mas foi adequada aos “interesses da nação”. Isto porque deve trazer uma “economia” de R$ 800.000.000.000 ao sistema de seguridade. Significa que esse valor cheio de zeros não será destinado ao pagamento de aposentadorias aos brasileiros. O caro leitor pode pensar: se não será gasto, então não seria preciso mais pagar o que hoje se paga ao INSS. Se você é da classe trabalhadora, ledo engano. Apenas algumas faixas de salário terão redução no imposto, apenas quem recebe até um salário mínimo. O empresariado é que vai sair ganhando. Aliás, já ganha com as isenções que continuam a receber do governo (esse ponto fica pra depois).
O argumento por trás da ajuda que o Estado concede às empresas é que elas dão empregos aos brasileiros. Se elas deixarem de ser beneficiadas com subsídios e isenções, os empregos irão desaparecer. Isto nos leva ao segundo ponto da retrospectiva: a queda no desemprego em 2019.
No trimestre encerrado em novembro de 2019, a taxa de desemprego no país foi a menor desde o início de 2016. Isto seria uma ótima notícia, caso os empregos gerados não fossem o velho conhecido “bico”. Nos três primeiros meses do ano haviam 37,5 milhões de pessoas vivendo de “bico” no Brasil. No trimestre encerrado em novembro, o total cresceu para 38,8 milhões. São 19,6 milhões de pessoas trabalhando por conta própria e outros 11,8 milhões trabalhando no setor privado sem carteira assinada. Eis o resultado da reforma trabalhista de Temer. Os que estão em pior situação, que estão desocupados, somam 11,9 milhões de pessoas.
Ainda temos outras duas notícias positivas com causas negativas: as quedas na inflação e na taxa básica de juros. A situação econômica está tão ruim que a debilidade da demanda reduz as pressões sobre os preços dos produtos no Brasil. A exceção é a carne, que aumentou de preços depois que os produtores locais resolveram fazer, literalmente, um negócio da China. Com a economia desaquecida e com a inflação contida, as taxas de juros tiveram que cair. A esperança era gerar algum tipo de estímulo que tirasse a economia do buraco. Não conseguiu. Só serviu para ajudar o país a bater dois recordes: do índice Bovespa (com os juros baixos restou especular na bolsa) e da taxa de câmbio (com a queda nos juros o investimento estrangeiro aqui no país ficou menos atrativo e menos dólares entraram no nosso mercado).
Falar em tirar a economia do buraco, nada. Nem os saques do FGTS tiveram um efeito significativo. Já tínhamos visto em 2017, no governo Temer, que isso era uma medida com efeito limitado. O mesmo foi visto agora em 2019. No começo do ano, esperava-se que o PIB crescesse 2,55%. Novo engano. Se o país crescer 1% esse ano será bom.
Eis o quadro que foi pintado no último ano da década. A situação não foi nada boa. Talvez a torcida a favor tenha sido fraca. Ou a torcida contra muito forte. É esperar e ver quem ganha em 2020. Feliz ano novo e engrossemos a torcida contra o governo.

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Natal de dúvidas


Semana de 16 a 22 de dezembro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
Já estamos no Natal e o fim do ano se aproxima. A euforia das comemorações ocupa todos os espaços. Poucos são os acontecimentos econômicos pois todos entram em recesso e as atenções se voltam para os presentes e as comemorações. O tempo das vacas magras, do desemprego, dos baixos salários tira um pouco o brilho e a alegria das festividades, mas o bom humor do povo esconde e disfarça as frustrações.
Assim caminhamos para um novo ano que não se apresenta com bons prognósticos. O governo e os empresários usam todos os canais para criar um clima de esperanças e euforia. Eles acreditam que as expectativas criam a economia e a recuperação. Daí todo o empenho e exagero das notícias positivas. Já não se pode nem confiar nas estatísticas fornecidas pelos órgãos oficiais.
A nível internacional surgem algumas esperanças. Todas estão baseadas em “sis”. Esperanças de que o “Brexit” (saída do Reino Unido da União Europeia) seja feito com acordo. Esperança de que acabe a briga comercial dos EUA com a China, que os chineses não invadam Hong Kong, que os conflitos israelo-árabes se acalmem etc. Se tudo isso ocorrer e se os Bancos Centrais (BCs) dos países do G20 continuarem com seus juros próximos a zero e com os programas de “quantative easing” talvez a economia mundial não entre em crise. Se tudo isso ocorrer, talvez o dólar se desvalorize e os capitais especulativos voltem a chegar ao Brasil. Há alguns alertas, entretanto. A dívida global está chegando aos US$ 255 trilhões. Nos EUA a dívida corporativa ronda 45% do PIB, o maior nível desde a segunda guerra. Com os atuais juros baixos ela é administrável. Se houver uma alta dos juros pode tornar-se explosiva.
Em relação ao comércio mundial o diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo, não está muito otimista diante da sabotagem dos EUA à entidade. Para ele o comércio continuará em queda.
Há ainda dois acontecimentos importantes a referir. No mercado dos automóveis surge um novo gigante com a fusão da Fiat-Chrysler com a PSA (Peugeot) formando uma nova grande montadora. No setor aeronáutico a má notícia vem da suspensão da produção do Boing737 Max. A linha de produção foi paralisada e todos os Max 737 estão proibidos de voar. Isto está provocando uma reação em série com paralisações e demissões de trabalhadores em toda a cadeia de suprimentos o que atinge empresas em todo o mundo.
Este panorama de final de ano não traz nenhum novo indicador capaz de mudar os nossos prognósticos. A fase de crise do ciclo econômico continua em preparação. Os paliativos da política econômica apenas contribuem para adiar a eclosão. Não há outra solução. A crise terá de vir para cumprir seu papel saneador da economia.
Dentro do país, o quadro também se mantém. O IBC-Br do BC mostrou um crescimento de 0,17%, em outubro, uma desaceleração quando comparado aos 0,47% de setembro. Diz o BC que a retomada gradual prossegue muito lentamente. A ata de reunião do Copom alerta para o “atual estágio do ciclo econômico” que “recomenda cautela na condução da política monetária”. O comércio e o setor industrial declaram-se mais otimistas, mas as perspectivas do aumento do emprego continuam modestas. Mais otimista ainda está o secretário especial da Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos Da Costa. Ele afirmou que o ciclo de reindustrialização da economia brasileira já começou.
Toda essa euforia parece não contaminar a população do país. A pesquisa CNI-IBOPE, apresentada no dia 20 passado, mostrou que 41% aprovam a maneira de governar do presidente, mas 53% desaprovam. 41% confiam nele, mas 56% não confiam. Apenas 29% acham o governo ótimo ou bom. Entre os empresários 65% confiam no presidente e 64 % aprovam sua maneira de governar. Este é o governo dos capitalistas e dos militares. Paga-se qualquer preço, expõe-se o país ao ridículo internacional desde que sejam destruídos os direitos e as conquistas dos trabalhadores. Esta é a nossa burguesia.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Governo recebe o “apoio” do empresariado industrial


Semana de 09 a 15 de dezembro de 2019


Rosângela Palhano Ramalho [i]


Caro leitor, a economia brasileira caminha a passos lentos. E o Copom reconhece as dificuldades ao decidir baixar a taxa Selic de 5% para 4,5%. A redução dos juros somou-se à melhora de alguns indicadores internos. As vendas no varejo cresceram 0,1% em outubro, segundo o IBGE. E as vendas do varejo ampliado, incluídos veículos e material de construção, tiveram alta de 0,8%. Estímulos ao consumo como a campanha da Semana do Brasil, melhoria do crédito, inflação comportada e liberação do saque das contas do FGTS, contribuíram para o resultado.
O crédito também está em alta. A XP Investimentos apurou que o crédito para indivíduos atingiu o recorde de 27,5% do Produto Bruto Interno (PIB) em outubro deste ano. A melhora do indicador vem acompanhada do aumento do endividamento das famílias, que em setembro era 44,8% da renda anual e em outubro atingiu 46,8%, fato que é preocupante em virtude da precarização e lenta recuperação do emprego.
Em contrapartida, os indicadores sociais internos contribuíram para que o Brasil caísse uma posição na lista do IDH, ficando em 79º numa lista composta por 189 países. Entre 2017 e 2018, a expectativa de vida ao nascer subiu de 75,5 anos para 75,7 anos e a renda nacional bruta per capita cresceu de US$ 13.975 por ano para US$ 14.068. Mas o país ficou paralisado no indicador de anos esperados de escolaridade (15,4 anos) e na média de anos de estudo (7,8 anos). E o número referente à renda é o nosso maior problema, pois se o IDH fosse ajustado considerando a má distribuição da renda vigente, a posição do Brasil recuaria 23 lugares no ranking. De acordo com o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) “...a boa performance dos ricos que faz com que o IDH do país fique alto (…). Temos verdadeiras Noruegas aqui dentro, ilhas de prosperidade. Mas temos uma realidade muito díspar.” O Programa apurou que em 2018, os 10% mais ricos no país concentram 41,9% da renda total e o 1% mais ricos detém 28,3%. O Brasil ocupa a segunda posição mundial no ranking da concentração de renda, o que não deve ser motivo de orgulho para nenhum governo. 
A disparidade de renda persiste no decorrer de vários governos e no curto prazo não há indícios de recuo deste indicador. A Reforma Trabalhista, em vigor desde 2017, não entregou os empregos prometidos, e precarizou ainda mais o trabalho e a remuneração. Segundo estudo feito pelo Departamento de Estudos e Pesquisas Econômicas (Depec) do Bradesco, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), as vagas de trabalho formal intermitente aumentaram tanto em 2018 quanto em 2019. Em 2018 foram 50 mil vagas e nos 12 meses até outubro deste ano, foram 133 mil vagas de trabalho com até 20 horas de trabalho. 70 mil das quais no setor de serviços, 29 mil, no comércio, e 20 mil, na indústria.
Esta foi a contribuição do governo Temer ao mercado de trabalho brasileiro. Contudo, para a atual administração, tais medidas não bastam, afinal, para mais empregos, é preciso menos direitos. Para criar 1,8 milhão de empregos entre os jovens de 18 a 29 anos, de 2020 a 2022, o governo lançou a Medida Provisória 905. O programa Verde Amarelo com fortes resistências no Congresso já recebeu 1.930 emendas por deputados e senadores. As principais objeções estão ligadas aos ataques aos direitos trabalhistas e a redução de obrigações patronais da folha de pagamentos.
Enquanto alguns parlamentares tentam conter as aberrações propostas pelo Programa o empresariado industrial brasileiro “apoia fortemente” o governo Bolsonaro, segundo uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ouviu 2 mil empresários. 60% consideram o governo ótimo ou bom, 65% confiam em Bolsonaro e 64% aprovam a maneira do mesmo governar. Como se não bastasse, a CNI concedeu ao presidente o colar da Ordem do Mérito Industrial e elogiou a agenda econômica destacando a Reforma da Previdência e a MP da Liberdade Econômica. Loucura, truculência, ignorância, excludente de ilicitude, ideias fascistas, ataques aos direitos humanos, às ONGs, às minorias, à cultura, às universidades e ao meio ambiente... Nenhuma destas questões parece incomodar o empresariado industrial nacional, que exultante, aplaude o desmonte do Estado brasileiro.


(*)Professora do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com.br) Contato: rospalhano@yahoo.com.br

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A economia!? Ainda não vai bem, obrigado...


Semana de 02 a 08 de dezembro de 2019

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

Não há qualquer mau agouro no título da presente análise. É de conhecimento amplo a notícia de que a economia brasileira cresceu nos últimos meses. Há diversas formas de mensurar esse crescimento: comparando um trimestre contra o imediatamente anterior; o trimestre do ano presente com o mesmo trimestre do ano passado; os últimos 4 trimestres com os 4 imediatamente anteriores; o acumulado ao longo do ano...
Em todos esses comparativos da pesquisa divulgada pelo IBGE, referente ao 3ª trimestre de 2019, cresceu a soma de tudo o que foi produzido dentro das fronteiras do Brasil. Contudo, o olhar atento ao histórico dos dados nos faz ligar um alerta para a consistência do que está sendo chamado de “retomada do crescimento sustentado”.
Para começar, só agora o PIB brasileiro está melhor do que o observado no começo de 2015. Ou seja, há um atraso de mais de 4 anos na produção de hoje em relação à passada. Em segundo lugar, desde o fundo do poço da crise, atingido no último trimestre de 2016, a economia brasileira não foi capaz de chegar sequer a um crescimento acumulado de 2%. Aquilo que hoje se chama de recuperação, na verdade é uma reprodução do pífio “crescimento” econômico iniciado em 2017. Em terceiro lugar, isto é consequência da forma como as políticas neoliberais foram aprofundadas desde 2015.
Historicamente, o Estado sempre participou ativamente do processo de dinamização da economia brasileira. Dadas as nossas particularidades históricas, dentre outros fatores, ele teve que atuar diretamente em diversas atividades onde o setor privado não atuou (sobretudo, por falta de interesse econômico). Por isso, boa parte das indústrias de base e quase toda infraestrutura brasileira foi provida pelo Estado. Além disso, a principal instituição de financiamento também tem origem estatal, a saber, o BNDES.
Pois bem, diante desse fato secular e absolutamente relevante, o que tem se tentado no Brasil é implementar a máxima do “menos Estado e mais mercado”. A questão que se coloca, então, é: será que o Brasil mudou tanto que, com a retirada do Estado de certos pontos da economia, o setor privado vai passar a ocupá-los?
Falemos do setor de máquinas agrícolas, que nos 11 meses já transcorridos de 2019 viu suas vendas caírem 6,8% e a produção 15,4%. Com as mudanças ocorridas no BNDES nos últimos anos, as linhas de crédito subsidiado foram diminuindo. Como consequência, ficaram aquelas onde os juros se aproximam das taxas de mercado (mais elevadas). Por isso mesmo, junto com incertezas futuras, os produtores agrícolas reduziram a tomada de dinheiro emprestado. Resultado, essa indústria fornecedora da agricultura reduziu suas atividades.
Esse não é um problema isolado. Recentemente o presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Robson Braga de Andrade, manifestou sua insatisfação com o sistema bancário nacional. Dentre os elementos que embasaram sua crítica, estão os seguintes: o spread bancário no Brasil (diferença entre o custo de captação de dinheiro pelo banco e a receita com os empréstimos ao público) é o segundo maior do mundo (32%); a taxa de recuperação judicial de crédito (aquilo que o credor consegue de volta do devedor na justiça) é de apenas 14% (isto ajuda a encarecer os juros); a alta concentração do setor bancário brasileiro, onde 5 instituições detêm 85% do total das operações; e o fato de que o crédito total ofertado no país equivale a apenas 47% do PIB, enquanto no resto do mundo a média é de 130%.
Outro elemento importante, que vem do setor industrial, é a necessidade dos investimentos em infraestrutura. Entre 2007 e 2018 os investimentos no setor somaram expressivos R$ 953,7 bilhões. Muitos dos quais tiveram origem estatal, como os do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Contudo, isto não foi suficiente. Segundo a Fiesp, entre os anos de 2019 e 2030, seriam necessários R$ 1,5 trilhão para se eliminar o déficit de infraestrutura do país. Quem toparia investir, além do Estado?
Sem mencionar o desaquecimento da economia global, dá para acreditar que com a atual gestão econômica esse crescimento é mesmo o início de uma nova era?

[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com)

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Crise e democracia


Semana de 25 de novembro a 01 de dezembro de 2019

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           
Cada novo dado divulgado representa um golpe nas esperanças da reversão da desaceleração da economia mundial. Dessa vez foi a publicação dos dados da CPB World Trade Monitor, da Holanda. Eles mostram que o comércio mundial, em setembro, contraiu-se 1,3%, em relação a agosto. No caso dos países emergentes asiáticos, excetuando-se a China, a contração foi de 3,3%.
Em sentido contrário o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA mostrou um crescimento de 2,1%, maior que o esperado, no terceiro trimestre. A previsão anterior era de 1,9%. No entanto caíram os lucros e os investimentos das empresas. Guy Miller, estrategista chefe global do grupo segurador suíço Zurich, no entanto, prevê uma recessão moderada para a economia americana em 2020 e uma diminuição do crescimento global o que deve obrigar o Federal Reserve (Fed), banco central americano, a ações mais fortes e novo corte de juros, o que já vem ocorrendo em 55% dos BCs do mundo.
Isso mostra que o ambiente internacional continua adverso o que traz consequências negativas ao panorama interno.
Com efeito, durante a semana aumentaram muito as tensões internas. O dólar disparou e a cotação atingiu a máxima histórica de R$4,27. Os analistas apontam como causas os dados negativos da balança de pagamentos, a queda da commodities, o fracasso do leilão dos campos de petróleo, a saída sazonal de divisas, a queda dos juros, a especulação e as declarações desastrosas do sinistro de economia Paulo Guedes. O pânico levou o BC a fazer intervenção no mercado vendendo dólares e confirmando o que chamamos de “flutuação suja” do câmbio. O BC declarou ainda estar disposto a continuar a intervir, contrariando os preceitos liberais do governo, com o pretexto de corrigir “disfuncionalidade” do mercado. Temos agora um “censor de mercados” que vai classificar as “disfuncionalidades” e torrar as reservas do país para “corrigi-las”.
Com esta instabilidade os especuladores estrangeiros bateram em retirada. Só na segunda feira (25), retiraram da bolsa R$2,07 bilhões, na terça feira US$1,8 bilhão e no ano o total já atinge R$38,12 bilhões.
Mas o super-sinistro da economia Paulo Guedes não está satisfeito. Acompanhando o governo na preocupação com os protestos na América Latina e saudoso dos seus bons tempos de governo Pinochet no Chile, armou-se com o AI-5 para ameaçar a população. Ou “democracia responsável” ou cacete na cabeça com o AI-5. Claro que o disparate provocou reações generalizadas e possivelmente satisfação silenciosa do general Heleno, ansioso por meter as garras na carne do povo.
Outro acontecimento importante foi a nova ofensiva do BC contra os juros elevados dos financiamentos começando com os do cartão de crédito que chegam a atingir 360% ao ano. Mais uma vez a crença liberal levou um golpe sob protesto dos banqueiros, claro. Aliás a Febraban vem enfrentando outra batalha com os bancários. Eles querem fechar um acordo para manter a jornada de trabalho de 6 horas para todos e da proibição de trabalho aos sábados, contrariando a legislação aprovada. Os bancários descobriram que foram traídos pela Febraban que negociou secretamente com o governo as mudanças na legislação. Vamos ver quem tem mais força
Por parte do governo continua a ofensiva autoritária. Além da proposta administrativa que está tramitando e que retira direitos dos funcionários, e das propostas do Sérgio Moro com o excludente de ilicitude, promete agora uma ampliação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para o campo legalizando o uso das forças armadas na expulsão de invasores de terra. Claro que não é para aplicá-la contra garimpeiros, grileiros e madeireiros ilegais.
Com estas ações o governo ganha cada vez mais o apoio das classes empresariais. Os aplausos vêm da Fiesp, da Firjan, da Fecomercio-SP, da CNI, da Abit. Segundo Paulo Skaf, presidente da Fiesp, “O que eu sinto no meio empresarial é um apoio ao governo Bolsonaro”. A reacionária burguesia brasileira mostra sua verdadeira cara. É tempo de guerra. Acabou a conciliação entre as classes.

[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com).

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