quinta-feira, 15 de abril de 2021

Quem vai retirar o bode da sala?

Semana de 05 a 11 de abril de 2021

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

As águas continuam correndo na mesma direção prevista em nossas últimas análises. Agravam-se as situações política, econômica e sanitária. A pandemia multiplica os contágios, as internações e as mortes. O sistema de saúde entrou em colapso e estamos à beira do colapso do sistema funerário. O início da recuperação do final do ano foi abortado com as novas paralisações das atividades. Na política as pedras no tabuleiro mexeram-se. O presidente, obrigado a demitir o louco chanceler Ernesto Araújo, aproveitou a oportunidade para alterar o esquema de segurança tentando proteger-se e criar melhores condições para o golpe que não lhe sai da cabeça.

Apesar das pressões de parte das forças que o apoiam, Bolsonaro saiu por aí com sua insensata pregação negacionista. Na viagem pelo Sul, vociferou em Chapecó e Foz do Iguaçu contra o isolamento social, o uso da máscara e a vacinação, conclamando a população a ir para a rua com afirmações do tipo “nossa liberdade vale mais que nossa própria vida”. Mais uma vez apropriou-se do exército afirmando “nosso exército não vai à rua para manter o povo dentro de casa”. Não satisfeito manteve a propaganda da cloroquina como tratamento, usando a África como exemplo da luta contra a pandemia. Mais uma mentira. Ainda justificou os 350 mil mortos: “Qual país do mundo não morre gente? Infelizmente morre em qualquer lugar. ”

O discurso seguinte foi em São Paulo, no jantar na casa do Washington Civel, dono da Cia de Segurança Gocil, que contou com a presença da nata mais reacionária dos empresários paulistas entre os quais Flávio Rocha (Riachuelo), David Safra (Banco Safra), Luiz Carlos Trabuco Cappi (Bradesco), André Esteves (BTG Pactual) e o puxador mor Paulo Skaf. A bajulação foi tão indecente que o jornal Valor Econômico publicou um longo artigo desqualificando a representação presente e citando outro grupo da burguesia paulista que apoiou a carta aberta dos economistas, recentemente divulgada.

Em sentido contrário, solidarizando-se com as posições golpistas de Bolsonaro, manifestou-se o general de pijama Eduardo José Barbosa, presidente do Clube Militar, entidade que envergonha as forças armadas com suas descabidas manifestações. Em um desrespeito à constituição, o general apoiou o alinhamento dos comandos militares com as vontades do governo instigando a tropa a agir contra governadores e estimulando os atos de insubordinação das polícias militares. E tudo em defesa das liberdades das pessoas em ir e vir esquecendo que para a morte só existe o ir. Não há retorno.

No campo econômico os dados mostram que a situação em 2020 não foi pior graças ao Auxílio Emergencial e aos subsídios concedidos às empresas. A pandemia teve consequências diversas para os negócios. Uma pesquisa do Valor Data, com 341 grandes empresas, mostrou que 62% delas aumentaram suas receitas e só 38% tiveram queda. 67% delas tiveram lucro. 339 estão em boas condições para a retomada com um lucro líquido de R$60 bilhões. Claro que o sucesso foi pago pelos milhares de trabalhadores demitidos e empresas fechadas. Alguns setores, como o setor produtor de barcos de luxo, tiveram grande crescimento e as Marinas ficaram lotadas com 690.000 embarcações.

Já no primeiro bimestre de 2021, a situação se agravou. Em janeiro o IBC-Br, do Banco Central (BC), mostrou um crescimento da economia de 1,04%. Em fevereiro, a produção industrial teve uma queda de 0,7%. Em março, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 9,8 pontos e o Índice de Confiança dos Empresários (ICE) caiu 5,6 pontos. O setor de bens de capital foi favorecido pela safra recorde que puxou a demanda de máquinas agrícolas (crescimento de 36,3% no primeiro bimestre) e de caminhões (12,6%), enquanto a indústria como um todo só cresceu 1,3%.

No mundo há uma unanimidade de que a recuperação econômica só será possível com a vitória sobre a pandemia. Todos clamam pela vacinação, máscara e isolamento social. No Brasil o principal inimigo desta campanha é o próprio presidente, o bode colocado na sala pelo desespero de uma burguesia reacionária e de parte das forças armadas saudosas dos tempos da ditadura. Diante da calamidade atual pergunta-se: Quem agora vai tirar o bode da sala?


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

O troca-troca do Bolsonaro

Semana de 29 de março a 04 de abril de 2021

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

A semana que passou foi bastante movimentada na Esplanada dos Ministérios. Vimos uma verdadeira dança das cadeiras em seis pastas. Parte das trocas são um aceno para sua frágil base de apoio no Congresso.

Nas Relações Exteriores, apesar de motivada por pressões vindas do Senado Federal, a indicação do novo ministro está longe de ser um nome que siga a tradição da diplomacia brasileira. Até porque Carlos Alberto Franco França é famoso por ser o chefe do Cerimonial do Palácio do Planalto desde os primeiros meses de governo Bolsonaro. Sua experiência na área é longa, pois entre 2011 e 2015 ocupou a posição de assessor neste mesmo Cerimonial. Na diplomacia, nunca chefiou sequer uma embaixada brasileira no exterior. No máximo, ocupou posições em embaixadas na Bolívia, no Paraguai e nos EUA. Por esta falta de experiência, é esperado que o perfil discreto seja engolido pelas pressões vindas da ala ideológica do governo. Leia-se, Eduardo Bolsonaro e Filipe Martins, aquele mesmo que “ajeitou” o paletó com um gesto comum entre racistas.

Na Secretaria de Governo, foi indicada a Deputada Federal Flávia Arruda (PL-DF). Esta também é uma mudança para agradar o Congresso, pois ela é próxima do Presidente da Câmara, Arthur Lira. Porém, a deputada padece do mesmo problema do Chanceler: não tem experiência para o cargo que vai ocupar. A parlamentar iniciou sua vida na carreira política em 2014, quando substituiu o marido preso, José Roberto Arruda, na chapa que concorria ao governo do Distrito Federal. Perdeu aquela eleição. Em 2018, contudo, foi a deputada federal mais votada do DF. Iniciou no cargo em fevereiro de 2019 e, por enquanto, tem poucos feitos de destaque.

As outras quatro trocas de ministros podem se resumir a dois movimentos. O primeiro é do General Luiz Eduardo Ramos, que entrou na Casa Civil para ocupar o vazio deixado pelo General Walter Braga Netto. No caso, Braga Netto virou o novo ministro da Defesa. O segundo movimento foi o que fez Anderson Torres o novo ministro da Justiça, ocupando a pasta deixada pelo Pastor André Mendonça. Isto porque Mendonça foi para a Advocacia Geral da União.

As motivações dessas trocas podem ser reduzidas a uma única: blindar o presidente Bolsonaro e seu clã.

De um lado, a troca na AGU é um arranjo para que o presidente tenha alguém que cumpra seus delírios de ordem jurídica. Essencialmente, faça perseguição de críticos e opositores do governo. De quebra, na Justiça, bota alguém próximo a sua família e que é desafeto de um moribundo opositor: Sérgio Moro. Por isso, mudanças na condução das investigações contra os Bolsonaro devem vir no futuro.

Por outro lado, não era novidade o descontentamento do Presidente com o então Ministro General Fernando Azevedo e Silva. Apesar de ter participado de manifestações antidemocráticas, o ministro nem sempre aderiu ao discurso aloprado de Bolsonaro. O delírio do Presidente, criado a partir de um passado saudoso, sempre foi dar um autogolpe e transformar-se num ditador. Apesar de povoar o Palácio do Planalto de militares, os comandantes das Forças Armadas não demonstraram apoio suficiente, para o gosto do Presidente. Afinal, quem em sã consciência, embarcaria num governo liderado por Bolsonaro? Pior ainda se ele tivesse o poder de executar tudo o que “pensa”. O resultado foi o inédito pedido de demissão simultânea apresentado pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Esses acontecimentos políticos da semana passada dão um sinal para a sociedade: Bolsonaro se sente ameaçado por alguma coisa. Será que é com a investigação dos filhos? Será que é com a possibilidade dessa investigação chegar nele? Será que é por conta da flagrante incompetência no enfrentamento da pandemia e das consequências que devem vir no futuro? Será por conta da queda na popularidade? Será pela volta de Lula ao jogo?

O tabuleiro está posto. Agora é ver se a troca de peças mexe no jogo democrático.


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Combate ao covid-19 recupera a economia

Semana de 22 a 28 de março de 2021

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

A preocupação com a situação do país, tanto econômica quanto sanitária, levou um grupo de empresários, banqueiros, economistas e personalidades políticas a lançar uma carta manifesto à nação. Em termos duros levantaram críticas quanto à forma como o combate à pandemia tem sido conduzido no país, principalmente pelo dirigente máximo, a “liderança que combate o combate à pandemia”. A carta logo no título afirma que “O país exige respeito”. Pedem maior empenho no combate ao coronavirus e defendem a vacinação em massa, o distanciamento social, o uso de máscaras e uma coordenação nacional.

A carta expressa o crescimento no país da consciência que, sem combate à pandemia, se tona muito difícil a recuperação econômica, o que vem sendo afirmado pelas organizações internacionais. Com efeito, em um evento organizado pela Organização Mundial do Comércio (OMC) foi unânime o reconhecimento que o melhor estímulo à recuperação é a vacinação. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva defendeu a erradicação do covid-19 em todo o planeta e para isto “é preciso gastar”. O diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) Tedros Adhanom afirmou que saúde e economia são integradas. David Malpass, presidente do Banco Mundial (BM) considerou que sem o combate à pandemia a redução do PIB será uma catástrofe. Para o secretário geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) Angel Guria a pandemia é um retrocesso no desenvolvimento. O FMI já se antecipou e liberou US$ 650 bilhões para ajuda aos países mais necessitados.

No Brasil, diante da inoperância do governo central, os governadores e prefeitos vem tomando as iniciativas e decretando as medidas de restrição ao deslocamento das pessoas e isolamento social, o que tem irritado o presidente e seus fanáticos seguidores. Em algumas cidades e estados foram até aprovados auxílios emergenciais.

A segunda onda tem criado situações de catástrofe em alguns lugares e o sistema de saúde já entrou em ruptura. A falta de vacinas impede a aceleração da vacinação.

Com isto a situação econômica tende ao agravamento diante da junção de vários fatores: pandemia, desajuste fiscal, aumento dos preços das matérias primas e da inflação, depreciação cambial, concentração de renda, desemprego, aumento do risco, desconfiança e incerteza. Para agravar a situação o orçamento aprovado, por erros na sua preparação, mostra-se inexequível.

Na tentativa de conter a propagação da covid-19 várias montadoras começaram a parar as linhas de montagem. A Volkswagen Caminhões e Ônibus de Rezende parou. A Renault em São José dos Pinhais, no Paraná também. A Scania no ABC paulista para até 5 de abril. A Volvo em Curitiba reduziu em 70% a produção de caminhões. Também param a Nissan em Rezende e a Mercedes-Benz em São Bernardo.

A situação social se agrava. O Ibre/FGV mostrou que em 2020 o endividamento das famílias havia chegado a 56,4%. Para 2021 esta situação tende a piorar como o desemprego que deverá chegar a 15,6%. Isto tem afetado as expectativas de consumidores e empresários. Na prévia da FGV, o Índice de Confiança do Empresário (ICE) caiu 5 pontos e o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 7,8 pontos.

A segunda onda tem se mostrado mais violenta quanto ao número de infetados e de mortos que já ultrapassa os 300.000. Enquanto isso o presidente comemora seu aniversário ameaçando com golpe de Estado e intervenção contra os governadores usando o Exército e seus bandos armados, ameaças que não foram apoiadas pelas Forças Armadas e provocaram fortes pronunciamentos dos parlamentares.

O aumento das tensões tem provocado desentendimentos dentro do governo e os pronunciamentos do ministro das relações exteriores criaram uma situação insustentável que obrigou o presidente a demiti-lo. Tudo indica que outras cabeças rolarão. Possivelmente a próxima semana será cheia de surpresas. Vamos aguardar.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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quarta-feira, 24 de março de 2021

Mistério no Banco Central

Semana de 15 a 21 de março de 2021

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Todo manual de economia mostra a relação entre a taxa básica de juros e a inflação. No Brasil, a taxa de juros de referência é conhecida como Selic. Sem aprofundar os caminhos, podemos agrupar em cinco os chamados “canais de transmissão” da elevação dos juros para a inflação.

Os três primeiros são canais indiretos de transmissão, pois o aumento da taxa de juros esfria a demanda e esta é quem age na redução dos preços. O primeiro é o “canal do crédito”, que fica mais caro quando os juros sobem e isso desestimula as compras de pessoas e de empresas. O segundo é “canal do preço dos ativos”. Quando os juros sobem, os preços dos ativos financeiros caem e isto reduz o estoque de riqueza dos detentores desses ativos. Isto, consequentemente, reduz os gastos. O terceiro é o “canal da taxa de juros”. Tendo em vista que a Selic é uma referência no mercado de crédito, se ela sobe, há uma tendência para as demais taxas subirem. Com isso, mais dinheiro deixa de ser gasto e vira ativo financeiro.

Sem sombra de dúvida, os três canais citados não motivaram o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) a anunciar a elevação em 0,75 ponto percentual na Selic. A economia brasileira está só o bagaço e sem qualquer perspectiva de melhora no primeiro semestre de 2021, quiçá no segundo. O motivo é que quem dá corda no relógio que marca o Dia D e a Hora H é o Bolsonaro e o Pau-Mandado-General-Ministro Pezadello.

O quarto canal de transmissão dos juros para a inflação é a taxa de câmbio, que influencia direta e indiretamente os preços. Quando o dólar fica mais barato, as importações ficam mais baratas e as exportações menos atrativas. Por um lado, isto pressiona negativamente a balança comercial. O resultado (indireto) seria uma pressão negativa da demanda agregada sobre os preços. Por outro lado, se os produtos importados ficam mais baratos, o resultado (direto) é a queda nos preços no país.

E como os juros entram nessa história? Se o Brasil elevar suficientemente os juros, pode atrair especuladores interessados em ganhar dinheiro por aqui. Com isso, a entrada de dinheiro gera uma pressão para o barateamento do dólar.

Pois bem, a taxa de juros não é o único fator considerado pelos especuladores. O chamado “Risco-País” é o principal norte das suas decisões. Nesse quesito, o Brasil vai de mal a pior. Dentre os elementos que influenciam o indicador está a situação política da nação. Não é novidade que o Brasil é o pária internacional do momento. Para além da situação fiscal, o Brasil afugenta o capital estrangeiro por conta da gestão que atualmente ocupa o Palácio do Planalto. Por isso mesmo, essa elevação para 2,75% na Selic é pouco útil como medida para conter a inflação via câmbio. Seria necessário um aumento exorbitante para o prêmio dos títulos públicos superar os riscos.

Aí é que entra o quinto canal de transmissão dos juros para a inflação, a chamada ancoragem das expectativas de inflação futura. Eis o mistério da história. Funciona assim: se os agentes do mercado acharem que a inflação vai subir no futuro (normalmente em até dois anos), o BC aumenta a taxa de juros hoje para sinalizar ao “mercado” de que não vai deixar. Com isso, quem decide o nível de preços no presente não precisaria se antecipar ao futuro e subir os preços, já que o BC sinaliza fazer o possível para não ter inflação. No final das contas, o futuro é “previsto” por especialistas (Boletim Focus) e a ação do BC é para impedir esse futuro de acontecer. E por que estão prevendo que a inflação futura vai subir? Porque entre setembro e dezembro de 2020 houve uma escalada nos preços. Apesar do freio em janeiro de 2021, em fevereiro os preços subiram.

Uma série de fatores da economia brasileira estão sendo agravados pela pandemia. A precariedade das relações de trabalho, a incompetência do Governo Federal, o apego cego ao ajuste fiscal, a política de preços da Petrobrás, um PIB que não cresce mais que 2%... A inflação virou mais um problema. A questão é que nada disso vai ser resolvido com aumento dos juros. Só nos resta esperar a ata do Copom para entender o que motivou sua decisão. Esta decisão foi um mistério, como também será a solução que vão arrumar para a estagflação que se avizinha. É esperar para ver as coisas piorarem ainda mais...


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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quarta-feira, 17 de março de 2021

Ele voltou

Semana de 08 a 14 de março de 2021

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

           

É dever de ofício tratar da Conjuntura Econômica e devemos fazê-lo. Temos mostrado que o ano de 2021 será difícil e os acontecimentos continuam a confirmar nossas previsões. Embora os dados sejam poucos, pois a economia foi ofuscada pelos acontecimentos políticos que trataremos a seguir, alguns dados merecem citação. As insolvências crescem 47% neste ano e o total deverá atingir 3.000 empresas. As estimativas de crescimento continuam negativas: -0,8% para o primeiro trimestre e -0,5% para o segundo. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em fevereiro, 66,7% das famílias estavam endividadas e 10,5% delas não tinham condições de pagar. A situação do desemprego agravou-se. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, a média nacional de desempregados é de 13,5%, a pior desde o início da pesquisa em 2012. Em 15 dos 27 estados os ocupados são menos de 50% da população. Em 20 das 27 unidades o desemprego bateu recordes. A situação é pior entre negros, mulheres e jovens. A participação das mulheres na população ocupada caiu de 53,1%, em 2019, para 48%, em 2020. Já em fevereiro deste ano a taxa de desocupação subiu para 13,9%.

A piora da situação econômica, no entanto, não se refletiu nos preços. Para desespero dos economistas oficiais e sua ideologia econômica, a queda na demanda não provocou a queda dos preços. A inflação voltou a crescer para terror do Banco Central (BC). O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou uma subida de 0,86%, o que representa uma inflação anualizada de 5,2%, chegando ao teto da meta (3,75%, com variação de 1,5 para mais ou menos). São apontados como causas os combustíveis, transportes, educação, queda do real. Os eletrodomésticos, entre fim de janeiro e início de março, aumentaram entre 4% e 15%. Os veículos, em 12 meses (até fevereiro) subiram 8,5%. O Índice Nacional da Construção Civil (INCC) subiu 11,07%.

Parece que voltamos ao velho problema da “estagflação”, estagnação com inflação, inexplicável pela teoria econômica oficial e que todos procuram ocultar. A reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), órgão do BC, que está acontecendo neste preciso momento, deverá tomar uma difícil decisão sobre a Selic. Infelizmente esta Análise estará terminada quando a decisão for divulgada. Será assunto para a próxima.

Mas, estes fatos perderam a importância diante dos acontecimentos políticos.

Acossado por todos os lados o presidente decidiu finalmente demitir o General intendente que se sentava na cadeira de ministro da saúde com o lema de “um manda e o outro obedece”. O difícil foi escolher um substituto tão capacho quanto o general. Finalmente surgiu um fanático bolsominion de carteirinha que, para nossa vergonha, é paraibano. Nas poucas vezes que abriu a boca nada disse, exceto que pretende prosseguir a orientação do presidente. Fugiu de todas as perguntas embaraçosas e prometeu vacinar todos, mas sem explicitar como. É esperar para ver.

Outra bomba da semana foi a decisão do ministro Fachin, do STF, considerando nulas as condenações de Lula pela República de Curitiba e seu comandante Moro. Não inocentou Lula, mas anulou todas as condenações por considerar a Lava-Jato incompetente para o julgamento. O processo foi enviado para o Distrito Federal para ser retomado do início. Foi uma tentativa de impedir o julgamento de um outro processo que corria na 2ª turma do STF presidida por Gilmar Mendes. Não conseguiu, e o processo foi retomado. Como resultado Lula readquiriu a elegibilidade e fez um brilhante discurso de estadista. O meio político tremeu e o panorama para 2022 foi tumultuado. Desde os generais saudosistas, que passaram a afiar suas espadas para a marcha das pelancas, até os partidos e os candidatos. Só o macaco velho Delfim Neto, tranquilo, declarou o seu voto no Lula e afirmou que a Faria Lima também nada teme. Ele sabe que o leão não passa de um gatinho social-democrata muito competente para gerir o capitalismo. Só esquece que está pontificando para militares broncos e uma burguesia reacionária e estúpida que nem sequer sabe o que é social-democracia.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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quarta-feira, 10 de março de 2021

O PIB da pandemia

Semana de 01 a 07 de março de 2021

 

Lucas Milanez de Lima Almeida [i]

 

Em 2017, o PIB do Brasil cresceu em torno de 1,32%. Pelo lado da produção, a maior contribuição veio da atividade Agropecuária, responsável por 63,8% do crescimento da produção naquele ano. Isto ocorreu porque houve uma supersafra agrícola. Em seguida, vieram as atividades de Comércio e Indústria de Transformação, responsáveis por 23,8% e 23,0% do crescimento da produção em 2017, respectivamente. Pelo lado da demanda, quem puxou o PIB em 2017 foi o Consumo das Famílias, seguida das Exportações e dos Investimentos (sobretudo formação de estoques).

Em 2018, sem a supersafra, os setores que mais contribuíram para o crescimento da economia brasileira foram Outras atividades de serviços (que vão desde serviços especializados prestados a pessoas jurídicas até serviços domésticos e alguns “bicos”), Atividades imobiliárias e Comércio. Juntos, eles contribuíram com 73,2% do crescimento da produção. O quarto setor que mais contribuiu foi a Indústria de Transformação, com apenas cerca de 9,9%. Pelo lado da demanda, o Consumo das Famílias continuou sendo o carro chefe do PIB. Se bem que em 2018 todos os componentes puxaram o PIB para cima, com exceção das Importações: Exportações, Investimentos e Consumo do Governo.

Em 2019, antes mesmo da descoberta do novo coronavírus, já vínhamos chamando a atenção para a desaceleração da economia mundial (atentamos para isso ainda em 2018). As principais economias do mundo estavam entrando em “rota de pouso”. Como consequência, a contribuição das exportações para o crescimento do PIB do Brasil foi três vezes menor do que o observado em 2018 e quatro vezes menor do que em 2017. Quem puxou o crescimento do PIB brasileiro em 2019 foi o Consumo das Famílias, novamente. Outro componente da demanda que contribuiu positivamente foi o Investimento, tanto a Formação Bruta de Capital Fixo quanto os Estoques. Pelo lado da produção, continuaram como principais setores: Outras atividades de serviços, Atividades imobiliárias e Comércio, que juntos foram responsáveis por mais de 70% do crescimento.

Esse retrospecto serve para entendermos a dimensão do que ocorreu em 2020, com o PIB resultante da pandemia de Covid-19. Como já foi anunciado nesta coluna na semana passada, o PIB de 2020 caiu 4,1% e o valor adicionado pelos setores da economia (a produção em si) caiu 3,4%. Isto era de se esperar, pois inúmeros fatores “atrapalharam” o setor privado: isolamento social, adoecimento dos funcionários, redução da demanda... Mas surpreende o papel do setor público nesta queda.

Pelo lado da produção, dois setores se destacam como os principais responsáveis pelo tombo: Outras atividades de serviços e Serviços Públicos (gastos em Administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social). Isto é um formidável representante da política austericida e de caráter genocida que tem sido adotada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Por mais que se reduzam os gastos com alguns serviços públicos, contribuir com 21,0% na queda da produção do país é um dado alarmante. É uma contribuição menor do que Outras atividades de serviços, que contribuíram em 55,4% para a redução da produção, mas é mais do que a Indústria de Transformação, que ficou em terceiro lugar e foi responsável por 12,8% da queda.

Pelo lado da demanda a situação não foi melhor. Como era de se esperar, o componente interno que mais contribuiu para a queda no PIB foi o Consumo das Famílias. Em segundo lugar ficou o Consumo do Governo. Da queda de 4,1%, a redução dos gastos governamentais foi responsável por 0,94 pontos percentuais. Claro que não somos os EUA, mas, como comparação, lá foi anunciado um terceiro pacote de estímulos, de US$ 1,9 trilhão. Juntando com os outros dois do ano passado, os estímulos somam US$ 5 tri.

Enquanto isso, Bolsonaro defeca: “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos que enfrentar os nossos problemas”. A debilidade cognitiva é tamanha que ele não se dá conta de que ele próprio não enfrenta os problemas do país. Ou ele não quer enfrentar? E olhe que nem falei da vacinação...


[i] Professor do Departamento de Economia da UFPB e Coordenador do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com; lucasmilanez@hotmail.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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quinta-feira, 4 de março de 2021

Covid + Bolsonaro: a economia sofre

Semana de 22 a 28 de fevereiro de 2021

 

Nelson Rosas Ribeiro[i]

            

A situação da pandemia é desesperadora. O sistema de saúde entra em ruptura em um número cada vez maior de estados. O número de infectados cresce junto com o de internados e mortos. Nem adianta citar números pois ficarão desatualizados no dia seguinte. Já ganhamos o segundo lugar em número de mortos no mundo liderados pelo campeão, os EUA. Embora tenhamos 3% da população mundial temos 10% dos mortos pela covid. Nada comove o monstro que nos governa, sedento de sangue. Na comédia macabra que encena continua provocando aglomerações, combatendo as medidas sanitárias ditadas pelo seu próprio governo repudiando o uso de máscaras, recomendando cloroquina e outros medicamentos condenados pela ciência e pregando o descrédito nas vacinas. Além destas atitudes criminosas não se vê nenhuma ação do governo central. Ele não existe. A figura repugnante quando aparece é para vomitar impropérios.

Cada vez mais, entidades, empresários, analistas, economistas, políticos reconhecem que sem o combate à pandemia não há recuperação, o que é visível. No final de 2020 a economia já vinha desacelerando. No início deste ano as coisas pioraram. Já há previsões para crescimento negativo no primeiro e segundo trimestres. A ASA Investments, cujo diretor é Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro, prevê queda de -0,8% no primeiro trimestre e de -0,3% no segundo. Teremos assim uma “recessão técnica” no primeiro semestre. A ASA revisou sua previsão de crescimento do PIB, no ano, de 2,4% para 2%. A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) observa um “novo recuo da atividade econômica” e seu presidente Isaac Sidney reconheceu que “sem acelerarmos o ritmo da vacinação o crescimento continuará deprimido”.

O Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), através de Armando Castelar (coordenador de economia aplicada) e Silvia Matos (coordenadora do Boletim Macro) reconhecem que o primeiro semestre será muito fraco, que o primeiro trimestre haverá uma queda de -0,4% no PIB e que a recuperação depende da vacinação. Ainda a FGV divulgou a queda de 3,1 pontos no Índice de Confiança Industrial (ICI) que chegou a 108,2 pontos, menor patamar desde setembro.

O Banco Central (BC), depois de fazer um balanço do papel do crédito para sustentar a economia em 2020, reconheceu que o crédito será mais fraco e a inadimplência deve aumentar. Haverá menor oferta, descontinuidade das linhas especiais, retração do BNDES e tudo isto agravado pela segunda onda da covid-19 e a vacinação lenta. Só em janeiro/dezembro a concessão de crédito caiu 27,7%.

Mas Bolsonaro não pode ficar ofuscado pelo desastre dos números da pandemia. Pressionado pela sua claque de caminhoneiros demitiu o presidente da Petrobrás, homem de confiança do Paulo Guedes, diante do aumento do preço dos combustíveis, resultado da política de preços praticada pela empresa. O novo indicado, o general Joaquim Silva e Luna, trazido da Itaipu Binacional ficou com o abacaxi dos preços do diesel para resolver sem desagradar os caminhoneiros que ameaçam grave.

A desastrada intervenção na Petrobrás teve consequências imediatas no “mercado” com a queda de 3% na Bolsa e subida do dólar acima de R$5,51, apesar de duas intervenções do BC e injeção de US$1,53 bilhões. A pior consequência foi a fuga de capitais estrangeiros, a pior em 10 anos: R$9,2 bilhões. As ações da petroleira caíram 20% a perda em valor de mercado foi R$6,8 bilhões. Além disso o Fundo Soberano da Noruega, o maior do mundo, retirou do país US$2,7 bilhões

Na semana duas pesquisas foram divulgadas. A do Ipespe, por encomenda da XP Investimentos: 53% são favoráveis à intervenção na economia; 59% são contra as privatizações; 42% consideram o governo ruim e 30% bom. A do Instituto Travessia, por encomenda do Valor: 66% não confiam no presidente no combate à pandemia, 83% querem a vacina.

Estava concluindo estas linhas quando foi anunciado pelo IBGE a queda de 4,1% do PIB no ano de 2020 número que comentaremos na próxima Análise.


[i] Professor Emérito da UFPB e Vice-Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira; nelsonrr39@hotmail.com; (www.progeb.blogspot.com). Colaboraram os pesquisadores: Ingrid Trindade, Guilherme de Paula e Daniella Alves.

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