quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os “cavalos selvagens” do governo Dilma

Semana de 18 a 24 de abril de 2011

Nelson Rosas Ribeiro[i]

A conhecida revista britânica “The Economist” criou a expressão “cavalos selvagens” para identificar os dois grandes problemas a serem “domados” pelo governo atual: a inflação e a valorização do real. Tudo indica que o grande instrumento que o governo continua usando para isto, o juro, é no mínimo contraditório e inócuo. Na quarta-feira da semana passada, o Banco Central (BC), na reunião do Copom, usando como pretexto a ameaça da inflação, brandiu, mais uma vez, os juros elevando a taxa básica Selic em 0,25% e fazendo-a atingir o patamar de 12% ao ano. Com mais esta elevação, o país consolida o incontestável posto de campeão mundial com uma taxa de juros real (juros menos inflação) de 6,2% ao ano. O segundo lugar fica com a Turquia, com 2,2%, ou seja, aproximadamente um terço da taxa brasileira.

Os protestos, paradoxalmente, vieram de burgueses e proletários, em mais uma estranha unanimidade. No setor industrial, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) comentou que a medida “é inadequada” e “causa grandes danos, onera o setor produtivo e encarece o investimento”. Para a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), ela desestimula o setor produtivo, prejudica a geração de emprego e aumenta a dívida pública. Desta vez o setor comercial também protestou. Roque Pellizzaro Junior, presidente da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) afirmou que “o remédio pode matar o doente”, “vai na direção contrária da solução”, “prejudica o investimento” e “aumenta o desequilíbrio entre oferta e procura”.

No outro pólo, as representações dos trabalhadores também não se calaram. A Força Sindical, através do seu presidente Paulo Pereira da Silva, considerou “desastrosa” a decisão e que “o espírito conservador” da política monetária “atende aos interesses do capital especulativo”. A confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), considerou a medida negativa para o emprego e renda.

As tímidas manifestações de aplauso vieram dos agentes descarados do capital financeiro e de alguns monetaristas fanáticos que desejavam um aperto ainda maior nos juros.

Envergonhado, e com complexo de culpa pelo seu passado heterodoxo, o ministro Mantega timidamente defende a medida adotada, encenando ser mais realista que o rei no combate à inflação. No entanto, todos os argumentos levantados voltam-se contra seus próprios autores. A inflação é de demanda, dizem, e por isso é preciso reprimi-la com os juros. Ora, com juros altos reprimem-se os investimentos e com isso a oferta jamais crescerá perpetuando-se eternamente o desequilíbrio. Além disso, segundo eles, os preços que mais estão afetando o IPCA, são: os das commodities, que são determinados fora do país e não são controlados pela política econômica interna; os dos produtos alimentícios, por causa das condições climáticas e da entressafra (que dependem de São Pedro e não dos juros) e os preços administrados, que dependem de decisões do governo (serviços públicos, energia, saúde, telecomunicações, combustíveis, etc.), e que ele próprio eleva.

Por outro lado, o aumento dos juros desequilibra ainda mais as contas públicas aumentando a dívida. Mesmo se não houvesse mais aumento de taxas, para todo o ano é estimado um total de juros de R$ 230 bilhões, o que significa 15 vezes o que é destinado ao Bolsa Família e cinco vezes todo o orçamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Lembremos que 35% do total dos títulos da dívida do país são remunerados pela taxa Selic e 30% deles, pelos índices de preços.

Ora, se a elevação dos juros é inútil para domar o primeiro cavalo selvagem, a inflação, para o segundo, ela é uma verdadeira bomba, um poderoso estimulante. Contrariamente ao que se costuma dizer, a enxurrada de dólares que encharca o país não se destina a investimentos diretos, mas sim à pura especulação. É capital faminto a procura de juros altos. Por isso, quanto mais altos eles forem, mais dólares cruzarão as fronteiras do país valorizando ainda mais o real. O pseudo remédio para domar um dos animais selvagens, a inflação, é estimulante para o outro, a valorização do real.

Tudo ainda seria suportável se a conjuntura mundial fosse favorável. Infelizmente, ela está “instável, desequilibrada, descoordenada e insustentável” para usar as palavras do premiê chinês Wen Jiabao. Para completar, a agência de classificação de risco Standard & Poor’s, apesar de manter a classificação do crédito dos EUA em AAA, reduziu a perspectiva, de “estável”, para “negativa”, pela primeira vez em 70 anos, fazendo tremer o rochedo americano e apavorando o mercado financeiro.

Pelo visto, os cavalos da presidenta Dilma continuarão selvagens!



[i] Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Retorno a Bretton Woods?

(Semana de 11 a 17 de abril de 2011)


Elivan Rosas Ribeiro (*)

As potências industriais europeias parecem afetadas pelo mal-estar de países como Portugal, Irlanda Grecia e Espanha, e já se começa a sentir um clima de gestação de uma guinada política, tipo “direita volver!”, mesmo na Alemanha, que já é governada por um partido de direita. No entanto, em que pese a desestabilização da zona euro, os desastres do Japão e as dificuldades de recuperação da economia americana, desde a última crise, o Fundo Monetário Internacional (FMI), traça para a economia mundial, um cenário de continuidade da trajetória de recuperação.

Saravá, meu Pai!

Na esfera financeira, que é sem dúvida de onde emana o poder em todos os quadrantes do planeta, a situação não parece assim tão tranquila. Nessa semana, o ouro, por exemplo, bateu seu record de preço, na bolsa de Nova York, US$ 1.462,20 a onça, esperando-se que suba mais de 13% do seu valor atual, ainda esse ano, depois do dolar escorregar a sua menor cotação, desde dezembro de 2009, demonstrando a falta de confiança dos países nas reservas em moedas.

O Banco Central da China quase dobrou a sua reserva em ouro. México, Russia, India e Arabia Saudita vem aumentando as suas, enquanto o Brasil permanece com a sua reserva nesse metal praticamente inalterada: 1,080 milhão de onça-troy. De 2005 até seis dias atrás, o ouro sofreu uma valorização de 228%, que alterou o valor da reserva brasileira de US$ 480 milhões para US$ 1,570 bilhão. Questiona-se se o Brasil seguirá a tendência de compra de ouro, ou se trafegará na contra-mão continuando com os dólares.

Mas, a grande preocupação dos analistas continua a ser o dilema “inflação versos crescimento”. Em cem dias de governo, a Presidenta Dilma Roussef insiste em tentar a conciliação entre uma “inflação bem comportada” e a continuação do rítmo da expanção econômica, apesar disso ser visto como uma estratégia perigosa para o seu governo. O espectro da inflação assusta a todos e, em particular, as autoridades financeiras, que consideram-na como um fenômeno monetário, procurando controlá-la pela ação nessa esfera da economia. Assim, o Banco Central, seguindo a orientação do FMI, que considera a expansão do crédito a principal responsável pela inflação, tenta com os diferentes Ministérios, ações visando controlá-la. O Presidente do BC, Alexandre Tombini já declarou que vai restringir a expansão do crédito para 15% ao ano e o Governo, no mesmo sentido, aumentou o compulsório dos bancos e elevou os impostos sobre os empréstimos.

O Real está colocado na berlinda. A sua boa cotação joga papel decisivo para que a inflação não supere o teto da meta. A expectativa é a de que o dolar mais próximo de R$ 1,50, no fim do ano, poderá representar a redução de algo como 0,2 a 0,4% do Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). As taxas de juro e câmbio juntas são as “top vedetas” da atualidade. O câmbio é tema do Mantega no FMI. O Ministro acusa os países ricos, principalmente os Estados Unidos, de promoverem a “guerra cambial”, termo regeitado por outros Ministros presentes a reunião. Mantega afirma ainda não aceitar ingerências externas na gestão das reservas do Brasil.

Como é que ficamos? O Presidente do BC comunga com as ideias do FMI sobre a contenção do crédito; o Ministro regeita as ingerências na gestão das medidas cambiais; até escrever-se essa análise, não se vislumbrava no G20 nenhum acordo sobre um código de conduta para fluxos de capitais; a Presidenta Dilma Roussef admite mudança de câmbio desde que haja uma descida da taxa de juro, o que não ocorrerá e, tudo indica, que a reunião do Copom a elevará entre 0,25% e 0,50%.

Assim, não se vê nenhuma luz no fundo do túnel.

Em meio a esse frenesi financeiro, o Industrial e Commercial Bank of China Ltd, o maior banco do mundo por valor de mercado, vai abrir uma filial no Brasil, depois de sua expanção nos Estados Unidos e na Europa e o “velho” George Soros, organiza reunião em Bretton Woods, tudo indica, numa tentativa vã de criar um novo sistema monetário internacional, para consertar o caos atualmente existente.

Regressaremos ao Padrão Ouro?

“Mais fortes serão os designios de Deus”!!!



(*)Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. progeb@ccsa.ufpb.br; www.progeb.blogspot.com

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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os consumidores pagam pelo estouro da meta

Semana de 04 a 10 de abril de 2011

Após finalmente jogarem a toalha e assumirem ser impossível cumprir a meta inflacionária para este ano, as autoridades monetárias brasileiras continuam na luta, mas agora para impedir que a inflação ultrapasse o teto, estipulado em 6,5%.

Para tanto, o alvo do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, são os contribuintes. Na última quinta-feira, foi assinado o aumento do Imposto sobre Operação Financeira (IOF) para o crédito a pessoas físicas, passando de 1,5% para 3%. Esta nova medida macroprudencial tem por objetivo desacelerar a forte onda de crescimento da oferta de crédito, hoje na casa dos 20%, para patamares mais “adequados”, na concepção do governo, que não ultrapassem 15%. No mesmo dia, o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, confessou que esta medida já afeta a carteira de pessoa física, mas “bateu o pé” ao afirmar que a instituição não pretende alterar a previsão de crescimento da carteira total de crédito para este ano, situada entre 17% e 20%, pois a expansão dos empréstimos para investimento deve compensar o impacto no crédito à pessoa física.

O Banco do Brasil tem motivos para acreditar nisso, já que as estimativas para os projetos de investimentos subiram, de R$60 bilhões, no começo do ano, para R$85 bilhões. Vale lembrar que grande parte desses investimentos, principalmente em infra-estrutura, é motivada pela Copa de 2014, pelas Olimpíadas de 2016, pelas obras do PAC e da exploração do pré-sal e dificilmente será desestimulada por medidas macroeconômicas.

Para alguns analistas, como o sócio da consultoria Global Financial Advisor Miguel Daoud, as últimas decisões das autoridades monetárias demonstram desespero ao observarem que a alta dos preços já está disseminada por todos os setores da economia. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) preocupa cada vez mais. No mês de março, ele atingiu novamente patamares elevados, fechando com alta de 0,79%, acima das expectativas do mercado e do governo, e acumulando 6,3% nos últimos doze meses, segundo o IBGE. Este índice reflete a contínua aceleração dos preços dos alimentos, das passagens aéreas, além dos vestuários. Esta estatística torna-se mais alarmante quando se observa a possibilidade, cada vez mais real, do IPCA romper o teto da meta da inflação (6,5%) ainda este mês. José Francisco Lima Gonçalves, economista chefe do Banco Fator, demonstrou sua insatisfação ao afirmar que: “O IPCA de março veio bastante ruim, você procura uma notícia boa, mas não acha!”.

O Índice de Preços ao Produtor (IPP), que mostra a variação dos preços na ‘porta da fábrica’ de 23 setores da indústria de transformação, apresentou elevação de 0,6% em fevereiro, acumulando variação de 1% no primeiro bimestre e de 6,21% em doze meses. O resultado é reflexo do impacto do aumento do preço do petróleo sobre os setores químico e de algodão, repercutindo nos segmentos têxteis e de vestuário.

De fato, a sociedade está longe de ficar livre dos efeitos dos elevados preços das commodities. A alta dos preços do plástico e do aço, por exemplo, está afetando a indústria de linha branca, já que eles representam cerca de 35% dos seus custos de produção. A situação se agrava com a redução das vendas após o fim da isenção do IPI. O caminho encontrado pelas indústrias deste segmento, que hoje são poucas após o processo de fusões e aquisições, é repassar este prejuízo para o consumidor. “Esta conta tem de ser repassada alguma hora. Estamos estudando o quanto será repassado” afirma um alto executivo de uma das maiores fabricantes do país.

Não serão apenas a restrição de crédito e o aumento dos preços da linha branca que afetarão o cotidiano dos consumidores, mas também o aumento da gasolina. A elevação do preço do álcool, que ficou 11% mais caro em março, em comparação com fevereiro, foi sentida pela Petrobras. Isto, aliado ao aumento do petróleo, levou José Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras, a prenunciar a alta da gasolina.

Diante deste cenário nada promissor, principalmente para os consumidores, não se pode esquecer o endereço para mandar a conta com os prejuízos. O destinatário é o Sr. Guido Mantega, o ministro mais influente do Palácio do Planalto.

Texto escrito por:
Tatiana Losano de Abreu:
Economista, Professora substituta do Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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quarta-feira, 6 de abril de 2011

O Banco Central finalmente joga a toalha

Semana de 28 de março a 03 de abril de 2011

Finalmente a autoridade monetária brasileira assumiu: será impossível cumprir a meta inflacionária de 4,5% este ano. A comunicação veio com um ajuste da projeção do IPCA de 4,8% para 5,6%, adiando, para 2012, a busca pela convergência para o centro da meta. Segundo o Banco Central (BC), a inflação ficará longe deste número devido aos preços das commodities. Considerando a inflação como sendo causada por um choque de oferta, a instituição resolveu jogar a toalha, porque o combate intenso a este choque poderia levar a economia brasileira à recessão. Desaceleração da atividade econômica sim, mas recessão não, como diz a presidente Dilma.

Há algumas semanas, a imagem do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, vinha se deteriorando. Como em seus discursos continuasse afirmando o seu compromisso com a estabilidade dos preços, as projeções para os juros de longo prazo não pararam de crescer. A aplicação das benditas medidas macroprudenciais (e a intensificação delas, se necessário) somada à afirmação de que o ciclo de alta da taxa de juros poderia cessar a partir de abril, aumentou os burburinhos sobre a falta de credibilidade do Banco Central. O mercado financeiro continua apreensivo, pois não consegue prognosticar as atitudes da autoridade monetária quanto à política de juros e, para piorar, segundo Octávio de Barros, diretor do departamento econômico do Bradesco, há ainda outro agravante: os analistas também não conseguem inserir em seus modelos econométricos variáveis que representem as ações macroprudenciais do Banco Central, a fim de poder calcular os efeitos que elas podem provocar.

E por falar nelas, aparentemente as medidas surtiram efeito nos primeiros meses do ano, em relação à oferta de crédito, mas o Banco do Brasil e a Caixa Econômica já projetam medidas para fazê-la crescer novamente. Para o BB, a alta estará entre 17% e 20% e, para a Caixa, em 30%. Para o Banco Central, no entanto, o ideal é que o crescimento do crédito feche em, no máximo, 15%.

Enquanto isso, as intervenções do Banco Central no mercado cambial continuam. As compras somaram até 25 de março US$ 8,0 bilhões e as nossas reservas não param de crescer. Até 29 de março, chegaram a atingir o montante de US$ 316,05 bilhões. Para tentar conter o endividamento do setor privado, que aumentou US$ 16,4 bilhões em janeiro e fevereiro, o governo resolveu taxar os empréstimos externos de bancos e empresas com uma alíquota de 6% de Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). Viajar para o exterior também ficou mais caro. Em fevereiro, turistas brasileiros gastaram US$ 1,33 bilhão e, além disso, o governo decidiu aumentar a alíquota do IOF sobre as compras no exterior com cartão de crédito, de 2,38%, para 6,38%.

O controle do governo sobre a entrada de capitais e a acumulação de reservas, segundo Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso, economistas da Fundação Getúlio Vargas, são instrumentos ineficientes, pois combatem um problema de longo prazo com uma política de curto prazo. A solução só poderia ser encontrada se a investigação descobrisse a real causa da valorização da moeda nacional. Segundo os economistas citados, o processo de valorização vem acontecendo devido a três fatores: o aumento da confiança dos investidores estrangeiros, a valorização das commodities exportadas pelo país e a política monetária expansionista dos países desenvolvidos. Por isto, defendem a tese de que, nestas circunstâncias, o câmbio valorizado veio para ficar. Então, como combater uma situação que perdurará no longo prazo com choques de curto prazo, como a compra de divisas e a imposição de alíquotas maiores do imposto sobre o capital?

Se o diagnóstico da inflação, como uma inflação de demanda, está errado (até a presidenta Dilma pensa assim) e os instrumentos de controle de uma hipotética inflação de demanda mesmo assim continuam a ser utilizados, não é de se surpreender que o Banco Central seja obrigado a continuar insistindo nos instrumentos que tem utilizado para reverter o câmbio, apesar de, a todo o momento, eles se mostrarem ineficazes.

Os fatos têm demonstrado que, por esta via de ação, a “inflação de demanda” não pôde ser domada e sua taxa conduzida para o centro da meta. Em relação a isto, a autoridade monetária jogou a toalha. Quanto tempo ela levará para chegar à mesma conclusão em relação à valorização do câmbio?


Texto escrito por:
Rosângela Palhano Ramalho: Professora de Departamento de Economia da UFPB e pesquisadora do PROGEB - Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. (www.progeb.blogspot.com)
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segunda-feira, 28 de março de 2011

Novamente a herança maldita

Semana de 21 a 27 de março de 2011


Como temos comentado, em análises anteriores, o governo Dilma continua prisioneiro de uma herança maldita que não pode nem denunciar, nem renunciar: uma dívida pública cara e crescente que, demagogicamente, o governo Lula propagandeou ter pago ao liquidar a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI); um processo de inflação que teima em persistir; a desaceleração da economia que, paradoxalmente, o governo pretende intensificar; uma ameaça de desindustrialização; e um processo de redução do saldo da balança comercial e de mudança na sua composição, com o retorno do país à condição de primário exportador. Isto para não falar da enxurrada de dólares que afoga o país e das taxas de juros mais elevadas do mundo que aqui são praticadas e que penalizam os investidores produtivos.

Acrescente-se ainda uma conjuntura internacional adversa onde, se não bastassem os problemas econômicos resultantes do rescaldo da crise passada, com seus aspectos financeiros e especulativos e a quebradeira dos próprios estados, intervieram agora fatores extra-econômicos. Por um lado, os de ordem política decorrentes das revoltas nos países árabes detentores do petróleo. Por outro lado, os fatores naturais, terremotos e tsunamis, agravados agora pelo desastre atômico do Japão, todos com inevitáveis conseqüências econômicas de difícil previsão.

Nestas condições, a análise de conjuntura econômica torna-se uma árdua tarefa, pois os fatores em presença não estão submetidos apenas às leis da economia.

O governo está diante de uma difícil tarefa: cumprir suas promessas eleitorais de desenvolver o país, fazer crescer a produção, reduzir a pobreza, melhorar a distribuição de riqueza e os indicadores sociais (saúde, educação, etc.). Isto tudo com o compromisso também de impedir a inflação.

Há economistas que consideram tal tarefa impossível, como L. C. Mendonça de Barros, para quem atingir o “duplo objetivo” de manter o crescimento e combater a inflação “é incompatível e um deles terá de ser deixado de lado”. E ele se atreve a prognosticar que “a corda vai rebentar do lado da inflação”. Mendonça de Barros é acompanhado pela grande maioria dos economistas e analistas oficiais, partidários da “equivocada ideologia que produziu o pensamento único apoiado numa ciência monetária: o FMI”, para usar as palavras do Professor Delfim Neto, que ainda os denominou “idiots savants”.

Mas esta ideologia é tida como verdade absoluta e indiscutível e contagia mesmo os contestadores heterodoxos alinhados com o ministro Mantega. Não é por outra razão que as medidas de política econômica adotadas pelo governo acertam, ora no cravo, ora na ferradura, acendem uma vela a deus e outra ao diabo. Apesar da presidenta Dilma afirmar que não concorda com o diagnóstico da inflação como uma inflação de demanda, as medidas adotadas dirigem-se para a contenção precisamente da demanda. Os cortes do orçamento visam reduzir as despesas do governo. O aumento dos juros desestimula os investimentos e dificulta o crédito e, portanto, visa dificultar as compras das empresas e das famílias. Isto tudo significa comprimir a demanda. No mesmo sentido agem as tais medidas macro prudenciais e o controle do aumento dos salários.

Com esta política econômica, os banqueiros e agentes financeiros exultam (vejam o lucro recorde do BNDES de R$ 9,9 bilhões), o setor industrial reclama e o povo? Com uma mão o governo pretende distribuir renda, mas com a outra maneja o porrete para impedir o consumo.

Os conflitos serão inevitáveis e já começaram, paradoxalmente, afetando as obras do PAC. Há dezenas de milhares de trabalhadores em greve e violências nos canteiros de obra das represas de Santo Antônio e Jirau e nos portos de Suape e Pecém.

Com toda esta confusão, os prognósticos para 2011 tornam-se confusos. Para o Produto Interno Bruto (PIB), as taxas de crescimento variam de 3% a 6,15%, e para a inflação as estimativas oscilam entre 5,13% e 6,91%.

Quem acertará nestas loterias?


Texto escrito por:

Nelson Rosas Ribeiro: Professor do departamento de Economia, Coordenador do Progeb – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira progeb@ccsa.ufpb.br); (www.progeb.blogspot.com).
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quarta-feira, 23 de março de 2011

A Odisséia brasileira

Semana de 14 a 20 de março de 2011

Não é de hoje que sabemos das divergências ideológicas dentro do governo Dilma. Isto se manifestou antes mesmo de sua posse, logo depois da eleição, quando se especulava sobre a indicação de alguns nomes para pastas importantes do executivo, tais como Antonio Palocci, José Dirceu, Henrique Meirelles, Guido Mantega, dentre outros. Com o objetivo de agradar a Gregos e Troianos, Dilma compôs um governo, de certa forma, heterogêneo, ao manter o ministro da Fazenda e nomear Palocci para a Casa Civil.

Guido Mantega é um economista de formação e doutor em Sociologia do Desenvolvimento. Até meados de 1980, era um simpatizante das teses desenvolvimentistas, até que, nas últimas décadas, mudou um pouco seu pensamento e se aproximou das idéias neoliberais de esquerda. Antonio Palocci, por sua vez, é médico de formação e desde o início da década de 1990 é político. Cada um deles desempenha um papel semelhante como defensores de interesses contraditórios. De um lado temos Mantega, ainda simpatizante do desenvolvimentismo e, por isso, aliado dos empresários da indústria. Do outro lado temos Palocci, alinhado com as idéias neoliberais ortodoxas, e, por isso, porta vós do setor financeiro internacional. Com a nomeação dos dois, a presidenta procurou uma trajetória equilibrada para a política econômica, que satisfizesse os interesses das duas principais esferas do capitalismo atual: a industrial e a financeira.

Mas esta não é uma questão nova. Foi na era FHC que o setor financeiro começou a ter mais peso nas decisões sobre as políticas econômicas. No governo Lula, isto foi acentuado. Seja para investimento ou consumo pessoal, o preço da mercadoria oferecida pelos bancos (os empréstimos) é o juro, e é através da mudança nas taxas de juros que os bancos gerenciam as suas receitas. Sabendo disso, veja o que ocorreu durante os primeiros anos do PT na presidência. Segundo a Federação dos Empregados em Estabelecimentos Bancários no Estado do Paraná, entre 2003 e 2010, os lucros nominais dos cinco maiores bancos que atuam no Brasil cresceram 312,5%, saltando, de R$ 11,2 bilhões, para R$ 46,2 bilhões. Como bem sabemos, as mudanças na taxa básica de juros são determinadas pela famosa política do Saci-Macroeconômico, que tem como único pé a estabilidade dos preços. Outra coisa que bem pouca gente sabe é que, até o ano passado, o BC era dirigido, também, por funcionários dos bancos privados, os chamados "agentes do mercado".

Pois bem, dentro do atual governo, até agora, é consenso a manutenção do Saci, porém há uma considerável discordância quanto à medida e aos meios de aplicá-lo. Dilma já bateu o pé (os dois) dizendo que o centro da meta é o objetivo para a inflação. Os principais agentes executores são o ministro Mantega e o Presidente do BC, Alexandre Tombini. Mas o setor financeiro, acostumado com o modelo de gestão anterior, não está confiante na atual gestão do BC, que só tem em sua diretoria funcionários de carreira, não explicitamente ligados ao setor privado. O argumento utilizado é o de que as medidas macroprudenciais não são um sinal claro de que haverá pulso firme no combate à inflação. Para a LCA consultores, Quest Investimentos, J.P. Morgan, Itaú/Unibanco, Santander, Bradesco e Federação Brasileira dos Bancos, o aumento dos juros é o instrumento certo para conter a demanda, que, segundo eles, ainda está superaquecida.

Mas, além do próprio governo, alguns setores discordam do panorama da conjuntura econômica. Dilma já declarou que a inflação atual não é de demanda, sendo, na verdade, fruto de um desequilíbrio entre alguns setores, tais como o de commodities e dos preços administrados. O setor industrial também partilha desta idéia, ao afirmar que, na realidade, a economia está em processo de desaceleração. A Confederação Nacional da Indústria projeta, para este ano, um crescimento de 4,5% para a indústria, enquanto no ano passado este indicador registrou alta de 10,1%. Além de a produção industrial ter se elevado apenas 0,2% entre janeiro de 2011 e dezembro de 2010, o faturamento na indústria caiu 1,3% no mesmo período. Somam-se a isso os fatos de que, desde dezembro de 2010, a utilização da capacidade instalada efetiva está abaixo da usual para cada mês e que, no mês de fevereiro, os índices que representam o nível dos estoques se elevaram.

O que veremos nos próximos meses será uma Odisséia. Como Menelau e Páris, Palocci e Mantega irão travar uma dura batalha dentro do governo para defender os interesses maiores que os movem: conquistar Helena, a política econômica, e levá-la para o seu lado.

Quem vencerá?

A presidenta Dilma já declarou: ou eles se entendem ou morrerão os dois.

Serão conciliáveis os interesses por eles representados? É o que vamos ver!


Texto escrito por:

Lucas Milanez de Lima Almeida: Mestre em Economia, professor Substituto do Departamento de Economia da UFPB e pesquisador do Progeb. (www.progeb.blogspot.com.)

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quarta-feira, 16 de março de 2011

Dilema do fundo do mundo: Crescimento ou Inflação?

Semana de 07 a 13 de março de 2011

Continua a lenta recuperação da economia global e, por maior que sejam os esforços das instituições governamentais, financeiras e do conjunto dos agentes econômicos ativos, persiste algum pessimismo.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) orienta os bancos centrais a colocarem entre os seus objetivos explícitos, além do controle da inflação, a estabilidade financeira e metas claramente delineadas sobre as taxas de câmbio.

Na realidade, nos próximos tempos, o foco principal da política financeira deverá estar voltado para o controle da inflação, utilizando-se dos mecanismos taxas de juros e câmbio. Mas, a realidade econômica do mercado, sendo este soberano, é bem mais rica na sua diversifidade, e as intenções distanciam-se da prática corrente com muita frequência. E, embora muitos acreditem que juros baixos podem alimentar bolhas, os juros altos não garantem a estabilidade financeira que tanto se deseja.

Mas, além das contradições internas da política econômica de cada país, os efeitos entre as economias, em um planeta globalizado, são incontroláveis. Assim, uma mudança na política econômica da China, em busca de uma nova estratégia de crescimento, necessariamente terá efeitos sobre as economias que se relacionam comercialmente com ela. Trata-se, nesse caso, de uma economia gigante, calcada num modelo exportador em fase de esgotamento, segundo a avaliação do Congresso Nacional do Povo, iniciado a 04 deste mês, que discutiu o Plano Quinquenal do período que vai de 2011 a 2015. A proposta é voltar-se para o mercado interno e, para tal, terão de ser introduzidas alterações na distribuição de renda, com aumento salarial, o que pode acarretar elevação dos preços dos produtos exportados. Outro efeito será a redução das importações. A demanda por aço, por exemplo, que nos últimos cinco anos aumentou em média 17%, deve desacelerar para 6% ou 7%. Cerca de 30% do comércio chinês é feito com países em desenvolvimento. Especificamente no caso do Brasil, 80% das exportações brasileiras para a China são de commodities agrícolas e minerais, e 90% das importações são de produtos manufaturados.

Além da economia chinesa e sua irrefutável influência no mundo econômico global, outras variáveis contribuem para o desequilíbrio planetário, tais como as quedas sucessivas do euro e os preços do petróleo, esta última, sem dúvidas, influenciada por fatores políticos como a rebelião, ou guerra civil, na Líbia. Acrescente-se agora os fatores naturais como a catástrofe do Japão ainda com proporções desconhecidas.

No Brasil, o Banco Central tenta ser o principal protagonista da vida econômica procurando controlar a inflação, mantendo o crescimento, sem explicitar, porém, se o fará nas formas “dovish” (pombos) ou ”howkish” (falcões), mas sinalizando para o governo quais devem ser as suas principais preocupações.

A primeira, ter como meta central o controle inflacionário; a segunda, dirigida à Fazenda, sobre o controle das ações parafiscais e reajustes salariais do setor público; a terceira é para que “não se pegue pesado” na reversão das taxas de câmbio.

O Comitê de Política Monetária (COPOM), na última reunião, deu sua contribuição elevando a taxa de juro em 0,50 ponto percentual, passando a Selic para 11,75% a.a. Sob o estímulo dessas altas taxas de juros, o fluxo cambial para o Brasil aumentou assustadoramente. Nesse momento, no espaço de dois meses, ele já supera o volume registrado no ano passado, atingindo o montante de US$ 24,356 bilhões, dos quais o BC comprou US$18,722 bilhões na tentativa de amortecer os impactos de tal volume de dólares na cotação da moeda brasileira.

Nesta dificil situação, enquanto o país vacila no falso dilema entre crescimento ou inflação ouvem-se as críticas dos cérebros da nossa economia. Pela esquerda Carlos Lessa chama os movimentos do PIB de “esvoaçar cacarejante, num nível de chão de galinheiro” “o Brasil continua um pigmeu em relação a uma China, que pratica taxas de investimento de 40% do PIB. Ou de uma Índia, acima de 30%...” (esta taxa no Brasil, em 2010, foi de 18%). Pela direita Delfim Neto compara: “Enquanto a China está se pensando para 2050, o Brasil continua a se pensar para 1990”.

Texto escrito por:
Elivan Gonçalves Rosas Ribeiro: Professora do Departamento de Economia da UFPB e Pesquisadora do PROGEB – Projeto Globalização e Crise na Economia Brasileira. progeb@ccsa.ufpb.br; www.progeb.blogspot.com

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